Segunda língua

José Horta Manzano

Fiquei sabendo estes dias que senhor Abraham Weintraub, nosso peculiar ministro encarregado da Instrução Pública, lançou crítica pesada contra um certo programa Idiomas sem Fronteiras, lançado em 2014 e destinado a permitir a universitários a aquisição de uma língua estrangeira.

Confesso que, até ontem, desconhecia a existência desse programa. A mídia informa que o ministro determinou a descontinuação do projeto por estar ele sendo usado principalmente para «pagar o Teste de Inglês como Língua Estrangeira». Não entendi bem. Certas noções me superam. Devo estar ficando velho. Será que esse teste é tão caro que precisa de um programa governamental pra financiá-lo? Certamente entendi mal.

Pouco importa. Uma coisa entendi: no Brasil, a expressão língua estrangeira é sinônimo de inglês. Não parece haver ninguém se inscrevendo no programa pra «pagar o teste» de alemão, de francês ou de russo, pois não? Nesse ponto, o Brasil me lembra a China. Lá também o inglês é A língua estrangeira. Todos os chineses acreditam que, dominando a língua inglesa, estarão aptos a comunicar-se com o mundo todo. Ficam visivelmente desnorteados quando encontram um estrangeiro que não entende inglês.

Entendi outra coisa também. E esta é mais grave. Entendi que centenas de milhares de jovens – universitários! – precisam de um programa para aprender a primeira língua estrangeira. Isso significa que, no Brasil, a juventude chega à maioridade mergulhada na pobreza do monolinguismo. Será que isso quer dizer que, nestes tempos de internet, viagens internacionais superfacilitadas, intercâmbios accessíveis, companhias aéreas de baixo custo, telefone internacional gratuito (e com imagens!), os brasileirinhos estão condenados a viver dentro dos limites da língua pátria?

É destino cruel e excludente. Reforça a desigualdade social ao permitir que somente os bem-nascidos tenham direito a desabrochar num horizonte multilíngue, aberto para o mundo. Só quem tem dinheiro pode suprir o que a escola não dá. O populacho está irremediavelmente condenado a passar a vinda assistindo a filme dublado ou legendado, a viajar em grupo com direito a intérprete, a não entender nem jornal, nem gibi, nem mesmo letreiro de loja escrito em «estrangeiro». Que horizonte afunilado!

Aprendizado de língua estrangeira deveria ser intensivo e começar nos primeiros anos de escola. Nos tempos de antigamente, quando este blogueiro frequentava as carteiras escolares, aprendíamos latim, francês e inglês. Em escola pública, frise-se. O ensino do latim e do francês começava no primeiro ano de ginásio, que corresponde ao quinto ano de estudos. O inglês era dado a partir do ano seguinte. Dependendo do ano, eram duas, três ou quatro aulas semanais de cada uma dessas línguas. A gente chegava à maioridade, se não dominando o inglês e o francês, pelo menos com muito bons conhecimentos. Por que será que não é mais assim?

Um Lula, uma Dilma e um Bolsonaro são produtos do monolinguismo. Vivem imersos num mundinho fechado, sem abertura para o resto do planeta. Dependem de intérprete pra todas a situações. Sozinhos no estrangeiro, não encontram nem o caminho do banheiro. Se tivessem tido a chance de aprender na escola uma segunda língua, o Brasil seria um país diferente. Pena que não foi assim. Quem sabe, um dia, a coisa muda?

2 pensamentos sobre “Segunda língua

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