O fator humano ‒ 5

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A cena aconteceu dentro de um hospital psiquiátrico, no qual eu realizava um estágio obrigatório de formação em psicologia clínica.

O psiquiatra-chefe do hospital, que também era nosso professor na faculdade, distribuía os prontuários aleatoriamente entre os estudantes. A mim coube uma paciente esquizofrênica, internada havia já muitos anos, sem sinal de remissão. Nos últimos meses ela estava sendo submetida a diversas sessões de eletrochoque, aparentemente como última tentativa de trazê-la de volta à realidade.

Acontece que, durante as aulas, meu professor havia feito menção ao fato de que essa forma de terapia não era recomendada por longo tempo, dado o risco de o paciente demenciar. Intrigada, fui ter com ele para conhecer os motivos da contradição entre teoria e prática.

Ao verificar a ficha, ele pareceu ficar extremamente contrariado. Acreditei por alguns segundos que alguém da equipe de enfermagem houvesse desrespeitado suas instruções. Não era isso. A orientação havia partido dele mesmo. Indignada, confrontei-o de forma agressiva. Olhando bem no fundo dos meus olhos, ele explodiu, dizendo: “O que você queria que eu fizesse? Tenho que me sustentar, pagar os estudos de meus filhos e ainda pagar minha análise…. O que você esperava? Que eu fosse vender banana na feira?”

Com a inconsequência típica dos jovens que ainda podem contar com o respaldo dos pais para sobreviver e cheia de fúria pseudomoralista, respondi de pronto: “Me desculpe, mas se eu estivesse no seu lugar, preferiria vender banana na feira! Pelo menos, não teria de pagar terapia para minimizar a consciência de culpa…”

Quando terminei de vomitar tudo o que tinha a dizer, percebi que havia ultrapassado todos os limites da boa educação, do respeito a um mestre e até os de civilidade. Mas já era tarde. Sem dizer uma só palavra, ele permaneceu de pé, com o prontuário na mão, olhando para mim como se se perguntasse como poderia retrucar. Não disse nada.

Alguns dias depois, cruzei com ele nos corredores da faculdade. Ele estava saindo da sala da congregação. Tinha os olhos vermelhos e fungava baixinho. Assustada, perguntei: “Você está resfriado ou está chorando?”

Ele respondeu com aparente naturalidade: “Não, não estou resfriado. Estou chorando mesmo”. Fui inundada por uma sensação de culpa e de vergonha. Imaginei que alguém levara à direção da faculdade a informação sobre o que havia ocorrido com minha paciente e que, consequentemente, ele havia sido punido. Angustiada, pedi desculpas por meu comportamento agressivo na semana anterior e perguntei o que poderia fazer para corrigir a situação. Sabia que ele era um profissional respeitável, sério e sensível.

Sem nem mesmo parar de andar, ele respondeu com um meio sorriso: “Não se preocupe. Acabo de saber que fui contratado em período integral pela faculdade”. Foi minha vez de me emocionar. Era uma mistura de alívio e de orgulho por não ter tido medo de lhe dizer a verdade. Sem saber, havia sido responsável por muita reflexão por parte dele e por sua feliz mudança de rumos de carreira.

Por que conto essa história? Simples, estou sem trabalho há vários meses e extremamente ansiosa para descobrir como fazer frente a despesas extras no final do mês. Uma vozinha lá no fundo da minha consciência avisa que o melhor a fazer daqui para a frente seria começar a me preparar para armar minha barraca na feira e identificar logo fornecedores confiáveis desse fruto tão saboroso que é a banana…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O fator humano ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Um colega da faculdade de psicologia estava realizando um trabalho de observação do padrão de teias fabricadas por aranhas de diversas espécies, para a cadeira de etologia. Querendo causar boa impressão, ele havia coletado diversas espécies nativas e importado outras, visando a uma análise comparativa. Para facilitar a visualização das teias, acomodou as aranhas dentro de caixas de sapato revestidas com um tecido preto e iluminadas por baixo.

Extremamente preocupado para que nada nem ninguém interferisse no comportamento natural das aranhas, tão logo terminava de fazer suas anotações do dia, ele trancava a porta do quarto. Certo dia, apressado para um compromisso de trabalho, ele saiu e esqueceu a porta aberta. Horas depois, ao voltar para casa, encontrou a faxineira nervosa, sentada no sofá da sala, à espera dele. Sem dar tempo para qualquer reação, a mulher começou a reclamar da falta de confiança e de reconhecimento por parte dele. Falava de seu zelo na manutenção da higiene da casa, do seu orgulho de limpar os cantinhos mais escondidos para se certificar de que tudo estava na mais perfeita ordem, e por aí vai.

Sem entender o que estava acontecendo, meu colega a interrompeu: Onde você está querendo chegar? O que foi que aconteceu de diferente hoje? Com ar horrorizado, a faxineira emendou, triunfante: “Então, hoje eu finalmente consegui limpar aquele quarto que está sempre trancado. O senhor não faz ideia da sujeira que encontrei lá. Tudo empoeirado, cheio de teia de aranha, um nojo! E o senhor nem imagina o monte de aranhas que eu achei dentro das caixas. Quase morri do coração de tanto susto… Mas o senhor não precisa se preocupar. Já matei todas e limpei tudo bem direitinho!”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pacto oligárquico

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José Horta Manzano

O distinto leitor que costuma passear por este modesto blogue por certo entende a frase do ministro. Mas não é o caso de meio Brasil. Metade de nossos conterrâneos, ainda que fizessem o esforço de consultar dicionário pra descobrir o significado de cada palavra, dificilmente conseguiriam captar a concatenação.

Recorde-se que o «exame da Ordem», que todo bacharel em Direito tem de enfrentar se quiser obter o brevê de advogado, expõe a catástrofe da Instrução Pública no país: em média, nove entre dez candidatos são reprovados. Triste Brasil.

Após treze anos de domínio absoluto do lulopetismo ‒ capitaneado por aquele partido que prometia a redenção nacional ‒, o que é que temos? Um terço da população dependendo da bolsa família para sobreviver ‒ e sem perspectiva de sair da miséria. Diplomados da faculdade sendo reprovados no exame de entrada na profissão que escolheram. Sessenta mil homicídios por ano, taxa superior a qualquer país em guerra. A mais profunda recessão que o país já conheceu.

Chega. Não vou repetir aqui a procissão de misérias que nos assolam. Vale apenas constatar que os que nos governaram desde 2002 não entregaram o que haviam prometido. No mínimo, são tratantes. Mas fizeram pior. Além de nos terem vendido gato por lebre, deram forte contribuição para engrossar o tal «pacto oligárquico».

Do grego olígos (pouco) e archía (autoridade, supremacia), a oligarquia designa o domínio exercido por um pequeno grupo. É termo perfeito para exprimir o Estado brasileiro. Pensar que nascimento, vida e morte de duzentos milhões de almas são regulados por um reduzido número de integrantes de nossa nomenklatura! É de dar arrepio!

O ministro mencionou «agentes públicos e privados». Com isso, quis sublinhar que o grupinho oligarca inclui não só políticos, mas grandes empresários. Todos se beneficiam do sistema. A Lava a Jato desmascarou os mais importantes, mas ainda há muita poeira debaixo do tapete.

O sistema é relativamente simples. A oligarquia tem o domínio sobre os cofres públicos. O grosso da população não se dá conta de que aquele tesouro pertence a todos nós. Os poucos que percebem a realidade gritam no deserto ‒ ninguém lhes dá ouvidos. Em consequência, o grupelho lá de cima se sente à vontade pra se servir do tesouro que é de nós todos.

O grão-mestre, que dirigiu a orquestra dos oligarcas durante 13 anos, não foi (nem será) julgado pelo estrago que infligiu aos brasileiros. Como o sanguinário Al Capone, que só pôde ser sentenciado por evasão fiscal, nosso demiurgo foi condenado por uma sombria história de propina materializada por um apartamento. Uma ninharia perto das artes que o homem fez.

Agora, com medo da cadeia, esperneia. Vendo-o condenado por dois tribunais, o brasileiro de bem achou que era o fim da viagem. Só que… agora entra em cena a nomenklatura, a oligarquia. Lá no andar de cima, estão todos incomodados. O acusado é um deles, faz parte do grupo. Se ele cair, os demais estarão em perigo. Uma providência precisa ser tomada.

A decisão que o STF tomará amanhã se anuncia apertada. Nenhuma sondagem de boca de urna é capaz de predizer, neste momento, o resultado. Conseguirá a oligarquia preservar seu domínio? Ou vai abrir-se a brecha que anuncia o esvaziamento da nomenklatura atual?

Seja como for, visto o nível de instrução do brasileiro médio, a oligarquia ainda tem muita lenha pra queimar. Ainda que alguns integrantes caiam em desgraça, logo serão substituídos. E a vida vai seguir.

Cotas raciais & apartheid

José Horta Manzano

Faz pouco mais de meio século, metade do continente africano era colônia francesa. A partir dos anos 1960, guerras e revoluções deram origem a processos de separação. Região após região, todas foram se libertando da metrópole.

Independência política, no entanto, não rima com independência cultural. Praticamente todos os novos países guardaram o francês como língua oficial e de cultura, ainda que nem sempre seja o idioma do dia a dia da população. Essa forte ligação com o antigo colonizador gerou forte pressão migratória em direção à metrópole.

A rápida expansão econômica ocorrida na Europa do pós-guerra constituiu as três décadas ditas «gloriosas»: 1950, 1960 e 1970. O reerguimento requereu importante quantidade de mão de obra. Na França, isso favoreceu maciça imigração proveniente das antigas colônias do Oriente Próximo (Argélia, Tunísia e Marrocos) e da África negra.

Chamar de «quilombos» seria rematado exagero, mas o fato é que essas populações forasteiras se instalaram nos arredores das grandes cidades, em conjuntos habitacionais construídos para classes menos favorecidas. O tempo passou. Hoje já estamos na terceira geração dos que vieram com a primeira onda de imigração. Boa parte dos descendentes continua vivendo nos mesmos conjuntos periféricos.

Por numerosos fatores que incluem baixa escolaridade dos mais velhos, condições econômicas precárias, diferenças de cultura religiosa e dificuldades de integração na sociedade francesa, os jovens dessa terceira geração chegam ao final do ensino médio com nível de aprendizado inferior ao da média nacional. É válido comparar o drama desses jovens ao dos brasileiros oriundos de camadas mais humildes: ambos os grupos enfrentam os mesmos desafios.

A solução encontrada por Paris e por Brasília, no entanto, não foi a mesma. A França reconheceu que o problema vem da base e é por lá que tem de ser resolvido. Tem reforçado o ensino médio dessas regiões. Os professores vêm sendo especialmente treinados para lecionar nas escolas da periferia. Por seu lado, o currículo é adaptado às necessidades específicas dessa franja da população. O objetivo é fazer que o certificado de conclusão da escola média desses alunos tenha o mesmo valor que o dos demais franceses. A partir daí, cada um seguirá seu caminho. Os que optarem por prosseguir os estudos estarão em pé de igualdade com os outros jovens do país.

Já as autoridades brasileiras, a meu ver, enveredaram por caminho equivocado. Deram de barato que a qualidade atual do ensino médio é insuficiente para certos contingentes populacionais ‒ e que assim continuará pela eternidade. Para dar um «empurrãozinho» nos que não têm lastro suficiente para seguir estudos universitários, arquitetaram um engenhoso sistema de quotas. É um achado. Disfarça as lacunas de aprendizado de alguns alunos e dá um jeitinho de pô-los na faculdade. Para coroar o equívoco, desprezaram a seleção por nível econômico e preferiram selecionar por critérios raciais.

Dos grandes países, o Brasil é de longe o mais miscigenado. Tentar estabelecer categorias raciais aqui é insensato. De fato, por impossível, nenhum critério para definição de raça foi instituído. A seleção funciona na base do olhômetro. Pardos e mulatos, que são produto do cruzamento de raças, têm sido arbitrariamente classificados como «afrodescendentes» quando, na verdade absoluta, são também eurodescentes. Não ficou esclarecido por que razão a ascendência africana sobrepujaria a europeia.

Os resultados deletérios já começam a aparecer. Denúncias de fraudes na autodeclaração racial pipocam nas universidades federais. Comissões estão para ser criadas com o fim específico de avaliar a veracidade de propósitos de candidatos autodeclarados negros ou mulatos. A que ponto chegamos! Na falta de elementos objetivos, dependemos de «comissão julgadora» para determinar a «raça» de cada indivíduo.

Na Europa, onde a simples menção à noção de raça dá arrepios, soluções como essa adotada pelo Brasil são inconcebíveis. A memória coletiva ainda carrega o horror da seleção racial instituída pelos nazistas nos anos 1930 e 1940, quando se ensinava à população como reconhecer judeus pela aparência.

Às vezes tenho a impressão de que estamos no caminho acelerado de instituir um apartheid à brasileira. Separação, cada um no seu canto, proibição de casamento interracial. Banheiros, bares, restaurantes, escolas, hospitais e bairros distintos para cada um, dependendo da raça determinada por uma comissão específica. Cada um carregará no bolso um documento oficial atestando a denominação racial que lhe tiver sido atribuída.

Cruz-credo! Nosso futuro está cada dia menos risonho.

Frase do dia — 313

«A política educacional só tomará o rumo necessário se o populismo for abandonado e a qualidade, revalorizada. Perdeu-se tempo alargando as portas de ingresso em faculdades, enquanto se desprezava a boa formação fundamental e média.

A exigência de boa formação em linguagem, matemática e ciências foi rotulada como preconceito elitista, como se nos países mais capazes de competir e de gerar bons empregos a educação fosse tratada com populismo e descuido. A recriação de um país próspero vai dar muito mais trabalho que a mera reativação da economia.»

Rolf Kuntz, jornalista, em artigo publicado pelo Estadão, 14 ago 2016.

Pensa que é só aí?

José Horta Manzano

A Suíça é conhecida por várias particularidades ‒ todas boas, em princípio. Tranquilidade, honestidade, qualidade de vida são conceitos que distinguem este país. A excelência da hotelaria é proverbial: numerosos cinco estrelas ao redor do planeta fazem questão de que o diretor tenha sido formado por escola suíça. Se o profissional for suíço, então, melhor ainda.

Escola 4Ensino superior é outra área em que o país é respeitado. Famílias abastadas do mundo inteiro mandam filhos estudar na Suíça. Há estabelecimentos para todos os gostos, desde escola elementar até ensino altamente especializado. Sem esquecer os institutos que preparam moçoilas para tornar-se futuras socialites ‒ não estou brincando, é a pura verdade.

Uma curiosidade: Kim Jong-un, atual ditador da Coreia do Norte, passou quatro anos da adolescência numa escola suíça em Berna. Para não dar na vista, foi inscrito sob nome falso. Dizem que era bom em Matemática e que adorava basquetebol.

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Situada em Genebra, a Escola Superior de Gestão (Haute école de gestion) faz parte do seleto clube de estabelecimentos de ensino mundialmente renomados. Forma ‘Bachelors of Science’ e ‘Masters of Science’. Este 21 jan° era dia de prova de fim de semestre.

Assim que receberam as folhas de exame com as questões impressas, os alunos descobriram, incrédulos, que a última página trazia todas as respostas. Tratava-se de um erro de impressão, naturalmente. Os documentos não tinham sido previamente conferidos. Em todo caso, o mal estava feito. Depois de poucos minutos, os responsáveis decidiram suspender e anular a prova.

Exame 2O problema é que amanhã é o último dia do semestre. Muitos alunos já reservaram passagem para viajar. Que fazer? Convocar todos durante as férias não seria justo.

A solução foi encontrada. Amanhã, sexta-feira, às 16h, serão todos submetidos ao exame. Com novas questões certamente. É de esperar que, desta vez, as respostas não venham impressas.

Errare humanum est.

Nem malandragem, nem vadiagem

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 7 dez° 2013

A Síntese de Indicadores Sociais 2013, publicada estes dias pelo IBGE, desnuda uma realidade de assustar qualquer governo civilizado.

Mostra que, de cada cinco jovens entre 15 e 29 anos, apenas quatro trabalham ou estudam. Está ali atestada, preto no branco, a ociosidade de 20% de nossos jovens (um em cada cinco!). Não trabalham nem estudam. É a juventude jocosamente chamada de «nem-nem». Não ria, que é bem mais sério que parece.

É uma minoria? Sem dúvida. Assim mesmo, falamos de 10 milhões de brasileiros. Gente na flor da idade, no ápice da capacidade de aprender. Têm vigor físico e boa acuidade sensorial. Mas… como pérolas esquecidas num baú em vez de luzir num colar majestoso, vão perder o viço.

No Brasil, muito se fala em Educação, mas pouco se faz. Os holofotes estão voltados para os dois extremos: de um lado, a escola básica; de outro, a instrução de nível dito superior. No meio, nada. Pior: vale a quantidade, não a qualidade.

Prefeitos se gabam de haver aberto não sei quantas escolas, pouco importa o nível de ensino que oferecerão. Presidentes se vangloriam de haver fundado não sei quantas faculdades, pouco importa que lhes falte estrutura básica para funcionar decentemente.

Percebe-se, no discurso oficial, a obsessão marqueteira de se ater àquilo que dá voto. A alfabetização ― ainda que mal-ajambrada ― aparece nas estatísticas. O número de faculdades ― ainda que inoperantes ― também se põe na vitrine. Já o ensino técnico é invisível.

A ditadura Vargas deixou lembrança amarga para muitos. Mas há que se lhe reconhecer um grande mérito: dignificou o trabalho. Chegou a censurar sambas que exaltavam a malandragem. (À época, malandro era «aquele que não trabalha». Hoje diríamos vadio.) Até os anos 50, respeitava-se o trabalho. Ofícios humildes não eram desconsiderados. De uns 30 anos para cá, o quadro mudou.

Todo filho de boa família se vê compelido a seguir estudos superiores. É impensável que um jovem de classe média ouse caminhar à margem da estreita paleta de opções que as faculdades oferecem. Com isso, todo ofício artesanal ― vasta e sólida base que sustenta a prosperidade de sociedades mais adiantadas ― tem sido relegado a segundo plano, mal ensinado, mal pago, malvisto.

Em países avançados da Europa, um pedreiro ou um pintor de paredes diplomado terá facilidade para encontrar emprego e remuneração justa. O sistema de aprendizado por aquelas bandas cobre toda a gama de atividades não universitárias. Futuros cabeleireiros, balconistas, azulejistas, eletricistas, funileiros, cozinheiros, jardineiros, cuidadores, padeiros, floristas, relojoeiros, lenhadores, oculistas, vinhadeiros, horticultores, sommeliers, açougueiros, desenhistas, marceneiros passam por um período de dois ou três anos de formação.

Nos últimos anos da escolaridade obrigatória, cada aluno já tem ideia de sua capacidade e de seus anseios. Numa sociedade que não desdenha o trabalho manual, o adolescente europeu tem uma paleta de escolha profissional bem mais ampla que o jovem brasileiro. Quem sentir atração por carreira intelectual vai postular vaga na universidade de seu agrado. Quem não levar muito jeito para estudo vai escolher, entre centenas de profissões técnicas, a que mais o atrai. E começará como aprendiz, o que já lhe renderá pequeno salário. Durante os dois ou três anos de aprendizado, alternará o trabalho com aulas teóricas uma ou duas vezes por semana. Ao final, enfrentará uma banca examinadora. Se aprovado, receberá o diploma de capacidade, um abre-te sésamo infalível. Pelo resto da vida, dificilmente lhe faltará emprego. Quem é que rejeita um funcionário formado e diplomado como manda o figurino?

Pois as autoridades brasileiras, tão ágeis a institucionalizar artificiais diferenças raciais, parecem não se dar conta de que a natureza dotou cada humano de aptidões e anseios diferentes. O objetivo supremo do jovem brasileiro não é necessariamente conquistar um canudo.

Ofícios técnicos e artesanais têm de ser valorizados. Não há razão para que um pedreiro se sinta inferior a um doutor. Sem aquele, este não teria casa para morar. A relação entre cidadãos não deve ser encarada como se alguns fossem mais especiais que outros. Que se consagre uma parte da agigantada verba de publicidade institucional para valorizar ofícios não universitários.

No dia em que nossos mandachuvas se derem conta do desperdício que é todos esses talentos escorrerem pelo ralo, o Brasil terá dado um passo à frente. Não vai dar muito voto? Não, não vai. Mas vai dar futuro.

Coincidência

José Horta Manzano

No mesmo dia em que nosso inoxidável ex-presidente recebia, pela enésima vez, um «diploma» honoris causa, saiu a classificação das universidades dos chamados países emergentes.

O discurso pronunciado pelo antigo presidente na ocasião da outorga da honraria põe, como de costume, a ênfase na quantidade de estabelecimentos de ensino. São relatos estatísticos do tipo «meu governo fez mais que o seu» ou «nunca antes nessepaiz alguém tinha inaugurado tantas escolas como eu». Sobre a qualidade desses estabelecimentos ― tanto dos existentes, quanto dos recentemente criados ― nem um pio.

O "doutor" Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

O “doutor”
Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

Pois o grupo THE (Times Higher Education) cuidou de ir mais longe. Comparou a excelência dos melhores estabelecimentos de ensino superior dos maiores países do Terceiro Mundo. São 21 países no total, entre os quais, naturalmente, o nosso. O resultado demonstra que a quantidade não substitui a qualidade.

A USP, de longe a melhor universidade brasileira, aparece em 11° lugar, atrás de estabelecimentos chineses, turcos, sul-africanos e russos. Diga-se, en passant, que a Universidade de São Paulo foi criada nos anos 30, quase cinquenta anos antes da fundação do partido ao qual pertence nosso ex-presidente taumaturgo. Falsa será, portanto, toda veleidade de algum vivente de declarar-se pai da criança.

Para resumir, entre as 100 melhores universidades dos 21 países mais adiantados do Terceiro Mundo, somente 4 (quatro!) são brasileiras. A China sozinha (continental + Taiwan) abriga 44 das 100 melhores. Até a Tailândia e a Turquia têm mais estabelecimentos que o Brasil na lista dos 100 melhores.

by Diego Novaes, desenhista carioca

by Diego Novaes, desenhista carioca

Assim como a enxurrada de «diplomas» honoris causa não engorda a erudição de nosso guia, as escolas ditas superiores criadas recentemente exibem qualidade inferior à média dos países comparáveis. Quanto às melhores do mundo, nenhuma comparação é possível. Melhor esquecer.

Escolas medíocres não contribuem para a erudição do estudante brasileiro. Ele quer e merece mais que isso.