Formação insuficiente

José Horta Manzano

Dia 14 de julho, o Painel (coluna de Folha de São Paulo) relatou que:

“Documentos enviados à CPI da Covid mostram que, em setembro de 2020, a consultoria jurídica do Ministério da Saúde foi solicitada a se manifestar sobre o consórcio Covax Facility e disse que o fato de a documentação estar em inglês dificultou a análise porque os servidores não tinham “conhecimento suficiente de tal língua estrangeira a ponto de emitir manifestação conclusiva.”

Para completar a cativante informação, é bom lembrar que o Brasil ainda esperou seis meses para aderir ao consórcio. Só o fez em março de 2021.

Há aí dois graves problemas. O primeiro, nós todos sabemos, é Bolsonaro na Presidência. Que os técnicos do Ministério da Saúde sejam ilustrados ou iletrados não faz diferença nenhuma quando quem dá a palavra final é um psicopata mal-intencionado. Ainda que o pessoal da Saúde fosse bamba em inglês e tivesse conseguido ler a papelada, a adesão ao Consórcio Covax teria sido de qualquer modo barrada pelo capitão.

O outro problema, que salta aos olhos neste caso, é o baixo nível de instrução da população. Como é possível que a equipe técnica da consultoria jurídica de um ministério da República seja formada por indivíduos monoglotas, deficientes em inglês, a lingua franca internacional? Admito que o nível da Instrução Pública nacional deixe a desejar, mas recuso-me a acreditar que não existam, disponíveis no mercado, candidatos de nível adequado. Se eles existem mas não foram contratados, o problema tem nome conhecido: chama-se nepotismo, aquela prática nefasta que leva a escolher funcionários, não pelo grau de conhecimento, mas pelo grau de parentesco. De sangue ou de bolso.

O caso desses documentos que ninguém conseguiu decifrar vai expondo as profundas falhas na Educação Nacional, falhas estas que resultam em distorções no topo da pirâmide. Lula e Bolsonaro são exemplos sintomáticos. Um eleitorado pouco instruído e ingênuo se enamorou pelo ex-metalúrgico, o que nos levou ao desastre de 13 anos de petismo no poder – uma tragédia. Depois disso, tão desgostoso estava o eleitorado, que acabou elegendo o capitão – outra tragédia.

A Instrução Pública, do jeito que tem sido maltratada pelo atormentado governo atual, não vai subir de nível tão cedo. Ainda vamos assistir a muitas rateadas no andar de cima. Episódios como esse da documentação que ninguém conseguia ler não são apenas cômicos. Custam vidas.

Fundos falidos

José Horta Manzano

A origem da raiz é antiga e se perde na bruma dos milênios. O verbo latino fallere era já precedido pelo grego sphàllein e por antepassados mais velhos ainda. Faz parte de grande família presente não só nas latinas, mas também em outras línguas europeias. Muitos dos descendentes ainda carregam o sentido original de enganar, enganar-se, errar, induzir em erro, escorregar.

Em inglês, temos : to fail (falhar), failure (falha, fracasso, insucesso, estrago). Em alemão, há: fehlen (faltar), Fehl (erro, engano). Em nossa língua, herdamos boa coleção de palavras. Entre elas, estão: falha, falta, falecimento, falível, falso, falsificar, faltar. Como se pode constatar, toda a família deixa uma impressão meio amarga de acontecimento desagradável que poderia bem não ter acontecido.

Assim é a falência, no sentido próprio, o ato ou efeito de falir. É quando uma pessoa jurídica, por falta de meios, é obrigada a suspender pagamento aos credores. É situação dramática e geralmente definitiva. Nesse caso, a falência guarda o sentido tradicional: a falta absoluta de recursos.

Chamada Estadão, 11 jul° 2019

Vamos agora à manchete do Estadão. Diz lá: «Festa nacional (…) faliu fundos de Washington». Vamos passar por cima do sentido um tanto libidinoso que a frase poderia suscitar. Afinal, quem teria tido a coragem de falir os fundilhos desse pobre Washington? Mas vamos em frente. A lição do dia é que o verbo falir, quando usado no sentido de levar à falência ou ir à falência, é intransitivo – isto é, não admite objeto.

Ex: A firma faliu. Ponto final. Ex: A empresa fez falência. Ponto final. Mesmo quando o verbo é usado em sentido figurado, a regência permanece. Ex: A festa quase levou a família à falência.

A chamada, portanto, não pode dizer que a festa «faliu fundos de Washington». Como seria exagerado dizer que a tal festa mandou a rica capital americana à falência, melhor será escolher outro verbo que indique que as finanças da cidade ficaram abaladas. A escolha é vasta: esgotar, exaurir, dilapidar, sangrar, haurir, desbaratar, secar. Há muitos mais.

Corrigindo:

Festa nacional do 4 de julho enxugou fundos de Washington.

Fica melhor, não? Bom, alguém sempre pode se chocar ao ler que, desta vez, os fundos do pobre Washington é que foram enxugados. Mas essa já é outra conversa.

Fiz um gato

José Horta Manzano

Gato escondido 2As coisas, às vezes, acontecem na hora errada. Aliás, para coisas indesejadas, nenhum momento é propício. Pelas 11 da noite de ontem, quando costumo dar uma espiadinha na internet pra saber das novidades, não consegui entrar no primeiro site. Tentei um segundo, e nada. Depois do terceiro site fora do ar, tive de reconhecer que o sinal estava interrompido.

Aqui em casa ‒ como é comum por estas bandas ‒, eletricidade, televisão, telefone e internet são fornecidos pela mesma empresa. Como é a fiação? Não sei. Talvez venha tudo pelo mesmo buraco. Técnica, física, matemática e mecânica celeste nunca foram meu ponto forte. Fato é que ontem, de golpe, perdemos internet e telefone fixo. Por sorte, a eletricidade e a tevê continuaram firmes e fortes.

Na Suíça, depois do horário comercial, assistência técnica é tão difícil de achar como agulha em palheiro. A melhor notícia que o «serviço de emergência» da fornecedora conseguiu me dar é que um técnico entraria em contacto comigo na manhã seguinte. Tá.

Gato 1Que fazer? Nada. Panes aqui são muito raras, o que faz que a gente não esteja preparado para elas. Só pra dar uma pequena ideia, nenhuma casa tem caixa d’água. Nunca se ouviu falar nesse apetrecho. Armazenar água em casa, para um suíço, soa tão fora de esquadro como instalar sistema de calefação em Manaus.

Eis senão quando me vem à memória que, anos atrás, por razão que ora me escapa, chegamos a utilizar, por curto período, o sistema wi-fi do vizinho de parede. Com anuência dele, evidentemente. Na época, ele gentilmente nos forneceu a senha de acesso.

Gato escondido 16Aquela situação excepcional durou pouco porque logo tomamos assinatura internet e nunca mais utilizamos o sem-fio do vizinho. Só ontem, no momento da pane, a coisa me voltou à lembrança. O velho laptop que usávamos na época, embora já aposentado, não foi jogado fora. Aqui em casa, ninguém se lembrava mais da senha do vizinho mas… o velho computador de colo, que bobo não é, não se esqueceu. Como o vizinho é assinante de outra empresa, seu sinal estava perfeito.

Retirada temporariamente da aposentadoria que gozava no porão, a maquineta ressuscitou. Aparentemente orgulhosa de voltar à ativa, mostrou seriedade ao captar sem problema o sinal do vizinho, armazenado em sua inesgotável memória. É verdade que a velha maquininha é de uma lentidão à qual não estamos mais acostumados. Mas é sempre melhor que nada.

Graças a ela, pudemos assistir, ao vivo, à destituição do Lula. Não foi um lapso. Para mim, dona Dilma não passou de comparsa desastrada. Os escorraçados foram Lula & caterva.

Fiz um gato que valeu a pena.

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Observação
O vizinho de parede, a quem deixo aqui meu agradecimento, mantém o apartamento montado embora raramente esteja por aqui. Estes dias, por exemplo, está de viagem.

Só para terminar: depois de 12 horas, internet e telefone voltaram.