Motor lento

José Horta Manzano

Atiçar a paranoia presidencial é mau negócio. Weintraub, ministro da Educação, parece ser lento no aprendizado. Já andava meio assim assim, balança mas não cai, como bêbado tentando caminhar no meio-fio. Descabeçado, provocou de novo o iracundo chefe. Pisou-lhe bem no calo que dói. E com força! Fez o que não devia: repercutiu a seus seguidores um tuíte alheio que tratava o presidente de traidor. Nem mais nem menos – traidor! Com isso, não só assegurou que concordava com a afirmação, como também ajudou a propagar a difamação.

Apagou depois, em tentativa de jogar a sujeira pra debaixo do tapete. Mas o estrago estava feito. O que as modernas tecnologias têm de efêmero têm também de indelével. Parece paradoxal ser descartável e eterno ao mesmo tempo, mas assim é. Antigamente, para apagar um escrito, bastava jogar a folha de papel no lixo. Hoje mudou. Cada letrinha que se escreve fica gravada para sempre. Tudo estará estocado nalgum banco de dados ultrassecurizado em Utah ou nas redondezas. E lá permanecerá até o dia do Juízo Final.

Weitraub, que não passa de peixinho, está assustado com o peixe graúdo que o nomeou ministro. Tem um medo danado de perder a boquinha. Tratou de dar explicação para mitigar a ofensa feita ao chefe. Disse que está num navio e, sacumé, fica horas sem internet. Pergunto eu: que tem uma coisa a ver com a outra? Caso houvesse internet o tempo todo, Sua Excelência teria se comportado de modo diferente? Essa é muito boa. Atribuir os próprios erros à falta de internet… Só faltava.

Vamos supor que, para economizar, Weintraub tenha dispensado o avião para embarcar num navio cargueiro em direção a Miami, aonde deve chegar daqui a uns 15 dias, se tudo correr bem. Numa embarcação dessas, internet realmente funciona piscando feito vagalume. Mas ninguém acredita que ele esteja num cargueiro filipino. Olhe, minha gente: pra encontrar navio sem internet, hoje em dia, precisa procurar muito. Ou alguém imagina que aqueles imponentes palácios flutuantes que carregam milhares de turistas em cruzeiro pelo Caribe não dispõem de internet?

Mentira tem perna curta. Tenho a impressão de que senhor Weintraub não vai esquentar cadeira no ministério da Educação por mais muito tempo. Quem sabe a Instrução Pública tem agora uma pequena chance de entrar nos trilhos? Não tenho muita esperança, mas tudo é possível. O tempo dirá.

Um bunker no Arizona

José Horta Manzano

Todo o mundo está liberado pra fazer coisa errada. A prática funciona, leve e solta, até que nos apanhem com a boca na botija. Aí, o angu encaroça. Todos fazemos diariamente o que devemos e o que não devemos, o que podemos e o que não podemos. E o barco segue tranquilo até o dia em que o erro é descoberto. Aí… catapum! Vêm as consequências.

A vida é assim, todos somos assim, o fenômeno é banal. Todos fazemos besteira. Um conselho antigo diz: «Se cometer malfeito, não deixe rastro». Doutor Moro se descuidou, não seguiu o conselho e se estrepou. Talvez os anos de magistratura lhe tenham inculcado a certeza de ser invulnerável. Talvez tenha botado fé exagerada na inviolabilidade de mensagens eletrônicas. O fato é que ele bobeou e acabou deixando rastro. Fez como o gato que se esconde e deixa o rabo de fora. Tamanha ingenuidade por parte de pessoa erudita e antenada surpreende.

Faz décadas que acredito que todas as conversas telefônicas são gravadas e conservadas em algum lugar. Hoje em dia, com as facilidades de armazenagem de material digital, tenho a convicção de que todas as mensagens – de som ou de texto – são recolhidas e armazenadas nalgum bunker enfurnado num deserto do Arizona ou do Colorado. Não é imaginável que todas sejam lidas. Mas ficam lá pra uso em caso de necessidade.

O que o distinto leitor e eu dizemos ou escrevemos não é de interesse público. São palavras inconsequentes, sem nenhuma incidência sobre a rotação do planeta. Já o que diz ou escreve um figurão como doutor Moro interessa, sim, a muita gente. Principalmente quando, em conversa clandestina, ele escreve o que não deve e envia a um correspondente com quem não devia estar-se correspondendo.

Mas agora o mal está feito. O moço foi apanhado com os dedos enfiados no pote de geleia. E com a boca lambuzada. Não tem como se esquivar. O que me surpreende é a veemência com que certos blogueiros e articulistas tentam negar a realidade. É esforço jogado fora, minha gente, que o rei está nu. O que interessa é saber o que vai acontecer daqui para a frente. O fato de os dados terem sido obtidos de modo ilegal não anula a ilegalidade da troca de mensagens. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.