Boicote inútil

José Horta Manzano

Ontem os eleitores venezuelanos foram convocados para eleger prefeitos. A oposição tinha lançado uma palavra de ordem: abstenção. Segundo os opositores, todos os que discordam das políticas implantadas por Nicolás Maduro deveriam ficar em casa e fazer cara de paisagem. Por detrás dessa orientação, estava a ideia de demonstrar força… pela ausência.

Pareceu-me estratégia pra lá de arriscada. De fato, o resultado não foi exatamente o esperado. Por um lado, nem todos os que reprovam o regime atual deixaram de votar. Ainda que não fossem numerosos, deram ao pleito um lustro de legitimidade difícil de contestar. Por outro lado, señor Maduro, com a truculência que o caracteriza, valeu-se da ocasião para anunciar que os partidos que lançaram o boicote não terão direito a apresentar candidatos às próximas eleições presidenciais.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Pronto. Além de perder a oportunidade este ano, ainda serão impedidos de se candidatar da próxima vez. E que ninguém se engane. Maduro controla o Judiciário, razão pela qual não adianta entrar com recurso. Naquele país, os magistrados agem como seu mestre mandar.

Homens políticos não costumam dar ponto sem nó. No entanto, essa costura ditada pela oposição venezuelana parece desalinhavada. Alguma razão há de os estar levando a pregar o boicote às eleições. Seja qual for essa razão, o resultado não está saindo conforme o figurino. Com esse tipo de atitude, perdem mais do que ganham.

Os adversários de Maduro, que conquistaram dois terços do parlamento nas legislativas, já demonstraram que têm a seu lado a maioria dos eleitores. Falta-lhes compenetrar-se de que a união faz a força. O melhor caminho será deixar vaidades pessoais de lado e unir esforços em torno de candidaturas unificadas. E nada de convocar boicotes, que simplesmente não funcionam. No dia em que aprenderem a se unir, estarão pavimentando o caminho da vitória. E da derrota do tiranete.

Operação desmonte

José Horta Manzano

Na Europa, assim como em outros países do Hemisfério Norte, férias escolares de verão são concedidas em julho e agosto. Quem tem criança pequena dá preferência a esses meses para espichar as pernas e tomar uma cor. Com poucas exceções, quem não tem criança se deixa contaminar e acaba fazendo a mesma coisa. O resultado é que estradas, autoestradas, ferrovias, aeroportos ficam seriamente congestionados nesta época.

Na França, tradicionalmente, o governo aproveita o torpor do verão, quando todos estão mais preocupados com praia e pastis(*), para implementar medidas antipáticas. Aumento de tarifas, proibição disto ou daquilo, «revalorização» de alíquotas de imposto, reajuste de pedágio e outras maldades entram em vigor neste período. Passam com maior facilidade.

Praia do Cap d’Ail, Côte d’Azur, França

No Brasil, não consta que o fenômeno seja tão marcado. Talvez pelo habitual alienamento da população, despejam-se baldes de ruindade o tempo todo. E tudo bem. No entanto, especificamente neste julho, que é mês de férias no Brasil também, parece que o movimento se tem acelerado. Não sei se o distinto leitor tem ressentido a mesma coisa. Tenho a forte impressão de que os do andar de cima, acuados há mais de dois anos pela Lava a Jato & congêneres, resolveram dar as mãos e agir no intuito de salvar a pele.

Em horas assim, vale tudo. O inimigo de ontem vira amigo de infância. Encontra-se, ora vejam só!, qualidades no adversário da semana passada. Partidos antagônicos se unem visando ao «bem comum». Criminosos condenados a dezenas de anos de privação de liberdade são mandados para casa. Um ministro do STF desdiz o que outro ministro do mesmo STF havia afirmado na véspera. Partidos da dita “oposição” se aliam a partidos da dita “situação”. O contingente de procuradores encarregados da Lava a Jato é amputado de metade dos membros.

Pastis, aperitivo com gosto de férias

Fica cada dia mais clara a operação de desmonte das investigações. E pensar que todo esse pessoal que lá está foi eleito pelo voto popular… É de se lamentar, mas fica a incômoda sensação de cansaço popular, de desânimo e de apatia. Não espantaria se congressistas hoje execrados fossem tranquilamente reeleitos em 2018. Do jeito que as coisas vão, os parlamentares da próxima legislatura perigam ser cópia carbono dos atuais. Se não forem os próprios.

(*) Pastis é aperitivo anisado típico do sul da França. Para os franceses ‒ que vivem, em maioria, no populoso norte do país ‒, pastis, perfume de lavanda e chiado de cigarra são indissociáveis do bom tempo de férias e de dolce far niente.

Reforma da Previdência

José Horta Manzano

O grau de avanço de uma sociedade se mede pela proteção que ela oferece a seus membros mais frágeis. É tarefa de Estados organizados patrocinar serviços básicos. Cabe ao Estado proporcionar instrução pública, formação profissional, saúde pública, defesa do território, segurança pública. A lista não é exaustiva. Todas essas atribuições são, naturalmente, financiadas pela contribuição de todos através dos impostos.

Oferecer proteção aos que já não têm condições de ganhar o pão quotidiano pelos próprios meios é conceito relativamente recente. De fato, quando a grande maioria da população vivia da agricultura, o problema praticamente não existia. Na sociedade rural, famílias eram grandes, com duas ou três gerações debaixo do mesmo teto. A solidariedade familiar supria a incapacidade de sustento dos membros inválidos. Toda família tinha «agregados», «filhos de criação» e outras figuras hoje raras. Eram parentes ou conhecidos sem meios de sobrevivência.

A industrialização do país e a urbanização da população redistribuíram as cartas. Famílias diminuíram de tamanho. A solidariedade para com chegados e agregados se esgarçou. O Estado viu-se na obrigação de garantir amparo aos que, em virtude de idade avançada ou de saúde debilitada, já não podem prover ao próprio sustento.

Nas décadas de 1930 e 1940, grande parte dos países puseram de pé um sistema de arrimo para cidadãos que chegassem à velhice. O Brasil não foi exceção. Refletindo a sociedade da época, nossas regras levaram em conta que a expectativa de vida do cidadão girava por volta de 50 anos. Nos últimos 75 anos, muita coisa mudou. Avanços na medicina e nos cuidados alongaram a expectativa de vida. Projeções indicam que a humanidade tende a ter vida cada vez mais longa. Apesar das transformações, nenhum governo teve a ousadia de meter a mão nesse vespeiro. Nossas regras de aposentadoria não foram alteradas. Cada um empurrou a batata quente para o seguinte. Estacionamos num mundo simpático, mas distante da realidade.

Pirâmide etária do Brasil ‒ 1980, 2020, 2050
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A diminuição do número de jovens e o aumento de cidadãos idosos contribuem para a defasagem do sistema. Os problemas de financiamento foram se avolumando e chegaram a um ponto crítico. A continuar do jeito que está, o país perderá toda capacidade de investimento: a totalidade do dinheiro disponível será destinada a cobrir o rombo da Previdência.

O governo atual, com um presidente sem intenção de se recandidatar, decidiu peitar profunda reforma na Previdência. A atitude é louvável e necessária. Dado que o problema não foi enfrentado durante décadas, o salto é muito grande e tem assustado o povo e seus representantes.

A resistência da sociedade é forte, no entanto, queira-se ou não, o sistema terá de ser atualizado. Se não for agora, será no mês que vem ou no ano próximo. Não se pode mais esperar, que a situação é grave. Mais razoável seria fixar a meta que se quer atingir e, em seguida, escalonar as etapas, paulatinamente, sobre, digamos, um decênio. De chofre, como se está propondo, é paralelepípedo duro de engolir. Com ou sem apoio de base aliada, com ou sem apoio de oposição, alguma reforma, ainda que mínima, tem de ser feita. Melhor começar logo.

Aviso aos senhores deputados e senadores
Só entram para a história os que têm a coragem de enfrentar desafios. Os acomodados acabam tragados pelo esquecimento.

Greve clara

José Horta Manzano

A letargia em que anda mergulhado o povo brasileiro estes últimos anos é de preocupar. Duzentos milhões de pessoas, zilhões de problemas e… nenhuma reclamação marcante com objetivo claro e definido.

Houve, sim, protestos generalizados em junho de 2013. Em seguida, tivemos passeatas na orla de Copacabana, caminhadas na Avenida Paulista, panelaços no Recife, em BH, em Porto Alegre, em Belém do Pará e em tantos outros lugares. No entanto, todas essas manifestações tinham objetivo vago, indistinto, difuso ‒ pra não dizer confuso. «Pelo Brasil decente!», «Pelo fim da corrupção!», «Pela democracia!»

Agora, diga-me: seria concebível alguém se manifestar por um Brasil indecente, corrupto e ditatorial? Inimaginável. Portanto, por mais que milhões tenham saído às ruas, a grita não foi clara nem cristalina. Como se sabe, quanto mais vaga for a reclamação, menos eficaz será.

Lembram-se de junho de 2013, quando o Planalto engasgou ao ver o país desfilando? O problema maior, no entanto, é que, embora palavras de ordem fossem gritadas aqui e ali, o objetivo final variava conforme a conveniência de cada um. A doutora, que exercia então o cargo de presidente, chegou a propor a instalação de Assembleia Constituinte parcial, figura não prevista na atual Constituição, portanto, impossível de ser posta em prática ‒ um verdadeiro coelho tirado da cartola. O tempo foi passando, chegou a Lava a Jato, e tudo acabou ficando por isso mesmo.

Finalmente, com a greve geral desta quarta-feira, a população dá sinais de estar acordando. Estava na hora! Pelo menos, as manifestações de hoje têm alvo claro e definido: a reforma das regras da Previdência Social. Desta vez, não há como tergiversar ou escapulir pelas bandas como fizeram certos mandachuvas quando das manifestações anteriores. Há que responder aos argumentos dos que reclamam.

Desta vez, é diferente. Reclama-se contra algo tangível, uma reforma que está em via de ser votada. É natural que mudanças desagradem a alguns. Cabe explicar melhor, com didática e pedagogia, os comos e os porquês das novas regras. Explicar, explicar, explicar. Vale esclarecer que, caso nada seja feito, as contas nacionais não aguentarão o peso das aposentadorias daqui a alguns anos, o que levará à diminuição dos benefícios. Qualquer um pode entender esse princípio elementar.

Pela primeira vez em muitos anos, sindicatos e partidos que dizem representar os trabalhadores estão exercendo seu verdadeiro papel. É notícia bem-vinda. Francamente, partidos como o PT ficam muito melhor na oposição do que quando detinham ‒ teoricamente ‒ as rédeas do poder. Sejamos francos: os anos do PT no poder, além de afundar o Brasil, serviram apenas para enriquecer alguns afiliados e para arrastar outros perante os tribunais. Quanto à sociedade, continua exatamente como antes: injusta e desigual. Esperemos que, longe do poder, PT & assemelhados sejam mais úteis aos que trabalham.

História em três tempos

José Horta Manzano

A decepção
Confesso que a notícia do afastamento do chanceler Serra, por motivo de saúde, me deixou consternado. Compreendo que o ministro não se sinta mais à altura de exercer o cargo extenuante de chefe das Relações Exteriores. Além de completar 75 anos semana que vem, o político passou por cirurgia na coluna vertebral em dezembro. Operação da espinha, sacumé, costuma deixar sequelas. Teve de pendurar as chuteiras.

Fiquei com muita pena. Depois de 13 anos de trevas, de chanceleres mambembes e de identificação com tiranetes e ditadores, o Brasil redescobria as virtudes de uma política externa altiva, realista, condizente com o peso econômico do país. Com a aposentadoria do titular, tudo parecia voltar à estaca zero.

O insulto
Dia 18 de junho de 2015, uma comitiva de oito senadores brasileiros ‒ encabeçada por Aloysio Nunes Ferreira, presidente da Comissão de Relações Exteriores ‒ abalou-se para a Venezuela com a intenção de encontrar-se com opositores do bolivarianismo e de mostrar solidariedade aos presos políticos e aos oprimidos pelo regime rastaquera.

À época, a doutora ainda ocupava o trono no Planalto. Obedecendo, tudo indica, a ordens emanadas de Brasília, nosso embaixador em Caracas recebeu os senadores no aeroporto, cumprimentou-os e desapareceu deixando o grupo sem cicerone(*).

Ao descer do avião da FAB, os senadores brasileiros foram hostilizados, aos gritos, por grupos de militantes paramentados. «Fora! Fora!» e «Chávez não morreu, multiplicou-se!» eram as palavras de ordem. Objetos e frutas foram arremessados em direção ao micro-ônibus dos visitantes. Nenhum gesto foi esboçado para proteger os senadores.

O objetivo do regime venezuelano era impedir que a comitiva cumprisse o programa traçado. Para engarrafar a via de acesso do aeroporto ao centro da cidade, um túnel foi fechado para limpeza, caminhões miraculosamente enguiçaram pelo caminho, obras bloquearam a avenida da noite pro dia. Resultado: prisioneiros da balbúrdia, os brasileiros não conseguiram sair do aeroporto. Desenxabidos, não tiveram outro jeito senão embarcar no avião e voltar a Brasília. No Palácio Miraflores e no do Planalto, os orquestradores do triste espetáculo hão de ter esfregado as mãos, felizes com o sucesso da esperteza.

Quando figurões da República são ofendidos em terra estrangeira, convém encenar um gesto de reclamação. O governo da doutora se contentou de um protesto mole e protocolar, mandado por via diplomática. A coisa ficou por isso mesmo.

O ricochete
O mundo dá voltas. Para substituir o chanceler Serra, doutor Temer teve a iluminação de designar o senador Aloysio Nunes Ferreira, justamente o chefe dos visitantes enxotados da Venezuela ano e meio antes. O Brasil, país desmemoriado, já havia esquecido o gravíssimo incidente de Caracas. O novo chanceler, na qualidade de vítima principal, guarda memória viva.

Logo nos primeiros dias na nova função, o chanceler mostrou a que veio. Em entrevista ao Estadão, subiu o tom já demonstrado por Serra. Declarou que a Venezuela «já desbordou a normalidade democrática», ou seja, que o vizinho ‘bolivariano’ já amarga regime ditatorial. Disse mais. Ressaltou a «pouca importância» da chanceler da Venezuela, dado que, no país dela, «o importante são os carcereiros». Essa deve ter doído.

Para Caracas, a porta de entrada no Mercosul fechou-se de vez. Desta vez, nem pela janela vão entrar.

Moral da história
Quem ‘gospe’ pra cima periga receber uma ‘guspida’ na cabeça.

(*) Cicerone
Segundo alguns estudiosos, o étimo tem origem no nome do tribuno romano Cicero, famoso pelo dom da retórica. Contam que o homem tinha uma verruga em forma de grão-de-bico bem na ponta do nariz. Em latim, essa leguminosa se diz cicer ‒ cece em italiano, pois chiche em francês. A atual acepção do termo ‒ guia turístico ou acompanhante de visitantes ‒ deriva da facilidade oratória de Cicero. Não há consenso quanto à origem. Assim mesmo, essa explicação do grão-de-bico, se não for verdadeira, é um achado.

Dissidência

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Meu reino de escriba por uma dissidência não gratuita!

Não peço explicitamente por um cavalo, mas tomo o cuidado de informar de antemão que a dissidência, um jeito diferente de pensar, argumentado com clareza e destemor, funciona para mim exatamente como um cavalo. Monto nela e volto à arena com o coração pulsando ainda mais forte, cheio de novos brios. Cavalgo a discordância em pleno gozo, sentindo meus músculos mentais se retesando e os ventos da paixão intelectual batendo na minha pele, me estimulando a seguir na luta.

Idade Media 3Nenhum governo se sustenta sem oposição. O regime do meu cérebro não é diferente. Precisa desesperadamente de um antagonista que o faça explorar contradições, limites, dúvidas e certezas. Que o force a pulsar, alternando momentos de expansão e de retraimento. Que encoste no seu peito a lâmina fria da espada de um outro intelecto.

Admito que hoje em dia não é nada fácil ser oposição. O contraditório é agora quase que um insulto, um tapa na cara de quem ousa se posicionar. Vivemos tempos de intolerância, de esgrima mental e verbal. Esquecemos que as palavras são meros instrumentos, cheios de som e fúria, mas que não significam nada em si mesmas. Temidas hoje como faca na mão de crianças, não mais na de cirurgiões.

É pena. Precisamos nos exercitar sempre. Pensar é desobedecer a Deus, disse Fernando Pessoa através da pluma de Álvaro de Campos. Acredito nisso. Pensar, para mim, é denunciar a onipotência do outro, ser iconoclasta, recusar-se a idolatrar o carneiro de ouro da superioridade moral ou intelectual. Contraditar é uma forma benfazeja de emparelhar ângulos de visão, redesenhar fronteiras, encontrar uma perspectiva própria.

Parlamento UKQuando navego pelas redes sociais, não consigo ocultar de mim mesma o desconforto com aquele oceano de platitudes e de eterna reafirmação mútua. Pode soar presunçoso, mas não preciso de afagos a meu Narciso. Claro que sempre dá aquele calorzinho gostoso no peito descobrir que se tem almas gêmeas no mundo, mas sei que o demônio da vaidade costuma atacar por meio delas.

Preciso de alguém que dialogue comigo e que, aceitando o intercâmbio corajoso de opiniões, me devolva a sensação inebriante de estar viva, lúcida. A adesão irrefletida, sem contestação, a meus pontos de vista só faz dissolver aos poucos a atração que experimentei no início. Me emburrece, me empobrece emocionalmente. Tem um efeito tão deletério em meu psiquismo quanto a discordância pela mera discordância.

O confronto leal, por outro lado, tem o condão de me devolver a meu tamanho natural. Sinto-o como uma demonstração de respeito, uma forma de reconhecer a legitimidade de meus sentimentos e de minha maneira de pensar a vida. Reafirmo como um mantra para tentar salvar a mim mesma: a verdade liberta, a integridade seduz.

Idade Media 2Saibam todos os que me lerem que, para mim, os laços afetivos pressupõem a existência de duas pessoas inteiras e separadas. Se uma aceita se dissolver como ser pensante na outra em nome da preservação da relação, o jogo amoroso desaparece, vira tédio. E, lamentavelmente, nem todo mundo se dá conta hoje em dia que o melhor antídoto para realimentar o fogo do amor é a dissensão ocasional.

Duvida? Cantarole comigo:

“O amor da gente é como um grão,
Uma semente de ilusão,
Tem que morrer para germinar…”

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O recado está dado

José Horta Manzano

Antes de tomar uma ação incisiva, daquelas que não deixam possibilidade de retorno, a gente costuma soltar um balão de ensaio. É como na hora de atravessar um riacho ‒ a gente pisa cada pedra com cuidado, até encontrar o caminho seguro, o caminho das pedras.

Nas recentes eleições gerais, o povo venezuelano deixou clara sua preferência. De cada três eleitores, dois deram seu voto a candidato antichavista. Isso foi algumas semanas atrás. Se votassem de novo hoje, vista a vertiginosa degradação da economia, era bem capaz de a derrota do regime ser mais acachapante.

Congresso venezuelano, Caracas

Congresso venezuelano, Caracas

Apesar dos esperneios e das firulas de señor Maduro e seus áulicos, a nova maioria sente-se cada dia mais forte. Sabe que tem respaldo popular. O regime bolivariano está com os dias contados. Fruta podre não se aguenta muito tempo no galho ‒ mais dia, menos dia, acaba no chão.

A nova assembleia de Caracas ‒ que não convém mais chamar de oposição, tão alentado é o número de deputados ‒ tem como objetivo encerrar os considerandos e partir para os finalmentes.

Antes de agir, estão consultando, como se deve. Não há que temer desagradar ao governo de países adiantados. Europa e EUA verão com bons olhos a saída de cena dos compañeros bolivarianos. Quanto aos vizinhos, não se imagina que Colômbia, Peru, Chile ou Argentina se incomodem com o afastamento de Maduro & companhia.

Mas… ai, ai, ai… falta o Brasil. Maior economia da região e apoiador desabrido do populismo instaurado por Chávez, o Planalto pode se vexar. Risco de guerra atômica não há, mas o bom senso recomenda concórdia e paz entre vizinhos. Como reagirá Brasília a uma reviravolta em Caracas?

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Na minha opinião, dona Dilma e todos os que a cercam estão mais é preocupados em esquivar acusações e afastar o risco de ser levados algemados. Os deputados antichavistas sabem disso, mas, assim mesmo, decidiram lançar um balão de ensaio.

Comunicaram oficialmente ao Executivo e ao Legislativo brasileiros a decisão de “pôr fim proximamente” ao governo de Nicolás Maduro. É o jornal uruguaio El Pais que dá a notícia. Caso nenhuma reação venha do Planalto nos próximos dias, o silêncio será considerado como sinal verde.

Ficamos aqui na torcida organizada.

Frase do dia — 276

«O PT que, quando estava na oposição, prometia enforcar o último político fisiológico nas tripas do último empresário corrupto é o mesmo que franqueou a administração pública a diversas quadrilhas, em troca do pedágio que irrigaria os cofres petistas.»

Editorial do Estadão, 5 nov° 2015.

Frase do dia — 260

«Segundo a presidente, a oposição, chamada por ela de “esse pessoal”, aposta no “quanto pior, melhor”, como se fosse possível piorar aquilo que seu desastroso governo já fez e lamentavelmente ainda pode fazer ao País.»

in Editorial do Estadão, 17 set° 2015.

Frase do dia — 259

«Ao admitir, um ano e meio depois, que não tinha percebido a gravidade da crise, agora é oficial: Dilma não precisa de oposição para chamá-la de incompetente.»

Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder.

Quem foi, hein?

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Como todo o mundo, meu amigo Sigismeno ficou sabendo da bomba caseira atirada na área externa do escritório do Lula. Falo daquele comitê político que leva o pomposo título de instituto.

Bomba 2Sigismeno é desconfiado por natureza. Costuma ficar com um pé atrás quando algo lhe parece ilógico. «C’est trop beau pour être vrai» – é bonito demais pra ser verdade, filosofa ele como os franceses.

Meu amigo aprendeu que todo crime tem de ter um móvel. Com ares de magistrado romano, pergunta: «Cui prodest?» Quem tira proveito do crime? Quem lucra com ele?

Tivesse sido para ferir funcionários, não teriam atirado o artefato às dez da noite, mas no horário comercial. De que serve detonar bomba cheia de pregos quando não há ninguém por perto?

by Sinfrônio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

by Sinfrônio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

Tivesse sido para destruir ou danificar seriamente o prédio, a potência teria de ser bem superior e o engenho não precisava estar recheado de pregos.

Tirando essas duas motivações, o que é que resta?

A multidão que se opõe ao Lula e a todo o atraso que ele representa é cada dia mais encorpada, é verdade. Assim mesmo, Sigismeno não acredita que algum oponente cometeria a tolice de jogar bombinha no jardim de nosso guia, na solidão e no escurinho da noite, só pra ver a notícia passar no Jornal Nacional.

Depois de analisar com afinco, meu amigo acha que matou a charada. Segundo ele, essa história estranha leva jeito de ser ideia de marqueteiros.

Bomba 1O partido do Lula é contumaz adepto da tática de vitimização. Num momento em que tudo e todos acusam o ex-presidente de ser o patrocinador-mor de cataratas de corrupção, uma bombinha caseira pode, por um ou dois dias, desviar a atenção da galeria. Um distraído pode até achar que são artes de algum louro de olhos azuis…

Como de costume, o que Sigismeno diz pode até ser verdade. Que cada um forme sua opinião.

A chefa bambeou

José Horta Manzano

Dona Dilma, (ainda) presidente de nossa desamparada mas valente República, disse ontem que «nunca uma eleição teve aspectos tão agressivos como esta». Ela tem razão, não há que desdizer. Engraçado é que ela disse isso com a ingenuidade de quem chega de Marte. Dois princípios estão na base da agressividade apontada pela chefe de nosso Executivo – ou por seus marqueteiros, tanto faz.

Isaac Newton e a maçã

Sir Isaac Newton e a maçã

O primeiro deles é alicerce da física newtoniana: toda ação gera reação contrária de igual intensidade.

O segundo princípio nos foi legado pela Paz de Augsburgo, concluída em 1555 para pôr fim aos conflitos de religião que sacudiam o Sacro Império Germânico. Cujus regio, ejus religio – tal príncipe, tal religião.

Não vamos aqui discutir física nem religião. Vamos apenas tomar de empréstimo essas máximas para identificar o caminho que tem levado a atual campanha a adotar clima tão agressivo.

É notório que dona Dilma é autoritária. Quem lê linhas e entrelinhas do noticiário já se deu conta de que a presidente, quando tenta sorrir descontraída diante das câmeras, não está a mostrar sua verdadeira natureza. No dia a dia, a chefa costuma desancar funcionários, esbravejar, humiliar assessores, menosprezar subalternos, impor sua excelsa vontade no grito. Quando se apagam os refletores dos estúdios, a verdadeira senhora Rousseff renasce.

Palácio Schezler, Augsburgo, Alemanha Salão de festas

Palácio Schezler, Augsburgo, Alemanha
Salão de festas

O Lula era (e, apesar de alquebrado pela idade e pelos excessos, continua sendo) desbocado, vulgar, irado. Sua sucessora não só conserva os recalques do padrinho, como os incrementa com sua natural soberba. Desde que o último presidente militar deixou o governo até o advento da senhora Rousseff, nenhum mandatário tão belicoso tinha subido a rampa do Planalto. João Figueiredo prometia «prender e arrebentar». Dona Dilma arrebenta sem prevenir.

Nossa presidente não pode culpar senão a si mesma pela deriva que acomete a campanha eleitoral.

Paz de Augsburgo, 1555

Paz de Augsburgo, 1555

Cujus regio, ejus religio
Quando as práticas do príncipe fazem uso da mentira sistemática, das quase-verdades, da quase-lógica, dos ataques pessoais, dos golpes abaixo da cintura, da usurpação de ideias alheias, da pretensão de ter inventado a roda, é natural que os súditos se sintam autorizados e até incentivados a seguir o mesmo receituário.

Ação e reação
Bateu, levou – em linguagem caseira, essa é a tradução do princípio de Newton. Durante doze anos, uma oposição fragmentada, atônita e hesitante não ousou levantar a voz. Mas a casta dominante abusou e atolou-se em crimes e malfeitos. Essa situação encorajou a oposição a mostrar seus músculos.

Taí. Os senhores do Planalto, que tinham armado esquema aparentemente infalível para conservar o poder, sentem que a reeleição está por um fio. Eis por que dona Dilma desce, por um momento, do pedestal da soberba para choramingar que a campanha está «agressiva».

Frase do dia — 101

«O Brasil de hoje não é o mesmo de três anos atrás. Dilma Rousseff não tem nem de longe o carisma de seu antecessor ― embora desfrute de grande popularidade ― e enfrenta enormes dificuldades para administrar o insaciável apetite do PT pelo poder e a ganância por vantagens de uma base aliada tão ampla quanto infiel. (…) Isso tudo até a oposição já está conseguindo enxergar.»

Editorial do Estadão, 8 fev° 2014.