Ondas perdidas

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 maio 2020.

Nestes tempos de epidemia, a história se precipita. Da noite para o dia, o ritmo acelerado dos acontecimentos envelhece as notícias. Casos da semana passada já estão no arquivo morto; coisas de três meses atrás já estão entrando no livro de história. Faz quatro meses, Paulo Guedes visitou o Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde recebeu, na ausência do presidente, as honras devidas ao Brasil. Sua fala passou quase despercebida. É verdade que ele não fez nenhuma revelação acachapante. Referindo-se a nosso país, filosofou: “Perdemos a grande onda da globalização e da inovação, então essa mudança vai levar um tempo, mas estamos a caminho”.

O ministro não foi o primeiro a passar recibo da lentidão de reação de nosso país. Cem anos atrás, o estadista francês Georges Clémenceau (1841-1929) já havia se dado conta disso. Quando lhe contaram que o Brasil era o país do futuro, replicou ferino: “e há de continuar assim por muito tempo”. Tinha razão. Um século depois, o futuro radioso ainda não se vê. Toda vez que a gente pensa que a hora boa chegou, a realidade se encarrega de nos desenganar. Perdemos não só a onda da globalização e da inovação, sublinhada pelo ministro, mas muitas outras. Chegassem todas juntas, formariam um tsunami. Nossa maré baixa já vem de longe.

Perdeu-se a memória do Brasil imperial, defunto há mais de 130 anos. Nenhum vivente sabe mais, de experiência própria, como era então a vida. Mas a história ensina que, em terras onde o chefe de Estado é permanente e desprovido de poder real, a estabilidade política é superior. Entra governo, sai governo, a figura do patriarca vitalício é garantia de segurança. Essa onda da estabilidade política, que a República não soube compensar, perdemos.

A grande onda de Kanagawa
by Katsushika Hokusai (1760-1849), artista japonês

O ensino foi sempre tratado com pouco caso. A primeira universidade das Américas foi fundada nos anos 1530; a abertura da Escola de Cirurgia da Bahia – primeiro curso superior do Brasil – só ocorreria 250 anos mais tarde. Já demos a largada com dois séculos e meio de atraso. O desdém para com o estudo se reflete até nossos dias. Na virada do século 19 para o 20, dois em cada três brasileiros maiores de 15 anos eram analfabetos. Em 1950, metade da população ainda não sabia ler nem escrever. Foi só nestes últimos 70 anos que os números começaram a sorrir – sorriso tímido, visto que o analfabetismo resiste e ainda condena 7% dos brasileiros à ignorância. Como pode a sociedade aceitar que 1 compatriota em cada 15 viva na escuridão? A onda da Instrução Pública, perdida, continua a nos desafiar.

O Brasil rateou também na hora de decidir sobre mobilidade. Sucumbindo a interesses poderosos, elegeu o transporte rodoviário como solução única, relegando a estrada de ferro ao ferro-velho. Na mesma fieira, não soube prever que a supremacia absoluta do transporte de superfície em detrimento do metrô geraria entupimento permanente nas grandes cidades.

Na Saúde Pública, perdura uma surpreendente jabuticaba – bizarrice que não parece comover ninguém. Longe da contenção de gastos recomendada a todo país pobre, boa parte dos assalariados brasileiros são compulsoriamente afiliados a dois sistemas de saúde redundantes. O sistema nacional (SUS) e uma rede de convênios privados correm em paralelo. Um dos dois sistemas será sempre supérfluo, dado que cada ato médico só poderá ser ministrado uma vez. O cliente passa a vida pagando dobrado. Quando se pensa na dificuldade que o Brasil tem para suprir necessidades básicas de seus filhos, esse contingente de cidadãos sobreassegurados é tremendo desperdício. A pandemia de covid-19 tem mostrado que, apesar do sistema duplo, o circuito hospitalar segue assoberbado, próximo do colapso. Está aí um problema que, visto o atual descaso com a Saúde, só deverá ser enfrentado por um próximo governo.

A fala do ministro em Davos mostra que, além de não resolver problemas passados, continuamos a adicionar ondas perdidas à contabilidade nacional. Enquanto não encararmos essa realidade pra valer, seguiremos dando razão ao velho Clémenceau: estamos condenados a ser eternamente o país do futuro.

Confinamento light

José Horta Manzano

A Suíça é um país federal. Cada cantão tem ciúmes da própria autonomia, visto que ela lhe concede ampla liberdade em muitos aspectos da vida administrativa. Tanto o Estado central quanto os cantões costumam respeitar essa independência; cada parte evita se meter nos assuntos da outra.

No final de fevereiro, quando a ameaça do coronavírus ribombou, ficou claro que teriam de ser tomadas medidas urgentes para limitar a propagação da epidemia. Uma dúvida surgiu: deixar que cada cantão cuidasse de sua jurisdição ou centralizar as decisões? A primeira opção poderia resultar numa desordem geral, cada cantão optando por diretivas diferentes. Já a segunda parecia mais estruturada, mas feria a sacrossanta autonomia regional. Como fazer?

Numa decisão fora dos padrões, o governo federal optou por centralizar a orientação. Ainda que de nariz torcido, os cantões acompanharam. O governo, confiante no espírito disciplinado do povo, achou desnecessário decretar confinamento rigoroso como o de países vizinhos (França e Itália).

Dia 16 de março, comércio e escolas fecharam. Empresas de serviço que recebem público também tiveram de parar de trabalhar. Continuaram funcionando os comércios essenciais: supermercados, farmácias, lojas de comida para animais de companhia.

As empresas que podiam instauraram o teletrabalho. As demais – construção civil, por exemplo – tiveram de parar porque não havia meios de respeitar a distanciação social. Os transportes públicos continuaram funcionando, ainda que em ritmo reduzido. As ruas esvaziaram, pois ninguém tinha para onde ir. Deu para ouvir passarinhos cantando, coisa comum nesta época do ano, mas difícil de perceber nas cidades maiores.

Trompa alpina (Alphorn), instrumento nacional suíço

Nos primeiros dias, um movimento de pânico se instalou. Como se o país se preparasse a entrar em guerra, o povo tomou de assalto os supermercados e acabou com determinados artigos. Ovos, farinha, fermento, papel higiênico e papel toalha sumiram. As gôndolas de enlatados ficaram com espaços vazios. Parece que o pessoal tinha mais medo de morrer de fome do que de contrair a doença.

Semana passada, começou o desconfinamento. Vai por etapas. Cabeleireiros e terapeutas já podem trabalhar, paramentados com luva e máscara, e munidos de álcool em gel. Semana que vem, escolas começam a receber a criançada e o comércio abre. Festivais, manifestações esportivas e outros ajuntamentos vão ter de esperar mais um pouquinho. Para esses casos, ainda não há previsão de autorização.

Tanto o governo federal quanto as administrações cantonais foram generosas para com os que ficaram sem emprego. Os pequenos empresários que perderam faturamento também não foram esquecidos. Medidas pontuais foram adotadas para paliar o problema de cada um.

Ninguém sabe até quando a população vai continuar com medo de contágio. Imagino que, por um bom tempo, a vida será diferente do que era antes. O mundo só voltará ao que costumava ser no dia em que encontrarem uma vacina contra esse mal. Antes disso, uma inocente tossidinha será capaz de esvaziar um ônibus inteiro.

Ninguém fica para trás

José Horta Manzano

Sexta-feira, o Estadão publicou um editorial sobre o trabalho que vem sendo executado pelo Ministério das Relações Exteriores para repatriar conterrâneos que se encontrem em terra estrangeira e em palpos de aranha em razão da pandemia. O artigo é bastante elogioso e deixa a impressão de que a editoria do jornal está surpresa com a diligência do Itamaraty.

O Brasil de 2020 não é o mesmo de meio século atrás. Brasileiros hoje viajam, vão pra fora de férias, estudam fora, trabalham fora, se estabelecem fora. E não é um punhadinho de gente, não. Visto que não há obrigação de se registrar no consulado, é impossível dar um número oficial, mas as melhores estimativas indicam que somos mais de 3 milhões estabelecidos no exterior.

Sem contar os que saem de férias ou por temporada mais curta. Portanto, não me parece extraordinário que o Ministério esteja equipado pra socorrer conterrâneos em apuros no exterior. Muitos conterrâneos no exterior foram surpreendidos pela pandemia. Querem voltar para o Brasil e não conseguem, por falta de avião ou por motivo de confinamento rigoroso. Pedem que o governo dê um jeito de repatriá-los.

O editorial repercute uma nota do Itamaraty: “A prioridade continua a ser dada para que os brasileiros possam ser acomodados em voos comerciais”. Apesar de curta, a frase é torturada. Do Itamaraty, espera-se um pouco mais de cuidado. Prioridade dá-se a alguém (ou algo); não se dá prioridade para que. Corrigindo, fica assim: «A prioridade continua a ser dada à acomodação de brasileiros em voos comerciais».

O editorial cita ainda uma declaração de doutor Ernesto Araújo, o chanceler. Diz ele que, na ausência de voos ou em caso de fechamento de espaço aéreo, “estamos vendo maneiras de pagar voos fretados”,. Até aqui, tudo em ordem. É onde o ministro devia ter terminado a declaração. Mas ele preferiu continuar: “Tentaremos, claro, negociar pelo valor mais em conta possível com as companhias aéreas para trazer de volta os brasileiros. Será a única possibilidade em muitos casos.”

Não precisava ser deselegante e confessar que os compatriotas serão repatriados pelo «valor mais em conta possível». Esse pão-durismo, endereçado aos que estão em situação complicada, é desnecessário. Por que essa rispidez? Será que a palavra de ordem «Ninguém fica para trás» não passa de slogan?

Tosco como outros integrantes do atual governo, o chanceler confirma não passar de aprendiz alçado descabidamente a um cargo maior que ele.

Bolsonaro: um nome predestinado

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 abril 2020.

Nos tempos de antigamente, epidemias eram frequentes. Em razão do saber científico rudimentar, os remédios disponíveis eram chá de alguma erva e reza braba. A propagação era lenta, visto que quase ninguém se deslocava – viagens são costume relativamente recente. A evolução da ciência trouxe conhecimentos importantes; ensinou o modo de transmissão de doenças infecciosas e, em muitos casos, o remédio que cura. O complicador é que o homem já não vive na imobilidade medieval; hoje, viajam todos. Viajam muito e longe. O resultado é que, quando de ataques virais como o Covid-19, a doença se propaga como a peste, e continuamos tão desarmados como os antigos. O remédio é o mesmo de mil anos atrás: afastamento, isolamento e confinamento.

Em meio à desgraça e à tristeza causadas pela epidemia, o Brasil levou um premiozinho de consolação. A viagem que doutor Bolsonaro faria à Europa por estes dias saiu da pauta; por motivos óbvios, foi adiada sine die. Ele não ia cumprir o roteiro das grandes capitais – Paris, Berlim, Londres, nossos aliados tradicionais e fortes parceiros comerciais. Tencionava visitar unicamente a Hungria e a Polônia, países que, juntos, recebem 0,4% de nossas exportações. Estava evidente que o objetivo da excursão não era «vender» o Brasil. Nosso presidente tinha intenção de papear com dirigentes populistas extremistas, que ele imagina possam ser úteis a seu projeto de poder. Toda essa farra à custa do contribuinte, note-se. Mas desta, o Brasil se livrou. Por enquanto.

Aproveitando a viagem custeada por nós, Bolsonaro, que descende de italianos, estava pensando em dar uma ‘esticadinha’ até a Itália para ver se encontra algum parente. Diz ele, referindo-se a eventuais primos por descobrir, que quer «conhecer os mafiosos da família», tipo de brincadeira estúpida que, na Itália, tem poder explosivo. Seus antepassados chegaram ao Brasil na grande leva do fim do século XIX. Como tantas famílias italianas, a sua também perdeu contacto com os que ficaram e a memória acabou se esgarçando.

Sabe-se que doutor Bolsonaro é homem de parcos conhecimentos. Aborrece ainda mais vê-lo cercado de gente sem muito expediente. Em vez de perder tempo a tuitar boçalidades, tinham mais é de ajudar o chefe a buscar as origens. O sobrenome está mal transcrito. No original, é Bolzonaro, com z. Cem anos atrás, tanto os imigrantes quanto o agente que os registrava eram de poucas letras. Pronunciado à moda vêneta, o nome foi transcrito foneticamente e o z virou s.

O presidente disse acreditar que o berço da família é a cidade de Lucca, na Toscana. É a indicação incrustada na memória familiar. A meu ver, ele está enganado. Rápida consulta à lista telefônica nacional italiana mostra que 70% dos Bolzonaro vivem na região do Vêneto – indicação certeira de que o nome é originário de lá. Na região, há uma cidadezinha chamada Lugo, na província de Vicenza. Dado que, na transmissão familiar oral, de Lugo a Lucca a confusão é plausível, eu começaria minhas buscas por Lugo e esqueceria Lucca. Fica a dica.

Para fechar, uma curiosidade. As palavras italianas terminadas em aro indicam nome de ofício ou profissão. O Dicionário do Dialeto Veneziano, obra caudalosa do século 19, informa que bolzòn é palavra ligada ao universo das armas. Dá nome a um tipo de flecha medieval e também a antigo instrumento bélico, espécie de aríete usado para derrubar muros de cidade fortificada. É bem possível que, lá pelos anos 1300, quando as pessoas começaram a ganhar sobrenome, um longínquo antepassado de nosso presidente tenha trabalhado na contrução desses artefatos.

Com o desaparecimento de flechas e aríetes, o campo semântico da palavra se alargou. Ela ressurge no verbo alemão bolzen, com o sentido de golpear com furor. Aparece também no verbo inglês to bolt, com o significado de mover-se de modo nervoso, sair fora de controle. Flecha, aríete, ataque, descontrole… Qualquer semelhança entre a profissão do patriarca da linhagem e o comportamento agressivo e belicoso de nosso presidente há de ser mera coincidência. Ou não.

Para conferir no site do Correio Braziliense.

Bomba-relógio

José Horta Manzano

O mundo anda de olho grudado no Brasil. E não estão sonhando com o rumor das ondas de Ipanema nem com o rugido da onça-pintada na floresta tropical. Estão temerosos do desastre que começa a tomar forma com a chegada do coronavírus.

«O Brasil, nova bomba-relógio do planeta» – é a manchete do diário francês Le Parisien.

O medo é que os vaivéns presidenciais tenham prejudicado a tomada de decisão sobre as melhores estratégias para enfrentar a epidemia. Cada dia perdido no bate-cabeça que paralisa o Planalto contribui para aumentar a força da bomba que está por explodir.

«No Brasil e no México, a luta contra o coronavírus está marcada pela ignorância» – estampa o alemão SWP (Südwest Presse). Tem razão. A ignorância é a única explicação para um Brasil que destoa no concerto global. Todos vão, disciplinados, em compasso de marcha enquanto, por aqui, vai da valsa.

«O Brasil se dirige a uma terrível tormenta» – é a sombria previsão lançada pela Deutsche Welle, conglomerado alemão de mídia.

«O receio do pior nas favelas do Brasil» – é o temor expresso por France TV, conglomerado francês de mídia.

Como disse um magistrado, estes dias, só os astronautas não correm risco de contágio. Enquanto permanecerem no espaço, naturalmente.

Reparem que, em matéria de coronavírus, ninguém ousaria tratar nenhum outro país de ‘bomba-relógio’. Nem mesmo os EUA, que lideram a triste estatística de vítimas, são vistos como um perigo para a humanidade. Só nosso país. E todo o mundo sabe por quê.

Como é possível que um só personagem, fraco e cercado de meia dúzia de imbecis, possa causar tanto estrago? Será que não encontram um meio de acabar com essa trágica farsa? Temos um cipoal de leis. Temos centenas de parlamentares e milhares de magistrados. Vamos, gente, coragem!

Nós aqui, do andar de baixo, não dispomos dos meios necessários. O Brasil não aguenta mais três anos assim. Só a interdição desse homem pode nos devolver a tranquilidade. É melhor agir antes que o povo se subleve.