O jeito de dar um jeito

Dad Squarisi (*)

Feijoada 1Sim ou não? Nem uma coisa nem outra. Não gostamos de polarização nem de radicalizações. Preferimos o vamos ver. Ou o depende. Nossa natureza combina com a coluna do meio. Já inventamos até um verbo pra traduzir o casuísmo tupiniquim. É flexibilizar. Quer palavra mais chiclete? Afinal, pensamos, as coisas não precisam ser tão rigorosas.

Dar um jeito virou instituição. Tão brasileira quanto a feijoada. Tão antiga quanto Pedro Álvares Cabral. Tão poderosa quanto Deus e o diabo mancomunados. Com ela até as leis físicas balançam. Quem não se lembra da bravata do presidente Figueiredo? Contrariado, o general de plantão ameaçou revogar nada menos que a lei da gravidade.

Placa 14Jeitinho combina com improvisação, que rima com procrastinação. Sorri para a corrupção, abre as portas para o desperdício e faz a festa com o dinheiro público. Opõe-se a planejamento, a seriedade, a pesquisa de causas e busca de soluções efetivas. Em bom português: empurra com a barriga. Bater ponto final é coisa pra francês, alemão ou americano. Com eles é pão pão, queijo queijo. Com brasileiro, a coisa muda. Aqui há sempre um jeito de dar um jeito.

Os alunos não aprendem? Proíbe-se a reprovação. As estradas estão intransitáveis? Promove-se operação tapa-buraco. Governador dá calote em servidores e empresas? Vai a Miami estudar inglês. O povo sai às ruas gritar contra a má qualidade dos serviços públicos? Responde-se com reforma política. A Petrobrás se afunda em corrupção? Abraça-se o prédio da estatal.

Assalto 1Ops! A violência aumenta? Reduz-se a maioridade penal. É fácil, fácil. Muda-se a Constituição. Com a aprovação da PEC 171/93, os brasileiros respirarão aliviados. Vão se livrar das câmeras de segurança, retirar as grades das janelas, derrubar os muros da casa, sacar dinheiro nos caixas eletrônicos, tirar as joias do cofre, andar à noite sem medo, soltar as crianças na calçada. Afinal, os menores respondem por 0,9% dos crimes cometidos no país. Isso mesmo: menos de 1%. Que alívio!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Sangria de gente e de dinheiro

José Horta Manzano

Interligne vertical 12«Pregúntele a los brasileños acaudalados por qué se están mudando al sur de Florida y mencionarán las altas tasas de criminalidad y la moribunda economía de su país.

Sin embargo, hay otra explicación que Alyce M. Robertson, directora de la Autoridad de Desarrollo del Centro de Miami, escuchó con frecuencia en sus recientes viajes de negocios a Brasil: “Dilma”.»

Meus distintos e cultos leitores hão de ter entendido a citação acima, extraída do jornal hondurenho La Prensa, 8 fev° 2015. De fato, o artigo informa que brasileiros endinheirados buscam o sul da Florida para escapar da violência e da «economia moribunda» do Brasil. Outro motivo citado com frequência para a fuga é simplesmente: “Dilma”. Sem comentários.

Imigração 5Ninguém quer ser o último a sair do País, aquele que vai apagar a luz do aeroporto. Embora o êxodo se esteja acentuando estes últimos anos, não é de hoje que brasileiros abastados procuram escapulir do ambiente agressivo do país de origem. Uns poucos optam pela Europa, mas a grande maioria gosta mesmo é dos EUA.

Já repararam que todo latino-americano tem uma quedinha especial pelo grande irmão do Norte? Isso vale até para os que nutrem forte antipatia por aquele país. Ou alguém já viu algum arauto do antiamericanismo transferir-se, de mala e cuia, para Cuba ou para a Venezuela?

Miami 1O jornal hondurenho ressalta que Miami se tornou a maior cidade brasileira fora do Brasil. Estimativas indicam que 300 mil compatriotas vivem nos arredores daquela metrópole. As estatísticas mostram também que 51% dos turistas que visitam a região são brasileiros.

Em 2010, os brasileiros investiram menos de um bilhão de dólares em compra de imóveis no exterior. Três anos depois, a cifra subiu para perto de três bilhões e meio. De dólares.

Os pioneiros, aqueles que se transferiram ao sul da Florida décadas atrás, constituíram o pedestal sobre o qual se assenta a corrente migratória atual. Os primeiros que lá chegaram abriram as primeiras lojas dedicadas a brasileiros, supermercados, bares, restaurantes, açougues, cabeleireiros, agências imobiliárias. Todos os serviços, enfim, aos quais estamos acostumados.

Compra de propriedades no exterior por brasileiros 2007 a 2013, em bilhões de dólares

Compra de propriedades no exterior por brasileiros
2007 a 2013, em bilhões de dólares

Ao encontrar infraestrutura montada, os novos imigrantes se sentem em casa. E vão ficando. E contribuem para reforçar o pedestal onde se virão apoiar novos imigrantes. Está formado o círculo virtuoso.

Imigração 3Ninguém abandona a terra natal de coração leve. Se centenas de milhares de conterrâneos se foram – e justamente os mais endinheirados – é porque a coisa tá realmente preta. É uma pena. É de mau agouro para o Brasil de amanhã.

Os mais abastados são os que mandarão os filhos às melhores escolas. Estatisticamente, essa segunda geração será mais bem formada do que a média de nossa juventude nacional. Sendo jovens criados e escolarizados nos EUA, é pouco provável que retornem à terra dos pais. Prejuízo para quem ficou pra trás.

Enfim, que fazer? Esse é mais um efeito colateral do inacreditável descalabro que transpira por todos os poros da administração pública brasileira.

Terra do cruz-credo

José Horta Manzano

Você sabia?

Assalto 2Como faz a cada ano, o respeitado instituto mexicano Seguridad, Justicia y Paz publicou estudo que mede a criminalidade urbana no planeta. Divulgou a lista das 50 cidades mais violentas do mundo – pelo critério de número de homicídios em relação à população.

O país campeão estourado em matéria de violência urbana – o distinto leitor já deve desconfiar – é nossa amada Terra de Santa Cruz. Que digo? Santa Cruz? Está mais para cruz-credo!

A lista de 2013 trazia 16 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas do mundo. A edição 2014 não só confirma a presença das mesmas dezesseis como também acrescenta três: são agora 19. Em números redondos, quatro entre as dez cidades mais violentas – considerados todos os continentes e todos os países – se encontram no Brasil. Nosso País segue firme na vanguarda do crime. Nossa dianteira é de tal importância que dificilmente poderemos ser alcançados. Somos imbatíveis.

Crime 1Contrastando com as autoridades das outras 18 cidades brasileiras mencionadas no estudo, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não gostou de ver a capital do Estado mais uma vez na lista da vergonha.

Aderindo a estratégia muito em voga no Brasil atual, tentou menosprezar a mensagem e «desconstruir» o mensageiro. Criticou o instituto mexicano, sua metodologia e seus dados. Tentou desqualificar e desmerecer o estudo. Disse que estavam errados, que não era bem assim, que, no fundo, não se matava tanto em Goiânia.

Charge publicada no site Seguridad, Justicia y Paz

Charge publicada no site
Seguridad, Justicia y Paz

Mexeram em vespeiro. Tiveram direito a uma longa resposta, com números, fontes e tabelas, assinada pelo presidente do instituto. O artigo está em destaque no site da ong, exposto a quem quiser ler. As autoridades goianas atiraram no estafeta e acertaram o próprio pé. Para coroar, ganharam a charge que vai reproduzida aqui acima.

As 19 cidades brasileiras constantes da lista das 50 mais violentas do mundo em 2014 são as seguintes:

Posição   Cidade             Taxa(1)
———————————————————————————————————
04        João Pessoa        79,41
06        Maceió             72,91
08        Fortaleza          66,55
10        São Luís           64,71
11        Natal              63,68
15        Vitória            57,00
16        Cuiabá             56,46
17        Salvador           54,31
18        Belém              53,06
20        Teresina           49,49
23        Goiânia            44,82
29        Recife             39,05
30        Campina Grande     37,97
33        Manaus             37,07
37        Porto Alegre       34,65
39        Aracaju            34,19
42        Belo Horizonte     33,39
44        Curitiba           31,48
46        Macapá             25,45

(1) Homicídios intencionais por 100 mil habitantes

Para efeito de comparação, note-se que a taxa global brasileira beira 25 homicídios intencionais por 100 mil habitantes, número altíssimo.

Assalto 1É verdade que estamos numa situação menos sinistra que a infeliz Venezuela (45 por 100 mil). No entanto, estamos bem longe de uma Alemanha (0,8), de um Japão (0,4) ou de uma pacífica Hong Kong (0,2). Ainda temos longo caminho a percorrer. Será trabalho para as próximas gerações. Com sorte, os netos de nossos netos conhecerão um país mais civilizado.

Obs:
Quem quiser consultar o estudo completo do instituto, pode descarregá-lo, em língua portuguesa e em formato pdf, aqui.

Indignação e catarse

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Atos violentos, como os ataques terroristas perpetrados na França há alguns dias, costumam gerar forte indignação em todo o mundo. Em mim também. No entanto, o que mais tem chamado minha atenção nos últimos meses é a repetição por toda parte de comportamentos que têm por objetivo primário o de impor de forma violenta as próprias percepções, crenças e visões de mundo a todo o restante da humanidade.

Cagoule 1Exemplos desse tipo de conduta incluem desde casos corriqueiros, como carros circulando com o aparelho de som ligado na potência máxima, passando por comentários raivosos nas redes sociais diante de literalmente qualquer tipo de opinião expressa, até os assim chamados “hate crimes” – crimes de ódio. É como se os outros tivessem se transformado em simples obstáculos que impedem que cada um acesse e desfrute tudo aquilo que lhe dá prazer. Assassinatos em série com requintes inimagináveis de perversidade, esquartejamentos, estupros, casos de pedofilia e violência doméstica multiplicam-se exponencialmente, atingindo agora não apenas os desafetos habituais mas também as pessoas mais próximas do círculo familiar, do ambiente de trabalho ou com as quais o infrator possui laços afetivos. Não há escrúpulo, culpa ou remorso. Nenhuma emoção penosa o suficiente para demover o mal-intencionado do desejo de causar dor, sofrimento e morte.

Frente a esse cenário catastrófico, uma pergunta insiste em percorrer meu cérebro: o que leva um ser humano a romper com as as regras civilizatórias mais básicas? Desconfio instintivamente do diagnóstico pontual de transtornos mentais. A coisa está mais para epidemia do tipo ebola do que para asilo de loucos. O vírus do rancor, do ódio e da vingança dissemina-se em velocidade francamente espantosa em todos os cantos do mundo.

A agressividade não é estranha nem rara no mundo animal. Lutas de vida ou morte são bastante frequentes entre animais que disputam território, comida, água ou parceiros sexuais mas, até onde eu saiba, não há notícia de embates sangrentos que não envolvam essas causas.

Há alguns meses, assisti a um debate capitaneado por um filósofo francês cujo argumento central era o de que a indignação não é um sentimento verdadeiramente moral. E explicava: nós só nos indignamos com o comportamento dos outros, nunca com nossa própria conduta. Caso alguém aponte um ato antiético que tenhamos eventualmente cometido, temos sempre uma justificativa na ponta da língua: eu estava desequilibrado naquele momento, não tive a intenção, foi um segundo de distração, não pesei as consequências, etc. etc. etc.

Cruzada 1Essa argumentação voltou à minha cabeça com força nos últimos dias. Temos, como sociedade, um novo bode expiatório já pronto para o abate: o fanatismo islâmico contraria os princípios mais caros do cristianismo, do judaísmo, do budismo e de muitas outras religiões “ocidentais”. O que fazer então? Treinar novos exércitos de combatentes e declarar nova guerra santa? Exterminar todos aqueles que agridem frontalmente nossa fé? Em nome de quê? É bem possível que os comandantes desses novos batalhões argumentem que estão apenas defendendo os valores da vida, da solidariedade, da compaixão, da harmonia e da conciliação.

Mas… espere um pouco: é somente a mim que esse convite à conflagração parece insano? Ou será que ainda há pessoas que se dão conta de que os dois lados do conflito estão contaminados pela mesma doença? Aquela enfermidade que nos obriga a colocar, como ponto de honra de nossa vida, a minha ideologia, as minhas crenças políticas e religiosas, o meu estilo de vida têm de prevalecer, custe o que custar.

by Diogo Salles, desenhista paulista

by Diogo Salles, desenhista paulista

A pergunta permanece: por quê? Um de meus professores de psicanálise me encantou com a teoria de que todas as pendengas sociais partem de uma sensação pessoal de insatisfação. Não de desequilíbrio de poder, repetia ele, mas de um desequilíbrio de satisfação. Um formulado bastante sensato, a meu ver. Se estou satisfeita com minha vida afetiva, profissional e financeira, que razão teria para ficar me perguntando se outras pessoas estão mais ou menos satisfeitas do que eu?

Em nossa sociedade psicologicamente imatura e egocêntrica, parece ser mais fácil confundir poder e força, conhecimento e sabedoria. Infelizmente, ainda estamos às voltas com as crises de birra típicas da infância e engatinhando na difícil arte de lidar com frustrações e limites.

O mais angustiante, entretanto, é que a indignação diante de acontecimentos tão nefastos dura apenas um segundo. Os protestos de massa podem aliviar significativamente a tensão do momento, mas a catarse não constrói. Quase imediatamente voltamos à rotina de engolir outros sapos pessoais, a tensão começa a se acumular novamente e a insatisfação nos empurra para a busca de novos bodes expiatórios.

A pergunta agora é: até quando vamos nos conformar em tratar dos sintomas e voltar as costas para a busca dos motivos de nossa insanidade coletiva?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os problemas que não temos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 jan° 2015

Farofa 1Entrada de ano é hora de balanço. Todos nós, coração amolentado, olhamos pra trás, analisamos nossos próprios feitos e juramos de pés juntos fazer mais caprichado no ano que entra. Junto com o peru, a farofa e a troca de presentes, o exame de contrição faz parte do ritual da passagem de ano.

Canais de tevê, jornais, revistas e portais fazem questão de propor retrospectivas do ano que se foi. Pouca atenção se dá a acontecimentos positivos. Em compensação, é impressionante o que se vê de desastre e de desgraça. Compreende-se: coisa ruim vende melhor.

É verdade que, no Brasil, 2014 foi um ano e tanto. Eleições, seca saariana, vexame na Copa, violência endêmica, corrupção aos borbotões assustaram. Os problemas que temos são pesados. Às vezes nos fica a impressão de estarmos vivendo no pior país do planeta. Será mesmo?

Nestes dias flutuantes que separam passado e futuro, proponho darmos uma espiada no quintal do vizinho. Vamos, por um momento, esquecer nossas mazelas e imaginar a aflição de outros povos.

Manif 11Os Estados Unidos, símbolo de desenvolvimento e sucesso, estão sacudidos por distúrbios raciais. Ressurgem os espantalhos que imaginávamos falecidos com o último dos hippies.

Serra Leoa e outros territórios da África Ocidental choram seus mortos. Estão sendo dizimados por severa epidemia, mal terrível contra o qual pouco ou nada se pode fazer.

Desvario na condução da economia mergulhou nossa vizinha Venezuela no desabastecimento e na hiperinflação. O país resvala para a anomia.

Todos os Estados da orla do Pacífico vivem na permanente angústia de terremoto ou tsunami, catástrofes que podem irromper sem dizer água vai.

Imigração 4Empurradas pela miséria, populações inteiras arriscam a pele na temerária travessia do Mediterrâneo a bordo de embarcações precárias em busca de vida melhor na Europa. Esse fluxo continuado de infelizes aporta na Itália, onde acaba gerando fortes tensões que esgarçam o tecido social.

Os países produtores de petróleo do Oriente Médio, aqueles cuja única riqueza repousa na extração do ouro negro, sabem que a qualquer hora a fonte vai secar. Imagina-se a apreensão criada por essa perspectiva.

As duas Coreias vivem situação paradoxal. A do norte passa fome. A do sul vive há 60 anos na apreensão de um ataque do irmão desorientado.

Os iranianos pelejam contra o olhar reprovador do resto do mundo. Além de serem vistos com desconfiança, sofrem sanções que lhes sufocam a economia.

Já faz meio século que nossos vizinhos colombianos vêm tentando varrer do país o estigma da narcoguerrilha. Sem sucesso até agora.

Guerrilha 1Na França, imigração maciça oriunda das antigas colônias africanas tem semeado crescente discórdia entre franceses «de raiz» e recém-chegados. Essa cizânia é alimento para correntes políticas populistas e neonazistas, que ganham adeptos a cada dia.

Os países da África subsaariana, já castigados pela pobreza endêmica e pela natureza hostil, ganharam mais um inimigo. Grupos terroristas elegeram domicílio na região, que se tornou, de facto, território sem lei.

A queda vertiginosa do preço do petróleo, aliada às sanções aplicadas por países ocidentais, reduziu dramaticamente as rendas do Estado russo. Refletindo a desesperança, a moeda nacional perdeu boa parte de seu valor. Como de hábito, quem sente o baque é o povo.

Espanha, Turquia, Ucrânia, China são dilaceradas por crônicos movimentos separatistas – explícitos ou latentes. O estado insurreccional pode até, por momentos, se aquietar. Mas é calmaria que não ilude: por baixo da brasa, o fogo cochila. Um sopro basta para reavivá-lo e incendiar o país.

E o Brasil, bonito por natureza, como é que fica? Temos nossos problemas, sim. Seria hipocrisia negá-lo. No entanto, sopesando os males que corroem outros países, impõe-se o óbvio: nossos problemas têm solução.

Tsunami 1De fato, não dependemos da benevolência de governos estrangeiros, nem da descoberta de vacina milagrosa, nem da clemência da natureza. Não temos guerrilhas a combater, nem separatistas a derrotar, nem inimigos a temer. A faca, o queijo, a responsabilidade e a chave do futuro estão unicamente em nossas mãos – bênção de que outros povos não dispõem!

Quem quer mudar, muda. Quem não quer, reclama. Que tal incluir, nas intenções de fim de ano, a mudança de atitude? Que tal arregaçar as mangas e meter mãos à obra? A recuperação do País requer empenho de todos. Temos de salvar o que ainda pode ser salvo. E é bom acharmos logo solução contra a dissolução de nossa sociedade. Feliz ano-novo!

Frase do dia — 214

«Com apenas 9% da população mundial, a América Latina responde por 30% dos homicídios, segundo o Banco Mundial. Das 50 cidades mais violentas do planeta, 42 são latino-americanas. Pior para as mulheres. Das 25 nações onde elas mais morrem assassinadas, 14 ficam na América Latina, segundo a ONU.»

Mac Margolis, em sua coluna do Estadão, 30 nov° 2014.

O custo do crime

José Horta Manzano

Brasil: a violência custou 81 bilhões de euros, ou seja, 5,4% do PIB

É com esse título que o jornal francês Les Echos (equivalente a nosso diário Valor) abre artigo sobre nosso País, publicado em 10 nov° 2014.

Prisioneiro 2A matéria baseia-se em recente estudo elaborado pela FGV por encomenda do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Logo abaixo do título, o texto continua no mesmo tom. E cita aqueles dados que nos envergonham, justamente aqueles que desmontam discursos ufanistas e visões otimistas.

«Por volta de 45 mil homicídios são cometidos todo ano no Brasil» – é o subtítulo. Diz lá que, pela primeira vez no Brasil – um dos países mais violentos do mundo (sic) –, um estudo calculou o impacto econômico desse flagelo. Chegou à cifra astronômica de 258 bilhões de reais em 2013, que correspondem a 5,4% do PIB.

Uma reflexão de Samira Bueno, diretora do Fórum, é citada: «A análise das despesas que compõem esses 258 bilhões mostra uma perversão. Para combater os efeitos da violência, o Brasil gasta o triplo do que investe em políticas públicas de combate ao crime e à violência».

No Brasil, os gastos causados pelos efeitos perversos da violência são o triplo do que se investe em políticas públicas de combate ao crime e à violência.

No Brasil, os gastos causados pelos efeitos perversos da violência são o triplo do que se investe em políticas públicas de combate ao crime e à violência.

Em outros termos, espera-se que a porta seja arrombada para, em seguida, botar a tranca. Seria mais simples e mais barato prevenir, mas essa receita, embora lógica, não é seguida. Em vez de prevenir, prefere-se esperar que aconteça para, em seguida, correr atrás do remédio.

Vamos ser justos: não chegamos à calamitosa situação atual da noite pro dia. O quadro atual é fruto de lenta e secular elaboração. Vem dos tempos de Dom Manuel, o Venturoso. Essa constatação pode até aliviar a culpa dos atuais dirigentes, mas não serve como desculpa para a inação. Não vale dizer «sempre foi assim, não há nada a fazer».

by Ricardo Ferraz, desenhista capixaba

by Ricardo Ferraz, desenhista capixaba

Vistosas e midiáticas «ações de combate ao crime» são volta e meia organizadas pelo poder público. Batidas, operações, cumprimento em massa de mandados de prisão são alardeados, chegam às manchetes e impressionam. A lástima é que essas ações relâmpago não são seguidas por política de prevenção. E o círculo da violência continua a se autoalimentar.

Construir mais e mais presídios pode até ser necessário, mas não traz solução ao problema. Ao contrário, o objetivo deveria ser tornar as prisões cada dia mais supérfluas por falta de inquilinos.

Se não é simples chegar lá, tampouco é impossível.

Na lábia ou na raça?

José Horta Manzano

Quem é que manda num grupo? Aquele que conseguir provar à turma que é o mais forte. Desde os tempos do homem de Cro-Magnon, tem sido assim. Antes, se decidia no braço, no fio da espada ou na ponta da lança. Hoje mudou. Como não fica bem ensanguentar arenas para escolher chefe, costuma-se dar preferência a métodos mais aveludados.

Nos países civilizados, inventaram-se outros meios de escolher líder. O voto, por exemplo. Cada cidadão exprime sua vontade (mais ou menos) secretamente, e pronto! Aquele que a maioria tiver decidido assume a chefia.

O método é menos sanguinário, mas nem por isso menos brutal. A selvageria, antes escancarada, manifesta-se agora por outros canais. Mentira, agressão verbal, calúnia, propagação de boato, produção de dossiê, cooptação de testemunhas duvidosas, ocultação da realidade, negação de fatos evidentes, engodo, terrorismo imagético – eis a nova face da violência.

Dilma 8Mas assim é, gostemos ou não. O preocupante é que, a cada eleição, mais violentos vão-se tornando os expedientes. Sabe-se lá onde vamos parar. Para 2014, alguns já tinham prometido «fazer o diabo». Digo-vos: do diabo, não vimos ainda nem o rabo. Com o perdão de Shakespeare, há muito mais demônio do que possa imaginar nossa vã filosofia.

Por um lado, a escolha menos sanguinolenta nos tranquiliza. Por outro, abre alas para falsos líderes, para gente que não tem os atributos mínimos pra assumir as rédeas. É vitória mais na lábia que na raça. O resultado é desastroso: líderes fracos, bizarros, ilegítimos, rejeitados por grande parte dos comandados.

E não pense o distinto leitor que nosso País é o único a enfrentar esse problema. O nosso é caso emblemático, tão profunda é a rejeição que nossa líder desperta em boa parte da população. Mas acontece também alhures.

Veja o caso da França. Quando assumiu seu trono, em jun° 2012, Monsieur Hollande usufruia da confiança de 55% de seu povo. De lá pra cá, o crédito foi rolando ladeira abaixo. Neste nov° 2014, está batendo no fundo do poço. Consegue suscitar a confiança de escassos 13% dos cidadãos.

Cota de confiança de François Hollande em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Índice de confiança de François Hollande
em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Mister Obama é outro caso sintomático. Reeleito dois anos atrás, acaba de sofrer severa derrota eleitoral. Por via de eleição de representantes, o povo negou-lhe maioria em ambas as câmaras. Assim como o presidente da França, o líder americano terá de amargar estes próximos dois anos num limbo de legitimidade.

Que fazer? Instituir mandato anual, com eleições todo mês de outubro? Optar por um regime parlamentar que relegue o presidente a papel decorativo? Voltar a decidir a chefia no muque ou no sangue das arenas? Ou, mais simples, censurar pesquisas que avaliem a popularidade de dirigentes?

Cá pra mim, tenho a impressão de que, malgrado os defeitos que o atual sistema possa ter, estamos condenados a conviver com ele ainda por muito tempo.

Sic est res – a coisa é assim.

Frase do dia — 189

«Ver João Santana repetir friamente todos os dias – pela boca de uma Dilma Rousseff de olhar cândido e despida de atributos e características pessoais – que a chuva de lama da Petrobrás sobre o PT, o PMDB, o tesoureiro Vaccari Neto e o círculo íntimo da ex-presidente do conselho de administração da estatal assaltada pelos “petrolões” não é senão o reflexo “da luta sem tréguas que o PT vem travando contra a corrupção” é algo que só pode ser interpretado como antecipação das violências que virão quando as delações premiadas virarem processos. Quando se tornar realidade aquilo que os indicadores econômicos antecipam, será preciso que o partido mate mais do que apenas a verdade para não ser apeado do poder.»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em seu blogue Vespeiro, 13 out° 2014.

Frase do dia — 132

«La violenza negli stadi brasiliani non sembra aver limiti. Un tifoso è morto al termine di una partita di calcio, all’esterno dello stadio, colpito da un water lanciato dagli spalti.»

«A violência nos estádios brasileiros parece não ter limites. Ao término de um jogo de futebol, um torcedor morreu, no exterior de um estádio, atingido por um vaso sanitário atirado das arquibancadas.»

in QN ― Quotidiano Net, do grupo editorial italiano Monrif, que publica Il Giorno (Milão) e La Nazione (Florença). 3 maio 2014.

País de alto risco

José Horta Manzano

A 45 dias do pontapé inicial da «Copa das copas», o Ministério de Relações Exteriores da Alemanha lançou novo alerta aos cidadãos que planejem viajar ao Brasil. Mostra como se está degradando a imagem de nosso país.

A página Reise- und Sicherheitshinweise (Conselhos de Viagem e de Segurança) é daquelas que costumam ser consultadas pelas agências de turismo e pelos próprios turistas. Dá uma imagem desoladora do Brasil.

Como o mundo enxergava o Brasil

Como o mundo enxergava o Brasil

Quem lê o artigo fica com a nítida impressão de que nosso país está no mesmo patamar de um Iraque ou de um Afeganistão. Diz lá que, em solo tupiniquim, não se respeitam as leis. Diz também que o turista periga ser vítima de ladrões, sequestradores ou até ver-se envolvido num conflito entre policiais e bandidos ― como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro.

O informe ministerial vai mais fundo, sempre no mesmo tom. Relata que, infelizmente, arrastões e delitos violentos não estão descartados em nenhum ponto do Brasil e que, nas cidades maiores, a taxa de criminalidade é ainda mais elevada.

Recomenda aos turistas alemães que se abstenham de vestir roupas chamativas, de usar joias e de carregar muito dinheiro. Aconselha-os também a ocultar celulares, a carregar computadores portáteis numa sacola e a deixar documentos no cofre do hotel.

Chama a atenção para o perigo que correm os visitantes ao aventurar-se por ruas desertas após o horário comercial ou nos fins de semana. Até o golpe conhecido como Boa-noite, Cinderela é mencionado. Os alemães são instados a desconfiar de bebida oferecida por estranhos. Especial atenção deve ser prestada quando estiverem em bar frequentado por prostitutas: não perder nunca de vista o próprio copo.

Como o mundo passou a enxergar o Brasil

Como o mundo passou a enxergar o Brasil

Quanto à comunicação, o ministério informa que ela não é viável em alemão nem em inglês. Diz que, no sul do país, a língua espanhola é parcialmente compreendida. E termina reconhecendo que algum conhecimento rudimentar de português é ainda a única solução. Fica patente a falta de estudo generalizada.

E essa «Copa das copas», que foi bolada justamente para projetar a imagem de um Brasil-potência, alegre, pujante, forte, generoso, bem administrado, em via de civilização!

O Brasil ficou mais conhecido, mais falado, mais comentado, é verdade. Infelizmente, não exatamente no tom que se esperava.

Que furo n’água, minha gente! Ai, ai, ai, se arrependimento matasse…

Unesco tomba as Sete Maravilhas do Caos da Copa

Diego Rebouças (*)

Notícia azeda de tão velha: Brasil não vai conseguir maquiar todos os seus problemas até a Copa do Mundo! Pensando nisso, a Unesco decidiu tombar as «Sete Maravilhas do Caos da Copa do Brasil». Não é o máximo? Agora, os gringos não vão poder reclamar. E nem você, mané! A não ser que queira levar de brinde da PM uma arma que eles chamam de não-letal, mas que mata que é uma beleza. Papel e caneta na mão para a lista:

1) O caos aéreo
Welcome, gringaiada! Primeira parada obrigatória: o aeroporto. Nós temos tanto orgulho de termos aeroportos que nenhum brasileiro passa menos de duas horinhas preso em um. Tanto é que a gente vota na mesma corja que promete ajeitar as coisas e não ajeita nada. Ajeitar pra quê? A gente gosta assim! Filas, malas trocadas, voos superlotados. Se espremam na confusão e welcome!

Parece cheio, mas cabe mais gente by Roberto Capote, Folhapress

Parece cheio, mas cabe mais gente
by Roberto Capote, Folhapress

2) Trens, metrôs e ônibus superlotados
Conseguiu sair do aeroporto, Gringo? Mas a superlotação continua nos trens, metrôs e ônibus. Esse assunto irritou alguns brasileiros em 2013, muitos foram até pras ruas protestar, dizendo que “Não é só por 20 centavos”, mas a CPI dos Ônibus do Rio de Janeiro morreu, todo mundo esqueceu do assunto e tenta entrar aí no trem, Gringo, com mala e tudo. Não conseguiu? Não tem problema, porque a gente acha que Gringo é tudo rico e por isso temos a honra de apresentar a Terceira Maravilha do Caos da Copa!

3) Taxistas monolíngues
Símbolo do nosso folclore, o taxista fala pouco quando você precisa de uma informação crucial e entope os seus ouvidos quando você não está nem aí pra saber a opinião dele sobre como as novelas das 21h prejudicam a educação das crianças. Gringo, saiba desde já uma coisa: seu taxista vai falar pouco. Ou vai falar muito. Mas quase nunca vai falar o que você quer. Ainda bem que isso não importa porque nós temos a Quarta Maravilha do Caos da Copa!

4) Os maxiengarrafamentos
Bem-vindo, Gringo! Seu taxista não diz coisa com coisa e esse táxi bandeira dois não sai do lugar. É que nós, brasileiros, adoramos ficar parados. Em aeroporto, transporte público ou no carro. Tanto que todo ano a gente vota em pessoas que têm até uma cara diferente, mas são financiadas pelos mesmos empreiteiros. Que ganham maravilhas fazendo megaviadutos, que tapam a visão e dão uma maquiada no trânsito daqui, só pra meio quilômetro mais na frente afunilar tudo de novo. Isso é que é bacana do Brasil, gringo! Não importa em que cidade você esteja, você sempre estará em Gambiarra City. E olha, que máximo! Enquanto você lia esse item, clic, clic, o precinho do seu taxímetro só fez aumentar. Tá achando ruim? É porque você ainda não viu o próximo item da lista, o…

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

5) Alagamento pós-chuva
Recapitulemos a sua situação, Gringo: você levou uma surra no aeroporto, está preso numa avenida que não anda, com um taxista que consulta um dicionário cada vez que você pronuncia uma palavra. Eis que começa a chover. Carros começam a buzinar. Uns sobem na calçada, outros sobem no posto e quem não consegue sobe sua prece em direção a Deus. Mais 15 minutos e tudo estará debaixo d’água.
Mas antes temos a Sexta Maravilha do Caos da Copa, a…

6) Violência urbana
Com os carros parados e a chuva caindo, décadas de negligência dos governos municipais, estaduais e federal de todos os partidos dão suas caras: crianças que não tiveram acesso à escola viraram jovens sem acesso ao mercado de trabalho e pior – sem acesso à autoestima. Vão respeitar pra quê, se o Estado brasileiro nunca os respeitou? Eles não estão nem aí. Tanto que estão mandando você entregar sua carteira e sua mala no meio do engarrafamento, antes que a rua alague. E é bom entregar, Gringo.

7) Estádios überfaturados
ÊêÊêÊê!!! Chuva passou, táxi andou, Gringo precisou parar num caixa 24 horas para poder pagar a corrida, mas é hora de comemorar. Sem malas nem carteira, você está muito mais leve. E como o taxista não entendeu onde ficava o seu hotel, então, ele te trouxe para um dos nossos estádios überfaturados. Isso mesmo: über. Afinal, nem a Muralha da China e as pirâmides do Egito JUNTAS custaram tanto. E daí que mais da metade da população brasileira não tem cacife para assistir os jogos da Copa? Se você tem ingresso, Gringo, pode entrar. Por isso, seja muito welcome. Entre no estádio. Ache a sua cadeira-padrão-Fifa, que a partida vai começar.

(*) Diego Rebouças é roteirista e jornalista. O artigo acima foi publicado pela Folha de São Paulo, 26 dez° 2013.

Este artigo foi publicado neste blogue no fim do ano passado. No entanto, com a aproximação da “Copa das copas”, está mais atual que nunca. Daí a republicação.

Rito de passagem

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° março 2014

O senso comum enxerga a evolução como um percurso contínuo, retilíneo e, em princípio, ascendente. A tecnologia, os indivíduos, as ideias, os conceitos progridem. Países e civilizações também. Mas as coisas nem sempre são simples. O mais das vezes, o caminho é lento, as pedras são muitas, há altos e baixos, retrocessos e avanços. Há momentos em que precisa recuar para melhor saltar.

Desenvolvimento não costuma fluir em reta ascendente ― está mais para escadaria que para rampa. Desde tempos imemoriais, os humanos intuíram que a evolução se dá por patamares. Estabeleceram ritos de passagem. Tradições religiosas e leis seculares definem o momento em que o indivíduo é considerado apto a galgar mais um degrau.

Na impossibilidade de aferir o grau de desenvolvimento de cada fiel, o legado judaico-cristão fixou uma idade a partir da qual é permitido passar a estágio superior. A lei retomou essa mesma noção de avanço por patamares. Estabeleceu-se que certas idades são mais significativas que outras. É o caso dos 7 anos, dos 14, dos 18, dos 21. A cada um desses degraus, corresponde o abandono de um estágio e o acesso a um grau mais elevado.

Mas toda mudança implica um momento de transição. Em alguns casos, a passagem ao novo estatuto é rápida, fluida, indolor, imperceptível. Já em outros, a metamorfose é lenta, hesitante, penosa. Isso tanto vale para indivíduos quanto para sociedades, países e civilizações.

Os gregos antigos valeram-se do radical «kríno» para referir-se a essas fases agudas em que é preciso retroceder para avançar melhor. Da raiz grega, herdamos um vocábulo já quase gasto de tanto uso: a crise.

Embora se atribua hoje um sentido negativo a esse termo, a crise, no sentido originário, é o momento que separa duas maneiras de ser ― uma antiga e uma nova. Quando uma pessoa ou uma instituição passa por uma crise, temos tendência a prestar mais atenção aos sintomas do que ao horizonte novo que se está descortinando. É postura compreensível, mas pouco perspicaz.

Psicólogos estão familiarizados com a crise da adolescência. Astrólogos conhecem os solavancos que o returno de Saturno causa a quem passa pela crise de seus 28-29 anos. No entanto, quando um país inteiro atravessa um momento de crise, temos mais dificuldade em analisá-la racionalmente. Conceda-se o desconto: crises de adolescência e eventos estelares são mais frequentes que transformações nacionais.

Acredito que nós, brasileiros, andamos exagerando no pessimismo. Anda muito difundida a percepção de que a ladeira que estamos descendo nos conduzirá a uma inevitável catástrofe. Não é um sentimento produtivo.

Depois da tempestade, vem a bonança

Depois da tempestade, vem a bonança

É verdade que os tempos atuais são estranhos. É verdade que a violência se tornou tão banal que já deixou de ser notícia ― só aparece no jornal se o falecido tiver sido pessoa importante, se não, nem nota de rodapé vai merecer. É verdade que a corrupção, que levava vidinha recatada e discreta desde 1500, passou a se exibir, despudorada, como se instituição nacional fosse.

É verdade que não é mais necessário ser doutor em Ciências Políticas para se dar conta de que a governança anda errática, que promessas não se cumprem, que se aplicam emplastros em perna de pau. É verdade que protestos de rua se avolumam, cada vez mais descontrolados. É verdade que barbáries que nenhum filme de horror ousaria imaginar ocorrem dentro de cadeias. É verdade que autoridades de alta patente se desafiam, com gestos vulgares, diante de câmeras de tevê ― e que tudo fica por isso mesmo.

É assustador? Sem dúvida. A percepção de caos tem-se acentuado? Tem. É sinal do fim dos tempos? Depende.

Se, por «fim dos tempos», nos referimos ao fim de uma era, a resposta é afirmativa. Mas temos de aguentar mais um pouco, que não chegamos ao fim da ladeira. Para erguer um futuro mais civilizado, há que esconjurar o passado e consumi-lo até a última gota. Nosso país está atravessando, aos trancos, uma crise. Fazemos mal em passar nosso tempo a nos lamuriar. Mais vale olhar para a frente e preparar um futuro menos nevoento.

Se já atingimos o paroxismo? Se já tocamos o fundo do poço? Ninguém sabe. Talvez ainda falte um bocado, pouco importa. Sobre os erros do passado, constrói-se a sabedoria do futuro. Vamos dar aos acontecimentos a relevância que eles têm. O importante não é a crise atual ― dela sairemos qualquer dia destes. Fundamental é entender que este rito de passagem nos está fazendo subir um degrau na escala da civilização. Ânimo, minha gente!

Lavoisier

José Horta Manzano

«Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme». Costuma-se atribuir a Antoine Laurent de Lavoisier, cientista parisiense do séc. XVIII, a adaptação francesa de máxima formulada, mais de um milênio antes dele, pelo filósofo grego Anaxágoras.

Seja como for, taí uma verdade incontestável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Protestos já havia na Grécia conturbada de Anaxágoras e na França pra lá de tumultuada de Lavoisier. Há que lembrar que o infeliz químico francês terminou seus dias na guilhotina.

Dado que é impossível satisfazer a todos, descontentamento sempre houve e sempre haverá. O que muda, eventualmente, é a maneira de exprimir desagrado. Pode ir de uma praga rogada em silêncio até um golpe de Estado com exército e canhões.

O Brasil anda meio pasmo com a ressurgência de manifestações de protesto. É compreensível. Os que hoje travam batalha contra policiais não haviam nascido quando as últimas manifestações vigorosas tiveram lugar no Brasil, no fim da Era Collor.

Passeatas que degeneram estão longe de ser particularidade brasileira. Como prova, estão aí as atualíssimas manifestações populares venezuelanas, bem mais mortíferas que as tupiniquins.

Até a pacífica Suíça ― espante-se o senhor e a senhora ― tem escaramuças episódicas. As últimas aconteceram em novembro de 2009. Foi quando o bando autodenominado «Black Blocs» decidiu promover manifesto, em Genebra, contra a OMC.

Genebra, 28 nov° 2009 Quebra-quebra promovido por blocos pretos

Genebra, 28 nov° 2009
Quebra-quebra promovido por “blocos pretos”   –   Clique sobre a imagem para assistir

Acho curioso que quadrilhas protestem contra a Organização Mundial do Comércio, um fórum onde o mundo se reúne justamente para dialogar. Que se combatam decisões autoritárias, posso entender. Hostilizar concertações civilizadas parece-me despropositado. Mas assim acontece, infelizmente.

No sábado 28 nov° 2009, Genebra assistiu a cenas de deixar qualquer integrante do bloco preto brasileiro babando de inveja. Que clique aqui quem quiser ter uma ideia do que aconteceu aquele dia.

E sabem qual foi a consequência? Nenhuma, absolutamente nenhuma! A OMC continua lá fazendo o que sempre fez. Se eu fosse integrante de algum bloco preto, me sentiria desapontado. A não ser…

… a não ser que estejam fazendo arruaça pelo simples prazer de fazer arruaça. Sei não, algo me diz que a hipótese da bagunça pela bagunça não está longe da verdade.

Unesco tomba as Sete Maravilhas do Caos da Copa

Diego Rebouças (*)

Notícia azeda de tão velha: Brasil não vai conseguir maquiar todos os seus problemas até a Copa do Mundo! Pensando nisso, a Unesco decidiu tombar as «Sete Maravilhas do Caos da Copa do Brasil». Não é o máximo? Agora, os gringos não vão poder reclamar. E nem você, mané! A não ser que queira levar de brinde da PM uma arma que eles chamam de não-letal, mas que mata que é uma beleza. Papel e caneta na mão para a lista:

1) O caos aéreo
Welcome, gringaiada! Primeira parada obrigatória: o aeroporto. Nós temos tanto orgulho de termos aeroportos que nenhum brasileiro passa menos de duas horinhas preso em um. Tanto é que a gente vota na mesma corja que promete ajeitar as coisas e não ajeita nada. Ajeitar pra quê? A gente gosta assim! Filas, malas trocadas, voos superlotados. Se espremam na confusão e welcome!

Parece cheio, mas cabe mais gente by Roberto Capote, Folhapress

Parece cheio, mas cabe mais gente
by Roberto Capote, Folhapress

2) Trens, metrôs e ônibus superlotados
Conseguiu sair do aeroporto, Gringo? Mas a superlotação continua nos trens, metrôs e ônibus. Esse assunto irritou alguns brasileiros em 2013, muitos foram até pras ruas protestar, dizendo que “Não é só por 20 centavos”, mas a CPI dos Ônibus do Rio de Janeiro morreu, todo mundo esqueceu do assunto e tenta entrar aí no trem, Gringo, com mala e tudo. Não conseguiu? Não tem problema, porque a gente acha que Gringo é tudo rico e por isso temos a honra de apresentar a Terceira Maravilha do Caos da Copa!

3) Taxistas monolingues
Símbolo do nosso folclore, o taxista fala pouco quando você precisa de uma informação crucial e entope os seus ouvidos quando você não está nem aí pra saber a opinião dele sobre como as novelas das 21h prejudicam a educação das crianças. Gringo, saiba desde já uma coisa: seu taxista vai falar pouco. Ou vai falar muito. Mas quase nunca vai falar o que você quer. Ainda bem que isso não importa porque nós temos a Quarta Maravilha do Caos da Copa!

4) Os maxiengarrafamentos
Bem-vindo, Gringo! Seu taxista não diz coisa com coisa e esse táxi bandeira dois não sai do lugar. É que nós, brasileiros, adoramos ficar parados. Em aeroporto, transporte público ou no carro. Tanto que todo ano a gente vota em pessoas que têm até uma cara diferente, mas são financiados pelos mesmos empreiteiros. Que ganham maravilhas fazendo megaviadutos, que tapam a visão e dão uma maquiada no trânsito daqui, só pra meio quilômetro mais na frente afunilar tudo de novo. Isso é que é bacana do Brasil, gringo! Não importa em que cidade você esteja, você sempre estará em Gambiarra City. E olha, que máximo! Enquanto você lia esse item, clic, clic, o precinho do seu taxímetro só fez aumentar. Tá achando ruim? É porque você ainda não viu o próximo item da lista, o…

Parece cheio, mas cabe mais água by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

Parece cheio, mas cabe mais água
by Marcella Nunes, Facebook/RioWaterPlanet

5) Alagamento pós-chuva
Recapitulemos a sua situação, Gringo: você levou uma surra no aeroporto, está preso numa avenida que não anda, com um taxista que consulta um dicionário cada vez que você pronuncia uma palavra. Eis que começa a chover. Carros começam a buzinar. Uns sobem na calçada, outros sobem no posto e quem não consegue sobe sua prece em direção a Deus. Mais 15 minutos e tudo estará debaixo d’água.
Mas antes temos a Sexta Maravilha do Caos da Copa, a…

6) Violência urbana
Com os carros parados e a chuva caindo, décadas de negligência dos governos municipais, estaduais e federal de todos os partidos dão suas caras: crianças que não tiveram acesso à escola viraram jovens sem acesso ao mercado de trabalho e pior –sem acesso à autoestima. Vão respeitar pra quê, se o Estado brasileiro nunca os respeitou? Eles não estão nem aí. Tanto que estão mandando você entregar sua carteira e sua mala no meio do engarrafamento, antes que a rua alague. E é bom entregar, Gringo.

7) Estádios überfaturados
ÊêÊêÊê!!! Chuva passou, táxi andou, Gringo precisou parar num caixa 24 horas para poder pagar a corrida, mas é hora de comemorar. Sem malas nem carteira, você está muito mais leve. E como o taxista não entendeu onde ficava o seu hotel, então, ele te trouxe para um dos nossos estádios überfaturados. Isso mesmo: über. Afinal, nem a Muralha da China e as pirâmides do Egito JUNTAS custaram tanto. E daí que mais da metade da população brasileira não tem cacife para assistir os jogos da Copa? Se você tem ingresso, Gringo, pode entrar. Por isso, seja muito welcome. Entre no estádio. Ache a sua cadeira-padrão-Fifa, que a partida vai começar.

(*) Diego Rebouças é roteirista e jornalista. O artigo acima foi publicado pela Folha de São Paulo, 26 dez° 2013.

As duas faces da moeda

José Horta Manzano

Quem vive muito tempo num palácio cercado de mordomias acaba por desconectar-se da vida real. É mal de que sofrem ditadores, imperadores e todos os mandatários que permanecem por muito tempo no poder. A parede de cristal que os cerca permite-lhes ver as gentes, mas não os deixa ouvir suas reivindicações.

De pobre, ninguém quer saber ― a  sina deles é a solidão. O todo-poderoso, ao contrário, é cercado por uma legião de áulicos que se desdobram para tornar mais doce a vida do capo. Ao redor do chefe formam-se círculos filtrantes destinados a reter tudo o que puder azedar o humor do personagem central ou perturbar-lhe, seja de que modo for, a existência.

Aquele que passa anos sem ter de fazer esforço nem mesmo para abrir uma simples porta precisa de muita força e inteligência para continuar a se dar conta de que existe mundo além de suas paredes de cristal. Precisa de mais força ainda para se dar conta de que seus desejos não se transformam automaticamente em realidade.

Quando nosso antigo presidente, o Lula, fez o que podia e o que não devia para assegurar que o Brasil se tornasse sede do Campeonato de Futebol de 2014, certamente enxergou as vantagens, o lado bom. Mas, apesar dos dotes de inteligência política que lhe emprestam, foi incapaz de se dar conta de que, se um lado é bom, há sempre outro menos brilhante. Sua corte, se anteviu algum risco, há-de ter preferido calar-se.

Nosso guia viu oportunidade de bons ganhos para empreiteiros ― grandes financiadores de suas campanhas. Há-de ter vislumbrado ganho político certeiro. Talvez tenha até acreditado quando cortesãos e assessores lhe garantiram que tudo estaria pronto a tempo e a hora, que as obras seriam todas edificadas com um pé nas costas.

Mais que tudo, intuiu que seu nome ficaria gravado para todo o sempre como o benfeitor-mor da nação, aquele ser excepcional que teria permitido a nosso país atingir a glória maior do planeta: sediar uma Copa do Mundo de Futebol! Uma nova declinação do nunca antes nessepaiz. Afinal, 1950 já vai tão longe.

Toda moeda tem duas faces. O fato de o presidente taumaturgo só enxergar o lado que lhe convém não exclui a existência do lado mais sombrio da realidade nacional. Apesar de bolsas várias, a distância entre os mais abonados e os mais desafortunados não para de aumentar. A criminalidade, a incivilidade, a insegurança, a ignorância se alastram a cada dia.

Algumas excelências fazem de conta que essa face B do País simplesmente não existe. A população, quanto a ela, vive tão mergulhada na geleia geral que já não se dá mais conta do surrealismo da situação. No entanto…

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

by Guillermo Mordillo Menéndez, desenhista argentino

… no entanto, uma Copa do Mundo, como seu nome indica, é do mundo, um evento planetário. Atrai atenção de gregos, troianos, persas e mongóis. A 6 meses do pontapé inicial, os holofotes do mundo começam a focalizar nosso País. Turistas e jornalistas estrangeiros, por viverem em meio diverso, têm, da realidade brasileira, visão diferente da nossa. Coisas que nem mais enxergamos saltam aos olhos de não habitués.

Semana passada, a rádio francesa de informação contínua France-Info dedicou uma série de reportagens ― uma por dia ― ao Brasil, em vista da Copa do ano que vem. Não se falou de tática futebolística, prognósticos nem sorteio de chaves. A série de programas procurou responder à pergunta: que país é aquele?

Falou-se justamente de tudo aquilo que a gente gostaria que fosse esquecido: arrastões, violência, estádios transformados em arena de gladiadores, número anual assustador de homicídios, tentativa de pacificação de favelas. A palavra arrastão não tem tradução em francês ― talvez não tenha em nenhuma outra língua. Assim, a reportagem gastou um minuto inteiro para explicar o que é e como funciona.

Na minha opinião pessoal, nosso guia ― bem-intencionado, mas mal informado e mal assessorado ― precipitou-se ao permitir que a Copa se realizasse no Brasil. Mais teria valido deixar esse evento para o futuro e investir essa dinheirama toda em infraestutura material (= estradas, pontes, viadutos, portos, metrôs, comunicações) e, principalmente, em infraestutura imaterial (= instrução pública, saúde, tecnologia).

Não seria garantia de glória imediata a nosso benfeitor. Pouco importa. A glória imediata é efêmera, enquanto a glória bem alicerçada é indelével.

Era de esperar

José Horta Manzano

Uma das engraçadas leis de Murphy diz que, se o pior puder acontecer, acontecerá. A mídia europeia, naturalmente, deu boa cobertura à presença papal no Rio e a ela dedicou espaço importante.

No entanto, é compreensível que, num mundo encharcado de imagens ao vivo e em alta resolução, a figura de um papa beijando criancinhas já não entusiasme como antes.

Para apimentar reportagens modorrentas, não foi preciso procurar muito longe. A alguns passos da rota do visitante, jovens ― aparentemente sem grande coisa a fazer e, mais que isso, vítimas de estrelismo agudo ― decidiram se manifestar.

Visita do papa

Visita do papa

Houve reclamações contra o governador do estado, contra o preço das passagens de ônibus. Houve até os que fizeram questão de hostilizar o visitante, prova de que democracia não rima necessariamente com civilidade. Em resumo, as manifestações pareciam um mercado persa, uma loja de 1,99 onde se encontra de tudo.

O jornal francês Le Monde, assim como o resto da mídia estrangeira, não se fez rogar para registrar os acontecimentos e difundi-los por aqui. Vai-se firmando a ideia de que, longe da imagem suave e idílica que se tinha, o Brasil é um país habitado por gente violenta, baderneira, mal-educada e imprevisível. Dá muita pena.

E pensar que os que tiveram nas mãos o poder absoluto estes últimos 12 anos não se empenharam em elevar o padrão civilizatório do povo. Não era tão difícil. Até nos tempos da ditadura havia uma oposição mais incisiva que a atual. Bastava que os eleitos tivessem dedicado metade de seu tempo a cumprir com honestidade o mandato que lhes tinha sido confiado. Para desgraça de todos, a maioria preferiu dedicar a totalidade de seu tempo a seus interesses pessoais. O resultado está aí. A História há de guardar estes anos irresponsáveis, de esbórnia e de incúria, entre os mais sombrios.

O bom lado disso tudo é que, por uma dessas coincidências alinhavadas pelo destino, o herdeiro da coroa britânica tenha visto a luz no mesmo dia da chegada do papa ao Rio. O choro do neonato foi providencial.

No Brasil, compreensivelmente, o evento passou praticamente despercebido. Já na Europa, o royal baby eletrizou tanto os que ainda têm um rei, quanto os que gostariam de voltar a tê-lo. Ou seja, uma importante fatia de cidadãos. Isso ajudou a sombrear a imagem das desordens do Rio e abafar-lhes o eco . Melhor assim.

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Interligne vertical 9Curiosidade pré-histórica

Jânio Quadros foi presidente do Brasil ao tempo dos Sumérios. Era personagem carregado de defeitos. Acusavam-no de beberrão, esquizofrênico, populista, imprevisível, paranoico. Pode até ser, mas há controvérsias.

No entanto, num ponto, todos concordavam: o homem conhecia profundamente a língua portuguesa. E mais: apesar dos defeitos e do raríssimo sorriso, sabia tratar os outros com civilidade e, em troca, exigia ser tratado com respeito.

Uma vez, quando de uma entrevista coletiva, um repórter dirigiu-se ao presidente chamando-o de você. A reação veio fulminante. O presidente chamou a atenção do interlocutor. Disse-lhe que não o estava tratando com tamanha intimidade e ficaria reconhecido se o repórter lhe concedesse tratamento recíproco.

Eram outros tempos. Os homens tinham seus defeitos, mas ainda mantinham um verniz de polidez. Hoje, um solvente parece haver decapado a superfície. Foi-se o polimento, e sobraram só os defeitos.

Reparem, aqui logo acima, no cartaz do manifestante. Trata o ilustre visitante por você e isso não parece incomodar mais ninguém. Jânio talvez desaprovasse.

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Um povo cordial

José Horta Manzano

Tempos houve em que as notícias levavam semanas ou meses para chegar a regiões recuadas. Dizem que, em meados de 1890, em certos cafundós brasileiros situados pra lá de onde o vento faz a curva, ninguém estava ainda a par de que um golpe de estado havia rompido a ordem legal e imposto um novo regime. Achavam todos que o imperador ainda estivesse no trono.

Depois veio o telégrafo sem fio. Depois veio o telefone. Depois veio o rádio. Depois veio a televisão. E por fim chegou a internet ― por enquanto, a última palavra em matéria de modernidade. E tudo mudou. Notícias agora viajam à velocidade da luz. Não se consegue mais dar um espirro sem que, de Nova York a Pequim, todos fiquem sabendo. Será mesmo?

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Parece que nem sempre é assim, a julgar pelo que lhes vou relatar agora. A notícia é de arrepiar. Daquelas que não acontecem mais desde a Revolução Francesa. É o que imaginamos, pelo menos.

Para quem não ficou sabendo até agora, aconteceu dia 30 de junho passado, na localidade de Centro do Meio, município de Pio XII, Estado do Maranhão. Exatamente no domingo em que se jogaria, logo mais à noite, a partida final da copinha. As cenas são de uma barbárie inconcebível. Melhor que eu, o despacho da Folha de São Paulo dá os sórdidos detalhes. Conselho a almas sensíveis: abstenham-se de ler. Aqui.

Os crimes ocorreram em 30 de junho. Justiça seja feita ao site G1 (Globo), que deu a notícia no dia seguinte. Foi o único. Três dias depois, a horripilante informação começou a pingar aqui e ali, em sites de esporte, blogues, um jornal português, alguma gazeta interiorana. Da mídia prestigiosa, apenas a Folha de São Paulo deu a notícia, já no dia 4 de julho.

Decapitação

Decapitação

Foi preciso esperar até o dia seguinte, 5 de julho, para encontrar no Estadão uma nota de 5 linhas sobre o caso. Somente a partir daí a notícia espalhou-se pelo mundo. Está chegando por aqui estes dias.

Perguntas ficam no ar sobre o porquê dessa demora. É intrigante também esse véu de pudor com que os meios de comunicação brasileiros minimizaram ou simplesmente ocultaram a cena digna de tempos medievais.

De onde terá vindo a decisão de pôr panos quentes? Autocensura ou ordens superiores? Receio de que a realidade violenta do Brasil arranhe a imagem idílica do brasileiro cordial? Ignorância ninguém poderá alegar, visto que o G1, um site importante, já publicou a ocorrência nas horas que se seguiram.

Acho que não saberemos nunca. Talvez politólogos ou sociólogos possam explicar.

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Para os curiosos, aqui estão alguns sites que deram a notícia escabrosa do duplo assassinato:

1° de julho ― G1 (Globo)

2 de julho ― nada

3 de julho ― nada

4 de julho ― Esportes Terra

4 de julho ― Record (site esportivo português)

5 de julho ― Gazeta de Alagoas

5 de julho ― Estadão

6 de julho ― 20 minutes (tabloide suíço)

7 de julho ― Le Parisien (jornal francês)

8 de julho ― Gentside (site esportivo francês)

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No tempo do telefone a manivela, as notícias viajavam mais depressa.

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Exaustão

Artigo de Eliane Cantanhêde, jornalista
publicado na edição online da Folha de São Paulo de 20 junho 2013

Condenados pelo Supremo têm mandato de deputado e, não bastasse, viram membros da Comissão de Constituição e Justiça.

Um pastor de viés racista e homofóbico assume nada mais, nada menos que a presidência da Comissão de Direitos Humanos na Câmara.

Um político que saíra da presidência do Senado pela porta dos fundos volta pela da frente e se instala solenemente na mesma cadeira da qual havia sido destronado.

O arauto da moralidade no Senado nada mais era do que abridor de portas de um bicheiro famoso. E o Ministério Público, terror dos corruptos, é ameaçado pelo Congresso de perder o papel de investigação.

A chefe de gabinete da Presidência em SP usa o cargo e as ligações a seu bel-prazer, enquanto a ex-braço direito da Casa Civil, afastada por suspeita de tráfico de influência, monta uma casa bacana para fazer, possivelmente… tráfico de influência.

Um popular ex-presidente da República viaja em jatos de grandes empreiteiras, intermediando negócios com ditaduras sangrentas e corruptas.

Um ex-ministro demitido não apenas em um, mas em dois governos, tem voz em reuniões estratégicas do ex e da atual presidente, que “aceitaram seu pedido de demissão”.

Ministros que foram “faxinados” agora nomeiam novos ministros e até o vice de um governador tucano vira ministro da presidente petista.

Na principal capital do país, incendeiam-se dentistas, mata-se à toa. Na cidade maravilhosa, os estupros são uma rotina macabra.

Enquanto isso, os juros voltam a subir, impostos, tarifas e preços de alimentos estão de amargar. E os serviços continuam péssimos.

É por essas e outras que a irritação popular explode sem líderes, partidos, organicidade. Graças à internet e à exaustão pelo que está aí.

A primeira batalha foi ganha com o recuo dos governos do PT, do PSDB e do PMDB no preço das passagens. Mas, claro, a guerra continua.

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