Na lábia ou na raça?

José Horta Manzano

Quem é que manda num grupo? Aquele que conseguir provar à turma que é o mais forte. Desde os tempos do homem de Cro-Magnon, tem sido assim. Antes, se decidia no braço, no fio da espada ou na ponta da lança. Hoje mudou. Como não fica bem ensanguentar arenas para escolher chefe, costuma-se dar preferência a métodos mais aveludados.

Nos países civilizados, inventaram-se outros meios de escolher líder. O voto, por exemplo. Cada cidadão exprime sua vontade (mais ou menos) secretamente, e pronto! Aquele que a maioria tiver decidido assume a chefia.

O método é menos sanguinário, mas nem por isso menos brutal. A selvageria, antes escancarada, manifesta-se agora por outros canais. Mentira, agressão verbal, calúnia, propagação de boato, produção de dossiê, cooptação de testemunhas duvidosas, ocultação da realidade, negação de fatos evidentes, engodo, terrorismo imagético – eis a nova face da violência.

Dilma 8Mas assim é, gostemos ou não. O preocupante é que, a cada eleição, mais violentos vão-se tornando os expedientes. Sabe-se lá onde vamos parar. Para 2014, alguns já tinham prometido «fazer o diabo». Digo-vos: do diabo, não vimos ainda nem o rabo. Com o perdão de Shakespeare, há muito mais demônio do que possa imaginar nossa vã filosofia.

Por um lado, a escolha menos sanguinolenta nos tranquiliza. Por outro, abre alas para falsos líderes, para gente que não tem os atributos mínimos pra assumir as rédeas. É vitória mais na lábia que na raça. O resultado é desastroso: líderes fracos, bizarros, ilegítimos, rejeitados por grande parte dos comandados.

E não pense o distinto leitor que nosso País é o único a enfrentar esse problema. O nosso é caso emblemático, tão profunda é a rejeição que nossa líder desperta em boa parte da população. Mas acontece também alhures.

Veja o caso da França. Quando assumiu seu trono, em jun° 2012, Monsieur Hollande usufruia da confiança de 55% de seu povo. De lá pra cá, o crédito foi rolando ladeira abaixo. Neste nov° 2014, está batendo no fundo do poço. Consegue suscitar a confiança de escassos 13% dos cidadãos.

Cota de confiança de François Hollande em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Índice de confiança de François Hollande
em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Mister Obama é outro caso sintomático. Reeleito dois anos atrás, acaba de sofrer severa derrota eleitoral. Por via de eleição de representantes, o povo negou-lhe maioria em ambas as câmaras. Assim como o presidente da França, o líder americano terá de amargar estes próximos dois anos num limbo de legitimidade.

Que fazer? Instituir mandato anual, com eleições todo mês de outubro? Optar por um regime parlamentar que relegue o presidente a papel decorativo? Voltar a decidir a chefia no muque ou no sangue das arenas? Ou, mais simples, censurar pesquisas que avaliem a popularidade de dirigentes?

Cá pra mim, tenho a impressão de que, malgrado os defeitos que o atual sistema possa ter, estamos condenados a conviver com ele ainda por muito tempo.

Sic est res – a coisa é assim.

E como é que fica?

José Horta Manzano

Estava lendo, agora há pouco, os resultados de pesquisa feita pelo Instituto Datafolha para aferir o índice de confiança dos brasileiros.

Para transpor felicidade em números, os técnicos questionam os entrevistados sobre sete pontos. Dois deles são vagos, como o orgulho de ser brasileiro. Os demais têm que ver com o bolso de cada um.

Estatísticas 2Uma rápida análise mostra que as questões se limitam a sondar as expectativas de cada um. Nenhuma pergunta é feita sobre a atitude que o entrevistado tenciona assumir para mudar esse estado de coisas. É dado de barato que o cidadão, por definição, é um ser passivo que se limitará a aprovar ou rejeitar uma situação.

Seria interessante incluir, numa próxima edição, perguntas sobre a ação que o entrevistado pretende empreender para ajudar a corrigir o que lhe parece fora do lugar.

Ninguém é obrigado a agir, mas, para quem se decidisse a arregaçar as mangas, abrem-se vários caminhos: manifestação de rua, escolha mais ajuizada de representantes do povo, quebra-quebra, doutrinamento de vizinhos e amigos, criação de movimento político, decisão de matricular-se num curso qualquer. Vale até pensar em abandonar o País.

É interessante ficar sabendo a quantas anda o humor do povo. Melhor ainda será conhecer a solução preconizada por cada um.

A aceitação da apatia geral vai acabar transformando o índice de confiança em índice de descrédito.

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A pesquisa
O resultado da pesquisa está aqui.