Falam de nós – 12

0-Falam de nós

Thierry Ogier

Todas as manhãs, Francisco Tavares tirava seu pequeno bólido da garagem para ir trabalhar. Num percurso digno de quem venceu na vida, ele se dirigia à sua concessionária Peugeot da cidade litorânea de Santos (70 km de São Paulo) ao volante de seu RCZ. O trajeto à beira-mar durava uns vinte minutos. Dirigindo cupê esporte de marca francesa, ele não passava despercebido. Questão de prestígio…

Carro 4Mas a vida regrada de seu Chico – como é chamado pelos clientes – deu uma cambalhota recentemente. Primeiro, o desaquecimento do setor obrigou-o a mudar-se para um ponto mais modesto e mais barato. Em seguida, o gigantesco escândalo de corrupção que sacode o país há um ano começou a produzir efeitos devastadores no conjunto da economia, solapando a confiança do consumidor.

Não restou outra saída: Francisco Tavares fechou a concessionária.

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Extrato do relato de Thierry Ogier, correspondente no Brasil do jornal econômico francês Les Echos. Para ler o artigo integral (em francês), clique aqui.

O custo do crime

José Horta Manzano

Brasil: a violência custou 81 bilhões de euros, ou seja, 5,4% do PIB

É com esse título que o jornal francês Les Echos (equivalente a nosso diário Valor) abre artigo sobre nosso País, publicado em 10 nov° 2014.

Prisioneiro 2A matéria baseia-se em recente estudo elaborado pela FGV por encomenda do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Logo abaixo do título, o texto continua no mesmo tom. E cita aqueles dados que nos envergonham, justamente aqueles que desmontam discursos ufanistas e visões otimistas.

«Por volta de 45 mil homicídios são cometidos todo ano no Brasil» – é o subtítulo. Diz lá que, pela primeira vez no Brasil – um dos países mais violentos do mundo (sic) –, um estudo calculou o impacto econômico desse flagelo. Chegou à cifra astronômica de 258 bilhões de reais em 2013, que correspondem a 5,4% do PIB.

Uma reflexão de Samira Bueno, diretora do Fórum, é citada: «A análise das despesas que compõem esses 258 bilhões mostra uma perversão. Para combater os efeitos da violência, o Brasil gasta o triplo do que investe em políticas públicas de combate ao crime e à violência».

No Brasil, os gastos causados pelos efeitos perversos da violência são o triplo do que se investe em políticas públicas de combate ao crime e à violência.

No Brasil, os gastos causados pelos efeitos perversos da violência são o triplo do que se investe em políticas públicas de combate ao crime e à violência.

Em outros termos, espera-se que a porta seja arrombada para, em seguida, botar a tranca. Seria mais simples e mais barato prevenir, mas essa receita, embora lógica, não é seguida. Em vez de prevenir, prefere-se esperar que aconteça para, em seguida, correr atrás do remédio.

Vamos ser justos: não chegamos à calamitosa situação atual da noite pro dia. O quadro atual é fruto de lenta e secular elaboração. Vem dos tempos de Dom Manuel, o Venturoso. Essa constatação pode até aliviar a culpa dos atuais dirigentes, mas não serve como desculpa para a inação. Não vale dizer «sempre foi assim, não há nada a fazer».

by Ricardo Ferraz, desenhista capixaba

by Ricardo Ferraz, desenhista capixaba

Vistosas e midiáticas «ações de combate ao crime» são volta e meia organizadas pelo poder público. Batidas, operações, cumprimento em massa de mandados de prisão são alardeados, chegam às manchetes e impressionam. A lástima é que essas ações relâmpago não são seguidas por política de prevenção. E o círculo da violência continua a se autoalimentar.

Construir mais e mais presídios pode até ser necessário, mas não traz solução ao problema. Ao contrário, o objetivo deveria ser tornar as prisões cada dia mais supérfluas por falta de inquilinos.

Se não é simples chegar lá, tampouco é impossível.

Ameaça à vista

José Horta Manzano

Les Echos é a publicação francesa mais reverenciada em matéria de informação econômica e financeira. É o vade-mécum dos investidores e dos grandes capitães de indústria. Principalmente franceses, mas não só. Faz mais de um século que suas análises costumam ser apreciadas e respeitadas.

Esta semana, publicou um artigo bastante contundente sobre o momento atual da economia brasileira. O título já diz muito: «Brasil ― para a economia, a Copa do Mundo se transforma em ameaça».

Durante muito tempo, segundo o texto, o Brasil contou com a Copa do Mundo para dar um empurrão a sua economia. Hoje, essa esperança deu lugar ao receio de que a convulsão social assuste os investidores e deteriore, por muito tempo, a imagem do país.

Les EchosO governo de Dilma Rousseff espera que o Mundial acrescente meio ponto percentual ao PIB nacional e crie mais de um milhão de empregos. Segundo pesquisa da Reuters, contudo, economistas independentes são mais prudentes e miram a um magro aumento de 0,2 ponto.

Sete anos atrás ― continua a análise ― quando a organização da Copa foi atribuída ao Brasil, o governo de então acariciou a ideia de poder afirmar o novo estatuto nacional de potência econômica de primeiro plano. Era também ocasião propícia para uma profunda transformação da infraestrutura de transportes.

Mas hoje a conta não fecha. Dos 11,7 bilhões de dólares de investimento previsto, nada mais que 7 bilhões foram aplicados ― uma discrepância que observadores atribuem a mau planejamento e a entraves burocráticos. Somente 36 dos 93 grandes projetos previstos foram entregues.

Essas falhas não impedirão que o campeonato se desenrole, mas, em vez de destacar a força do país, o evento periga desnudar suas fraquezas e a falta de vontade política para tocar grandes projetos.

GlandO artigo prossegue com uma grande interrogação: «Os 600 mil turistas esperados… virão?».

A reportagem fecha citando Antenor Barros Leal, presidente da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, que se declara muito preocupado com a imagem do país.

Barros Leal afirma que não podemos assumir o risco de perder nenhum investimento num momento em que nossa economia vai mal. Acrescenta que «todo sinal de instabilidade poderia atemorizar investidores dispostos a investir dinheiro no Brasil».

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Da semente imperfeita que foi plantada estes últimos sete anos, dificilmente brotarão bons frutos.

Vão pousar

José Horta Manzano

Fitch é uma agência de classificação de risco, como é conhecido esse tipo de empresa no Brasil. Em Portugal, prefere-se a denominação de agência de notação financeira. Tanto faz como tanto fez.

Aviãozinho da alegria

A agência Fitch, dizia eu, faz saber que os aeroportos brasileiros passarão no exame do Mundial. Ainda que, em vários dos campos de pouso, reformas ainda estejam sendo feitas, as instalações já prontas deverão dar conta do fluxo esperado no período da «Copa das copas» ― de uns 3,7 milhões de passageiros, entre os quais 600 mil estrangeiros. Quem nos relata é o jornal francês Les Echos.

Vamos torcer para que assim seja. Depois do fiasco que essas agências deram ao não prever a maior hecatombe financeira que o planeta já conheceu desde 1929, todo cuidado é pouco.

Melhor botar as barbas de molho.

Campeã da poluição

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz décadas que a corrente ecologista alemã é influente. Uma de suas bandeiras tem sido a erradicação da energia nuclear. O desastre de Fukushima acelerou dramaticamente o movimento.

Central atômica 1Para fugir da insegurança nuclear, os alemães têm aumentado a produção de eletricidade a partir de matéria fóssil: petróleo, gás, carvão. Mas nada sai de graça. Afastam-se os riscos ligados a um acidente nuclear, é verdade, mas surgem os inconvenientes da queima de combustível fóssil.

Despacho da AFP repercutido pelo jornal francês Les Echos nos dá conta de que a Alemanha, com 760 milhões de toneladas emitidas em 2013, é o maior produtor de CO2 da Europa. Pior que isso, é um dos cinco países da União Europeia onde a produção de gases com efeito de estufa está aumentando em vez de diminuir. Em 2013, foram 2% a mais que no ano anterior.

O abandono da produção de energia atômica afasta o perigo imediato de um acidente grave. Sua substituição pela queima de matéria fóssil, no entanto, aumenta o risco de mudanças climáticas de consequências catastróficas.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.

Decisão salomônica

José Horta Manzano

Não há que dizer, tem gente esperta entre nossos dirigentes da alta cúpula. Não estou brincando nem ironizando. Não serão muitos, mas há gente de respeitável eficiência. Ontem recebemos uma demonstração.

É verdade que os da linha de frente, aqueles que aparecem na tevê e na mídia dia sim, outro também, costumam se enfiar em saias justas, chegando até a arruinar estratégias bem construídas pelos homens da sombra. Felizmente, há casos que dão certo.Avião 4

Faz quase 20 anos que as Forças Aéreas alertaram o governo sobre o iminente sucateamento dos caças supersônicos em serviço. Tomada de preços foi organizada na época. A partir daí, o assunto foi posto em banho-maria até que, com a chegada do Lula, foi definitivamente engavetado. Não se sabe bem por que. Talvez tenha sido por mera pirraça. Ou falta de visão. Afinal, bolsa família e palanque permanente saem mais barato e dão mais voto que compra de avião a jato.

Mas há novelas que têm final feliz. O próprio presidente que havia ordenado o congelamento do programa despertou, de repente, em 2009. Naquele ano, o presidente da França foi o convidado de honra para as festividades do 7 de setembro, nossa data maior. Na ocasião, um Lula eufórico e falante ― talvez em razão de um café da manhã mais abundante que de costume ― deu a entender ao visitante que o Brasil se preparava a bater o martelo na questão dos caças: o Rafale francês seria o escolhido. Só faltou ser carregado nas costas pela comitiva de empresários que acompanhava o presidente visitante.

No dia seguinte, a imprensa francesa festejou. Milhares de empregos seriam garantidos por vários anos, a população ficaria grata a Sarkozy. A simpatia granjearia votos preciosos para sua reeleição. Os infelizes não conheciam o percurso em zigue-zague que nosso antigo presidente costuma seguir. Conversa vai, conversa vem, o governo brasileiro pôs de novo o assunto em banho-maria.

Sem ser especialista em aeronáutica militar, entendi que as principais características político-militaro-financeiras entre os três concorrentes finais empurravam a decisão de Brasília para um beco sem saída.Avião 5

O avião americano era tecnicamente superior aos outros, apresentava a melhor relação entre qualidade e preço. Mas tinha o defeito de ser americano, pecado original intragável para a ala xiita do partido dominante.

O avião francês apresentava uma vantagem não negligenciável: vinha sem pecado original. Não era americano, muito pelo contrário. A França, desde sempre, distinguiu-se por uma política de independência com relação às outras potências. No entanto, o aparelho sofria de um mal incurável: era o mais caro. Além do que, não havia sido ― e ainda não foi ― escolhido por nenhum exército, excetuado o francês.

O avião sueco apresentava mais vantagens que os outros. A alta cúpula da Aeronáutica havia recomendado que fosse ele o escolhido. Era o mais barato. Ainda não está totalmente desenvolvido, o que deixa margem a que se anuncie um «projeto sueco-brasileiro», ainda que seja só pra inglês ver. E, mais que tudo, o Gripen tem uma vantagem oculta: é equipado justamente com motorização americana, como a do modelo rejeitado pelos integristas. Não é, nem deixa de ser. As aparências estão salvas.

Foi agora que se teve a prova de que ainda há cabeças pensantes no andar de cima. Escolheu-se o avião sueco. As vantagens são muitas.

Interligne vertical 81) Traz tecnologia americana de primeira, ainda que embrulhada com papel sueco. A ala xiita pode dormir tranquila sem a impressão de ter sido traída.

2) A FAB sente-se prestigiada, dado que esse é justamente o modelo que lhe tinha parecido mais conveniente.

3) As finanças brasileiras, um tanto alquebradas estes últimos tempos, vão ser menos solicitadas, dado que o custo desse modelo é menor que o dos outros.

4) Na Escandinávia em geral ― e na Suécia, em particular ― uma aura de simpatia se inscreve sobre o nome de nosso País. O Brasil passa a ser visto como nação amiga, simpática. Isso só pode trazer vantagens. Os suecos são grandes investidores no cenário mundial.

5) Os EUA estão satisfeitos, pois a fabricação de peças essenciais será feita, de qualquer maneira, por lá. Os empregos estão salvaguardados.

A única sombra no quadro radioso foi o fato de Brasília ter anunciado a decisão menos de uma semana depois da visita de François Hollande. Ficou uma desagradável impressão de que o presidente e a “presidenta” não chegaram a um acordo sobre eventuais ― digamos assim ― efeitos colaterais… Ficou esquisito, né?

Quanto à tão falada «transferência de tecnologia», que me perdoem os espíritos crédulos, mas devo decepcioná-los. Conhece aquela do pulo do gato? Pois é, em venda de material sensível, funciona da mesma maneira. Ensina-se algum procedimento básico, distribuem-se algumas migalhas, só para constar. Mas o grosso mesmo, o cerne da questão, o coração do problema fica muito bem preservado.

Aviãozinho da alegria

É uma questão de bom-senso. Tecnologia de altíssimo padrão, conquistada a custo de dezenas de anos de pesquisa e de bilhões e bilhões de dólares (ou euros) de investimento, não será jamais dada assim, de mão beijada, só porque um cliente encomendou 36 aparelhos.

Você sabia?
O parlamento da pequena Suíça está em via de aprovar a compra de 22 caças Gripen de modelo equivalente. Não li nenhum reclamo sobre «transferência de tecnologia».Interligne 23

Se alguém quiser dar uma olhada na reação eufórica dos suecos e no muxoxo decepcionado dos franceses, clique aqui abaixo.

Aftonbladet, Suécia

Televisão sueca

SVD Näringsliv, Suécia

Le Monde, França

Les Echos, França

La Tribune, França