Brasileiro não sabe votar

by Bruno Struzani, desenhista paulista

José Horta Manzano


Alguém disse um dia que brasileiro não sabe votar. Desde então, volta e meia a frase se repete. Será verdade?


O voto do último domingo deixou claro que nós, eleitores brasileiros, embora apáticos em tempos normais, sabemos, quando espicaçados, levantar de nosso berço esplêndido, sacudir a preguiça, arregaçar as mangas e, passo firme, parar de choramingar, e batalhar pela solução de nossos próprios problemas.

Dinheiro na mala, dólares na cueca, emendas parlamentares que vão encher bolsos amigos, orgias entre homens de bem e profissionais do sexo, palavrões pronunciados no seio de famílias cristãs – esses fatos já não escandalizam. Na hora de escolher candidato, o brasileiro hoje releva deslizes que, em outros tempos, trariam grande desonra pública a quem os cometesse.

Os resultados do primeiro turno de votação escancararam o tremendo risco de um miliciano (nas palavras do Lula) ser guindado à Presidência do país. Muitos eleitores não deram importância, mas o perigo deixou a maioria do eleitorado assustada. Diante do perigo, os “brasileiros que não sabem votar” animaram-se, arrebanharam amigos, vizinhos, parentes, avôs e avós, e acudiram às urnas a mostrar que conosco ninguém podosco.

Conseguiram o que ninguém imaginava possível: deram a Lula 10 milhões de votos a mais do que ele tinha recebido no primeiro turno. Coisa de louco. Com isso, Luiz Inácio deixou Bolsonaro jr comendo poeira. O crescimento do Lula foi tão grande, que deixa a impressão de ele ter recebido boa parte dos votos dos candidatos nanicos, mais os votos que correspondem à queda na abstenção, mais uma parte dos votos de Bolsonaro jr., dados por eleitores arrependidos.

Seja como for, foi um alívio e uma boa surpresa. Lula tem agora quatro anos para dourar sua biografia. Tem de fazer tudo para que seu último mandato corresponda à confiança que os eleitores depositaram nele.

E tem mais: chegou a hora de deixar o egoísmo de lado, afrouxar rédeas e permitir o surgimento de novas lideranças em seu entorno, pra evitar que seu partido desapareça junto com ele.

Escolher sem conhecer

José Horta Manzano

Está fazendo uma semana que Bolsonaro jr passou à frente de Luiz Inácio no primeiro turno. Com o Brasil já um pouco refeito do grande espanto, que fez cair o queixo da turma do Lula e que ofereceu um salto de 12 cm aos correligionários do Júnior, grande parte dos brasileiros vem se indagando qual seria a razão de um resultado que nem todos esperavam.

Já se aventaram muitas hipóteses. A idade de Lula, o rosto fofinho e quase imberbe do Júnior (que contrasta com a agressividade de jagunço de seu pai e seus irmãos), o crescimento dos adeptos de denominações neopentecostais, a eficiência da campanha que corre pelas redes.

Certamente todos esses fatores contribuíram, uns mais, outros menos, para que o Júnior possa ter chegado em primeiro. Ainda falta o exame final do 25 de outubro, mas o fato de ter virado na frente já dá ao bolsonarinho uma vantagem indiscutível. Luiz Inácio e sua turma vão precisar engolir alguns frascos de Biotônico em dose dupla diária. Pra garantir, é melhor acrescentar à receita uma colher de óleo de fígado de bacalhau depois do almoço.

Me ocorre um fator a juntar às hipóteses já aventadas. Brasileirinhos de 16 aninhos já têm o direito de votar. Numa idade em que o jovem ainda não sabe direito o que quer fazer na vida, já é chamado a escolher quem o vai representar no Congresso e quem vai governar o país. Para quem tem dezesseis, essas atribuições me parecem temporãs, mas assim decidiu o legislador.

Pois bem, os que completaram 16 este ano tinham 12 ou 13 quando Bolsonaro desgraçou o país durante a pandemia. Não têm como se lembrar. Ainda tomavam mamadeira quando o Lula estava deixando seu governo, com 80% de popularidade. Na verdade, só conheceram um Luiz Inácio ancião e um Bolsonaro preso.

Essa turma que faz 16 agora é um caso extremo, é verdade. Mas consideremos que só os que têm hoje pra mais de 40 conheceram nosso último presidente equilibrado. De fato, FHC desceu a rampa em janeiro de 2003, lá se vão 24 anos.

Compreende-se que aqueles que só conheceram Lula e Dilma considerem que o Júnior seja um candidato aceitável. Quem nunca comeu melado não sabe que gosto tem.

Minhas considerações estão entre os motivos que levaram metade do Brasil a votar no Bolsonarinho. Mas são inúteis neste momento. Não há o que se possa fazer para alterar o quadro.

Vamos em frente que, daqui a duas semanas, já deixaremos de botar o verbo no condicional e passaremos para o indicativo, na esperança de que os tempos sejam menos calamitosos que os de Bolsonaro pai.

Viver em paz

José Horta Manzano

Na imprensa europeia, não é comum chamar políticos unicamente pelo prenome. Fica esquisito. Para contornar o problema, há veículos que se referem a Flávio B. como “Bolsonaro junior”. Me pareceu um modo simpático, por nada agressivo, que descreve bem a imagem do filho que carece de existência própria e não viceja sem a luz do pai.

Bolsonaro junior está às portas do poder presidencial. Acho que nem o Lula guarda muita esperança de reverter o quadro. A hora é boa para refletir sobre o acontecido. Como foi possível?

Desde 2018, os países sul-americanos tiveram 20 eleições presidenciais. Em 17 delas, o dirigente (ou seu partido) foram derrotados. O povo preferiu abandonar a situação e votar na oposição. Só três exceções a essa regra ocorreram, duas no Paraguai e uma no Equador. Se Bolsonaro junior ganhar no segundo turno, a oposição terá vencido 18 das 22 últimas presidenciais na América do Sul.

É verdade que o povo brasileiro não aprecia ser comparado aos habitantes dos países vizinhos. Talvez isso se explique pelo fato de não falarmos a mesma língua. Mas há que admitir que somos vizinhos de parede e estamos num estágio de evolução comparável. Se algum dos luminares que frequentam o Planalto tivesse feito uma listinha das últimas presidenciais da vizinhança, talvez a campanha de reeleição de Luiz Inácio tivesse sido menos altiva.

Qual é a razão pela qual, de 2018 a esta parte, a oposição ter vencido praticamente todas – em todos esses países, Brasil incluído? Não acredito que, nestes anos 2020, os eleitores se puseram a apreciar a alternância, votando ora neste partido, ora naquele ali. Será?

A alternância no poder é prova de democracia bem implantada, que funciona. É assim que deve ser. Hegemonia de um grupo partidário que se prolonga por décadas é mau sinal. A constatação, feita por muitos, de que há um “cansaço de Lula” é compreensível. Apesar de todo o poder que a Presidência confere a seu ocupante, as coisas não melhoraram nos últimos quatro anos.

A sensação de insegurança é generalizada. Notícias de crimes violentos e feminicídios aumentaram em vez de diminuir. O ensino básico continua sua descida aos infernos. O descontrole de gastos do governo ameaça trazer de volta a inflação e torturar o bolso da população. Discurso de soberania é bonito, soa bem, traz aplauso, mas não põe comida na mesa.

Sob o prisma da oscilação da política de nossos vizinhos, a vitória provável de Bolsonaro junior não vai destoar. Assusta, é verdade, mas Nossa Senhora Aparecida vai ajudar.

Que o canibalismo se restrinja à classe política e à elite gananciosa. E que a população consiga viver em paz.

Eleições vêm aí – 4

José Horta Manzano

No fim de março passado, Lula ainda era visto como provável vencedor da corrida presidencial. Não fazia muito tempo que Flávio B. tinha sido designado pelo pai como candidato, e muito poucos arriscariam suas fichas naquele sujeito desbotado e insosso. No entanto, a eleição estava muito longe e tudo poderia acontecer. Vorcaro e crise do STF não passavam nem pela mais delirante das mentes.

Mesmo sem me basear em pesquisa nenhuma, achei demasiado pretensioso de parte de Luiz Inácio lançar-se à corrida atrás de um quarto mandato. Me pareceu que ele estaria arriscando muito para ganhar pouco. Resolvi deitar essa impressão no papel. Preferi fantasiar meu texto de fábula de Natal, ainda que estivéssemos fora de época.

Designei o texto como artigo mensal a enviar ao Correio Braziliense para o fim do mês. Enviei. Os dias passaram, e nada de o texto ser publicado. Achei esquisito. Escrevi mail. Nada de resposta. Telefonei via uótisápi à diretora da Editoria de Opinião. Nada de resposta. Com o passar do tempo, entendi. Meu artigo havia tocado uma corda altamente sensível daquele pessoal. Eram lulopetistas mais fanáticos do que eu imaginava.

Me dei conta de que “Editoria de Opinião“ não era mais que um título pomposo, mas vazio de sentido. Publicam artigos de opinião desde que a opinião de quem escreve coincida com a opinião da editoria. Pus termo a uma relação de 15 anos de colaboração. Assim que tomei a decisão, publiquei minha “Cartinha ao presidente” aqui neste espaço. Afinal, aqui mando eu.

Meu artigo perdeu o momentum. Luiz Inácio manteve a candidatura, e não há meio de voltar atrás. Mas estou mais que nunca convencido de que o Lula, ao se candidatar para um quarto mandato, fez o maior erro de sua vida. Se ganhar, será uma vitória suada, apertada, sofrida, inexpressiva. E o risco de perder é grande.

Meu pensamento continua válido nos termos deste parágrafo que faz parte do texto de março:

Presidente, vamos ao que eu queria lhe dizer: desista da reeleição, não concorra, abandone. Na sua idade, na condição de quem já ganhou todas, pra quê teimar em nadar contra a corrente quando a correnteza é a esse ponto desfavorável? O senhor não precisa provar mais nada a ninguém. Foi presidente por dois mandatos, foi condenado e preso, saiu da cadeia e… tornou a subir a rampa do Planalto. Agora basta! Tudo está provado e conquistado!

E a conclusão diz ainda hoje o que eu queria dizer à época:

Resta-lhe pouco tempo para tomar a decisão. Ao insistir na candidatura, vosmecê estará pondo em risco sua biografia e seu legado, dado que a vitória periga ir para a extrema direita. Caso se candidate e perca, o senhor será lembrado como aquele que foi batido nas eleições e acabou entregando o poder aos extremistas. Se desistir, no entanto, conserva sua glória e embaralha o jogo eleitoral, abrindo boa chance de vitória para um não extremista ou até para um indicado seu, por que não?

Pense nisso! E tenha uma longa, feliz e merecida aposentadoria!

Não estou torcendo para ele perder. Tomara que ganhe e nos livre do clã B. Quanto a você, prezado leitor, e a você, graciosa leitora, se aguentou ficar até aqui, espere, que termino já.

No domingo, chova ou faça sol, vá votar. Nada de branco ou nulo. Vote de verdade. Nem preciso fazer recomendação. Quem frequenta este blogue não vota na extrema direita nem em linha auxiliar que possa favorecer extremistas.

Lé com lé

Ilustração by Alcy Linares, desenhista paulista

José Horta Manzano

Na vida, é importante que lé rime sempre com lé e que cré rime sempre com cré. Na marcha da política, isso é ainda mais importante, sob pena de confundir a cabeça do eleitor. Quando o nome do jogo é eleição presidencial, então, dissonâncias podem custar votos preciosos, em especial numa disputa acirrada.

Os lés do Lula, assim como seus crés, são de conhecimento geral. Afinal, Nosso Guia já fez seis tentativas de chegar ao Planalto (três em que passou a rampa e três em que foi reprovado). Esta é a sétima e, diz ele, a última. A ver. Com passado político tão denso, Luiz Inácio parece que nem engatou a primeira para a partida. Foi direto para a quarta, tranquilo, como se candidato único fosse. Afinal, é ele o incumbente.

Quanto a seu desafiante, um certo Flavio B., marinheiro de poucas águas, a afinação dos lés é crucial. Menos conhecido que o incumbente, é proprietário de caçarolas e esqueletos que guarda discretamente no armário mas que podem, caso dê uma “fraquejada”, criar vida e sair por aí estalando ossos e batendo panela – um perigo!

Pois bem, este candidato desafiante sofreu um golpe seco logo no evento de apresentação de sua campanha ao distinto público. Marcou o comício para a praia de Copacabana, expressão máxima de nossa pretensa tropicalidade. Afinal, o Rio de Janeiro é o berço de onde irradiou o clã ao qual Flávio B. pertence. O ato tranformou-se num tremendo fiasco. No mesmo lugar em que o hoje preso Jair B. tinha atraído 64,6 mil pessoas na festa de 7 de setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, seu filho não recebeu mais do que 8,9 mil apoiadores. Em outros termos, menos de 1 em cada 7 adeptos compareceram para louvar o candidato.

Com certeza, a conclusão que se impõe é que o bloco de apoiadores do passado está esfarelado, virou as costas a Flávio B. Ou não?

Pois parece que não. Nenhuma das pesquisas publicadas após o ato inicial da campanha de Flávio B mostra o mais leve tremelico na porcentagem de votos que lhe é atribuída. Nem na porcentagem do Lula, diga-se.

Passado um momento de estranheza, uma conclusão surge como obrigatória: os apoiadores cariocas de Flávio B já não estão dispostos a enfrentar sol de Copacabana para aplaudir seu herói. Até votam nele, mas preferem fazer isso na sombra amiga da cabine de votação. É o único jeito de fazer lé rimar com lé, e cré com cré. Fora isso, desafina e ninguém entende mais nada.

Com medo de virarem vidraça e serem acossados de perguntas e acusações constrangedoras, tanto o incumbente quanto o candidato desafiante já anunciaram não terem intenção de comparecer a debates televisionados. De novo, repito. O atual presidente, velho de guerra e sobejamente conhecido nos rincões e nos grotões, até que pode se permitir esse luxo. Já o desafiante está apostando alto.

A massa de eleitores que pretendem votar nele não está apenas constituída de devotos incondicionais. Há também um contingente de insatisfeitos com o governo Lula, grande número de indecisos (sim, isso existe), e outras parcelas menores. É justamente essa parcela que interpretará o fiasco de Copacabana como sinal de perda de força da candidatura de Flávio B, e a ausência nos debates, como confirmação da derrocada.

Quem busca a façanha de se eleger contra um Lula velho de guerra – e loga na primeira tentativa – não pode se permitir emitir esses sinais dúbios, que podem ser interpretados como os de um homem que está baixando os braços.

Tome cuidado, Flávio B.!

Cartinha ao presidente

José Horta Manzano

Prezado presidente Lula,

Escrevo como quem escreve a Papai Noel. Longe de mim estar querendo cavar um favor especial ou uma graça particular, não é isso. A comparação com o bom velhinho vem do fato de eu escrever sem certeza de que a carta vá chegar ao bom destino, exatamente como quando a gente manda cartinha ao Polo Norte. A única semelhança entre o senhor e aquele idoso do “Ho, ho, ho” é a enorme quantidade de pedidos que cada um recebe. Além da barba branca, naturalmente. Só que aquele consegue atender aos pedidos de quase todos – digo bem: quase – ao passo que o senhor não dispõe de poder igual. No seu saco, faltam presentes para muita gente.

Agora chega de divagações, se não, esta cartinha vai se alongar demais e tomar-lhe um tempo precioso. Quero falar das eleições deste ano e aproveitar para lhe dar um conselho. Não se avexe com a ousadia: este que lhe escreve sente-se à vontade para cochichar-lhe ao ouvido, dado que, com diferença de poucos meses, somos coetâneos.

O senhor não tem feito segredo de sua disposição de se candidatar a um quarto mandato. Presidente, lembre-se que tudo o que sobe acaba caindo um dia. E o que subiu muito alto faz um barulhão ao desabar. Sua ascensão, vamos lembrar, foi fulgurante. No fim do século passado, o senhor fez bem em insistir. Na época, poucos apostariam naquele barbudo baixinho, de língua meio presa, de cara sempre amarrada, com ares de quem quer implantar no país uma república sindical. Mas valeu a insistência. Um belo dia, deu certo, e o senhor se tornou o primeiro retirante e primeiro operário a conquistar o cargo máximo do país. Uma façanha!

Seguiram-se anos de deslumbre, encontros com reis, rainhas e os grandes deste mundo, implantação da Bolsa Família, respeito às instituições, ‘companheiros’ se lambuzando de mensalões e petrolões, reeleição assim mesmo, carisma inabalável, popularidade nas alturas. Mandato terminado, alijado do poder, uma Justiça estrábica o despachou para o cárcere, situação que o senhor enfrentou com galhardia, não há como negar. Mas esses quarenta anos de política lhe ensinaram muito. O Lula de hoje tem pouco a ver com o da Vila Euclides.

Na penúltima eleição, o senhor não pôde tomar parte. O Brasil elegeu uma figura estranha, que depois se descobriria ter emergido do mundo das trevas. Esse singular personagem, aliado à mortal pandemia de covid-19, resultaram num quadriênio calamitoso em que um Brasil quase pária teve de se contentar em sentar-se num banco rebatível no teatro internacional.

O senhor foi eleito em 2022. Foi por um triz, é verdade, com margem diminuta de votos. Neste seu terceiro mandato, que finda este ano, sua quota de popularidade nunca mais atingiu os picos de antigamente. Nem o julgamento, a condenação e o encarceramento de seu predecessor e da malta golpista que o cercava foram suficientes para inflar a popularidade do senhor. Só esse fato deveria fazer piscar um farolão vermelho no Planalto. Atenção, os ventos giraram!

Com as semanas que passam, outras luzes se põem a piscar. Até o governo de Washington já se deu conta. As sondagens (nada discretas) de Donald Trump mostram que ele já não põe fé na vitória de Lula em novembro, apesar da “química” que teria rolado entre os dois naquele encontro na ONU. Designou até um representante especial para vir ao Brasil visitar Bolsonaro na cadeia. A visita só não ocorreu porque o STF e vosmecê bloquearam a tempo a bizarria. Onde já se viu encarcerado recebendo enviado oficial de governo estrangeiro?

Presidente, vamos ao que eu queria lhe dizer: desista da reeleição, não concorra, abandone. Na sua idade, na condição de quem já ganhou todas, pra quê teimar em nadar contra a corrente quando a correnteza é a esse ponto desfavorável? O senhor não precisa provar mais nada a ninguém. Foi presidente por dois mandatos, foi condenado e preso, saiu da cadeia e… tornou a subir a rampa do Planalto. Agora basta! Tudo está provado e conquistado!

Resta-lhe pouco tempo para tomar a decisão. Ao insistir na candidatura, vosmecê estará pondo em risco sua biografia e seu legado, dado que a vitória periga ir para a extrema direita. Caso se candidate e perca, o senhor será lembrado como aquele que foi batido nas eleições e acabou entregando o poder aos extremistas. Se desistir, no entanto, conserva sua glória e embaralha o jogo eleitoral, abrindo boa chance de vitória para um não extremista ou até para um indicado seu, por que não?

Pense nisso! E tenha uma longa, feliz e merecida aposentadoria!

O fim do dólar

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

O que Luiz Inácio já deu de declarações estapafúrdias não está escrito – como se diria em linguagem coloquial. Por ignorância, por excesso de autoconfiança, por entusiasmo momentâneo incontrolado, ou seja lá qual for a razão, já foram dúzias e dúzias de falas machistas, fora de contexto, ofensivas, errôneas, incompreensíveis.

Uma delas, que certamente deixou o interlocutor sem jeito. Foi em 2007, quando George Bush (filho) estava de visita por aqui. Desinibido, Lula quis dizer que as conversações entre Bush e ele estavam avançando bem. Usou os termos seguintes: “Estamos andando com muita solidez para encontrar o chamado ponto G e para fazermos alguma coisa”. Acompanhou as palavras de uma risadinha maliciosa. Bush esboçou um vago sorriso e ninguém ficou sabendo se ele entendeu a pesada alusão. O público americano certamente não entendeu, mesmo porque o locutor da transmissão omitiu esse trechinho.

Estes dias, em Djacarta, às vésperas de um possível encontro em tête-à-tête com Donald Trump previsto para ocorrer em Kuala Lumpur (Malásia), Luiz Inácio fazia um discurso ao lado de seu anfitrião, o presidente da Indonésia. Entre os afagos e as flores, Lula voltou a bater na tecla do abandono do dólar nas transações externas do Brasil, um de seus cavalos de batalha.

Não era o momento e nada exigia botar o assunto sobre a mesa, mesmo porque não consta que a aposentadoria do dólar esteja entre as prioridades indonésias. Mas Lula fez questão de levantar o tema, resoluto como de costume.

Nas redes, não sei se houve eco, mas os analistas que li e ouvi estavam contrariados. Reclamaram todos que não era hora de falar nisso, especialmente a poucos dias do encontro com Trump. O presidente americano é frontalmente contrário a toda tentativa de contornar o dólar e uma vez alertou os incautos que, se insistissem, perigavam receber tarifas de 100%.

Sei que Luiz Inácio é impulsivo. Sei também que o funcionamento do mundo não é exatamente sua especialidade. Assim mesmo, sei que não é tonto. Aliás, neste particular, se distingue do ex-presidente Bolsonaro. Assim, acredito que, se introduziu em seu discurso considerações aparentemente fora de contexto, não foi por descuido, mas com intenção.

Acrescentar mais uma camada aos diferendos entre o Brasil e os EUA bem às vésperas de encontrar o “ogro” pode ser uma estratégia. Ousada, sim, temerária até, mas calculada. Funciona assim.

Em toda negociação, como a que vai haver, há sempre trocas tipo toma lá dá cá. A abolição do dólar como moeda das trocas internacionais é muito mais uma birra pessoal do Lula do que um objetivo do comércio exterior brasileiro. Dado que não é moeda conversível, o real não pode ser usado como moeda internacional. Portanto, que seja o dólar, o yuan, o euro ou o franco suíço, será sempre necessário adquirir moeda estrangeira para comerciar.

Na hora do toma lá da cá, é interessante ter na pauta alguns itens que atrapalham nosso interlocutor, mas que não são realmente importantes para nós. Assim, poderemos sempre nos comprometer a não mais reclamar o fim do dólar em troca desta ou daquela concessão da parte adversa. Por exemplo, podemos prometer tirar de pauta nossa birra contra o dólar em troca do abandono, por parte de Trump, de sanções contra autoridades brasileiras.

Se a inclusão da fala sobre dólar no discurso de Djacarta tiver seguido essa estratégia – e espero que assim tenha sido –, foi boa ideia. Mostra que há esperança sempre, e que o governante de espírito empedernido sempre acaba aprendendo.

Ocidente

Ocidente

José Horta Manzano

No curto espaço de tempo que durou a passagem de Lula por Roma, alguns dias atrás, jornalistas do milanês Corriere della Sera solicitaram e obtiveram entrevista exclusiva com o presidente.

Como costuma se comportar diante de questionadores estrangeiros, Luiz Inácio se mostrou escandalizado. A razão foi exposta numa comparação numérica que, apesar dos ares de tirada ex abrupto, já veio preparadinha e decorada. Lula explicou que o dinheiro que o mundo gastou com armamentos em 2024 foi US$ 2,7 trilhões, sendo que, ao mesmo tempo, 673 milhões de seres humanos padecem com a fome.

Ao menos, essa verdade precisava ser dita por alguém. E dá até um pouco de orgulho que seja o presidente de nosso país que cuida de contar isso ao mundo. Talvez não dê em nada, talvez o mundo continue gastando trilhões em armas enquanto pobres morrem de fome. Mas ninguém poderá dizer que não tinha sido avisado.

Prefiro um presidente pronunciando esse tipo de frase, em vez de um ex-presidente que, quando de uma viagem à mesma Itália alguns anos atrás, teve de bater papo com um garçom, dado que nenhum dirigente queria conversa com ele.

Mais adiante na entrevista, o jornalista abordou a aproximação entre Lula e Donald Trump. Nosso presidente mostrou-se otimista quando à evolução dos contactos e argumentou que lhe parece natural “as duas maiores democracias do Ocidente” manterem relações amistosas.

Quem não concorda? Se alguém tem sido contra essa aproximação, é justamente o próprio Lula, com seu antiamericanismo ginasiano. As sanções trumpianas só vieram dar a estocada final nos “200 anos de amizade cordial”. Agora, passada a tempestade, parece que nos encaminhamos para nova fase de bonança.

Não sei quais são os países que Luiz Inácio inclui em sua noção de Ocidente. O Brasil e os EUA, isso é certo. Quais outros? Inclui a Europa? O Japão? As antigas colônias britânicas da Oceania? Não ficou claro.

Acredito que certas correntes de nossa diplomacia entendam o termo Ocidente como indicação rigorosamente geográfica. Pertencem ao Ocidente todos os países situados a oeste do Meridiano de Greenwich, ou seja, basicamente as Américas. E pronto.

O problema é que esse entendimento excluiria a Europa inteirinha do mundo ocidental. E excluiria também, deixando transparecer certa dose de má fé, uma dezena de países africanos situados totalmente no hemisfério ocidental.

Na Europa, a abrangência desse termo é diferente. Por Ocidente, subentende-se a Europa inteira (excluindo Rússia, Bielo-Rússia e Ucrânia), o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia, os EUA e o Canadá. Mais ninguém. Estou de acordo que é um entendimento meio torto, que junta doze frutas diversas e chama o conjunto de “uma dúzia de laranjas”. Mas é com esse significado que se usa o termo Ocidente, quando se refere ao conjunto de países mais desenvolvidos.

Talvez os digníssimos assessores de nosso presidente concordem que é o momento de fazer uma ligeira correção no discurso do presidente. Em vez de “as duas maiores democracias do Ocidente”, que ele diga “as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental”. Não muda quase nada, mas muda tudo.

Mãos repugnantes

Putin tomando banho com sangue ucraniano

José Horta Manzano

Todo político sabe que, na vida pública, há que engolir sapos. Faz parte da função.

Imagine um dirigente visceralmente contrário à monarquia e a todo regime cujo chefe ascenda ao poder por herança de sangue ou “pela graça de Deus”. Pense agora que o dirigente de nosso exemplo se encontre, numa recepção mundana, com o príncipe de Mônaco. Ai, um príncipe! Que fazer? Dar as costas e fingir que não viu? Ou apertar aquela mão aristocrática e sentir o sangue azul pulsando logo abaixo da pele? Nosso dirigente, que não é grosseirão, aperta a mão do nobre. E um sapo lhe desce goela abaixo.

Imagine agora um dirigente de direita, de tendências extremistas, daqueles que abominam pobres, não-brancos, LGBTs e tudo o que não se pareça com eles.

(Abro aqui um parêntese para contar que já conheci pelo menos dois figurões de comportamento constrangedoramente efeminado, daqueles que falam em falsete e quebram o pulso a cada frase – um sufoco. Não convém revelar nomes, só digo que um deles tinha sido rei da Itália e o outro era o xeique de Abu Dhabi à época. Mas faz tantos anos, que a poeira do tempo já cobriu tudo. Fecho o parêntese.)

Voltemos a nosso dirigente fricoteiro e homofóbico. Vamos imaginar que seja apresentado a um figurão que rebola, cheio de trejeitos. Vai dar as costas e recusar o aperto de mão? Ainda que extremista, nosso dirigente não é um ogro ignorante. Aperta a mãozinha. E solta logo. Mais um sapo escorre-lhe pela garganta.

Foram dois exemplos bastante forçados, caricatos. Dificilmente ocorreriam na vida real. Ou talvez… nunca se sabe.

Agora vamos a um caso bem real, que aconteceu de fato, notícia fresquinha desta semana. Não foi encontro casual ou fortuito. O colóquio foi real, pesado e pensado, discutido e deglutido, revolvido e resolvido. Não foi resultado de ato irrefletido, daqueles de que a gente acaba se arrependendo.

Lula decidiu aceitar o convite que Vladímir Putin lançou aos poucos “amigos” que lhe restam. Convocou a comitiva e, encantados feito crianças que saem de férias, embarcaram num avião de nossa Força Aérea para voar umas 13 horas rumo a Moscou.

Ao chegar – não sei se terá pensado nisso – calhou de ser, entre os convidados de Putin, um dos raros dirigentes democráticos. A seu redor, tinha uma boa seleção do melhor que o mundo tem em matéria de ditadores e dirigentes autoritários.

Além do anfitrião e de seu vizinho Xi Jinping, estavam Miguel Díaz-Canel (Cuba), Nicolás Maduro (Venezuela), Viktor Orbán (Hungria), Robert Fico (Eslováquia). Estavam lá também os dirigentes de Tajiquistão, Uzbequistão, Bielorrússia e de dezenas de outros regimes afins.

Vladímir Putin, cuja lista de guerras de conquista já inclui Tchetchênia, Geórgia e Ucrânia, é responsável direto pelos mortos, feridos, amputados e estropiados que esses conflitos engendraram – contando por baixo, serão entre 2 milhões e 3 milhões de velhos e jovens, homens e mulheres, militares e civis, anciãos e recém-nascidos, todos ceifados pela sede de poder e glória de um único homem.

Pois nosso Luiz Inácio, todo lampeiro, convoca acólitos e credores de favor, cruza o oceano, veste sua roupa de gala para apertar a mão do responsável por tanta desgraça. São mãos asquerosas, vermelhas de sangue inocente.

Lula agarra Putin como se fosse uma pessoa normal. Não é.

No momento desse repugnante aperto de mão, nenhum dos protagonistas engoliu sapo. Foi o Brasil, o Brasil decente, o Brasil atento, o Brasil humanitário, o Brasil digno, o Brasil amoroso – foi esse Brasil que engoliu mais um sapo.

Tudo por tua causa, Lula! Está na hora de cair na real e largar de prestigiar essa cambada de ditadores nojentos!

Madame vai primeiro

José Horta Manzano

Todo chefe de Estado, antes de viajar ao exterior, envia exploradores para preparar sua chegada e sua permanência. Vão verificar assuntos variados, desde questões de segurança, alojamento e deslocamento até detalhes do cardápio a ser servido ao visitante. Além de contar com sua equipe de especialistas, Lula pode se apoiar numa personagem que lhe é especialmente próxima e fiel: sua esposa, Janja.

Lula ainda não foi, mas Madame já está lá, tendo embarcado cinco dias antes do marido e chefe. Um programa foi especialmente preparado para ela, incluindo manifestações ligadas à educação, à cultura e ao combate à fome. Está também prevista uma visita ao Teatro Bolshoi de Moscou para assistir a uma representação de “O lago dos cisnes”, balé composto por Tchaikovski.

O motivo oficial da longa viagem de Lula é prestigiar os festejos do 80° aniversário do fim da Segunda Guerra na Europa. Na Rússia, a guerra mundial é chamada Grande Guerra Patriótica. Por lá, a história oficial dá relevo à participação soviética, deixando para segundo plano os aliados. Nos demais países europeus, o fenômeno inverso ocorre: a glória maior é conferida aos europeus e norte-americanos, ficando os russos com um papel marginal.

É curioso que Lula nunca tenha pensado em comparecer à celebração do Desembarque do 6 de Junho de 1944, considerado o ponto de virada da vitória aliada na Segunda Guerra. Esse evento é comemorado todos os anos na Normandia, norte da França. Terá seus motivos para não ter ido; talvez porque seria apenas um entre vários, enquanto que, em Moscou, será um convidado importante. Putin, mandado para o banco pelo mundo democrático, precisa de visitantes conhecidos.

Os principais dirigentes a prestigiar os festejos moscovitas são ditadores ou dirigentes autoritários: Bielorrússia (Lukatchenko), Hungria (Orbán), Eslováquia (Fico), Azerbaidjão, Sérvia, Tadjikistão, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela. A figura de maior projeção a ter anunciado presença é Xi Jinping, ditador da China.

Entre eles, lá estará nosso Lula, cujas intenções não ficaram claras. Quem sabe:

  • Estará dando um enésimo sinal de rebeldia para com os EUA? Mandando uma banana pra eles, como quem diz: “Aqui sou amigo do rei”?
     
  • Está tentando recuperar para si a liderança do Brics, perdida desde que o grupo foi expandido, tornando-se uma agremiação de países heterogêneos, sem programa e sem objetivo.
     
  • Cansado dos miasmas tóxicos de Brasília, decidiu mudar de ares por alguns dias. O sacrifício de encarar mais de 24 horas de viagem de avião (ida mais volta) compensa. Afinal, não é todo dia que se dá um aperto de mão no coreano Kim Jong-Un.

Sejam quais forem as ideias que povoam a cabeça de Luiz Inácio, uma certeza fica: não é prestigiando a Rússia que ele vai obter vantagem. Simplesmente porque Moscou não tem nada a oferecer além de fertilizantes e armas. Fertilizantes, já compramos; armas, não, obrigados.

Bolsonaro disse um dia, em Moscou, diante de Putin, que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Agora vai Lula e, com sua visita, reitera as palavras do capitão. Putin vai acabar acreditando.

Brasil e o Brics

José Horta Manzano

No início deste século, um dirigente do Banco Goldman Sachs se inspirou na primeira letra do nome dos países à época emergentes, que eram Brasil, Rússia, Índia e China. Como num quebra-cabeça, o economista organizou essas quatro letrinhas iniciais e formou o acrônimo Bric. O nome foi publicado pela primeira vez num relatório de 2001.

Com o passar dos anos, a sigla, que representava o que mais tarde seria batizado de “Sul Global”, foi sendo cada vez mais citada. Oito anos depois da invenção do economista, os quatro países emergentes decidiram se reunir. O que não passava de acrônimo abstrato começou a tomar vida.

Naqueles anos, antes da invasão russa à Ucrânia, ainda não pesava um mandado de prisão sobre a cabeça do ditador Putin, e ele viajava livremente ao redor do mundo e comparecia às reuniões anuais do grupo. Hoje deixou de fazê-lo, receoso de ser detido e despachado para a Haia, nos Países Baixos, onde está o Tribunal Penal Internacional.

Nosso Lula nacional, que não desdenha uma viagenzinha ao exterior, sobretudo se for para discursar perante seleta plateia, foi entusiasta do novo grupo desde o início. Sem refletir sobre as implicações que isso poderia ocasionar, chegou até a aplaudir a ideia, lançada pelos chineses, de alargar o clube, permitindo a entrada de outros sócios. Por um momento, a ideia de brilhar diante de plateia mais ampla deve ter lhe parecido inebriante.

A ressaca vem sempre no dia seguinte. Talvez sacudido por assessores, Luiz Inácio deu-se conta de que, quanto mais países integrassem o grupo, menos importante ia se tornando o papel do Brasil. Num hipotético universo de dezenas de países membros, a presença de nosso país se diluiria. Expansão desenfreada só interessa a quem detém o poder real : a China.

Desde que se deu conta do problema, o Brasil entrou num dilema cabeludo entre ficar no grupo ou deixá-lo.

Continuar membro significa transformar-se em coroinha da China, que é quem diz a missa. Os chineses esperam que todos os que ali estão digam amém a seus ditames, exatamente como fazem os russos atualmente. A permanência no bloco é vista pelo mundo como sujeição aos desígnios de Pequim, que não é exatamente o caminho que o Brasil tencionava seguir.

Virar as costas e sair do clube é também problemático. A China é nosso principal comprador, a Rússia nos vende fertilizantes. O Planalto, que gostaria de ficar bem com todos, teria nessa retirada um grave problema.

Há ainda o fato de Lula e seu assessor Amorim serem antiamericanos de carteirinha. Se saísse do clube, o Brasil ajudaria a marcar pontos para os EUA, fato que deve deixar nosso presidente horrorizado.

Que fazer? Não há meias verdades. Para o Brasil de Lula, é complicado passar o tempo atacando os EUA e os países ocidentais e, ao mesmo tempo, esperar ser por eles apreciado e bem tratado. Por seu lado, Brasília não pode brincar de amigo-amigo com Moscou e Pequim sem ser visto como aliado da China.

Diferentemente do que Lula e sua diplomacia podem imaginar, o planeta não está se tornando “multipolar”. Tudo caminha para a bipolaridade, que é o caminho traçado e seguido nas últimas décadas. De um lado, estão os EUA e as democracias ocidentais, do outro lado está a China acompanhada por ditaduras e autocracias.

Será difícil equilibrar-se entre os dois.

Metamorfose ambulante

Metamorphose
by Brenda Erickson

José Horta Manzano

Se alguém tivesse dito que Lula era uma “metamorfose ambulante”, teria sido imediatamente acusado de crime de ódio e talvez tomasse até um processo. Mas foi ele mesmo, Luiz Inácio, quem se qualificou assim. Portanto, quem achar que o presidente está se comportando feito biruta de aeroporto, que vá em frente e use a expressão. O termo está liberado.

Alguns anos atrás, Lula defendeu o regime bolivariano dizendo que “lá tem democracia até demais”. Referia-se ao fato de, segundo ele, o povo vizinho votar com mais frequência que os brasileiros.

Nesse meio tempo, a metamorfose operou. Segundo os jornais de hoje, Luiz Inácio admitiu que o povo venezuelano vive sob regime autoritário, mas não ditatorial. Considere-se que estamos falando do mesmo povo, do mesmo regime e, pra coroar, do mesmo dirigente.

Se isso não é comportamento metamorfótico, não sei o que será.

Um ponto me chama a atenção no tratamento que o Brasil e o mundo estão dando ao que ocorre na Venezuela.

Faz décadas que o regime autoritário se instalou. Se parecia manso no princípio, foi endurecendo com o tempo até chegar ao ponto em que está hoje, a um passo da ditadura ao estilo russo.

Em tempos normais, o drama venezuelano tem sido tratado pelo governo brasileiro como um não acontecimento. É como se a Venezuela não existisse. Não fosse o afluxo de centenas de milhares de venezuelanos famintos e desesperados, o silêncio sobre nosso vizinho do norte seria total.

De repente, em consequência das eleições (das quais todo o mundo sabia que Maduro sairia vencedor), a Venezuela entrou no noticiário. Já se passaram quase três semanas e Caracas continua no foco dos holofotes.

O que chama minha atenção é o contraste entre o olhar intenso que lançamos sobre nossos vizinhos agora, com relação ao descaso que lhes dedicamos em tempos normais.

Me parece que, longe do período eleitoral, teria sido o momento de agir, conversar, combinar e, principalmente, avisar o ditador venezuelano que o Brasil não toleraria eleições fraudadas. Acredito que um aviso prévio nesse sentido teria sido mais eficaz que toda a atual gritaria mundial, com pressões daqui e dali, e com sugestões incômodas e ofensivas para Maduro e seu desafiante, como essa história maluca de novas eleições.

A diplomacia brasileira bobeou nessa matéria. Ou, quem sabe, não bobeou não, simplesmente deu a entender ao vizinho ditador que o Brasil estava disposto a apoiá-lo nas eleições. Em seguida, diante do escândalo internacional, enfiamos o rabo no meio das pernas.

Quando se lida com um personagem metamorfótico, poder-se-á esperar dele tudo.

Inútil troca de insultos

José Horta Manzano

Desde que Javier Milei, atual presidente da Argentina, fazia campanha eleitoral, já lançava insultos a nosso presidente tratando-o de “corrupto” e “ladrão”. Clamava que “o lugar de Lula é na cadeia”. Não sei se esse comportamento extravagante lhe valeu alguns votos a mais – é possível, neste mundo há bobo pra tudo.

Por seu lado, nosso Luiz Inácio não deixou os desaforos sem resposta. Torceu ostensivamente contra Milei. Deixou de comparecer à sua cerimônia de tomada de posse, atitude fortemente deselegante. É insultante deixar o presidente hermano assim, com a mão estendida no vazio.

Milei comprou a briga e botou o sarrafo mais alto. Faltou à cúpula do Mercosul, deixando assim meia dúzia de colegas chefes de Estado falando sozinhos, entre eles. Em linguagem diplomática, sua ausência soou como se ele dissesse: “Eu sou superior a todos vocês e não estou disposto a me misturar com essa ralé”.

A partir daí, os encarregados do cerimonial dos lugares em que os dois perigam estar presentes ao mesmo tempo (G20, por exemplo) caminham pisando em ovos para garantir que os dois jamais tenham de sentar lado a lado.

Na minha visão, esse tipo de querela pode ser admitida entre adolescentes. Já entre chefes de Estado vizinhos, hermanos e sem nenhum contencioso, é briga totalmente absurda. Aquele famoso “quando um não quer, dois não brigam”, que Lula opinou quando a Rússia invadiu a Ucrânia, teria de ser aplicado justamente num caso como este.

Foi Milei quem começou, estou de acordo. Os insultos de Milei foram gratuitos, emitidos sem provocação, estou de acordo. Lula faltou à posse do colega por temer ser vaiado em Buenos Aires, estou de acordo. Só que agora, chega. A brincadeira acabou, os dois foram investidos no cargo de chefe de Estado. Ficam pra trás as brigas pessoais e entram em cena os ritos do cargo.

Luiz Inácio, que é o mais velho e mais experiente, devia mostrar o caminho ao fogoso vizinho. Não é assim que um chefe de Estado deve se comportar. Atitudes assim não constroem, só dividem e destroem. Que se convide o argentino para uma visita oficial ao Brasil. Que se prepare recepção com a pompa devida a visitantes de primeira grandeza.

Fico feliz de constatar que a diplomacia do Itamaraty, apesar de Lulamorim, não parece ter sido contaminada por essas infantilidades. Na sequência da decisão de Milei de não reconhecer a “vitória” de Maduro, o ditador venezuelano cortou relações diplomáticas entre Caracas e Buenos Aires e ordenou a partida imediata do pessoal diplomático argentino.

Acontece que, além dos funcionários, a embaixada argentina em Caracas abriga meia dúzia de refugiados políticos. Que fazer? A Argentina pediu e o Brasil atendeu imediatamente: nossos diplomatas em Caracas vão substituir os argentinos que tiveram de ir-se. Vão dar o expediente burocrático (emissão de passaportes, por exemplo) e vão cuidar dos refugiados (que, sem isso, perigavam morrer de fome).

Na diplomacia mundial, é relativamente frequente que um país cuide dos interesses de outro cuja embaixada teve de ser fechada. A Suíça é muito solicitada para esse tipo de serviço. Por exemplo, desde que os EUA e o Irã cortaram relações diplomáticas, em 1980, a Suíça representa os interesses americanos em Teerã (Irã).

Em nosso atual episódio sul-americano, o Brasil aceitou imediatamente a solicitação argentina e já está exercendo as funções de representante diplomático de Buenos Aires em Caracas.

Aconteceu tão rápido, que eu me pergunto se Lula foi posto a par. Seja como for, a agilidade e a prestimosidade do Itamaraty continuam em plena forma. E isso é excelente notícia.

O que sei é que Milei , em publicação nas redes, agradeceu efusivamente pela colaboração do Brasil. Lula perdeu a oportunidade de fazer as pazes ao convidar o rapaz para uma visita e uma conversa olho no olho. Ou talvez ainda não seja tarde.

“Ô, Lula, vê se dá um jeito nesse menino travesso!”

Preparando a paz na Ucrânia – 1a. parte

Bürgenstock, Suíça: local da conferência

José Horta Manzano

Em 2023, a reunião anual do G7 teve lugar em terra japonesa. Como frequentemente acontece, Lula foi convidado a ocupar uma poltrona sobressalente. Questionado por jornalistas sobre a guerra decorrente da invasão russa à Ucrânia, Luiz Inácio deu sua lição:


“Tenho repetido quase à exaustão que é preciso falar da paz. Nenhuma solução será duradoura se não for baseada no diálogo. Precisamos trabalhar para criar espaço para negociações”, afirmou.


Trabalhar para criar espaço para negociações – foram as sábias palavras de seu evangelho. Nenhum dirigente político bem-intencionado discordaria. Lula tem razão. No momento atual, com os canhões ainda troando e os tanques sulcando campos que costumavam ver brotar espigas de trigo, é complicado convocar uma conferência entre as partes com vistas ao fim das hostilidades.

A Rússia reclama para si a totalidade da Ucrânia, que considera sua propriedade. A Ucrânia, invadida de surpresa por terra, mar e ar pelo exército russo, não faz mais que se defender de forças estrangeiras que ocuparam seu território.

Paz, para a Rússia, significa rendição incondicional da Ucrânia e anexação do território ucraniano à Rússia. Paz, para a Ucrânia, significa a imediata retirada das forças russas de seu território.

Nessas circunstâncias, fica complicado colocar face a face, em volta de uma mesa, negociadores russos e ucranianos. No momento atual, a reivindicação de uma parte é inaceitável para a outra. E vice-versa.

Para se chegar a uma reunião séria e objetiva entre Rússia e Ucrânia, os países patrocinadores da paz vão ter de gastar muita conversa, usar muito poder de convicção, fazer algumas ameaças veladas nos bastidores. Não vai ser fácil nem rápido.

Para dar início a essa maratona de conversas e negociações, que perigam levar anos, a Suíça organizou uma conferência preparatória para a qual praticamente todos os países foram convidados, com duas notáveis exceções: a Rússia e a China. A Rússia, porque já tem declarado querer a rendição incondicional da Ucrânia, exigência incompatível com negociações que ainda nem começaram. E a China, porque já fez saber que não aceitaria o convite.

Durante a conferência

A conferência para preparar a paz na Ucrânia realizou-se nos dias 14 e 15 de junho num cenário de cartão postal, num centro de conferências situado no alto de um penhasco com vertiginosa vista para um lago. No total, uma centena de países e organizações internacionais mandaram representantes. Entre chefes de Estado e chefes de governo, eram 57. A vice-presidente dos EUA e o líder de praticamente todos os países europeus estavam presentes. Entre os latino-americanos, diversos presidentes compareceram: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala.

Por coincidência, Lula esteve pertinho dali na véspera da conferência. Estava, como no ano passado, ocupando uma poltrona sobressalente na reunião de 2024 do G7, realizada este ano na Itália, para a qual tinha sido convidado pela primeira-ministra Giorgia Meloni. Será difícil alegar incompatibilidade de agenda para não dar uma esticada até terras alpinas (até Meloni foi à conferência preparatória da paz na Ucrânia). Assim mesmo, Lula preferiu embarcar em seu jatão A330 da FAB, avião grande, que tem maior autonomia que o pequenino Aerolula. Sem escalas, levantou voo em Bríndisi (Itália) e pousou em Brasília.

O Brasil pediu para não ser contado como participante à conferência da Suíça. Solicitou ser inscrito como “observador”. Não mandou presidente, nem vice, nem ministro nenhum. Nosso país foi representado pela embaixadora do Brasil na Suíça. Fiquei com impressão de que inscrever-se como “observador” foi pretexto para não ter de assinar a declaração final (que poderia conter algum parágrafo em desacordo com o atual Itamaraty, de Lula e Amorim).

Agora vem a pergunta: Senhor presidente, com que então, aquela história de “Trabalhar para criar espaço para negociações”, repetida “à exaustão” por Vossa Excelência, era só gogó pra inglês ouvir? Que história é essa de sair de fininho justamente na hora em que finalmente se realizou a primeira conferência preparatória para a paz na Ucrânia? Medo de desagradar a seu amigo Putin?

Quem fica sempre em cima do muro um dia se desconcentra e acaba caindo. Além do vexame, pode se machucar. Que a duplinha Lulamorim se cuide!

Irã e prisões de segurança máxima

José Horta Manzano

O ataque lançado pela República Islâmica do Irã sobre o Estado de Israel, na noite de sábado passado, envolveu mais de 300 foguetes, incluindo 170 drones, 30 mísseis de cruzeiro e pelo menos 110 mísseis balísticos.

Para se defender, Israel contou com a ajuda de três potências: os EUA, a França e a Grã-Bretanha. Esses países contam com bases militares na região, e conseguiram deter e destruir boa parte das armas voadoras antes que atingissem território israelense. O exército de Israel fez o resto. Daí os estragos terem sido tão limitados.

Não precisa ser especialista em assuntos militares pra se dar conta de que o Irã lançou mão de apreciável quantidade de foguetes – arsenal fabricado por eles, ainda por cima. Tivessem atirado três bombinhas, é possível que Israel, ao constatar a fragilidade do inimigo, já estivesse enviando seus próprios foguetes para destruir Teerã.

Acredito que a amplidão do ataque seja um dos fatores que estão fazendo o governo de Tel Aviv hesitar. Se os dois países entrarem em guerra de verdade, o risco é grande de o equilíbrio regional (e talvez mundial) sentir o baque e sair abalado.

Faz quase duas décadas que o Irã vive sob sanções pesadas aplicadas pelos EUA e também pelos países aliados. Na teoria, o Irã deveria estar exangue, com a língua de fora, pedindo arreglo. Não foi o que se viu sábado passado. Analistas tentam minimizar a força do Irã, argumentando que o arsenal é antiquado, fora de moda, impreciso e isto e aquilo. Me parece mais é desculpa de despeitado.

Antiquado ou não, o arsenal despachado pelo Irã não bate com a imagem de um país mendigo, de pires na mão, pária do mundo civilizado. Como é possível? “Fatta la legge, fatta la burla”, como dizem os italianos (a lei nem bem acabou de ser feita, já se dá um jeito de fraudá-la).

Nosso cândido Lula da Silva gosta de se apresentar como “aliado” deste ou daquele país, o Irã entre eles. Ser aliado é mais do que sair na foto ao lado do “parceiro”. Inclui unir forças em busca de um objetivo comum. Qual é o objetivo comum entre Brasil e Irã, além de buscar o progresso do povo respectivo? Concluo que o Brasil não é “aliado” de fato do Irã. Ainda bem.

O fato é que o Irã tem petróleo e o mundo precisa de petróleo. Pronto, a conexão está feita. Dinheiro não compra tudo, mas quase. Petróleo pode ser excelente moeda de pagamento. Se uns se recusam a comprar óleo iraniano, outros fecham os olhos para os excessos do regime dos aiatolás e entram na fila dos compradores.

Assim, com dinheiro na mão e meio quilo de esperteza, qualquer país “pária” dá logo um jeito de passar por cima das sanções e adquirir tudo o que quiser. Com os equipamentos assim importados, os iranianos vão construindo seus drones e seus mísseis. Não vamos esquecer que, junto com a Turquia, o Irã está entre os melhores fornecedores de drones da Rússia.

Tudo isso mostra que impor sanções é o mesmo que tapar um cano d’água com peneira de taquara: o fluxo pode até diminuir, mas a água continua passando.

Os protocolos de segurança de uma prisão “de segurança máxima” funcionam de forma semelhante. Por mais medidas que se tomem, como celas revistadas, algemas no passeio, informação compartimentada e encarcerados isolados, sempre resta alguma brecha. E é por ali que passa toda a comunicação que não devia passar.

Em conclusão, vamos dizer que não somos “aliados” de papel passado do Irã nem temos prisões de absoluta “segurança máxima”. Jair Messias já quebrou os dentes quando levou um ‘chega pra lá’ de Viktor Orbán, seu “aliado” húngaro. Não me venha agora Luiz Inácio com suas manias de considerar seus ditadores de estimação como “aliados do Brasil”.

Tanto Bolsonaro quanto Lula estão errados. O capitão, após a decepção da embaixada, já caiu na realidade. Entendeu que, em política internacional, não existe amizade.

E tu, Lula, vais continuar batendo na mesma tecla?

O “lapsus linguæ” do Lula

José Horta Manzano

Como todos os meus cultos leitores sabem, a expressão latina lapsus linguæ, que, ao pé da letra quer dizer “escorregão da língua”, é usada para indicar o ato de tropeçar na língua, dizer uma coisa por outra. O próprio Houaiss informa que, por influência das ciências psicanalíticas, um lapsus linguæ costuma ser interpretado como a expressão de “pensamentos reprimidos”.

Ontem, no abafamento úmido da selva amazônica, Lula recebia um Macron meio pálido, mangas arregaçadas, rosto transpirado e ar cansado. Via-se que o visitante não está habituado aos trinta e tantos graus de calor.

Os dois personagens principais tocavam conversa amena, sentados formando uma roda com numerosos participantes, entre ministros e índios paramentados.

Era a vez de Lula, personagem que nunca rejeita um microfonezinho. De repente, ele olha para Macron e lança, em seu dialeto costumeiro: “Eu e o Sarkozy vamo viajá po Rio de Janeiro inda agora à noite”.

Passado um instante de estupor, a pequena assembleia se tumultua. Vozes se elevam para apontar o erro. Lula logo conserta: “Eu e o Macron…” E a fala continua. (Trechinho de 20 segundos disponível no youtube.)

O erro não passa de um errinho sem consequências. Volta e meia, um dirigente troca o nome de um par. Talvez Macron nem tenha se dado conta, dependendo da pirueta dada pelo intérprete.

O que me ficou foi mais uma demonstração de que o Lula versão 3.0 não passa de um Lula 1.0 recauchutado por fora, mas com o miolo (=cerne) intocado. É verdade que Lula se encontrou com Sarkozy em numerosas ocasiões, mas esse fato, sozinho, não seria suficiente pra fazê-lo trocar o nome do atual presidente da França.

Muita gente reclama dos erros de governança cometidos por Luiz Inácio, que tenta aplicar hoje soluções que já não deram certo ontem. A verdade é que nosso presidente não se desgrudou de seus primeiros tempos na Presidência. Pelo jeito, não se desprenderá nunca.

Será que ele chegaria a chamar seu amigo Maduro de Chávez?

Educação

José Horta Manzano

No verbete ‘Educação’, o Dicionário Houaiss é claro. Garante que:


“Educação é a aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano.”


Ministro da Educação é o profissional que vela pela aplicação e pelo bom cumprimento das diretivas mestras relativas à Instrução Pública nacional. Como sabemos, nosso ensino é laico, obrigatório e gratuito.

Diretivas elaboradas num ambiente como o Estadão descreve, sem música mas com acompanhamento de gritos e socos na mesa não podem dar bons frutos. Para começar, de onde saiu essa gente que, para se entender, recorre a gritos e a socos na mesa? Serão trogloditas que o capitão esqueceu de levar na bagagem?

O presidente da República (e seus assessores) têm absoluta necessidade de dar maior atenção à escolha dos que cuidam da Educação nacional. É um terreno por demais importante para ser largado nas mãos de gente que, contrariada numa reunião de trabalho, arregaça as mangas e chama pra briga.

Indivíduos que só conseguem se entender no grito e na pancada não servem para estruturar a Instrução Pública. Seja qual for o motivo do barraco, teriam de ser demitidos imediatamente.

“Dor de cabeça” ou “problemas familiares” não servem como desculpa para a violência no trato profissional.

Parabéns, chefe!

José Horta Manzano

Fica cada dia mais claro que tanto Lula quanto o PT estacionaram na era soviética, uma época em que, por falta de internet, a comunicação circulava de forma lenta e muito mais restrita que hoje.

Putin venceu uma pseudoeleição, uma votação de cartas marcadas, com os adversários mais fortes fora do páreo: afogados na própria banheira, tombados do terraço do apartamento ou simplesmente encarcerados nalguma masmorra perto do Polo Norte.

Apenas conhecido o resultado, o PT se apressou a parabenizar o presidente russo reeleito. Usou expressões elogiosas como “resultado expressivo”, “participação popular impressionante”, “momento importante e especial para o país”. Faz sentido. O partido, que ainda não se deu conta da queda do Muro de Berlim, continua afagando o Kremlin, como se lá ainda reinasse Josef Stalin, o “pai dos pobres” (o original).

Lula, como sabemos, não resiste a uma ocasião de dar uma boa escorregada. Viu a casca de banana e correu antes da passagem do gari. Mandou escrever uma carta de congratulações ao companheiro Putin em nome do povo brasileiro.

Com essa atitude, fez companhia aos dirigentes de Venezuela, Cuba, Nicarágua, China e mais alguns ao redor do planeta. Os líderes de países democráticos, por seu lado, manifestaram pesar e preocupação por uma eleição classificada como “farsa eleitoral”.

Francamente, este Lula versão 2022 é o mesmo que o de 2002, só que descomplexado. Nos dois primeiros mandatos, Luiz Inácio se segurou, tentou enfiar o terno presidencial e, bem ou mal, deixou de herança para o mundo uma imagem simpática de político pacífico e de pai dos pobres.

É que, nos dois primeiros mandatos, um Lula mais jovem tinha conseguido se conter e, a seu modo, se apropriar do estilo que se espera de um presidente. Depois disso, houve a humilhação da prisão e as trevas da era bolsonárica. Lula voltou à corrida eleitoral sabendo que este seria seu derradeiro período na Presidência, quer dure um mandato ou dois.

Assim sendo, parece ter se soltado de vez. O que vimos antes foi um Luiz Inácio tentando ser Mister Da Silva. Hoje ele se contenta de ser apenas Lula.

Lula no Egito

José Horta Manzano


“A única coisa que se pode fazer é pedir paz pela imprensa, mas me parece que Israel tem a primazia de descumprir, ou melhor, de não cumprir nenhuma decisão emanada da direção das Nações Unidas”


O texto acima faz parte da declaração dada por Lula no Egito, país onde foi fazer turismo no Complexo de Gizé para visitar as pirâmides. No segundo dia, aproveitou para se encontrar com o ditador de turno, um senhor sorridente que leva o vistoso nome de Abdul Fatah Khalil al-Sissi.

Luiz Inácio se esmerou no discurso, falou bonito, usou até o verbo emanar, mas tropeçou na hora de escolher uma palavra para expressar a liberdade que as Nações Unidas dão a Israel para fazer o que quiser.

Disse que Israel tem a primazia de descumprir ordens da ONU. Primazia é superioridade, competência, excelência de algo ou alguém. Certamente não é o que Lula queria dizer. Ele quis sublinhar a licença especial que, segundo ele, Israel tem para dar de ombros às determinações onusianas e agir como bem entende.

Em vez de primazia, tinha a escolha entre uma dezena de termos:

  • Licença (como citado acima)
  • Consentimento
  • Permissão
  • Privilégio
  • Anuência
  • Direito
  • Apanágio
  • Regalia
  • Carta-branca

A lista não é extensiva. Há outras palavras ainda. Ficam para a próxima, não é, senhor Presidente?

Lembre-se de que quem usa “emanar” não pode escolher termo inadequado no mesmo discurso, pior ainda, na mesma frase. Se não, vão acabar pensando que o discurso foi escrito por outra pessoa. O que cai mal, francamente.

Genocídio?

A expulsão dos judeus
by James Tissot (1836-1902), artista francês

José Horta Manzano

A “Convenção para a prevenção e a repressão do crime de genocídio”, arquitetada pela ONU, foi assinada em 1948 e ratificada por praticamente todos os países do globo, apenas uma dezena deles ficando de fora.

A partir dessa convenção, o crime de genocídio ficou formalmente enquadrado e tipificado. São cinco condições que determinam se há genocídio ou não. O texto oficial é o seguinte:

Na presente Convenção, entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tal como:

1) Assassinato de membros do grupo;

2) Dano grave à integridade física ou mental de membros do grupo;

3) Submissão intencional do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física total ou parcial;

4) Medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;

5) Transferência forçada de menores do grupo para outro grupo.

Portanto, faz 75 anos que não deveria haver dúvida na hora de qualificar determinados atos como genocidários ou não, visto que há uma definição precisa. Na prática, porém, não é assim que funciona. Todo governo apontado como autor de genocídio costuma repelir com veemência toda acusação .

Muitos vêm acusando Israel de estar levando a cabo genocídio qualificado contra o povo gazeu estes últimos três meses. A África do Sul foi além: junto ao Corte Internacional de Justiça, denunciou o governo israelense de conduta genocidária. Trata-se de um processo altamente simbólico, mas sem efeito coercitivo. Seja qual for a decisão do tribunal (que pode demorar até anos para sair), não há meios de obrigar Israel, na hipótese de ser condenado, a pôr ponto final em seus atos.

O distinto leitor e a adorável leitora certamente têm acompanhado, ainda que com um ouvido distraído, o noticiário sobre a guerra feia que Israel está travando contra o Hamas, organização terrorista que se aninha em Gaza e cujos membros se misturam com a população civil.

Temos informações sobre a amplitude dos bombardeios, que não poupam residências, escolas, hospitais, campos de refugiados, até roças de hortaliças. Temos ciência de pronunciamentos de diversos ministros israelenses que preconizam ora uma ocupação perene do território, ora uma expulsão da população gazeia em direção ao Egito.

De posse dessas informações e conhecendo a definição de crime de genocídio, cada um pode tirar suas próprias conclusões e julgar, se sim ou não, Israel lhe parece um Estado genocida. Em nossa república, o pensamento ainda é livre.

No entanto, em política – especialmente em política internacional – há que tomar grande cuidado com o que se diz. Muitas cobras e infinitos lagartos têm às vezes de ser engolidos com o sorriso (nosso, não dos bichos). Não se tecem relações estrangeiras com o fígado, mas com um cérebro bem repousado e depurado de emoções fortes.

Nosso presidente dá mostras de ter-se deixado mais uma vez arrebatar pelo antiamericanismo primitivo e enraizado que condiciona sua visão de mundo. Ao dar-se conta de que “os louros de olhos azuis” (europeus e americanos) desaprovam a iniciativa da África do Sul, fez questão de bandear para o outro lado. Apoiou a atitude sul-africana e fez disso política oficial: o Brasil qualifica Israel como nação genocida.

É pena que Luiz Inácio nunca tenha frequentado um curso preparatório para a função de estadista. Talvez até nem exista nenhum cursinho desse gênero. Se ao menos tivesse feito uma formação rápida no Itamaraty, por exemplo, teria aprendido aquela história das cobras e dos lagartos. Embora odeie Israel (que é amigo dos americanos!), o melhor a fazer perante esse processo movido pelos africanos teria sido calar-se e não se pronunciar nem sob tortura. Não teria feito mal a ele nem a nós.

Agora, com leite derramado, é tarde. O gato já está lambendo.