Molecagens de um plantonista

José Horta Manzano

Onde já se viu juiz plantonista determinar soltura do Lula? Que vergonha esse carnaval que ele armou, gente! O mundo sabe que nosso país não é o primeiro da classe em matéria de organização, mas assim também já é demais. O observador estrangeiro, que acredita na seriedade de determinações judiciais, continua se esforçando pra manter o Brasil no rol dos países sérios. Mas está difícil.

Essa palhaçada montada pelo plantonista de Porto Alegre fez a mídia internacional correr feito barata tonta atrás da verdade. Se no Brasil já estava difícil acompanhar o ritmo frenético de ordens e contraordens, imagine a perplexidade que invadiu as redações de França, Oropa e Mongólia.

No domingo, o jornal televisivo das 19h disse que o Lula ia ser solto. O boletim radiofônico das 20h desmentiu. O televisivo das 22h reiterou. O portal informativo na internet disse outra coisa. Em virtude desse diz-que diz, o Lula acabou sumindo do noticiário nesta manhã de segunda-feira. É que, por não entender bem o que está acontecendo, a mídia decidiu abster-se. Até pra bagunça tem limite.

É a imagem do Brasil que se vai deteriorando a cada dia. O pior é que, no frigir dos ovos, bufonadas rasteiras como essa não servem a ninguém. O condenado continua encarcerado. E o país confirma seu lugar no clube dos subdesenvolvidos. O faroeste é aqui.

Ministros inamovíveis

José Horta Manzano

Ultimamente, os ministros do STF têm cometido barbaridades. Encorajados pela presença das câmeras de tevê e conscientes de que ninguém pode tirá-los de lá, têm dado espetáculo nem sempre edificante.

A Constituição tem sido alvo de interpretações no mínimo extravagantes. Certos ministros têm sido acusados de libertadores de corruptos. Outros se transformaram em justiceiros capazes de tudo pra mandar o maior número de acusados pra detrás das grades.

O Diário do Poder encomendou uma sondagem de opinião ao Instituto Paraná Pesquisas. Quis saber se os brasileiros estão de acordo com a vitaliciedade do cargo de ministro do STF. Dois mil e poucos eleitores de 26 Estados foram ouvidos.

Os resultados são surpreendentes: 64,3% dos entrevistados são favoráveis a um mandato limitado no tempo para ministros do STF. Isso dá quase dois em cada três brasileiros!

Aos entrevistados, foi proposto um leque de diferentes durações para o mandato: 8, 10, 12, 15 e 20 anos. A esmagadora maioria (81%) escolheu mandato de 8 anos. Desconfio que, se tivessem proposto mandato mais curto, muita gente teria preferido.

A ideia me parece interessante. Aquele que sabe que, ao fim do mandato, pode não ser reeleito (ou escolhido de novo) não tem comportamento de faroeste, como temos visto com tanta frequência.

Confira abaixo o resultado da pesquisa.

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Tiro ao Álvaro

José Horta Manzano

Interligne vertical 14«Na rua Dr. Sebastião Pereira, foi visitada ao escurecer do dia 10 a casa onde reside uma familia numerosa, mas que naquella occasião se achava ausente quasi toda.

Pessoa da casa, vendo duas cabeças assomarem para fóra do nivel do muro, desfechou um tiro de revólver, que fez em cacarecos uma telha e nada mais.»

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Deu no Correio Paulistano de 12 de março de 1891, quase 125 anos atrás.

Para quem acredita que agressividade e violência sejam novidade, está aí a prova de que o mal é bem mais antigo. Por duas «cabeças assomadas» atirava-se sem aviso prévio.

Persistente, o faroeste continua vivo e forte!

Quem não se comunica se estrumbica

José Horta Manzano

Comunico à Casa o comunicado que recebi do chefe da Casa Civil comunicando a demissão do ministro da Educação.”

Comunicação comunicada pelo deputado Cunha, que comunicou o comunicado que lhe havia sido comunicado pela Casa Civil. A obra-prima de oratória foi comunicada por todos os jornais.

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Tirando o cômico da cena, vamos aos fatos. O episódio escancara novo e flagrante exemplo de que a “Pátria Educadora” não passa de bordão vazio.

O cargo de ministro da Educação contém a palavra educação. Admite-se que, mortal, o titular da pasta carregue defeitos – como todos nós. Uma falha, no entanto, é inconcebível: que ele demonstre falta de educação. É o coxo zombando do perneta.

Faroeste 1Mais uma vez, fica patente que o Planalto tenta iludir a nação à custa de slogans. Esse da “Pátria Educadora” é apenas mais um, mera frase de efeito, inventada pra inglês ver.

Na hora do vamos ver, no momento crucial de escolher um ministro para a pasta estrategicamente mais importante da República – aquela que vai traçar o caminho das gerações futuras – quem é o agraciado? Um indivíduo tosco e mal-educado. Um indivíduo ao qual um papel secundário num filme de faroeste, ao lado de John Wayne, assentaria como luva. Já para encabeçar o Ministério da Educação, não serve.

Como no faroeste

José Horta Manzano

Batedores de carteira ― antigamente conhecidos no Brasil como punguistas, termo vindo direto da gíria portenha ― sempre existiram. Na Europa, hoje em dia costuma-se chamá-los pickpockets.

Em qualquer aeroporto do continente, estão espalhadas placas alertando os frequentadores sobre o risco que representam esses amigos do alheio. Há até quadrilhas especializadas nesse estranho esporte. Aproveitam-se de algum momento de distração que o estresse da viagem possa provocar num passageiro para subtrair-lhe algum pertence.

É um delito, sem dúvida. Mas a violência está ausente, o que retarda o efeito. Só mais tarde o lesado se dará conta do furto. Ficará chateado, enraivecido, furioso até, mas não terá sofrido o trauma do ataque cara a cara.

Embora faça parte da coleção de crimes contra o patrimônio, está mais próximo do conto do vigário do que do assalto à mão armada.

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Sou do tempo em que arrastão era apenas o nome, aliás bem sugestivo, de um tipo de pesca. Elis Regina, nos anos 60, projetou-se no cenário artístico nacional justamente na garupa desse sucesso escrito por Vinicius de Morais e esplendidamente musicado por Edu Lobo.

A pesca de arrasto tem sido incluída ― com razão ― no rol das colheitas predatórias. Como o método não é seletivo, o que cair na rede é peixe. O método não faz diferença entre espécies, nem separa espécimes adultos de presas jovens. Arrasta tudo o que estiver pela frente e contribui para prejudicar a reprodução da fauna marinha. Se todas as pescas seguissem a mesma receita, não demoraria muito para que os oceanos perdessem seus habitantes.Diligencia

Nos últimos anos, o sentido da palavra se alargou. Infelizmente, para um lado pouco musical, nada piscoso, mas assaz inconveniente. Embora seja um quase sacrilégio utilizar o termo no novo sentido, vem sendo empregado para designar os covardes assaltos coletivos que se amontoam no noticiário nacional.

O pior é que os adeptos do novo «esporte» não se restringem ao território tupiniquim. Pode até ser que a expansão da nova modalidade de violência além-fronteiras seja mera emulação do original brasileiro, uma espécie de exportação da nova variedade criminosa. Eu não acredito nessa hipótese, contudo. Levando em conta que somos bilhões no planeta, não é impossível que a mesma ideia tenha surgido espontaneamente na cabecinha tortuosa de delinquentes juvenis do outro lado do oceano.

Faz quase dois meses, contei-lhes a história do primeiro arrastão europeu de que tive notícia. Foi num artigo publicado aqui em 4 de fevereiro. Quem saltou o capítulo que não perca o vale a pena ver de novo. Aqui.

Pois imaginem que a moda está pegando. Aconteceu outra vez. Foi de novo na França, desta vez num trem de subúrbio, faz pouco mais de uma semana. Um bando de 20 a 30 pessoas atacou os passageiros. Parece que a cena foi violenta. Arrancaram dinheiro, celulares e joias dos atônitos viajantes. Alguns dos agressores carregavam até bombonas de gás lacrimogênio para aturdir vítimas mais recalcitrantes. Fugiram a pé, como se usa fazer no Brasil.

Compreende-se a impossibilidade de que um policial seja postado, de plantão, em cada vagão. Que fazer, então?Diligencia 2

Não sei. Para começar do começo, vão ter de inventar um termo para tipificar a nova modalidade de crime. Por enquanto, vem sendo feita uma analogia com o que se costuma ver em filmes de faroeste. O novo tipo de assalto vem sendo chamado de «ataque à diligência».

Confira aqui, aqui e aqui.