Vergonha internacional

José Horta Manzano

Chamada do jornal francês Le Parisien

Os sorrisos forçados são apenas fachada. Por dentro, devem sentir engulho.

O vexame do quase futuro ministro levantou uma onda que já chegou à Europa. A edição de 30 de junho do jornal francês Le Parisien dedicou um artigo ao assunto.

«Brésil: le CV ‘gonflé’ du nouveau ministre de l’Education fait polémique»

«Brasil: o currículo ‘inchado’ do novo ministro da Educação cria polêmica»

Não me lembro de ter visto, na mídia brasileira, artigo sobre ministro estrangeiro que tivesse ‘inchado’ o currículo. É assunto interno que, em princípio, não interessa a ninguém no Brasil. Inversamente, o vexame de nosso ‘doutor’ chega até Paris. Por quê?

Faz parte do custo Bolsonaro, um componente que atravanca a imagem do Brasil. Do exterior, enxergam nosso país com crescente desconfiança.

Como já escrevi antes, essa deterioração não atinge diretamente o brasileiro, ou seja, não é do cidadão que se desconfia. A prevenção é contra os dirigentes.

Assim mesmo, se a administração de doutor Bolsonaro contribui para que se fechem portas no exterior, quem paga o pato, no final, é o cidadão brasileiro.

Ministros da Educação

José Horta Manzano

À moda de lá
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio – sua tese de doutorado havia sido fortemente ‘inspirada’ de textos anteriores, com largos trechos idênticos.

Em países sérios, não se brinca com essas coisas. Quando é um cidadão comum que escorrega, a mentira já pega mal; quando a mutreta vem de um ministro de Estado, o mundo desaba. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira.

A espertona nem tentou dar desculpa. De cara no chão, foi chorar sua vergonha longe dos holofotes. Nunca mais se ouvir falar dela.

À moda daqui
Com o pranteado Weintraub fugido do país, o terreno estava aplainado para entrada triunfal do substituto. Afinal, ser melhor do que o anterior é barbada: qualquer um consegue.

Besteiras, todos cometemos. Só que, para os mortais comuns, que vivemos longe do palco, os deslizes podem passar a vida toda esquecidos. Para quem aceita cargo importante, a coisa é diferente: saem todos os jornalistas à cata de falhas do passado. Quem procura, acha. No caso do novo ministro da Justiça, não demorou muito.

Alguns dias atrás, o reitor da Universidade de Rosario (Argentina) veio a público em pessoa para uma ‘retificação’. Doctor Decotelli, nosso novo ministro, havia afirmado, no currículo inserido por ele mesmo na plataforma Lattes, ter obtido o título de doctor em Administração naquela universidade. Negativo – o reitor desautorizou o ministro mentiroso. Ai, que coisa feia!

Dois ou três dias depois, lá vem bomba de novo. Desta vez, o novo ministro é acusado de plágio na dissertação de mestrado que apresentou à FGV em 2008. Como a ministra alemã, doctor Decotelli também é suspeito de haver copiado passagens inteiras, palavra por palavra, de trabalhos anteriores.

Só que aqui não estamos na Alemanha. Brasília não é Berlim. Diferentemente de Frau Merkel, que despachou rapidinho sua ministra de volta a casa, doutor Bolsonaro continua quietinho no seu canto. Nem um pio. Quanto ao ministro, seguiu o padrão dos políticos brasileiros que enfrentam acusações. Longe de se dobrar às evidências, ousou contestar. Nega tudo.

Em lugar de agarrar o touro pelos chifres, mandou o ministério soltar nota. Saiu um daqueles contorcionismos do tipo ”caso” haja alguma ilicitude, terá sido mera distração, “que corrigiremos imediatamente”. O problema será contornado, 12 anos após a entrega da dissertação, com o acréscimo do crédito aos verdadeiros autores dos trechos plagiados. E pronto.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…

Qui se ressemble – 4

José Horta Manzano

Doutor Weintraub, atual titular do Ministério da Educação, tem mostrado que, além de ser o mais mal-educado dos ministros, é também o que mais comete erros de grafia. Pra um homem pago justamente pra vigiar a educação dos brasileiros e pra cuidar dela, pega mal pra caramba.

Não faz quinze dias, atirou-se feito um rottweiler contra Monsieur Macron. Num piado lançado nas redes sociais, tratou o presidente da França de calhorda. Nada menos que isso. Não é espantoso, vindo de um ministro? Ministro da Educação, frise-se!

Passou. Na sexta-feira dia 30, nosso herói voltou suas baterias contra a ortografia. Espezinhou-a. Não satisfeito com ter escrito no tuíter, algum tempo atrás, incitar com s (insitar), reincidiu. Pra mostrar que sua falta de familiaridade com a língua é ampla e abrangente, mandou novas palavras para o cadafalso.

Desta feita, o megaescorregão foi perpetrado num texto de apenas 8 páginas. A primeira vítima foi paralisação, escrita duas vezes com z (paralização). Destemido, o ministro se esbaldou. Mais adiante, no mesmo documento, escreveu suspensão com ç (suspenção).

Este último erro é mais grave que os outros. Dado que suspensão é palavra corriqueira, dessas que se encontram a cada esquina, a grafia deveria estar fixada na cabeça de todos os alfabetizados. Escorregar aqui significa absoluta falta de intimidade com a escrita. Errar assim já é embaraçoso para o cidadão comum; para o ministro da Educação, é imperdoável. É verdadeiro crime de responsabilidade, a ser punido não com “suspenção”, mas com destituição do cargo.

Diferentemente do tuíter, onde Sua Excelência pia e comete deslizes com os próprios dedinhos, o documento de oito páginas há de ter sido datilografado(*) por um assessor. Das duas, uma: ou o ministro assina sem ler, ou é conivente com a fragilidade ortográfica do datilógrafo(*).

A meu ver, nem ele nem o assessor estão em condições de continuar no cargo. Ambos são caso de pessoa errada no lugar errado.

«Qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem».

(*) Datilografar é verbo arcaico, hoje desaparecido e substituído por digitar.

O despertar da montanha

José Horta Manzano

Matterhorn (Monte Cervino), cume emblemático dos Alpes suíços

Matterhorn (Monte Cervino),
cume emblemático dos Alpes suíços

Faz alguns dias que um escândalo pipocou no universo aveludado da política suíça. Descobriu-se que, durante a última campanha eleitoral, um deputado andou fazendo artes. Em busca de novo mandato, Monsieur Voiblet foi fotografado enquanto pessoalmente colava cartazes eleitorais seus por cima de cartazes de outros candidatos. Um assombro!

O «malfeito» provocou terremoto capaz de abalar o Matterhorn. O povo não admite que se brinque com essas coisas. Assim que a história se tornou pública, o deputado recebeu a punição máxima: foi expulso do partido. Analistas já dão por encerrada a carreira política do trapaceiro.

Affiche 1Vale comparar com o que se passa na política do Brasil, especialmente nos palácios de Brasília. Neste momento, um ex-presidente com um pé na cadeia busca homizio junto a sua sucessora. Por sua vez, a mencionada sucessora está à beira de sofrer processo de destituição que pode substitui-la pelo vice. Por sua vez, o dito vice foi citado 11 vezes na delação de um senador encarcerado.

Affiche 2Descendo na hierarquia do poder, vale mencionar que o presidente da Câmara ‒ segundo personagem na linha de sucessão do Executivo ‒ está mais enrolado que fumo de corda. Tem contas a prestar à Justiça penal e dificilmente escapará de uma temporada na Papuda. Enrolados como ele, estão também o presidente do Senado e o ministro da Educação(!).

As montanhas brasileiras são muito mais resistentes que as suíças. Apesar de todas as «traquinagens» do pessoal do andar de cima, o Pico da Neblina continua lá, estoico e impávido. O Pico da Bandeira também.

Interligne 18c

O tango de salão O Despertar da Montanha foi composto por Eduardo Souto cem anos atrás. A versão de Dilermando Reis está aqui.

Quem não se comunica se estrumbica

José Horta Manzano

Comunico à Casa o comunicado que recebi do chefe da Casa Civil comunicando a demissão do ministro da Educação.”

Comunicação comunicada pelo deputado Cunha, que comunicou o comunicado que lhe havia sido comunicado pela Casa Civil. A obra-prima de oratória foi comunicada por todos os jornais.

Interligne 18e

Tirando o cômico da cena, vamos aos fatos. O episódio escancara novo e flagrante exemplo de que a “Pátria Educadora” não passa de bordão vazio.

O cargo de ministro da Educação contém a palavra educação. Admite-se que, mortal, o titular da pasta carregue defeitos – como todos nós. Uma falha, no entanto, é inconcebível: que ele demonstre falta de educação. É o coxo zombando do perneta.

Faroeste 1Mais uma vez, fica patente que o Planalto tenta iludir a nação à custa de slogans. Esse da “Pátria Educadora” é apenas mais um, mera frase de efeito, inventada pra inglês ver.

Na hora do vamos ver, no momento crucial de escolher um ministro para a pasta estrategicamente mais importante da República – aquela que vai traçar o caminho das gerações futuras – quem é o agraciado? Um indivíduo tosco e mal-educado. Um indivíduo ao qual um papel secundário num filme de faroeste, ao lado de John Wayne, assentaria como luva. Já para encabeçar o Ministério da Educação, não serve.