Drone a preço de banana

Drones “a preço de banana”

José Horta Manzano

A prepotência e a ignorância são defeitos feios. Quando se dão as mãos e se juntam numa só pessoa, e se esse indivíduo for um líder poderoso, saia da frente: esse sujeito tem tudo para se tornar perigoso. Se tiver gênio violento, então, é pior. O distinto leitor e a graciosa leitora já sabem de quem estou a falar; é isso, do impagável Donald Trump, presidente dos outrora reverenciados Estados Unidos.

Sabemos a marca de excelência deixada por líderes como Churchill, De Gaulle e Mandela, que eram gente “do bem”. Sabemos também a repulsa deixada por ditadores como Stalin (o russo), Hitler (o alemão) e Idi Amin Dada (o ugandense), gente “do mal” que mandava e desmandava em regime ditatorial. Já na história dos grandes países democráticos, não se tem notícia de um chefe de Estado (e de governo) que tenha agido como Trump.

De fato, a personalidade do líder americano reúne violência, prepotência e ignorância, uma receita explosiva. A esse coquetel de qualidades adversas, se poderia acrescentar a teimosia.

Quando ele assumiu o poder clamando que acabaria com as guerras do planeta, pensava sobretudo em acabar com a invasão da Ucrânia pelas tropas russas. Não tendo tido o cuidado de analisar os antecedentes da guerra, imaginou poder passar por cima do país agredido e convencer Putin a retirar suas tropas. Tentou, convidou o russo a um encontro no Alaska, apregoou que estava tudo encaminhado. Mas não estava. O conflito contiua matando gente, e Trump largou o osso.

Faz um mês hoje, deu início a nova guerra, desta vez no Irã. O objetivo declarado era derrubar o regime, liberar o povo de um jugo violento e desumano, e suspender por completo o programa atômico do país. Imaginou que, decapitando o governo, o resto cairia por si só. Se tinha dado certo na Venezuela, por que não daria no Irã? Só que não deu. Por detrás da fachada, Trump descobriu uma organização do Estado calcada na estratégia militar: caído um soldado, surge imediatamente outro para substituí-lo. E assim por diante. Diferentemente do que Trump imaginou, nunca há vácuo de poder.

O extermínio dos cabeças do regime não alterou em nada a determinação dos que vinham atrás. Pior: uma agressão estrangeira é a melhor maneira de aglutinar o apoio popular. A massa de habitantes que hoje apoia o governo central há de ser bem maior que antes do começo da guerra. A ignorância de Trump e sua teimosia em tomar decisões pessoais sem consultar ninguém levaram um baque pesado desta vez. Ninguém sabe como ele vai conseguir sair desse atoleiro.

Invasão terrestre? Nem pensar! O Irã tem quase 100 milhões de habitantes espalhados por um território maior que o estado do Amazonas, todo constituído de vales espremidos entre altas montanhas, árido, quente. Daqui a um mês, temperaturas diurnas de 40°C ou 45°C já vão começar a ser registradas – e isso vai até outubro. Quem é que vai invadir a pé um território assim? Em cada curva da estrada, uma saraivada de metralhadora pode descer lá do topo. Impensável.

E agora, Mr. Trump? É verdade que ele sempre inventa lendas de vitória e de conquista, dirigidas a seu público. E seu público engole todas, como se verdade bíblica fossem. O resultado final, seja qual for a continuação do conflito, será positivo para o Irã e negativo para os EUA.

O Irã, país até outro dia olhado com certo desdém por causa dos aiatolás e de sua repressão sobre a população, subiu no conceito universal. Ironicamente, nem precisaram de bomba atômica para enfiar o agressor mais poderoso do mundo numa sinuca de bico. O país mostrou ser bom de briga. Não é amanhã que algum outro potentado ousará tomá-lo pela força. Como efeito colateral, encomendas de drones “a preço de banana” vão chover assim que a guerra acabar.

Quanto aos Estados Unidos, esta guerra vai-lhes ficar na História como um segundo Vietnã. Bem mais curto, menos sangrento, mas sempre estigmatizante. Uma guerra que não terá dado certo.

Bons de briga

José Horta Manzano

Tem gente que é de briga. Falo daqueles que já entram batendo pra só depois perguntar o que está acontecendo. São personalidades que não aparecem só no cinema: a vida real está recheada de gente assim, que gosta de um pega.

Giuseppe Garibaldi

Giuseppe Garibaldi

Muitos deles ‒ a maior parte, quero crer ‒ se contenta com descarregar a agressividade física num esporte qualquer. Se for esporte de combate, melhor ainda. Está aí um traço comum entre boxeadores, praticantes de luta-livre e de outras modalidades baseadas no enfrentamento corporal.

Há os que, sabe-se lá por que razão, não chegam a canalizar numa atividade esportiva o excesso de energia que carregam por dentro. Acabam por transformar-se no chefe tirânico, no marido brutal, no profissional descontrolado. São um estorvo para quem lhes cruza o caminho.

Há, enfim, os que vão até o fim e, desdenhando lutas de mentirinha, resolvem o problema ao pé da letra: tornam-se combatentes de verdade. Viram brigadores profissionais. Alguns chegam a ficar na História. É o caso de Giuseppe Garibaldi (1807-1882).

guerra-1No tempo em que professor ensinava e aluno aprendia, contava-se a história do aventureiro que ficou conhecido como «herói dos dois mundos». Nascido em Nice, numa época em que a cidade ia dormir italiana e acordava francesa ‒ e vice-versa ‒, Garibaldi era combatente de nascença. Na Itália, deixou imagem célebre. Patriota e general, teve vida movimentada. Não rejeitava pegar em armas, o que o levou a participar de numerosos embates militares.

Em meados dos anos 1830, desembarcou no Brasil. Atraído irresistivelmente por revoluções e batalhas, tomou parte ativa na Guerra dos Farrapos, ocasião em que conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, brasileira descendente de açorianos, então com 18 aninhos. É aquela que, mais tarde, ficou conhecida como Anita Garibaldi (1821-1849). Os dois tornaram-se inseparáveis companheiros de armas. Quando Giuseppe retornou à Itália, Anita o acompanhou. Para nunca mais voltar.

Rafael Lusvarghi

Rafael Lusvarghi

Dia destes, fiquei sabendo da história de um paulista de nome Rafael Lusvarghi, digno sucessor de Garibaldi. Muito jovem, já abraçou a vida militar ao engajar-se na Legião Estrangeira Francesa. Mais tarde, de volta ao Brasil, integrou a Polícia Militar por algum tempo. Quando espocou o conflito no leste da Ucrânia ‒ aquela região que luta pela independência ‒ Lusvarghi não hesitou: juntou-se aos separatistas.

Depois de muito lutar, o jovem está meio desiludido com o andamento daquela guerra, que não ata nem desata. Anda pensando em voltar ao Brasil, nem que seja por algum tempo. Talvez volte mesmo, mas é capaz de nem se estabelecer na pátria. Quem nasceu com espírito guerreiro não consegue sossegar nem ficar parado muito tempo. Em entrevista ao portal História Militar, Rafael Lusvarghi conta algumas de suas peripécias.

Interligne 18c

Quem quiser saber mais pode clicar aqui.

Crime e castigo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma notícia chamou ontem minha atenção, quando eu, já cansada com a rotina de traduções, me preparava para desligar o computador e relaxar.

Contava a história de uma mulher que havia ido buscar o filho de 5 anos na escola. O garoto foi ao encontro da mãe, alegre e saltitante como de hábito, e, mesmo diante da pergunta sobre como havia sido seu dia, negou que alguma coisa de especial houvesse ocorrido. A supervisora de ensino, que estava ao lado, decidiu então refazer a pergunta da mãe: “Tem certeza de que não tem nada mais a contar para sua mãe?”

O garoto abaixou a cabeça, constrangido, e acabou contando à mãe que naquela tarde havia desrespeitado a fila para entrar na sala de aula e, irritado com a demora, ao invés de pedir licença, havia empurrado uma coleguinha. Aturdida com aquele relato inesperado e sem saber ao certo como proceder, a mãe optou por não reagir de imediato. Manteve silêncio durante todo o trajeto de volta para casa, limitando-se a comentar que havia ficado muito triste com o comportamento do filho.

Briga 6Ao chegarem em casa, a mãe sentiu que estava na hora de ter uma conversa franca com o filho. Colocou-o de pé em frente a ela e, olhando-o bem fundo nos olhos, apontou a inadequação de seu comportamento e discorreu brevemente sobre as consequências da agressividade infantil. Em tempos de discussão da cultura do estupro, adicionou a advertência de que “não se deve bater em mulher”. Não bateu nele, não gritou, não o desqualificou. Com voz calma, disse apenas que, como castigo, ele deveria ficar isolado em seu quarto por algumas horas.

O menino assentiu. Foi para o quarto e ficou até a hora de dormir. Quando a mãe o procurou mais tarde para o jantar, ele pediu desculpas, abraçou a mãe e prometeu nunca mais repetir aquele gesto. Enternecida, mas ainda não inteiramente convencida de que o aprendizado havia se completado, a mulher resistiu o quanto pôde à tentação de mimá-lo. Aceitou o pedido de desculpas e, com cara séria, foi dormir.

Flor 8No dia seguinte, a caminho da escola, a mãe teve uma súbita inspiração para pôr um ponto final feliz naquele episódio. Parou em um mercado, levou o filho até a seção de floricultura e pediu que ele escolhesse uma flor para a coleguinha agredida. Orientou-o a entregar o presente, acompanhado por um pedido público de desculpas. O garoto assim fez. A menina, surpresa com a delicadeza do gesto, aceitou o presente, mas só concordou em abraçar o garoto e perdoá-lo quando autorizada pela própria mãe.

Mal consegui terminar a leitura da notícia. Uma onda forte de emoção tomou conta de mim, enchendo meus olhos de lágrimas. Por que uma história tão corriqueira como essa mexeu tanto comigo? Talvez por um motivo bastante singular: aconteceu no mesmo dia em que a presidente afastada enviou sua defesa por escrito à comissão do impeachment, alegando que “Herrar é Umano” ‒ ops, perdão ‒ errar é humano.

O vídeo educacional mais instigante a que já assisti abordava exatamente essa máxima. De forma criativa, um repórter interpelava uma mãe na antessala de um consultório médico: “A senhora concorda com a frase que diz que errar é humano?” A mulher respondia de chofre que sim. Na sequência, o repórter indagava: “Quer dizer que, se o pediatra de seu filho errar o diagnóstico ou a medicação, estaria tudo bem?“ A mulher, num pulo e com ar indignado, reagia com um sonoro não.

«A imaginação é uma faculdade fundamental de nosso psiquismo. O imaginário é tão velho quanto a humanidade. Nasceu e morrerá com ela.» by Michel Barthélémy (1943-), artista belga

«A imaginação é uma faculdade fundamental de nosso psiquismo. O imaginário é tão velho quanto a humanidade. Nasceu e morrerá com ela.»
by Michel Barthélémy (1943-), artista belga

Em outra cena, o mesmo repórter entrevistava um praticante de voo de asa delta e repetia a pergunta. Mais uma vez, o jovem, concentrado na tarefa de verificar a correta colocação do cordame, dizia concordar com a máxima, mesmo sem muita reflexão. O repórter prosseguia: “Quer dizer que, se você ou outra pessoa se distraírem durante a checagem de segurança do voo, você vai entender?” Horrorizado com a possibilidade de um acidente, o rapaz balançava negativamente a cabeça atônito e se voltava com mais afinco à tarefa que estava executando.

Não é preciso agregar nenhuma conclusão moralista ou moralizante a essas duas histórias. Cada um deve saber onde lhe apertam os calos. Quanto a mim, não tenho cabeça para refletir sobre nenhuma moral edificante para histórias tão contrastantes. Ainda estou flutuando sobre uma nuvem cor-de-rosa, meus ouvidos ainda embevecidos com o som diáfano de um coral de anjos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Tiro ao Álvaro

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«Na rua Dr. Sebastião Pereira, foi visitada ao escurecer do dia 10 a casa onde reside uma familia numerosa, mas que naquella occasião se achava ausente quasi toda.

Pessoa da casa, vendo duas cabeças assomarem para fóra do nivel do muro, desfechou um tiro de revólver, que fez em cacarecos uma telha e nada mais.»

Interligne 18e

Deu no Correio Paulistano de 12 de março de 1891, quase 125 anos atrás.

Para quem acredita que agressividade e violência sejam novidade, está aí a prova de que o mal é bem mais antigo. Por duas «cabeças assomadas» atirava-se sem aviso prévio.

Persistente, o faroeste continua vivo e forte!