Os presentes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Outro dia, em cima de um palanque, Bolsonaro exibiu uma camiseta cuja estampa pedia ao povo que votasse de novo nele em 2022. A favor dele, diga-se que a peça de roupa foi um presente que ele acabava de receber. A seu desfavor, porém, frise-se que nada o obrigava a desdobrar o acessório e exibi-lo urbi et orbi – à cidade e ao mundo. O gesto foi visto como campanha eleitoral antecipada, sujeita a sanções.

O Estadão aproveitou a deixa para fazer a conta dos presentes que o capitão recebeu. Desde que vestiu a faixa, já lhe fizeram mais de 6 mil presentes, somando objetos simples e artigos mais sofisticados, o que dá uma média de 7 por dia, sábados e domingos incluídos. Pelo regulamento, tudo é arrolado em lista mantida pelo setor de documentação da Presidência.

Entre insignificâncias como ímãs de geladeira, canetas, panelas, cafeteiras e panos de prato, há também ítens assaz significativos. Vamos citar alguns.

Identificação
Numa mostra de identificação de valores com o mandatário, o comando da Polícia Militar do RJ deu-lhe, de presente de Natal, uma baioneta. A delicadeza do mimo dá prova da meiguice de espírito que une presenteante e presenteado.

Confidencialidade
Visivelmente preocupados com vazamento de informações (ou, quem sabe, com informações que custam a vazar), 353 cidadãos lhe deram pen drives.

Prático e útil
Gravata é presente que a gente compra quando não tem ideia do que oferecer. Não sai muito caro e é útil, visto que todo homem, um dia ou outro, acaba usando. A lista já contabiliza 56 cidadãos que ofereceram gravata ao capitão. Entre os ofertantes do másculo adereço, estão os ministros Heleno e Lorenzoni. Mendonça, o advogado-geral da União, que corre atrás de uma vaga no STF, também teve a original ideia de agradar o chefe com uma gravata.

Camiseta
Só de camisetas, o capitão já tinha recebido 954 até o fim de abril. De lá pra cá, a coleção há de ter inchado. Se o distinto leitor tinha pensado em dar-lhe camiseta de presente, esqueça. As que ele ganhou já não cabem nas gavetas.

Premonição
O assessor Fábio Waingarten, aquele que foi jogado ao mar recentemente, é um visionário. Seguindo uma premonição, tinha dado ao chefe, já em janeiro passado, um colete salva-vidas. Só que o prognóstico furou: o afogado acabou sendo ele mesmo. Devia ter guardado o presente para si, talvez não afundasse.

Sem rancor
O embaixador da China no Brasil demonstrou não ser rancoroso. Apesar de todos os insultos que a nebulosa bolsonárica tem feito a seu país, presenteou o presidente com um vaso chinês em março do ano passado. Deve ser o objeto que aparece entre o presidente e a tela, na foto abaixo,

em que o mandatário mostra estar assistindo ao jogo do Brasil num canal de tevê amigo – o único a transmitir o jogo, pelo que me disseram. Expus minhas considerações sobre a foto em post separado.

Vade retro!
Cidadãos católicos, alarmados com as infidelidades de um presidente que já foi católico e hoje flerta com neopentecostais, já lhe deram 56 terços, 15 imagens de Nossa Senhora Aparecida e mais de 30 de outros santos. Até um frasco de água benta já lhe foi ofertado, que é pra ver se o capitão se emenda.

Como tem gente atrevida!
Certos gestos ousados não têm cabimento, mas tem gente que continua ousando. Talvez com boa intenção, 1.630 cidadãos cometeram o irreparável: deram um livro de presente ao presidente! Um livro! Como se sabe, o capitão associa o livro à cultura, e a cultura ao comunismo. Assim que abre o embrulho e descobre que é livro, joga longe e corre pra desinfetar as mãos. Com a chegada dessas centenas de livros, hão há mão que aguente.

Resumo da ópera
Se o distinto leitor tem intenção de fazer um mimo ao presidente, sugiro um objeto que, acredito eu, ainda não veio à cabeça de ninguém: uma vassoura. Nos tempos que correm, pode ser útil pra varrer a sujeira pra debaixo do tapete.

Lista dos corruptos

José Horta Manzano

É desagradável constatar, mas é a pura verdade: vivemos imersos na corrupção. Ela não está unicamente nas altas esferas da República. Está no quotidiano de todos, nas pequenas transgressões que fazemos sem prestar muita atenção. Somados, esses pequenos deslizes vão pesando na conta geral da percepção da corrupção.

A respeitada Transparency International acaba de publicar o índice global da corrupção, país por país, versão 2019. É assustador. São 180 países, alinhados como em lista de chamada escolar, não mais por ordem de prenome, mas por ordem de corrupção nacional.

Como na escola primária do meu tempo, a pontuação vai de zero (corrupção total e absoluta) a 100 (ausência absoluta de corrupção). Nenhum país consegue a façanha de levar zero nem 100. Viver num país de nota mínima significaria que, pra ganhar um beijo da namorada ou pra entrar de visita no prédio onde mora a avó, precisasse pagar – à namorada ou ao porteiro, conforme o caso. Em nenhum lugar se chega a esse ponto. Na outra ponta, nenhum país chega a levar um 100 pra casa.

Faz anos que o pior lugar da lista é ocupado pela Somália, imersa em guerra de clãs, lugar onde o poder do governo central não vai além dos portões do palácio. Lá fora, na vida real, mandam os chefes de guerra, todos levando uma Kalachnikof a tiracolo. Pra tudo, paga-se. A Somália ganhou nota 9, próxima do zero absoluto.

Os melhores se alternam nos dez ou doze primeiros lugares. Sobem um pouquinho, descem um pouquinho, mas estão sempre ali. Tomaram assinatura. São os países escandinavos, a Suíça, a Alemanha, a Holanda. Assim mesmo, nem a Dinamarca e a Nova Zelândia, que empataram em primeiro lugar, levaram 100. Ficaram no 87. É sinal de que, mesmo nesses países bem-comportados, muito discretamente, ainda se consegue dar um ou outro jeitinho. Coisa leve, hein!

Nas Américas, o Canadá é o primeirão, no 12° lugar mundial. Em seguida, surpreendentemente, vem o Uruguai, em 21°, mais bem colocado que França e EUA. Segue-se o Chile em 26°. Costa Rica, o próximo, só aparece bem mais abaixo, em 44° lugar. Daí pra frente, começa o elenco da vergonha. Quem estiver vendo a lista na tela do computador, tem de rolar um bocado até encontrar o Brasil.

Estamos em 106° lugar, um susto! Uma baciada de países esquisitos nos precedem, com índice de corrupção menos pesado que nós. Por exemplo: Albânia, Kosovo, Etiópia, Equador, Turquia, Indonésia, Marrocos, Benin, Ghana, Bulgária, Romênia, Senegal. Até nossos hermanos da Argentina nos deixam pra trás: estão em 66° lugar.

O mal é muito profundo. Mas alguém tem de ser o primeiro a dar o exemplo. Em vez de brigar por escola com partido ou escola sem partido, por que não inculcar na meninada os princípios da honestidade? Custa pouco e sempre pode dar algum resultado.

Terra do cruz-credo

José Horta Manzano

Você sabia?

Assalto 2Como faz a cada ano, o respeitado instituto mexicano Seguridad, Justicia y Paz publicou estudo que mede a criminalidade urbana no planeta. Divulgou a lista das 50 cidades mais violentas do mundo – pelo critério de número de homicídios em relação à população.

O país campeão estourado em matéria de violência urbana – o distinto leitor já deve desconfiar – é nossa amada Terra de Santa Cruz. Que digo? Santa Cruz? Está mais para cruz-credo!

A lista de 2013 trazia 16 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas do mundo. A edição 2014 não só confirma a presença das mesmas dezesseis como também acrescenta três: são agora 19. Em números redondos, quatro entre as dez cidades mais violentas – considerados todos os continentes e todos os países – se encontram no Brasil. Nosso País segue firme na vanguarda do crime. Nossa dianteira é de tal importância que dificilmente poderemos ser alcançados. Somos imbatíveis.

Crime 1Contrastando com as autoridades das outras 18 cidades brasileiras mencionadas no estudo, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não gostou de ver a capital do Estado mais uma vez na lista da vergonha.

Aderindo a estratégia muito em voga no Brasil atual, tentou menosprezar a mensagem e «desconstruir» o mensageiro. Criticou o instituto mexicano, sua metodologia e seus dados. Tentou desqualificar e desmerecer o estudo. Disse que estavam errados, que não era bem assim, que, no fundo, não se matava tanto em Goiânia.

Charge publicada no site Seguridad, Justicia y Paz

Charge publicada no site
Seguridad, Justicia y Paz

Mexeram em vespeiro. Tiveram direito a uma longa resposta, com números, fontes e tabelas, assinada pelo presidente do instituto. O artigo está em destaque no site da ong, exposto a quem quiser ler. As autoridades goianas atiraram no estafeta e acertaram o próprio pé. Para coroar, ganharam a charge que vai reproduzida aqui acima.

As 19 cidades brasileiras constantes da lista das 50 mais violentas do mundo em 2014 são as seguintes:

Posição   Cidade             Taxa(1)
———————————————————————————————————
04        João Pessoa        79,41
06        Maceió             72,91
08        Fortaleza          66,55
10        São Luís           64,71
11        Natal              63,68
15        Vitória            57,00
16        Cuiabá             56,46
17        Salvador           54,31
18        Belém              53,06
20        Teresina           49,49
23        Goiânia            44,82
29        Recife             39,05
30        Campina Grande     37,97
33        Manaus             37,07
37        Porto Alegre       34,65
39        Aracaju            34,19
42        Belo Horizonte     33,39
44        Curitiba           31,48
46        Macapá             25,45

(1) Homicídios intencionais por 100 mil habitantes

Para efeito de comparação, note-se que a taxa global brasileira beira 25 homicídios intencionais por 100 mil habitantes, número altíssimo.

Assalto 1É verdade que estamos numa situação menos sinistra que a infeliz Venezuela (45 por 100 mil). No entanto, estamos bem longe de uma Alemanha (0,8), de um Japão (0,4) ou de uma pacífica Hong Kong (0,2). Ainda temos longo caminho a percorrer. Será trabalho para as próximas gerações. Com sorte, os netos de nossos netos conhecerão um país mais civilizado.

Obs:
Quem quiser consultar o estudo completo do instituto, pode descarregá-lo, em língua portuguesa e em formato pdf, aqui.

Os poderosos

José Horta Manzano

Copacabana 5A Forbes publicou a lista de personalidades que, segundo seus critérios, são as mais influentes do ano.

Todos os primeiros 10 lugares da lista planetária são ocupados por governantes e personagens das finanças ou do mundo corporativo. É realmente gente que manda, gente que tem real poder.

Já na lista brasileira… a coisa é bem diferente. Entre os 20 primeiros, 9 são jogadores ou gente ligada ao futebol. Os demais são artistas ou pessoas ligadas ao espetáculo. Acrescente-se um autor de romances populares, um piloto de automóvel, uma supermodelo e a lista está completa.

Nenhum político e nenhum empreendedor. Faz sentido. A coisa vai e a coisa vem. Assim como o povo não significa grande coisa para os políticos – a não ser na hora da eleição, os políticos não representam grande coisa para os brasileiros.

A lista dos «poderosos» brasileiros é por demais eloquente: mostra que o ideal do brasileiro – futebol, novela, praia, gente bonita e pouca roupa – não é só um clichê.

Os dez mais poderosos no planeta:
1. Vladimir Putin      Presidente da Rússia
2. Barack Obama        Presidente dos EUA
3. Xi Jinping          Presidente da China
4. Papa Francisco      Chefe do Estado do Vaticano e da Igreja Católica
5. Angela Merkel       Primeira-ministra da Alemanha
6. Janet Yellen        Presidente do Banco Central Americano (FED)
7. Bill Gates          Fundador da Microsoft
8. Mario Draghi        Presidente do Banco Central Europeu
9. S. Brin & L. Page   Dirigentes do Google
10. David Cameron      Primeiro-ministro britânico

Coqueiro 1Os vinte mais poderosos do Brasil:
1. Neymar
2. David Luiz
3. Paulo Coelho
4. Ivete Sangalo
5. Gisele Bündchen
6. Daniel Alves
7. Pelé
8. Roberto Carlos
9. Caetano Veloso
10. Luciano Huck
11. Kaká
12. Luis Felipe Scolari
13. Cláudia Leitte
14. Ronaldo Nazário
15. Gilberto Gil
16. Felipe Massa
17. Chico Buarque
18. Romário
19. Muricy Ramalho
20. Angélica

Cada povo prestigia os melhores. Ou não?

Fontes:
Forbes
Hugo Gloss