Indignação e catarse

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Atos violentos, como os ataques terroristas perpetrados na França há alguns dias, costumam gerar forte indignação em todo o mundo. Em mim também. No entanto, o que mais tem chamado minha atenção nos últimos meses é a repetição por toda parte de comportamentos que têm por objetivo primário o de impor de forma violenta as próprias percepções, crenças e visões de mundo a todo o restante da humanidade.

Cagoule 1Exemplos desse tipo de conduta incluem desde casos corriqueiros, como carros circulando com o aparelho de som ligado na potência máxima, passando por comentários raivosos nas redes sociais diante de literalmente qualquer tipo de opinião expressa, até os assim chamados “hate crimes” – crimes de ódio. É como se os outros tivessem se transformado em simples obstáculos que impedem que cada um acesse e desfrute tudo aquilo que lhe dá prazer. Assassinatos em série com requintes inimagináveis de perversidade, esquartejamentos, estupros, casos de pedofilia e violência doméstica multiplicam-se exponencialmente, atingindo agora não apenas os desafetos habituais mas também as pessoas mais próximas do círculo familiar, do ambiente de trabalho ou com as quais o infrator possui laços afetivos. Não há escrúpulo, culpa ou remorso. Nenhuma emoção penosa o suficiente para demover o mal-intencionado do desejo de causar dor, sofrimento e morte.

Frente a esse cenário catastrófico, uma pergunta insiste em percorrer meu cérebro: o que leva um ser humano a romper com as as regras civilizatórias mais básicas? Desconfio instintivamente do diagnóstico pontual de transtornos mentais. A coisa está mais para epidemia do tipo ebola do que para asilo de loucos. O vírus do rancor, do ódio e da vingança dissemina-se em velocidade francamente espantosa em todos os cantos do mundo.

A agressividade não é estranha nem rara no mundo animal. Lutas de vida ou morte são bastante frequentes entre animais que disputam território, comida, água ou parceiros sexuais mas, até onde eu saiba, não há notícia de embates sangrentos que não envolvam essas causas.

Há alguns meses, assisti a um debate capitaneado por um filósofo francês cujo argumento central era o de que a indignação não é um sentimento verdadeiramente moral. E explicava: nós só nos indignamos com o comportamento dos outros, nunca com nossa própria conduta. Caso alguém aponte um ato antiético que tenhamos eventualmente cometido, temos sempre uma justificativa na ponta da língua: eu estava desequilibrado naquele momento, não tive a intenção, foi um segundo de distração, não pesei as consequências, etc. etc. etc.

Cruzada 1Essa argumentação voltou à minha cabeça com força nos últimos dias. Temos, como sociedade, um novo bode expiatório já pronto para o abate: o fanatismo islâmico contraria os princípios mais caros do cristianismo, do judaísmo, do budismo e de muitas outras religiões “ocidentais”. O que fazer então? Treinar novos exércitos de combatentes e declarar nova guerra santa? Exterminar todos aqueles que agridem frontalmente nossa fé? Em nome de quê? É bem possível que os comandantes desses novos batalhões argumentem que estão apenas defendendo os valores da vida, da solidariedade, da compaixão, da harmonia e da conciliação.

Mas… espere um pouco: é somente a mim que esse convite à conflagração parece insano? Ou será que ainda há pessoas que se dão conta de que os dois lados do conflito estão contaminados pela mesma doença? Aquela enfermidade que nos obriga a colocar, como ponto de honra de nossa vida, a minha ideologia, as minhas crenças políticas e religiosas, o meu estilo de vida têm de prevalecer, custe o que custar.

by Diogo Salles, desenhista paulista

by Diogo Salles, desenhista paulista

A pergunta permanece: por quê? Um de meus professores de psicanálise me encantou com a teoria de que todas as pendengas sociais partem de uma sensação pessoal de insatisfação. Não de desequilíbrio de poder, repetia ele, mas de um desequilíbrio de satisfação. Um formulado bastante sensato, a meu ver. Se estou satisfeita com minha vida afetiva, profissional e financeira, que razão teria para ficar me perguntando se outras pessoas estão mais ou menos satisfeitas do que eu?

Em nossa sociedade psicologicamente imatura e egocêntrica, parece ser mais fácil confundir poder e força, conhecimento e sabedoria. Infelizmente, ainda estamos às voltas com as crises de birra típicas da infância e engatinhando na difícil arte de lidar com frustrações e limites.

O mais angustiante, entretanto, é que a indignação diante de acontecimentos tão nefastos dura apenas um segundo. Os protestos de massa podem aliviar significativamente a tensão do momento, mas a catarse não constrói. Quase imediatamente voltamos à rotina de engolir outros sapos pessoais, a tensão começa a se acumular novamente e a insatisfação nos empurra para a busca de novos bodes expiatórios.

A pergunta agora é: até quando vamos nos conformar em tratar dos sintomas e voltar as costas para a busca dos motivos de nossa insanidade coletiva?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A cooperação bilateral e os sapos

José Horta Manzano

Francamente, a confrontação não é o traço de caráter mais marcante de Lula da Silva. O homem é mais propenso a arreglos, conversas de corredor, negociações, acertos. Dizem que o fruto nunca cai muito longe da árvore. Será?

Sapo

Sapo

Imaginava-se que dona Dilma, filha política do Lula ― e não muié do hômi, como pensam alguns ― seguisse o exemplo do pai e padrinho. Não é o que se tem visto. Toda família tem sua ovelha negra, é verdade, mas a atual chefe do Executivo exagerou no contraste com relação a seu criador. Mais que negra, a ovelha saiu retinta.

Onde o Lula ― às vezes com certa ingenuidade ― procurava apaziguar e pôr panos quentes, dona Dilma não só prefere o enfrentamento, como ainda pisa com força. Tomemos o recente e atualíssimo caso dos segredos da agência americana de inteligência, bradados aos quatro ventos pelo trânsfuga Snowden.

A propósito, diga-se que, passados os quinze minutos de glória a que aspirava, o indiscreto funcionário periga ser esquecido nas estepes russas. Ele já disse o que tinha que dizer. Continuar a bater na mesma tecla, no fundo, não interessa a nenhuma das partes envolvidas, nem a espiões, nem a espionados. Insistir no assunto só pode aumentar o constrangimento de todos. Quanto ao funcionário indiscreto, fica a impressão de que, se arrependimento matasse, ele já estaria sob sete palmos de terra.

Voltando a dona Dilma, o fato de saber-se espionada, intolerável para sua autoestima, despertou seu caráter belicoso. É sempre arriscado imaginar qual teria sido a reação do Planalto se o presidente fosse outro. Mas é permitido acreditar que, caso o escândalo tivesse estourado durante o governo do Lula, ele teria refreado todo ímpeto de revide e teria procurado tirar o melhor proveito da situação. É seu feitio.

Já dona Dilma optou por arremessar o brinquedo ao chão e pisoteá-lo. Arreganhou os dentes, mostrou as garras, foi manchete nos jornais brasileiros durante dias, virou nota de rodapé até na mídia estrangeira. Mas, no frigir dos ovos, terá ganhado alguma coisa, terá auferido alguma vantagem? A pergunta fica no ar, mas receio que o resultado da agitação tenha sido nulo. Tudo continua como antes.

Estes dias, o jornal francês Le Monde noticiou, numa série de reportagens baseadas nas revelações do senhor Snowden, que membros do governo francês também estavam sendo monitorados pela inteligência americana. Não só homens políticos, mas também indústrias estratégicas. Qual está sendo a reação de Paris?

Sapo

Sapo

Durante três dias, Monsieur Hollande mostrou indignação, como manda o protocolo. Passada a tempestade, o presidente francês lembrou-se do sábio adágio segundo o qual, quando não se tem força para combater o leão, o melhor é aliar-se a ele.

O próprio Le Monde nos dá a informação ― repercutida pelo correspondente do Estadão ― de que Paris propõe aos serviços secretos americanos colaborar com a inteligência francesa. Coopération bilatérale é o que sugere o presidente, expressão que dispensa tradução. Surpreendente? Nem tanto.

Por um lado, Hollande mostra ao mundo que seu país não se compraz no papel de ator secundário na cena universal. Tem serviços de espionagem e contraespionagem, como todo Estado zeloso de sua importância. Foi mais esperto que nosso Planalto que, com sua tragicômica e exagerada indignação, deixou patente que não dispunha de meios para se defender. Por outro lado, Paris entendeu que juntar suas forças às do adversário é uma boa maneira de enquadrá-lo e de se inteirar de seus métodos.

Mostrar muque, afrontar, desafiar, fazer beicinho, comportar-se à moda do finado Chávez pode impressionar o distinto público interno, mas é sem efeito para resolver problemas externos. Talvez dona Dilma e seus ínclitos assessores consigam um dia entender esta verdade basilar: na política, às vezes, precisa engolir sapos sem fazer cara feia.

Não tenho muita fé, mas… a esperança é a última que morre.