Pacto oligárquico

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José Horta Manzano

O distinto leitor que costuma passear por este modesto blogue por certo entende a frase do ministro. Mas não é o caso de meio Brasil. Metade de nossos conterrâneos, ainda que fizessem o esforço de consultar dicionário pra descobrir o significado de cada palavra, dificilmente conseguiriam captar a concatenação.

Recorde-se que o «exame da Ordem», que todo bacharel em Direito tem de enfrentar se quiser obter o brevê de advogado, expõe a catástrofe da Instrução Pública no país: em média, nove entre dez candidatos são reprovados. Triste Brasil.

Após treze anos de domínio absoluto do lulopetismo ‒ capitaneado por aquele partido que prometia a redenção nacional ‒, o que é que temos? Um terço da população dependendo da bolsa família para sobreviver ‒ e sem perspectiva de sair da miséria. Diplomados da faculdade sendo reprovados no exame de entrada na profissão que escolheram. Sessenta mil homicídios por ano, taxa superior a qualquer país em guerra. A mais profunda recessão que o país já conheceu.

Chega. Não vou repetir aqui a procissão de misérias que nos assolam. Vale apenas constatar que os que nos governaram desde 2002 não entregaram o que haviam prometido. No mínimo, são tratantes. Mas fizeram pior. Além de nos terem vendido gato por lebre, deram forte contribuição para engrossar o tal «pacto oligárquico».

Do grego olígos (pouco) e archía (autoridade, supremacia), a oligarquia designa o domínio exercido por um pequeno grupo. É termo perfeito para exprimir o Estado brasileiro. Pensar que nascimento, vida e morte de duzentos milhões de almas são regulados por um reduzido número de integrantes de nossa nomenklatura! É de dar arrepio!

O ministro mencionou «agentes públicos e privados». Com isso, quis sublinhar que o grupinho oligarca inclui não só políticos, mas grandes empresários. Todos se beneficiam do sistema. A Lava a Jato desmascarou os mais importantes, mas ainda há muita poeira debaixo do tapete.

O sistema é relativamente simples. A oligarquia tem o domínio sobre os cofres públicos. O grosso da população não se dá conta de que aquele tesouro pertence a todos nós. Os poucos que percebem a realidade gritam no deserto ‒ ninguém lhes dá ouvidos. Em consequência, o grupelho lá de cima se sente à vontade pra se servir do tesouro que é de nós todos.

O grão-mestre, que dirigiu a orquestra dos oligarcas durante 13 anos, não foi (nem será) julgado pelo estrago que infligiu aos brasileiros. Como o sanguinário Al Capone, que só pôde ser sentenciado por evasão fiscal, nosso demiurgo foi condenado por uma sombria história de propina materializada por um apartamento. Uma ninharia perto das artes que o homem fez.

Agora, com medo da cadeia, esperneia. Vendo-o condenado por dois tribunais, o brasileiro de bem achou que era o fim da viagem. Só que… agora entra em cena a nomenklatura, a oligarquia. Lá no andar de cima, estão todos incomodados. O acusado é um deles, faz parte do grupo. Se ele cair, os demais estarão em perigo. Uma providência precisa ser tomada.

A decisão que o STF tomará amanhã se anuncia apertada. Nenhuma sondagem de boca de urna é capaz de predizer, neste momento, o resultado. Conseguirá a oligarquia preservar seu domínio? Ou vai abrir-se a brecha que anuncia o esvaziamento da nomenklatura atual?

Seja como for, visto o nível de instrução do brasileiro médio, a oligarquia ainda tem muita lenha pra queimar. Ainda que alguns integrantes caiam em desgraça, logo serão substituídos. E a vida vai seguir.

Biografias não autorizadas

José Horta Manzano

MPB ― novos rumos by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

MPB ― novos rumos
by Marco Aurélio, desenhista gaúcho

O distinto público está meio perdido com a celeuma que ferve estes dias em torno de biografias não autorizadas. Devem ser publicadas ou não? Parece briga de velho ― os envolvidos já são cidadãos entrados em anos.

As más línguas diriam que, depois de passarem a vida sustentados por seus fãs, esses artistas agora os desprezam, já que não precisam mais deles. Os admiradores se sentem órfãos e, com razão, descartados. É como se estivessem sendo atirados ao lixo como um objeto que não tem mais serventia.

Por outro lado, sejamos justos, é natural que a maioria das biografias retratem o percurso de figuras de uma certa idade. A vida de artistas de 20 aninhos ainda tem páginas em branco a serem escritas mais adiante.

Biografia 3O fato é que esse bate-boca está parecendo briga de cortiço. Fica no ar a impressão de que os que resistem a ser biografados têm muito podre a esconder.

No entanto, há uma solução simples. Não é a panaceia, mas pode acalmar a situação. Basta que os que se sentem incomodados encarreguem um escritor ou um jornalista de escrever a história de sua vida. Que mandem escrever um paralelepípedo de 800 páginas, cheio de detalhes, de fotos, de causos. Há que contar algumas passagens picantes, se não, ninguém vai se interessar. Mas podem silenciar sobre episódios que não queiram desvendar.

Pronto, não é a solução milagrosa, mas é um compromisso entre o sim total e o não absoluto. Pelo menos, acabam com essa querela de baixo nível. Entre mortos e feridos, salvar-se-ão todos.