O poder do cartão de visita

José Horta Manzano

Cartão de visita costumava ser adereço obrigatório na carteira de todo profissional. Logo depois das apresentações, vinha logo o pedido: “Pode me dar seu cartão?” Todos tinham cartão, até os que não tinham profissão. Estava ali anotado o nome do indivíduo assim como seu ofício, eventualmente o endereço e o número de telefone. Adolescente, cheguei a fabricar cartão em casa, à moda artesanal, batido à máquina e recortado com tesoura.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Não sei se o costume de mandar imprimir cartão de visita persiste ou se foi levado pela enxurrada da modernidade. Talvez uma troca de zap hoje baste. Sou incapaz de dizer, visto que meu último lote de cartões foi impresso mais de 30 anos atrás.

Uma notícia que li hoje – e que reproduzo na cabeceira deste texto – me lembrou o velho hábito da apresentação do cartão pessoal. Neste artigo, aquele retangulozinho de papel tem o significado de etiqueta. A etiqueta que se leva grudada na testa e que nos define com relação aos demais.

“Aquele senhor é médico”, cochichava-se discretamente à passagem do homem grisalho de ar sério.

“Olha o vendedor de aspirador! Ele bate perna de porta em porta, um trabalho estafante”, é o que se comentava sobre o rapaz de paletó surrado e calças idem.

“Puxa, repare na elegância do distinto. É deputado”. Bom, falava-se assim num tempo antigo. Hoje em dia, elegância não é exatamente o que salta aos olhos quando se fala de um parlamentar.

Mas não vamos escapar do assunto. Quero falar de segurança, aquela que o cidadão sente (ou deixa de sentir) no dia a dia, na estrada, na cidade, na praia, no tráfego e até dentro de casa de portas trancadas. O sentimento de insegurança que submerge o brasileiro não é produto de sua fértil imaginação. É a realidade inescapável, esmagante, oprimente, sufocante.

Dentro do bagageiro do inocente entregador de pizza, pode se enconder uma arma pronta a mandar para o paraíso qualquer um que ouse resistir a um assalto. Formicida pode se esconder dentro do pedaço de bolo que a vizinha gentilmente ofereceu ao pequerrucho. A vida da família inteira pode ser ceifada pela violenta colisão provocada pelo cidadão que usa seu veículo de luxo como arma abalada a 180km/h numa avenida urbana.

Há exemplos a cada minuto e em cada esquina. A violência verbal tornou-se marca típica de muita conversa antes pacífica. Há perigo em casa, na escola, no trabalho, no carro, no ônibus, no parque, no restaurante, no bar, até na igreja. O sentimento de insegurança não é produto de uma paranoia coletiva, antes, é real.

Ano sim, outro também, aumenta a percepção que o brasileiro tem do clima de violência em que vive. Os maiores espantalhos do país, em outros tempos, já foram o comunismo, a inflação, a corrupção. Hoje, sem sombra de dúvida, a assombração maior é a insegurança.

Acho curioso ver “ex-gestores da área de Segurança”, qual salvadores da pátria, se candidatarem a postos eletivos com base na experiência adquirida nesse ramo. Ora, num país em que a insegurança se tornou a preocupaçao número 1, esses “ex-gestores da área de Segurança” deviam mais é fugir dos holofotes, bater sua mea culpa, se envergonhar de não terem sido capazes de pôr fim ao problema, e desaparecer do picadeiro.

Pedir voto de confiança ao eleitor me parece petulância. Quem não resolveu o problema enquanto tinha poder para tal deveria reconhecer a própria incapacidade, dar adeus e ir-se embora.

O cartão de visita tem, sim, o poder de exaltar a personalidade de quem o apresenta. Mas não têm o condão de dourar o currículo de gestores fracassados.

Transtorno de personalidade

José Horta Manzano

Um time notável, que reúne juristas de peso e professores de Direito e Ética, entrou com ação civil ordinária junto ao STF. Requerem que Jair Bolsonaro seja submetido a minuciosa perícia médica a fim de averiguar a presença nele de transtorno de personalidade que o incapacite para o cargo. O sorteio indicou Gilmar Mendes para a relatoria do processo.

É permitido duvidar que a coisa prospere. Ainda assim, não custa sonhar. Se fosse adiante, a verificação havia certamente de constatar distúrbio feio. A interdição por problemas mentais seria o melhor caminho para alijar essa estrovenga do Planalto.

Todos sabem que o homem é perturbado da cachola, mas falta um laudo oficial, com assinatura de junta médica e firma reconhecida. Impeachment é sempre uma solução política, que alguns podem até enxergar como golpe. Já uma interdição por incapacidade cognitiva daria um cala-boca a todos – doença mental atestada por junta independente e apartidária é fato indiscutível. Contra ela, não há recurso possível.

A ação desses juristas traz à atualidade um debate que já devia ter sido feito desde a redemocratização: o da qualificação de pretendentes a cargo eletivo, seja ele do Executivo ou do Legislativo.

Na iniciativa privada, todo candidato a um emprego passa necessariamente por um exame de avaliação. Informal nas pequenas empresas, ele cresce em forma e estrutura conforme a importância da firma.

Também no funcionalismo, tirando os que ocupam efêmeros cargos ditos “de confiança”, é obrigatório prestar concurso público e ser aprovado.

A aferição da aptidão dos pretendentes também se faz em outros momentos da vida civil: na hora de tirar a carteira de motorista, por exemplo. Todo candidato deve ser bem-sucedido num teste psicotécnico em que sua capacidade de tomada de decisões, seu raciocínio lógico e seu controle emocional são testados.

Acredito que é importante aplicar o mesmo princípio a todo candidato a posto eletivo – vereador, prefeito, deputado, governador, senador e, acima de tudo, presidente da República.

Um candidato habilidoso e com boa lábia pode enganar meio mundo, como tem acontecido com tanta frequência; trapacear num teste bem estruturado são outros quinhentos. Que se institua um exame para verificar o equilíbrio e a integridade psíquica de cada postulante.

Ninguém concordaria em entregar o volante de um veículo a um indivíduo mentalmente perturbado, pois não? Como é então possível entregar as rédeas da nação a um desequilibrado?

É verdade que, desde os tempos do folclórico Jânio Quadros, não tínhamos tido um desequilibrado na Presidência. Tivemos simpáticos e antipáticos, honestos e desonestos, inteligentes e empacados, mas não tivemos nenhum psicopata. Talvez, por isso, a decisão de colocar um filtro antes mesmo do registro da candidatura tenha ficado de molho todos esses anos.

Mas agora o tempo chegou. Estamos sentindo na pele o resultado de termos entregado a direção do país a um ser mentalmente transtornado. É uma catástrofe que teria sido evitada com um simples teste psicotécnico aplicado no momento do registro da candidatura.

O modelo, o melhor momento e as modalidades serão acertados por quem entende do riscado. O importante é começar a pensar nisso já, a fim de evitar termos de reviver, no futuro, um desastre como o atual.

Curso superior

José Horta Manzano

Um jovem deputado federal pelo Estado de Tocantins apresentou uma PEC ‒ Proposta de Emenda à Constituição. O moço, cuja mãe foi ministra de dona Dilma, propõe que cidadãos sem diploma universitário sejam proibidos de se candidatar a cargo político eletivo. Dito assim, o anseio soa exótico e dá que pensar. Como sói acontecer, a proposta tem um lado positivo e outro menos. Vamos analisar.

Em teoria, o novo dispositivo eliminaria candidaturas extravagantes de gente que, embora popular, pode não dispor da instrução mínima que cargo público requer. Palhaços, estilistas, bispos e outros perfis incomuns seriam eliminados da vida política. O próprio Lula nunca teria abandonado o ofício de orador profissional de porta de fábrica. Nesse particular, talvez até tivesse sido bom para o país. Infelizmente, não se refaz a História.

Estudante 3Por seu lado, a exigência de diploma de curso superior traria de volta relentos de um passado que temos procurado modificar. Nos tempos do império, só podiam votar e ser eleitos cidadãos que atingissem determinado nível de renda. Era o que se chamava voto censitário. Barreira entre universitários e os demais se aparenta perigosamente com o ultrapassado antagonismo entre endinheirados e remediados. Não passa de atualização da oposição «nós & eles», negação gritante do espírito republicano.

A meu ver, a PEC do deputado enfrenta o estigma da ignorância com armas inadequadas. Investir em Instrução Pública de qualidade é o caminho mais apropriado. O cidadão instruído e bem formado terá melhores condições de discernir entre os bons e os maus candidatos. Diploma não é garantia de probidade, de inteligência, de cultura nem de boas intenções.

Proibir candidaturas por critério de escolaridade é aplicar emplastro em perna de pau. Quem vota são os cidadãos, portanto, mais vale trabalhar para elevar o nível de discernimento dos que elegem.

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Estudante 1Observação
Como é costume, o deputado junta à proposta de emenda um arrazoado com as justificativas do projeto. Engana-se quem imagina que o nível universitário do parlamentar seja garantia de boa escrita. Veja este trecho:

«Hoje, verificamos que muitos membros do Poder Legislativo possuem(1), inclusive(2), dificuldade de leitura, o que impede que os membros(3) atuem de modo efetivo nas(4) suas funções constitucionais, na medida em que(5) o exercício de tais funções(6) torna-se cada vez mais complexo e dependente de conhecimentos específicos.»

(1) O verbo possuir não é intercambiável com o verbo ter em todos os casos. Pode-se possuir um bem ou um objeto, mas não se pode «possuir dificuldade». Tem-se dificuldade.

(2) O inclusive sobra. Sem essa palavra, a frase fica mais leve e dá a mesma mensagem.

(3) Recomenda-se evitar a repetição de termos na mesma frase. Essa segunda menção a os membros é inútil e supérflua.

(4) Atuar de modo efetivo é volteio longo e desnecessário. O verbo cumprir substitui com vantagem.

(5) A locução é na medida que, sem o em.

(6) De novo, uma repetição desnecessária. De tais funções sobra.

Beca 1Reescrevendo, fica assim:
«Hoje, verificamos que muitos membros do Poder Legislativo têm dificuldade de leitura, o que impede que cumpram suas funções constitucionais, visto que o exercício se torna cada vez mais complexo e dependente de conhecimentos específicos.»

Como dizem os franceses, «il faut d’abord balayer devant sa porte» ‒ precisa primeiro varrer a própria calçada. Temos um ditado equivalente: quem tem telhado de vidro não atira pedra no do vizinho