TV Escola

José Horta Manzano

Muito provavelmente, o distinto leitor nunca assistiu aos programas da TV Escola. Nem eu. Aonde vivo, não chega o sinal dessa emissora. Pouco importa, que não estamos falando de novela nem de programa de variedades. Trata-se aqui de canal dedicado à educação.

Sai, fresquinha, a notícia de que a tal TV Escola está sendo fechada por ordem do ministro Weintraub em razão de divergências quanto ao conteúdo dos programas. Mais uma vez, ressurge aquela velha história de cartilha “comunista” x cartilha de extrema-direita. São critérios elevados demais, fora do alcance da filosofia de botequim deste blogueiro. Sou do tempo em que professor ensinava, aluno aprendia e escola abrigava a todos. Pouco importava a cartilha, desde que o aluno saísse da escola sabendo ler, escrever e contar direitinho.

Num país de iletrados, semianalfabetos e alfabetizados de poucas luzes – como o nosso –, o desaparecimento de uma escola é sempre uma tragédia. Pouco importa o motivo. Governantes deveriam ter isso em mente antes de tomarem decisões drásticas.

Pra tudo, há conserto. Se a cartilha estiver malfeita, será reescrita. Se os professores forem ruins, serão substituídos. Fechar a escola é solução desesperada, tomada por alguém cujo intesse é manter a criançada na ignorância. Casos como esse, da TV Escola, deixam clara a intenção final: estão jogando o bebê fora com a água do banho.

No fundo, pouco importa a cartilha. Não é ela que determina a orientação política de aluno nenhum. O que leva o aluninho a pender para a revolta é a fome. O que leva um aluninho a pender para o ódio é a ignorância. Quando se junta a fome com a ignorância, o resultado só pode ser explosivo.

Formar criançada com ideias “comunistas” ou com visão de extrema-direita é sempre melhor do que formar um bando de semianalfabetos. Ideias se modificam com o tempo. Já um adolescente semianalfabeto tende a passar a vida nessa condição. É a perpetuação de nossa tragédia nacional.

Não fui eu, foi ele!

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro pode dormir tranquilo. Nos dias em que ele estiver cansado de dizer besteira, tem um substituto à altura: é Abraham Weintraub. Olha ele aí de novo, gente! Na competição de asneiras emanadas do Planalto, os dois são astros de primeiríssima grandeza.

Nosso peculiar ministro da Educação é daquelas figuras meteóricas, surgidas de repente não se sabe de onde. Cochilava nas trevas plácidas de alguma pendanga. Chamado por doutor Bolsonaro, há de ter sentido vibrar a fibra messiânica. Despertou, sacudiu a poeira e, desde então, quem se sacode é a nação. Não se passa dia sem que o povo heroico se escandalize com mais uma constrangedora falta de recato que se poderia associar a quem fosse, menos ao guardião da Instrução Pública nacional.

Assim como surgiu sem aviso, como raio em céu azul, há de voltar rapidinho à toca de onde nunca deveria ter saído. Para o bem de todos e júbilo da nação. Enquanto esse dia não vem, senhor Weintraub faz a alegria de jornalistas, comentaristas e analistas. O personagem é fonte inesgotável de asneiras.

A mais nova façanha do homem veio a público ontem, terça-feira. (A menos que algum novo horror já não tenha eclipsado o anerior.) Senhor Weintraub, com a displicência de quem não tem nada a ver com o peixe, já tratou de anunciar que o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), cujo relatório deverá ser anunciado mês que vem, deve classificar o Brasil em último lugar na América Latina. Em último lugar, foi o que ele disse!

Quem tinha esperança de ver nosso país subir na classificação PISA já desistiu há anos. Não é com belos discursos que a Instrução Pública subirá de patamar. Do bolsinho do colete, doutor Weintraub, naturalmente, tira o papelzinho com o nome do culpado: “governos esquerdistas” que vieram ante dele. Não fui eu, foi ele!

Sem querer ser ave agourenta, posso afirmar o que deve ser uma evidência a qualquer cidadão pensante: não é entregando o ministério da Educação a personagens primitivos, grosseiros, toscos e ressentidos como senhor Weintraub que daremos um passo à frente. Estamos acostumados com as profundezas da classificação PISA, elas nos pertencem. E de lá ninguém nos tira. Que diabos!

‘Insitando’ o ‘recentimento’

Sérgio Rodrigues (*)

Temos um ministro da Educação que escreve “insitar”. O erro de grafia poderia ser um deslize sem maior significado: ortografia, afinal, é só a casca da palavra. É tão possível pensar errado com letrinhas certas quanto pensar certo com letrinhas erradas.

Se nesse caso a grafia torta de “incitar” (verbo que significa estimular, instigar) tem, sim, um significado maior, isso se deve ao fato de a batatada ter sido cometida pelo ministro da Educação de um país tragicamente iletrado.

Mais: um ministro da Educação que, logo após ter negado “insitar” a violência, demonstrou que, além de usar letrinhas erradas, também é desafeto do pensamento certo ao anunciar uma violência inédita: o corte de verbas para “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia”.

“A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, explicou Abraham Weintraub. Exemplos de evento ridículo, segundo ele: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”.

UnB, UFF e UFBA, as três instituições nomeadas pelo ministro da Educassão (atenção, revisores!), estão entre as de melhor desempenho acadêmico do país. E daí? A ala do governo que reza pela cartilha do guru Olavo de Carvalho, à qual pertence Weintraub, tem se especializado em desprezar fatos. Seu motor é puramente ideológico.

As barreiras – inclusive constitucionais – diante dessa máquina de ceifar verbas universitárias são vultosas. No fim das contas, é possível que tudo dê em nada e o episódio fique na história como mais um dos tiroteios de festim com fumaça de gelo seco em que o governo Bolsonaro é pródigo – espetáculos que seriam anódinos se não fizessem perder tempo um país já tão atrasado.

De todo modo, ao expor de forma cândida suas motivações, Weintraub abre a guarda e incita uma reflexão sobre o solo, digamos, emocional em que se fundam essas e outras balbúrdias provocadas por um governo de triste desempenho. A palavra-chave é ressentimento.

Na referência a eventos de sem-terra, evidencia-se o rancor com a inclinação esquerdista que predomina no meio acadêmico – como se a liberdade de pensamento não fosse garantida pela Constituição e como se fosse preciso ser de esquerda para divergir do bolsonarismo.

Isso é óbvio até demais, mas o melhor vem agora. Na denúncia ridícula de delirantes orgias de peladões no campus, fica escancarada a semente rancorosa de todo moralismo: “Malditos depravados – e nem me convidaram!”

O ressentimento, “mágoa que se guarda de uma ofensa ou de um mal que se recebeu” (Houaiss), é forte candidato a síntese do espírito desse tempo esquisito.

Palavra do século 16, o verbo “ressentir” se formou no próprio português, segundo os estudiosos, pela junção re + sentir. O prefixo indica reforço e reiteração: ressentir é sentir muito, continuadamente. Para o ressentido, a ofensa – real ou imaginária – nunca vai embora. Perdão e superação são ideias que ele não consegue conceber. Vingança, ainda que à custa da destruição de tudo à sua volta e até de si mesmo, é seu único horizonte.

“Nada no mundo consome um homem mais depressa do que a paixão do ressentimento”, escreveu Nietzsche em “Ecce Homo”. Em tempo: talvez o ministro goste de saber que, por um breve período no século 18, uma flutuação ortográfica levou a palavra a ser grafada “recentimento”. Fica a dica.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.