Os amigos do presidente

Carlos Brickmann (*)

Na época da ditadura que dizem que não houve, contava-se esta piada: quem denunciasse um comunista ganharia um Fusca; quem denunciasse dois comunistas ganharia um Fusca e um apartamento; quem denunciasse três comunistas iria em cana, porque conhecia comunistas demais.

E como a família Bolsonaro conhece gente que tem problemas, digamos, éticos! É o Queiroz, são aqueles milicianos que têm foto com alguém da família, é aquela tropa de gente empregada em seus gabinetes parlamentares e que mora a horas e horas de distância, tendo ainda de ocupar parte de seu tempo em outros trabalhos remunerados! E esse tipo de amigos e conhecidos agora se internacionalizou: Steve Bannon, guru de Olavo de Carvalho, talvez o maior ideólogo do bolsonarismo, foi preso nos Estados Unidos. Problema político? Não: a acusação é mesmo a de ter enfiado a mão no pudim.

Bannon sentou-se ao lado de Bolsonaro no jantar da embaixada brasileira em Washington (do outro lado, Olavo de Carvalho). Ali estavam sete ministros, inclusive o Imposto Ipiranga Paulo Guedes, mas Bannon era o astro. Já ídolo e amigo de Eduardo Bolsonaro, defendeu publicamente sua nomeação para embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Eduardo o chamou de ícone da luta contra o marxismo cultural. Bannon o escolheu como seu representante no Brasil, chefiando a seção brasileira do Movimento, grupo empenhado em lutar internacionalmente contra o comunismo.

Bannon foi guru de Trump, que o demitiu: nem ele o aguentou.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.

Ondas perdidas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 maio 2020.

Nestes tempos de epidemia, a história se precipita. Da noite para o dia, o ritmo acelerado dos acontecimentos envelhece as notícias. Casos da semana passada já estão no arquivo morto; coisas de três meses atrás já estão entrando no livro de história. Faz quatro meses, Paulo Guedes visitou o Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde recebeu, na ausência do presidente, as honras devidas ao Brasil. Sua fala passou quase despercebida. É verdade que ele não fez nenhuma revelação acachapante. Referindo-se a nosso país, filosofou: “Perdemos a grande onda da globalização e da inovação, então essa mudança vai levar um tempo, mas estamos a caminho”.

O ministro não foi o primeiro a passar recibo da lentidão de reação de nosso país. Cem anos atrás, o estadista francês Georges Clémenceau (1841-1929) já havia se dado conta disso. Quando lhe contaram que o Brasil era o país do futuro, replicou ferino: “e há de continuar assim por muito tempo”. Tinha razão. Um século depois, o futuro radioso ainda não se vê. Toda vez que a gente pensa que a hora boa chegou, a realidade se encarrega de nos desenganar. Perdemos não só a onda da globalização e da inovação, sublinhada pelo ministro, mas muitas outras. Chegassem todas juntas, formariam um tsunami. Nossa maré baixa já vem de longe.

Perdeu-se a memória do Brasil imperial, defunto há mais de 130 anos. Nenhum vivente sabe mais, de experiência própria, como era então a vida. Mas a história ensina que, em terras onde o chefe de Estado é permanente e desprovido de poder real, a estabilidade política é superior. Entra governo, sai governo, a figura do patriarca vitalício é garantia de segurança. Essa onda da estabilidade política, que a República não soube compensar, perdemos.

A grande onda de Kanagawa
by Katsushika Hokusai (1760-1849), artista japonês

O ensino foi sempre tratado com pouco caso. A primeira universidade das Américas foi fundada nos anos 1530; a abertura da Escola de Cirurgia da Bahia – primeiro curso superior do Brasil – só ocorreria 250 anos mais tarde. Já demos a largada com dois séculos e meio de atraso. O desdém para com o estudo se reflete até nossos dias. Na virada do século 19 para o 20, dois em cada três brasileiros maiores de 15 anos eram analfabetos. Em 1950, metade da população ainda não sabia ler nem escrever. Foi só nestes últimos 70 anos que os números começaram a sorrir – sorriso tímido, visto que o analfabetismo resiste e ainda condena 7% dos brasileiros à ignorância. Como pode a sociedade aceitar que 1 compatriota em cada 15 viva na escuridão? A onda da Instrução Pública, perdida, continua a nos desafiar.

O Brasil rateou também na hora de decidir sobre mobilidade. Sucumbindo a interesses poderosos, elegeu o transporte rodoviário como solução única, relegando a estrada de ferro ao ferro-velho. Na mesma fieira, não soube prever que a supremacia absoluta do transporte de superfície em detrimento do metrô geraria entupimento permanente nas grandes cidades.

Na Saúde Pública, perdura uma surpreendente jabuticaba – bizarrice que não parece comover ninguém. Longe da contenção de gastos recomendada a todo país pobre, boa parte dos assalariados brasileiros são compulsoriamente afiliados a dois sistemas de saúde redundantes. O sistema nacional (SUS) e uma rede de convênios privados correm em paralelo. Um dos dois sistemas será sempre supérfluo, dado que cada ato médico só poderá ser ministrado uma vez. O cliente passa a vida pagando dobrado. Quando se pensa na dificuldade que o Brasil tem para suprir necessidades básicas de seus filhos, esse contingente de cidadãos sobreassegurados é tremendo desperdício. A pandemia de covid-19 tem mostrado que, apesar do sistema duplo, o circuito hospitalar segue assoberbado, próximo do colapso. Está aí um problema que, visto o atual descaso com a Saúde, só deverá ser enfrentado por um próximo governo.

A fala do ministro em Davos mostra que, além de não resolver problemas passados, continuamos a adicionar ondas perdidas à contabilidade nacional. Enquanto não encararmos essa realidade pra valer, seguiremos dando razão ao velho Clémenceau: estamos condenados a ser eternamente o país do futuro.

Tuíte – 5

José Horta Manzano

Faz um ano, Sergio Moro e Paulo Guedes surgiam como superministros intocáveis. “Se sair o Moro, o governo acaba”, “Se faltar o Guedes, o governo desanda” – era o que se ouvia. O tempo levou as ilusões de cambulhada. Um desconhecido Mandetta, que havia arrancado na moita, cresceu, correu rápido e ultrapassou os dois “super”. Tanto brilhou que ofuscou o chefe e recebeu bilhete azul; mas saiu pela grande porta, conhecido e admirado. Já os superministros, ai, ai, ai. De tanto dizer amém, se rebaixaram e perderam sustança. Não fazem mais jus ao epíteto de “super”.

Qui se ressemble – 2

José Horta Manzano

O Mercosul não foi criado pra ser clube ideológico. A intenção dos fundadores era mais elevada. Visavam a alcançar maior integração comercial entre os membros e, obedecendo ao princípio de que a união faz a força, dar impulso às exportações de todos. Infelizmente, o relacionamento entre os sócios andou constantemente emperrado. Uma crise aqui, uma recessão ali, um deslize acolá – foi como se as rodas da carroça estivessem sempre entravadas.

Na época em que o lulopetismo dominava o país e encontrava eco na Argentina dos Kirchners, no Uruguai de Mujica, na Bolívia de Evo e na Venezuela de Chávez, o Mercosul tornou-se definitivamente um clube ideológico. Chefes de Estado se reuniam de vez em quando para muita foto de família e pouca resolução. O projeto de poder de cada governante tornou-se bem mais importante do que os avanços comerciais do grupo.

Foram-se os lulopetistas, foram-se os Kirchners, foi-se Mujica, foi-se Chávez. (Evo ainda está aí, mas quietinho, parado no ar, na expectativa de saber o que lhe reserva o futuro.) Quando Macri e doutor Bolsonaro anunciaram que o acordo comercial com a União Europeia estava assinado, só faltando ser ratificado, muitos disseram ‘agora vai’. Inclusive este blogueiro.

Que desencanto! A euforia durou pouco. Confirmando o que já diziam as sondagens, o voto popular das ‘primárias’ presidenciais argentinas apontou para a (mais que provável) derrota de Macri, o atual titular. Foi a conta. A turma do Planalto mostrou que o clube está tão ideológico quanto costumava ser. Antes, como todos comungavam os mesmos ideais, a caixa de ressonância do grupo funcionava com harmonia. Agora, que Brasil e Argentina estão na iminência de enxergar o mundo com óculos diferentes, a caixa de ressonância começou a desafinar.

Doutor Paulo Guedes, ministro da Economia, já deixou claro que a dissonância ideológica entre Brasil e Argentina pode significar a dissolução do Mercosul. Veja a que ponto chegamos, distinto leitor: um grupo criado para promover a harmonia, o progresso e o bem-estar entre Estados periga desaparecer por motivo de divergência ideológica entre governos! Será que ninguém se dá conta de que governos são efêmeros, passam, enquanto Estados são permanentes, não se vão?

O provável futuro presidente da Argentina chama-se Alberto Fernández. Na mesma chapa, Cristina Kirchner disputará a vice-presidência. Portanto, se vencerem, señor Fernández será presidente, enquanto señora Kirchner será vice. Passando por cima dessas miudezas, doutor Guedes já inferiu que a Presidência será exercida de facto pela vice-presidente. E não se acanhou de referir-se a ela de forma debochada: «E se a Kirchner quiser fechar (o Mercosul pra acordos externos), a gente sai. E se quiser abrir, então vou dizer: ‘bem-vinda, moça, senta aí’»

Não precisa muito esforço de imaginação pra identificar a pesada marca de família nesse modo desrespeitoso de falar dos outros. Acertou, leitor! É assim que doutor Bolsonaro costuma se exprimir. Você e eu, que não somos figuras públicas, podemos nos permitir esse tipo de linguagem de botequim. Eles, não.

Que fazer? Como dizem os franceses, «qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem». Eta, nós! Estamos bem arrumados.

Intestinos envenenados

Vinicius Torres Freire (*)

Era uma vez um governo que teria dois superministros, Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça). Entraram por uma porta, saíram por outra.

São príncipes transformados em plebeus da Esplanada dos Ministérios pelo caldeirão da política de Jair Bolsonaro, que tem intestinos envenenados, filé de serpente, pelo de morcego, língua de cão e múmias de feiticeiras, como o cozido das bruxas de Macbeth, mas não tem coalizão parlamentar. Fim.

(*) Vinicius Torres Freire tem graduação em Ciências Sociais (USP) e mestrado em Administração Pública (Harvard). O texto é parte de artigo publicado na Folha de São Paulo.

Chute nos aliados

Ruy Castro (*)

Os aliados de Jair Bolsonaro na campanha eleitoral deviam ter desconfiado quando, assim que foi empossado, ele jogou no mar seu amigo, seguidor e devoto Magno Malta. Todos se lembram da importância de Magno Malta, então senador pelo Espírito Santo, na vida do candidato. Quando Bolsonaro levou a facada em Juiz de Fora, foi Magno Malta quem se debruçou sobre ele no leito do hospital, quase o asfixiando, e fez uma reza braba – digo, oração – pela sua recuperação. O país inteiro assistiu. Magno Malta olhou para o teto em busca de Deus e, com seus poderes de pastor evangélico e cantor de pagode gospel, só faltou ordenar a Bolsonaro: “Levanta-te e anda! Levanta-te e anda!”.

Seja como for, deu certo. Bolsonaro levantou-se, andou e, um ou dois dias depois da posse, chutou Magno Malta de volta para o limbo de onde ele nunca deveria ter saído – sem mandato, por não ter sido reeleito senador por seu estado, e sem o ministério que esperava ganhar por sua devoção. Dura perda para quem, um dia, sonhara até ser o vice de Bolsonaro.

Para Bolsonaro, aliado de campanha é uma coisa e, no governo, outra. E isso vale para todos os escalões. Sergio Moro e Paulo Guedes, por exemplo, eram decisivos para elegê-lo, daí os epítetos de superministro para o primeiro e de Posto Ipiranga para o segundo. Na prática, Bolsonaro tem se dedicado, com sucesso, a sabotar um e outro, com declarações que atrapalham que realizem seus projetos. Bolsonaro não vê a hora em que eles, tristinhos, peçam demissão.

Bolsonaro parece trabalhar contra si próprio, ao deixar que o Congresso derrube seus decretos, o Judiciário lhe faça cara feia e os militares se magoem com os insultos que recebem. Mas só parece. O que ele quer é que todos saiam da sua frente para que, dizendo-se incompreendido, possa governar com os filhos e “com o povo”, através das redes sociais.

Resta ver se combinou com o povo.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.