Três trapaças

José Horta Manzano

Na Alemanha
Em 2013, Frau Annette Schavan, então ministra alemã da Educação ‒ e amiga pessoal de Angela Merkel ‒ foi acusada de ter plagiado um bom pedaço de sua tese de Filosofia. A primeira reação veio rápido da própria universidade: seu título de doutora foi cassado. Menos de uma semana depois, não teve mais jeito. A trapaceira, constrangida, entregou sua carta de demissão do cargo. Com o «coração pesado», Frau Merkel aceitou imediatamente. Nunca mais se ouviu falar da doutora picareta.

Frau Annette Schavan, ex-ministra da Educação da Alemanha

Frau Annette Schavan, ex-ministra da Educação da Alemanha

No Uruguai
Semana passada, señor Raúl Sendic, vice-presidente do Uruguai, foi citado pela Justiça pelo delito de usurpação de título. Deverá prestar esclarecimentos sobre uma suspeita de fraude. De fato, alguns meses atrás, apresentou-se ‒ em documentos públicos e em atos oficiais ‒ como diplomado em Genética Humana.

Acontece que sua licenciatura não consta em nenhuma instituição de ensino uruguaia. Señor Sendic alega ter feito seus estudos e obtido o diploma em… Havana, Cuba. O quiproquó já dura desde o mês de fevereiro. Havana continua em silêncio, sem confirmar o que diz o vice-presidente. Eis por que a Justiça perdeu a paciência e intimou o figurão. Agora, ou vai ou racha.

Señor Raúl Sendic, vice-presidente do Uruguai

Señor Raúl Sendic, atual vice-presidente do Uruguai

No Brasil
Já dizia o outro que, a cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos quinze anos anteriores. De fato, era assim, mas parece que o ritmo de esquecimento se acelera. Alguém se lembra de que dona Dilma, então ministra da Casa Civil do Lula, foi um dia apanhada em flagrante delito de trapaça?

Pois é. Foi em 2009, sete anos atrás. Em currículo publicado na mui séria e conceituada Plataforma Lattes, a então ministra se atribuía créditos de doutoramento aos quais não fazia jus. Pra encurtar o caso, tentava tapear, de forma rasteira, o grande público.

Dilma 15Descoberta e denunciada, classificou o embuste de «equívoco», provável obra de algum assessor arteiro. (Como todo universitário sabe, ninguém acessa o próprio currículo se não tiver a senha.)

Como terminou a história? Em pizza. Uma semana depois, ninguém mais lembrava. Virou-se a página e ficou tudo por isso mesmo. Meses mais tarde, a doutora foi eleita para a presidência, num verdadeiro prêmio à pilantragem.

Reforma previdenciária

José Horta Manzano

No Brasil, são muito antigas as regras básicas que determinam o direito do cidadão a receber pensão na velhice. Costuma-se dizer ‘aposentadoria’, mas o termo não é apropriado. De fato, quem recebe o benefício não se retira necessariamente a seus aposentos. Frequentemente continua na ativa. O termo ‘pensionista’, utilizado pelos italianos, seria mais adequado. Mas não há que fazer: já faz tempo que aposentadoria entrou para o vocabulário do dia a dia.

Nessa matéria, as regras brasileiras foram estabelecidas nos tempos de antigamente, quando a taxa de natalidade estava nas alturas e a expectativa de vida não ia muito além de uma cinquentena de anos. Eram disposições adequadas para a época, sem dúvida: o benefício vinha cedo, mas havia uma multidão de jovens contribuindo, isto compensando aquilo.

carteira-trabalho-1Acontece que, de lá pra cá, muito tempo passou, os anos de vida aumentaram, a natalidade diminuiu, mas… as regras continuaram inalteradas. Nenhum governo, nem mesmo durante o período ditatorial, quando teria sido mais fácil impor reformas, ousou mexer no vespeiro. O assunto é explosivo.

Chegamos agora ao ponto de ruptura. O sistema está desmoronando. Mais uns anos, e será virtualmente impossível garantir-lhe a continuidade. Reconhecendo que já passou da hora de encarar a nova realidade, o governo federal decidiu finalmente arregaçar as mangas e propor profunda reforma. Antes tarde que nunca.

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Cada país tem sua realidade e suas particularidades, portanto, a receita que dá certo aqui pode não funcionar ali. Cada um tem de encontrar solução própria. O que não pode é fazer de conta que nada mudou e que o dinheiro continuará a cair do céu.

O sistema suíço é menos complicado que o brasileiro. Pontos característicos são o valor fixo do benefício ‒ igual para todos, independentemente dos salários recebidos ‒ e a absoluta necessidade de ter completado 65 anos de idade e de ter contribuído durante 44 anos.

velhice-6O eleitorado suíço foi ontem chamado a votar num plebiscito. A pergunta era se concordavam em aumentar em 10% o montante do benefício. Por maioria de 60%, o povo repeliu a proposta. Vista do estrangeiro, a decisão parece surpreendente.

É que cada um sabe onde lhe aperta o sapato. Os suíços não estão pensando no mês que vem, mas num futuro mais amplo. Votaram com o objetivo de garantir a perenização da aposentadoria. Acharam melhor renunciar ao aumento e cooperar para que o sistema sobreviva.

A lição do Gabão

José Horta Manzano

Anos atrás, no apogeu da popularidade, nosso guia se sentia acima do bem e do mal. Falava pelos cotovelos, dizia bobagens cabeludas e a maioria, anestesiada, achava graça e aplaudia. Convém lembrar que ele continua recitando bobagens, mas a plateia ‒ para azar dele ‒ despertou da letargia. O prazo de validade venceu e a fala do antigo guia perdeu o encanto: vai direto para o cesto de papel.

Em agosto de 2004, quando de uma viagem ao Gabão ‒ país da África equatorial, pequeno mas rico em petróleo e em minerais ‒ foi recebido com pompa e circunstância pelo então “presidente” Omar Bongo. Àquela altura, já fazia 37 anos que o figurão estava no topo do poder. Firme e forte, ainda ficaria cinco anos, até exalar o último suspiro, perfazendo um total de 42 anos de mando.

Chamada do Estadão, 17 ago 2004 Clique para ampliar

Chamada do Estadão, 17 ago 2004
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Encarnação do culto extremo à personalidade, prática comum em países mais atrasados, o ditador chegou a ser homenageado, em vida, com a mudança do nome de sua cidade de nascimento. Já em 1969, dois anos depois de Bongo tomar o poder, a pequena Ambombo natal passou a chamar-se Bongoville. Traduzindo para o tupiniquim, é como se Caetés tivesse sido rebatizada Lulópolis ou Lulândia. Dá pra sentir o ambiente?

Com a morte de Omar Bongo, o caminho da sucessão se abriu. E quem foi o ungido? Pois foi Ali Bongo, primogênito do velho guerreiro. Coincidência? Não parece. A máquina da ditadura hereditária, bem azeitada pelo patriarca durante quatro décadas, não tinha como falhar. À moda da Coreia do Norte, da China, de Cuba e de outros paraísos democráticos, eleições são só pra inglês ver. O poder passa de pai pra filho enquanto parlamentares são eleitos apenas para referendar decisões já tomadas pelos reais donos do país.

Após sete anos, chegou a hora de Ali Bongo convocar eleições presidenciais. Foi agora, mês passado. Os resultados são interessantíssimos. Monsieur Bongo saiu vencedor com uma apertada diferença de 6 mil votos, menos de um porcento do eleitorado.

Lula & Omar Bongo em 2004. Bongo foi "presidente" do Gabão durante 41 anos e meio, até sua morte, quando foi substituído pelo filho.

Lula & Omar Bongo em 2004.
Bongo foi “presidente” do Gabão durante 42 anos, até sua morte, quando foi substituído pelo filho.

As eleições, como em quase todo o mundo, são facultativas: vota quem quiser. Computadas as nove províncias do país, a participação média não chegou a 60% do eleitorado. O fato mais curioso vem agora: na província do Alto Ogouê, região natal do clã Bongo, a participação foi de 99,93% dos eleitores. Monsieur Bongo venceu ali com 95,46% dos votos, resultado staliniano.

O segundo colocado interpôs recurso junto à corte constitucional do país. Depois de semanas de suspense, o resultado final acaba de sair: a vitória de Monsieur Bongo não só fica confirmada, como a diferença aumentou de 6 mil para 12 mil votos. Um detalhe: a presidente da corte constitucional é a mãe do vencedor das eleições. Uma coincidência, sem dúvida.

Quando se fica sabendo de coisas assim, a gente sente que vive em país de Primeiro Mundo. Ainda bem que Monsieur Bongo não ensinou ao Lula como fazer para ficar eternamente no poder. Quem sabe tenha até ensinado, mas o aluno, para felicidade geral da nação, não conseguiu reter a lição.

Protesto bolivariano

José Horta Manzano

Quando Brasil, Argentina e Paraguai decidiram não aceitar que a presidência temporária do Mercosul fosse entregue à Venezuela de Nicolás Maduro, o governo uruguaio titubeou. Montevidéu, que detinha naquele momento a presidência do bloco, sentiu-se incomodado com a batata quente que lhe queimava as mãos. Sua primeira reação foi livrar-se dela.

Depois de alguns dias e de muita conversa de bastidores, convenceu-se de que não valia a pena arrumar encrenca com os sócios. Ficou, então, acertado que a Venezuela, atualmente sem condições de assumir a direção do clube, será mantida afastada da presidência.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Voto vencido, o Uruguai aderiu à solução alinhavada de última hora: a direção do bloco será assegurada de forma colegial pelos quatro membros fundadores.

temer-4Foi decisão equilibrada. A vida segue, à espera de que o maltratado povo venezuelano consiga reencontrar o rumo da civilização. O governo uruguaio rendeu-se à evidência: não adianta dar murro em ponta de faca. Em casos assim, o maior prejudicado é sempre o esmurrador.

É consternador constatar que os países ditos «bolivarianos» continuem insistindo em ignorar o bom senso. Depois de passar anos acumpliciados com o desastrado governo brasileiro dos últimos treze anos, não conseguem entender que a destituição de nossa antiga presidente é definitiva, que não há volta possível e que os antigos conchavos entre “compañeros” são página virada.

Como adolescentes birrentos, meia dúzia deles decidiram boicotar ostensivamente o discurso pronunciado por doutor Temer na abertura da Assembleia da ONU deste ano. Dois deles, mais discretos ‒ ou, quem sabe, mais atemorizados ‒ preferiram esconder-se no banheiro antes de nosso presidente subir ao púlpito. Outros quatro optaram pelo desaforo frontal: retiraram-se do recinto assim que o doutor começou a falar.

Que pretendem? Serão adeptos do «Volta, Dilma»? Que ganham com isso? Imaginam que a desfeita lhes trará algum benefício? Ficam no ar as perguntas.

Evo Morales, by Pablo Lobato, desenhista argentino

Evo Morales,
by Pablo Lobato, desenhista argentino

Seja qual for a desvairada intenção de Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia & companhia, o certo é que deram ponto sem nó. Amanhã, o mundo terá esquecido a atitude birrenta. Mas o ofendido, o Brasil, não há de perdoar tão cedo o desaforo.

Os ofensores ‒ a infeliz Venezuela em primeiro lugar ‒ perigam precisar do amparo brasileiro. Com a atitude petulante, acabam de cuspir no prato em que talvez tenham de comer amanhã. Não faz sentido cultivar desavenças.

Mais uma vez, está dada a prova de que a estupidez humana não tem limites.

FGTS ‒ duas visões

José Horta Manzano

Você sabia?

Velhice 2Quando me perguntam sobre o assunto, costumo responder que, igualzinho ao Brasil, a Suíça também conta com um fundo de garantia obrigatório para beneficiar trabalhador assalariado. Aliás, o FGTS brasileiro, que existe desde 1966, é anterior ao suíço, que só foi criado vinte anos mais tarde. Em ambos os países, o objetivo do fundo é amparar o trabalhador, ainda que o conceito de «amparo» não seja o mesmo.

No Brasil, o fundo foi instituído mais para neutralizar um problemão que ameaçava empresas. A estabilidade adquirida por funcionários antigos emperrava a produtividade e aumentava o risco de falência. A instituição do fundo desafogou empregadores e, como efeito colateral, beneficiou trabalhadores.

Na Suíça, país cujos assalariados nunca usufruíram de «estabilidade» no emprego, o fundo foi criado com vista a reforçar o rendimento dos aposentados. Eis por que a poupança obrigatória é alimentada paritariamente, ou seja, o empregador entra com 50% e o funcionário contribui com a outra metade. Tanto no Brasil como na Suíça, o pecúlio fica numa conta individual bloqueada. Cada assalariado tem a sua.

Velhice 5O FGTS brasileiro nasceu com vocação diferente. Visa a criar uma ponte para amparar o assalariado em períodos de desemprego. Frequentemente, a cada mudança de emprego, o funcionário retira seus haveres e esvazia a poupança. Se algo sobrar para a velhice, não será mais que valor residual, coisa pouca. Os anos de velhice não serão beneficiados.

Na Suíça, para garantir um reforço dos rendimentos do aposentado, o pecúlio só poderá ser retirado quando o contribuinte atingir 65 anos de idade. Há pouquíssimas exceções à regra. Uma delas permite que parte do fundo (até 20%) seja utilizada para compra de casa própria. Assim mesmo, com uma condição: caso a casa venha a ser vendida posteriormente, o contribuinte é obrigado a devolver o dinheiro, que será de novo incorporado à poupança obrigatória. Há outros casos em que o fundo pode ser resgatado, mas são casos raros e excepcionais.

Velhice 4Ao chegar à idade da aposentadoria, o assalariado tem duas opções: tanto pode retirar o pecúlio de uma vez como pode deixá-lo intocado. Neste último caso, fará jus a uma renda vitalícia. Pelas regras atuais, receberá benefício anual equivalente a 6.5% do capital acumulado. O pagamento é mensal. Em caso de falecimento do beneficiário, o(a) viúvo(a) continuará recebendo o benefício até o dia de seu último suspiro.

A diferença entre a visão brasileira e a suíça é quase filosófica. No Brasil, a poupança forçada é devolvida ao beneficiário a qualquer momento da vida, ainda que ele esteja em condições de encontrar novo emprego. Na Suíça, deu-se prioridade a amparar aqueles que, por causa da idade, têm chance praticamente nula de encontrar colocação. Quando um cidadão chega à velhice em situação de penúria, quando o valor da aposentadoria é insuficiente para cobrir as necessidades básicas, a sociedade terá de ampará-lo financeiramente. É justamente isso que se procura evitar.

Cada terra com seu uso.

Dia do jejum

José Horta Manzano

Você sabia?

Não tem como escapar: a agricultura, desde sempre, depende dos caprichos do clima. Sol, chuva, frio, calor influem sobre a quantidade e a qualidade da colheita. Nos tempos de antigamente, o homem não tinha como conservar alimentos. Sobreviviam todos com o que se colhia a cada ano.

A escassez de açúcar impossibilitava a conservação de frutas sob forma de doce ou geleia. Sal também era raro, o que tornava problemática a preservação de carnes e peixes. Congelamento? Num tempo em que não havia eletricidade, nem pensar! A desidratação, por exposição ao sol e ao vento, podia ser utilizada. Mas nem todo alimento se presta a ser conservado por secagem.

pruneau-1Assim, habitantes de regiões temperadas, com estações do ano bem definidas, só dispunham de alimentos frescos na metade do ano em que o clima permite. Passado esse período, sobreviviam com os cereais colhidos no outono, principalmente trigo e suas variedades. Missas, rezas e novenas eram dirigidas ao Altíssimo para garantir boa safra. Ao final da colheita, era importante fazer um gesto de agradecimento e de reconhecimento.

Os tempos mudaram. Hoje em dia, o mercadinho da esquina oferece, o ano inteiro, frutas e legumes vindos do outro lado do planeta. Mas certas tradições, geralmente ligadas à religião, permanecem. O dia de ação de graças, comemorado a cada mês de novembro nos EUA (Thanksgiving Day) é um exemplo.

pruneau-2A Suíça, país de agricultura pobre, também já sofreu muito, no passado, com adversidades climáticas. Hoje não é mais assim, mas certas tradições permanecem. Séculos atrás, cada região tinha seu dia, sua hora e seu rito para agradecer aos céus pela colheita. Coisa de duzentos anos pra cá, o dia de ação de graças foi unificado. Ficou combinado que terceiro domingo de setembro(*) seria dedicado ao recolhimento agradecido.

Desde então, a cada ano, a festa ‒ se é que se pode dizer assim ‒ é comemorada, para que ninguém se esqueça de que o bem-estar é resultado de trabalho duro. Para uns, é dia de oração. Outros fazem penitência. O mais comum, principalmente na região em que vivo, é o jejum. Até um século atrás, jejuar significava deixar de almoçar e passar o dia orando na igreja ou no templo. Daí o nome que o dia leva até hoje: Jeûne fédéral ‒ Dia Federal do Jejum.

pruneau-3Com o passar dos anos, o jejum rigoroso foi substituído por um almoço frugal, constituído unicamente de uma torta de ameixa. No Brasil, todos conhecem a ameixa preta, aquela que se compra já seca e que serve para ornar o manjar branco. Pois o pruneau (em francês) ou Zwetsche (em alemão) é uma variedade da mesma fruta, só que em estado natural, utilizada logo após a colheita.

Que seja o único alimento, que substitua o almoço ou que sirva de sobremesa, a torta de ameixa não pode faltar no Dia Suíço do Jejum. Este ano, cai justamente hoje, terceiro domingo de setembro. No Cantão de Vaud, cuja capital é Lausanne, a celebração não se limita ao domingo. A segunda-feira que se segue é dia feriado. Dizem as más línguas que é pra desintoxicar os que, na véspera, se empanturraram de torta de ameixa e café com leite. Há de ser intriga da oposição.

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(*) Fazendo exceção à regra, o Cantão de Genebra tem seu dia de ação de graças na quinta-feira que segue o primeiro domingo de setembro.

Ouvir estrelas

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor se lembre de que, durante os Jogos Olímpicos do mês passado, as cerimônias de distribuição de medalhas mostraram bandeira chinesa com erros. As quatro pequenas estrelas estavam desalinhadas. No original, todas apontam um vértice para a estrela maior, diferentemente do que se viu no Rio.

Os chineses, pra lá de ciosos com símbolos nacionais, não costumam brincar com essas coisas. Protestos oficiais chegaram rapidinho. Segundo O Globo, 8 milhões de posts raivosos circularam pelas redes sociais chinesas. A reclamação chegou até à criação de hashtag para denunciar o escorregão.

bandeira-brasil-3Logo depois de tomar posse do cargo de presidente, senhor Temer participou de reunião de chefes de Estado e de governo do G20, realizada na China. Naturalmente, o recinto estava paramentado com a bandeira nacional de cada país participante. Aquelas fotos esquisitas em que dirigentes se cumprimentam com aperto de mão mas sem se olhar nos olhos foram batidas e publicadas na mídia planetária.

Pois digo ao distinto leitor que nossa bandeira verde-amarela também tinha defeitos. Menos rigoroso ‒ haja vista os representantes que constuma eleger ‒ o povo brasileiro nem se tocou. Ainda que se tocasse, dificilmente se melindraria.

Bandeira brasileira como manda o figurino Clique para ampliar

Bandeira brasileira como manda o figurino
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O círculo azul do centro da bandeira brasileira não é salpicado de estrelinhas a esmo, de qualquer tamanho, em qualquer posição, só pra ficar bonitinho. Criança de escola elementar tem direito a pensar assim. Já quem organiza cúpula internacional é obrigado a ter mais cuidado.

Nossa bandeira nacional mostra 27 estrelas, uma para cada Estado e uma para o Distrito Federal. A disposição do conjunto retrata o céu do Rio de Janeiro tal como se apresentava no dia 15 novembro 1889 às 8h30, quando os militares deram o golpe que derrubou a ordem vigente e acabou com o Império. É aquele golpe militar «do bem», cujo festejo é politicamente correto. É até dia feriado.

Bandeira brasileira em versão chinesa Clique para ampliar

Bandeira brasileira em versão chinesa
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Nossas estrelinhas não são todas do mesmo tamanho. Cada uma é desenhada conforme sua grandeza aparente. Há 5 tamanhos diferentes. Posição e tamanho são rigorosamente definidos por lei. A correlação tampouco é aleatória: cada uma delas representa um Estado determinado. É proibido misturar.

A bandeira hasteada durante o G20 da China está mais pra desenho de escola elementar. Posição, disposição e tamanho das estrelas não conferem com o que manda o figurino.

Que se saiba, ninguém reclamou. É possível que ninguém tenha sequer notado. Sinal destes tempos estranhos. Não se pode exigir que outros respeitem o que nós mesmos não respeitamos.

Desalinhados

José Horta Manzano

Você sabia?

No começo dos anos 1960, a Guerra Fria comia solta. O mundo, inquieto, temia que, a qualquer momento, a guerra esquentasse. Já à época, as duas superpotências ‒ EUA e União Soviética ‒ tinham arsenal nuclear capaz de aniquilar a humanidade. Vivia-se em tensão permanente.

Alguns países de importância secundária, na intenção de mostrar-se independentes tanto do bloco americano quanto do soviético, agruparam-se. Com o incentivo do Egito de Nasser, da Iugoslávia de Tito e da Índia de Nehru, dezenas de países médios e pequenos juntaram-se ao Movimento dos Não-Alinhados.

Não é fácil conciliar interesses de países díspares e espalhados pelo planeta. O objetivo do grupo nunca foi muito claro. Por exemplo, Cuba, membro fundador, embora se declarasse “não-alinhado”, estava visceralmente ligado ao bloco comunista, liderado pela União Soviética.

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia) Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia)
Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Os países africanos, que acabavam de conquistar independência, entraram quase todos para o Movimento. Como a Cuba dos Castros, a maioria deles estava alinhadíssima com a URSS, ainda que alguns mostrassem simpatia pelo bloco ocidental. Resumindo, grande parte dos membros era constituída de não-alinhados pero no mucho.

Com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, o Movimento dos Não-Alinhados perdeu a razão de existir. No entanto, por razões que a razão nem sempre explica, não foi dissolvido. Continua, firme e forte, a organizar cúpulas a cada dois, três ou quatro anos. Os interesses dos membros continuam tão divergentes como sempre foram, mas… quem se importa com esse detalhe?

Registre-se que o único país europeu a participar do Movimento é a Bielorrúsia. Quanto aos países ibero-americanos, vários integram o grupo com a notável exceção das três maiores economias: Brasil, México e Argentina. Praticamente todos os africanos são membros. Os grandes deste mundo (EUA, China, Japão, União Europeia, Rússia) não participam da encenação.

Nicolas Maduro by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Nicolas Maduro
by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Que discutem nas reuniões? Que resoluções tomam? Que ideologia seguem? Difícil dizer. Quando se juntam visões de mundo heterogêneas ‒ Timor Leste, Paquistão, Burundi, Equador, Afeganistão, Suriname ‒ entre dezenas de outros ‒ é complicado chegar a alguma espécie de consenso.

Mas a vida segue e o Movimento dos Não-Alinhados sobrevive. A Venezuela, mergulhada no caos político e econômico, está recebendo a reunião de cúpula de 2016 do clube dos não-alinhados.

Que um país que não consegue alimentar o próprio povo acolha autoridades de mais de cem países ‒ sem contar as respectivas comitivas ‒ é decisão singular. O tiranete Nicolás Maduro há de ter esperança de que a festa distraia, por um momento, o ronco das barrigas vazias dos infelizes venezuelanos.

Eleições gerais?

José Horta Manzano

Um senador baiano acaba de propor que a Constituição seja emendada a fim de fazer coincidir o mandato de todos os eleitos. Fosse aprovada, a PEC eliminaria as eleições a cada dois anos, como ocorre atualmente. Suprapartidária, a proposta arregimentou, logo de cara, 34 senadores a favor, distribuídos num amplo espectro que vai do PSDB ao PT.

A justificativa maior é a diminuição de gastos de campanha, uma economia de escala. Cem mil santinhos impressos não custam o dobro de cinquenta mil. Num mesmo palanque, há lugar para candidatos a diferentes níveis. Coligações partidárias ficariam mais claras ‒ de fato, não faria sentido que coalizões federais e municipais divergissem.

Urna 7Sob um ar de bondade, no entanto, uma armadilha está sendo montada. Suas excelências estão-se aproveitando do atual clamor popular para ajeitar o sistema em benefício próprio. Estão misturando estações. Todos sabem que as finanças nacionais não foram arruinadas por campanhas milionárias, mas pela incompetência no trato da coisa pública e, acima de tudo, pelo extraordinário assalto ao erário.

A proposta do senador, qual emplastro em perna de pau, não vai curar o doente. Reforma bem mais profunda terá de ser feita. A criação de partidos tem de ser de alguma maneira refreada. A representação proporcional dos Estados na Câmara, atualmente distorcida, tem de ser corrigida. As regras de financiamento público de partidos ‒ o famigerado Fundo Partidário ‒ têm de ser repensadas.

Urna transparente

Urna transparente

O vigor de uma democracia mede-se, entre outros parâmetros, pela frequência de eleições e outras votações. Dependesse de mim, faria o inverso: aumentaria a periodicidade das votações.

Instituiria, para começo de conversa, o voto distrital. Acabaria com as bizarras figuras de vices e de suplentes. Quando um eleito ‒ fosse ele vereador, prefeito, deputado, senador, governador ou presidente ‒ não pudesse mais exercer a função, eleição parcial seria convocada.

Urna 2Numa democracia sólida e vigorosa como a França, é assim que se procede. Acreditem, eleição regional não causa trauma nacional. Pelo contrário: quantas mais há, melhor fica. Se, por fatalidade, um deputado falece, organizam-se novas eleições unicamente no distrito que ele representava.

Voto 1Na Suíça, o povo é consultado, em média, quatro vezes por ano. A cada consulta, três, quatro, cinco assuntos costumam ser tratados. Algumas consultas são meramente locais, enquanto outras abrangem o país inteiro. O voto, naturalmente, não é obrigatório. Vota-se majoritariamente por correspondência, duas ou três semanas antes do dia D. De voto eletrônico, ninguém quer ouvir falar.

Num país como o Brasil, com mais de 200 milhões de habitantes, há de ser possível organizar, sem tropeços, votos parciais e nacionais. É questão de hábito. De todo modo, o preço a pagar pelo vigor democrático é a multiplicação de votos, eleições e consultas ao povo.

No centro da foto

José Horta Manzano

Você sabia?

O distinto leitor há de ter visto a foto dos participantes do último encontro do G20, realizado na China no fim de semana passado. Essas tradicionais “fotos de família” são a parte visível ‒ embora menos importante ‒ das reuniões. O principal é acertado em conversas bilaterais.

G20 3O presidente Temer aparece na ponta da primeira fila, quase caindo fora da foto. Por quê? Será que essa posição secundária demonstraria pouco caso ou desprezo do mundo para com o presidente e, por extensão, para com o Brasil?

Comparando com a foto da Cúpula de 2010 em Seul, em que o Lula aparece bem no centro, ao lado do anfitrião, a diferença é chocante. Teria o Lula maior importância ou mais prestígio do que Temer? Como é que se determina a posição dos que aparecem na primeira fila?

O protocolo não deixa nada ao acaso. Reza que, no centro, se posicionará o anfitrião. Em seguida, do centro em direção às extremidades, serão instalados os mandatários pela ordem de ancianidade ‒ o tempo passado desde que assumiram o posto. Quanto mais tempo tiverem ocupado o cargo, mais próximo estarão do anfitrião.

G20 4Na foto de 2010, o Lula já estava no fim do segundo mandato, portanto, era presidente havia oito anos, um dos mais antigos do G20. Eis por que aparece ao lado do anfitrião. Reparem que Obama, que tinha ocupado a Casa Branca por apenas cinco anos, aparece mais descentrado.

Na foto de 2016, Temer é o novato, tendo assumido definitivamente o cargo apenas alguns dias antes. Portanto, sua posição no extremo do retrato não é humilhante nem vem de timidez do fotografado. É o protocolo.

Coisas da Suíça

José Horta Manzano

Você sabia?

Todo país tem suas festas tradicionais. A Suíça, que começou a se formar há mais de sete séculos, também tem as suas. Uma delas, cuja importância é acentuada pela raridade, é a Festa Federal de Luta e de Jogos Alpestres. A manifestação, que dura um fim de semana, tem lugar a cada três anos. Cada edição se desenrola numa região diferente. Diferentes versões regionais foram unificadas e codificadas em 1895. De lá pra cá, os jogos são nacionais e se organizam regularmente.

Luta suíça 1A festa, que se realiza num estádio, reúne muita gente e conta com a presença do presidente do país. O ambiente é festivo, quase como numa quermesse, com toneladas de salsicha branca com mostarda sendo consumidas. A salsicha branca grelhada é tão importante quanto era comer pipoca no cinema antigamente.

A festa compõe-se de vários concursos e jogos. Um dos mais importantes é o lançamento da Pedra de Unspunnen, um enorme bloco de granito que pesa exatos 83,5kg. Caso o distinto leitor não seja halterofilista, será difícil imaginar como pode alguém levantar um bloco de mais de oitenta quilos e, ainda por cima, atirá-lo ao longe. Não é pra qualquer um. O recorde oficial foi estabelecido faz 12 anos, em agosto de 2004. Um jovem conseguiu lançar a pedra a 4,11m de distância. Importante: utiliza-se sempre o mesmo bloco de pedra.

Luta suíça 3O ponto alto são as competições de Luta Suíça. Pra quem nunca assistiu, é inusitado. Lembra um pouco o sumô ou o judô, mas tem características próprias. Pra começar, não há restrição de altura nem de peso dos concorrentes. Todos estão na mesma categoria. Portanto, é natural que todos tenham perfil de carregador de piano.

Dois competidores se enfrentam no interior de um círculo forrado com serragem. Cada um veste, por cima da calça, um calção de juta preso à cintura. O objetivo é derrubar o adversário e fazê-lo encostar as costas no chão. Não vale agarrar pela camisa, cada combatente agarra no calção do outro. O enfrentamento dura alguns minutos.

Luta suíça 2Terminada a luta, é praxe que o vencedor limpe a serragem que ficou grudada nas costas do perdedor, num simpático gesto de consideração. Em princípio, ninguém sai de perna quebrada, nem sangrando, nem machucado. Tudo termina com tapinhas nas costas. Às vezes, o perdedor deixa escapar umas lágrimas, coisa surpreendente para gigantes de 120kg. Este ano, pela primeira vez desde 1940, o vencedor tinha mais de 30 anos.

Vale a pena dar uma espiada neste vídeo de 1 minuto e meio com uma visão geral dos festejos trienais. A edição 2016 contou com 80 mil espectadores. Como prêmio, o campeão ganha… um touro. Não parece, mas o animal poderá ser bastante rentável se utilizado como reprodutor. Se for bem cuidado, será valor seguro, não sujeito a flutuações da Bolsa. Coisas da Suíça.

Greve de fome

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 28 ago 2016

Chamada Estadão, 28 ago 2016

Por mais que seja digno de compaixão, esse antigo inquilino de Guantánamo parou de comer por decisão pessoal. Maior compaixão desperta o infeliz povo venezuelano, que parou de comer por… absoluta falta de alimento.

Tirando o pessoal do andar de cima, o povão do país hermano está mal. Faz meses que entraram em greve forçada de fome, vítimas de autoridades ignorantes, egocêntricas, corruptas e incompetentes.

A mágica acabou

José Horta Manzano

Os Jogos Olímpicos que se acabam tinham sido motivo de preocupação, não só no Brasil como no exterior. Havia receio de atentados, de manifestações de rua conduzidas por hordas de descontentes. Temia-se sobretudo que o vírus Zika matasse metade dos visitantes enquanto balas perdidas cuidavam de liquidar os demais.

Favela 1Felizmente, o mundo não caiu. Para turistas e enviados estrangeiros, que receavam não escapar com vida da estada no Rio, até que não foi tão catastrófico. Tirando um ou outro assaltozinho e uma fieira de furtos, os Jogos transcorreram dentro do que se pode esperar de um país de Terceiro Mundo. Até que não foi tão mal. Ficou a conta pra pagar mas, como Deus é brasileiro, há de se dar um jeito.

A meta lançada ao ar pelo Comitê Olímpico Brasileiro ‒ de classificar o país entre os 10 melhores do mundo ‒ não se realizou. Fica a incômoda impressão de que não era bem uma meta, mas uma simples esperança. Dez melhores? Por que não entre os oito melhores? Ou entre os doze melhores? Por que visar uma classificação e não um número de medalhas? Favor encaminhar eventuais questionamentos ao COB.

Nas semanas que antecederam a Olimpíada, a mídia europeia falou muito do Brasil em geral e do Rio em particular. Dado que imagens de gente fina se tostando ao sol de Ipanema são demais batidas, a tevê preferiu focalizar o lado B do Rio de Janeiro, os aspectos mais sombrios. Foram mostradas cenas de polícia subindo o morro, de bandidos sendo caçados, de rodinhas de crack, de brucutus percorrendo favelas, de muita pobreza.

Circo 1No entanto, para quem observa de fora, as duas semanas dos JOs foram um refrigério. Dezenas de canais de tevê mostraram diferentes modalidades de esportes, a mídia falada e escrita teceu loas aos campeões e lamentou alguns fracassos. Em resumo, todas as atenções estiveram voltadas para a competição e as mazelas foram esquecidas.

Agora, terminado o espetáculo, volta-se à realidade. Impeachment, falcatruas, corrupção, desvio de dinheiro público, desemprego, inflação já estão voltando ao noticiário. O que é bom dura pouco. O circo foi desmontado e o Brasil real ressurgiu.

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O legado
No Brasil, falam do «legado» dos Jogos. Pra começar, a palavra é inapropriada. Legar é dar de graça. Os despojos deixados pelas competições continuarão sendo bancados com o dinheiro do contribuinte brasileiro. É como legar algo a si mesmo, um despropósito.

A meta

José Horta Manzano

«Não vamos fixar meta. Mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrá-la.»

Meus distintos leitores hão de se lembrar da frase pronunciada por doutora Dilma. A presidente emérita foi pródiga em ditos tragicômicos. A saudação à mandioca e a exaltação da mulher sapiens também têm lugar garantido no folclore político nacional.

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Num país como o nosso, onde público e privado se entrelaçam, onde Estado e governo são encarnados por uma única pessoa, os interesses do governo (de curto prazo) e do Estado (de longo alcance) se confundem. Dessa mistura entre o passageiro e o duradouro, nascem imbróglios. A admissão da Venezuela no Mercosul é um deles ‒ um problema cabeludo. O distanciamento comercial entre o Brasil e os países economicamente poderosos é outro nó difícil de desatar.

Em nosso país, cada governo vive e age como se, depois dele, o mundo fosse acabar. O interesse do Estado é abandonado em prol da sobrevivência política dos inquilinos temporários do andar de cima. Nem vale a pena fixar metas ou arquitetar planos, que serão desmantelados pelo governo seguinte.

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Trinta anos atrás, o universo esportivo da Grã-Bretanha andava ao deus-dará. O fraco desempenho nacional desdourava a imagem do país. O vexame culminou com a classificação britânica nos JOs de 1996, em Atlanta. Naquela edição, eles terminaram em 36° lugar(!), com quinze medalhas, das quais apenas uma de ouro. Países como a Argélia, a Nigéria, a Turquia, a Etiópia e até o Brasil passaram à frente.

Mister John Major, então primeiro-ministro do reino, entendeu que algo precisava ser feito. Os resultados olímpicos tinham de voltar a corresponder à imagem gravada no inconsciente coletivo do mundo: a de uma Inglaterra poderosa. Mas como proceder? O caminho era um só: investir. Mas tirar dinheiro de onde? Alguma nova fonte tinha de ser criada sem aumentar impostos.

JO 4A solução foi inventar uma nova loteria nacional. Com bom trabalho de marketing, o novo jogo logo caiu no gosto popular. Grande parte dos ganhos foi, desde então, dedicada a apoiar esportistas. Mas, atenção: a intenção era aumentar a colheita de medalhas nos Jogos Olímpicos. Portanto, mais valia investir em esportes em que a concorrência é menor.

Assim foi feito. O orçamento tradicionalmente reservado para esportes muito concorridos como o futebol, o vôlei e o basquete foi diminuído. Em compensação, esportes olímpicos menos praticados receberam uma injeção de recursos. Só para dar uma ideia de como a loteria ajudou, basta mencionar que, em 1996, o financiamento público para os esportes era de 5 milhões de libras por ano. Vinte anos mais tarde, nos quatro anos que antecederam os JOs do Rio, a quantia subiu para 274 milhões de libras mais 73 milhões para os paraolímpicos.

Medalha não cai do céu por obra e graça de São Benedito. Tem trabalho e investimento por detrás. Mas compensa. Para espanto geral, o Reino Unido deverá terminar hoje classificado em segundo lugar. Reparem que as medalhas não vêm de esportes ultrapopulares e concorridos. Modalidades como atletismo, ginástica artística, remo, canoagem, hipismo, saltos ornamentais, triatlo, vela sobressaem.

Bandeira UK 2E isso tudo por quê? Porque tiveram a sensatez de entender que os interesses maiores do Estado britânico primam sobre os interesses passageiros de cada governo. John Major, o criador da loteria, deixou o cargo em 1997, um ano depois de Atlanta. De lá para cá, a casa n° 10 de Downing Street já foi ocupada por outros quatro primeiros-ministros. Dois deles eram trabalhistas e os outros dois, conservadores.

Ajuizados, todos entenderam que a promoção do esporte não era política de governo específico visando a perpetuar-se no poder. Não passou pela cabeça de ninguém suspender o programa. O resultado está aí: o Reino Unido transformou-se em potência olímpica capaz de peitar uma China de bilhão e meio de habitantes.

Nota:
Não encontrei notícia de casos de corrupção no movimento olímpico britânico. Salvo melhor juízo.

Véus, burcas e cabelos curtos

José Horta Manzano

Que me perdoe o distinto leitor se a leitura deste artigo coincidir com a desgustação de um sorvete ou de outro alimento. O ditado que vou citar não é o mais apropriado para essas horas: certas coisas, quanto mais se mexe, mais fedem. Suavizei um pouco para espíritos sensíveis.

Tempos houve em que a França dominava metade da África. No apogeu do império colonial, a Argélia era o florão da coroa: a colônia preferida, a mais rica, a mais próxima, a mais promissora, a que concentrava maior número de colonos da metrópole. Era parte integrante do território nacional. A partir da independência, no começo dos anos 60, a sólida fraternidade entre matriz e filial se espatifou.

Praia 5Assim mesmo, a França continuou ‒ e continua até hoje ‒ a exercer irresistível atração sobre jovens argelinos. Os laços tecidos durante século e meio de colonização deixaram marcas. Os franceses descendentes de argelinos estão hoje na casa dos milhões. A esses, juntam-se outros norte-africanos cujos antepassados vieram do Marrocos e da Tunísia. Sem esquecer que a imigração continua.

As leis francesas proibem o recenseamento de raças e origens. Portanto, toda estatística sobre a presença de maometanos será estimativa não oficial. De qualquer maneira, há muita gente. A imensa maioria, embora guarde proximidade com a religião dos pais e avós, não segue rigorosamente os preceitos. Os descendentes se espalham por todos os matizes ‒ vão dos mais agarrados às tradições aos que já se distanciaram definitivamente.

Foto de Marc Ferrez

Foto de Marc Ferrez

Na França, estes últimos anos, vem crescendo a polêmica sobre mulheres que se vestem à moda islâmica. Antes de seguir, devo esclarecer que faz pouco sentido falar em «moda islâmica», expressão que acabo de inventar. Entre véus, hidjabes, nicabes e burcas, cada região tem suas tradições. Se a burca, que cobre totalmente o corpo, é comum no Afeganistão, quase não se vê na Indonésia, maior país maometano do planeta.

Acho uma pena dar tanta importância a coisa pouca. Que cada um se vista como lhe parece. Não é com leis, decretos e proibições que se resolve esse tipo de problema. Pelo contrário, controles e proibições tendem a exacerbar ânimos. A meu ver, o melhor remédio é a paciência, que o tempo acaba pondo as coisas no lugar.

Praia 4Imagens do Brasil de 150 anos atrás mostram negras africanas vestidas à maneira tradicional. Sem proibições nem perseguições, isso desapareceu em benefício de roupas que não mais desvelam as origens de cada um. Hoje em dia, trajes tradicionais africanos só são usados em ocasiões especiais ou por vendedoras de acarajé.

Estes dias, o STF decidiu autorizar pessoas tatuadas a prestar concurso público.  É atitude positiva, um passo na boa direção. Fico pensando no escândalo provocado pelas primeiras mulheres que ousaram apresentar-se com cabelo curto, no início do século passado. Naquela ocasião, não houve proibição, todos se acostumaram e o tempo acabou dando um jeito. Ninguém segura o progresso.

Ignorância

José Horta Manzano

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Em nossa língua, a palavra ignorante tem dois sentidos e pode-se referir a duas situações bastantes distintas. No sentido próprio, ignorar é simplesmente ‘não conhecer’. O termo é membro de extensa família e está presente em numerosas línguas. Conhecer, ignorar, agnóstico, reconhecer, diagnóstico, desconhecer, prognóstico, cognitivo são palavras nossas, todas aparentadas.

O verbo inglês know, o francês connaître, o alemão kennen, o italiano conoscere, o sueco känna, o espanhol conocer são também filhotes do mesmo antepassado. Todos eles guardam o sentido de saber, conhecer.

Esporte 4Quanto a nós, pelo menos no Brasil, costumamos usar o termo ignorante numa segunda acepção, bem mais popular. Dependendo de como for pronunciado, pode servir de xingamento. Não tem muito que ver com conhecimento. Conforme a gravidade do caso, pode ser substituído por grosseiro, impolido, descortês, imbecil, selvagem, rude, chucro, bronco, impolido, boçal.

Leio hoje duas notícias em que o protagonista se encaixa nessa segunda acepção. A primeira relata uma inacreditável cena ocorrida ontem, em plena Olimpíada carioca, por ocasião de um combate entre dois judocas. Um dos atletas era israelense e o outro, egípcio. Como todo esporte, o judô tem suas regras. De sua origem nipônica, guarda rituais rígidos. Os contendores devem cumprimentar-se antes da luta e, de novo, ao final.

Numa atitude inaceitável, o egípcio recusou-se a cumprimentar o oponente. Voltou-lhe as costas e se retirou ‒ sob uma chuva de vaias. Personificou a imagem do igorantão.

Metro Rio 2A segunda notícia ‒ cuja veracidade posso supor mas não garantir ‒ conta o diálogo entre uma garota e um turista estrangeiro. Estavam no Rio de Janeiro, e o turista procurava a entrada do metrô. A moça, embora conhecesse algumas palavras básicas de inglês, recusou-se a usá-las. Insistiu em responder ao infeliz visitante usando um português rasteiro. O coitado não entendeu nada.

Mais tarde, pelas redes sociais, a autora vangloriou-se da façanha. Argumentou que todo estrangeiro de passagem tem obrigação de conhecer a língua local. Mostrou encaixar-se nas duas acepções de ignorância: além de não saber, foi boçal.

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Os protagonistas dessas histórias, ambos de pouca idade, deram prova viva da influência que políticas de Estado podem ter sobre mentes jovens, frágeis e dúcteis. Cada um mostrou ter aprendido a lição que a sociedade lhe ensinou. O brutamontes egípcio deixa escorrer, pelo canto da boca, um filete verde do ódio que lhe incutiram. A brasileira selvagem espelha o desprezo à civilidade que a paisagem política deletéria dos últimos 13 anos vem inculcando à juventude brasileira.

Cada um mostrou, à sua maneira, a imbecilidade que se aninha em seus jovens miolos. Foram ambos ignorantões.

O patinho feio

José Horta Manzano

Com o impeachment e os Jogos Olímpicos ocupando corpo e mente, outras notícias vão irremediavelmente pra segundo plano. Sobra pouco espaço. Assim mesmo, procurando bem, sempre se encontra um detalhe interessante aqui, um pormenor curioso acolá.

O respeitado Ipsos ‒ Institut Politique de Sondages et d’Opinion Sociale ‒ é grupo internacional de origem francesa dedicado a pesquisa de opinião. Semana passada, um mês depois de os britânicos terem declarado a intenção de abandonar a União Europeia, publicou pesquisa interessante.

IpsosPediram, a mais de doze mil adultos em 16 países, opinião sobre o Brexit, ou seja, se achavam que o voto britânico tinha representado um passo na boa direção. Sem muita surpresa, entre os países da UE, 58% se mostraram reticentes à decisão do Reino Unido. Acreditam ter sido um erro.

Até eleitores de países que não integram o bloco dão parecer negativo à decisão britânica. A única exceção foi a Rússia, cujos entrevistados veem com simpatia o desmantelamento da UE. É compreensível.

O que me chamou a atenção, na pesquisa, não foi tanto o resultado quanto a escolha dos países a sondar. Dos 16, nove fazem parte da União Europeia, seleção lógica. Estão lá o próprio Reino Unido além de todos os grandes: Alemanha, França, Itália, Espanha. Outras quatro nações de médio porte completam o quadro.

Fora do bloco, o instituto procurou, naturalmente, escolher países importantes, daqueles cujo peso faz diferença no planeta. Aqui estão os sete finalistas: Estados Unidos, Canadá, Japão, Rússia, Índia, África do Sul e Austrália.

Bandeira UE UKTive de ler duas vezes pra ter certeza. Estão lá a Índia, a Austrália e até a África do Sul, mas o Brasil falta. O instituto há de ter considerado que sul-africanos e indianos estão mais bem informados que brasileiros. Ou que são mais politizados. Ou donos de espírito crítico mais firme.

Compreendo que a China não tenha sido incluída na seleção. Apesar do peso econômico do país, alguns problemas de liberdade de expressão individual persistem. Dá pra entender.

Mas… e o Brasil? Por que teremos sido deixados de lado? A pergunta deve ser feita ao instituto. Pensando bem, talvez seja melhor nem perguntar. A resposta pode ser aflitiva e desmoralizante. Parece que o Brasil se autoexcluiu da nata das nações. Sem plebiscito, num Brasex silencioso.

O importante é competir

José Horta Manzano

Você sabia?

O barão Pierre de Coubertin (1863-1937) não foi esportista famoso ‒ era pegadogo, historiador e humanista. Apesar disso, devemos a ele a ressureição dos Jogos Olímpicos, que andavam recobertos pela poeira da História já fazia dois milênios.

Foi pela influência, pelo esforço e pelo empenho do barão que se organizou, em 1896, a primeira Olimpíada dos tempos modernos. Com frequência, atribui-se a Pierre de Coubertin a frase «O importante é participar». Não há consenso no entanto. Há quem jure que a frase original teria sido «O essencial não é ter ganhado, mas ter lutado pra vencer».

JO 2016 4Há ainda quem diga que não é bem assim. O barão jamais disse nada parecido. A frase famosa teria sido pronunciada por obscuro clérigo americano por ocasião dos Jogos de Londres de 1908.

Seja como for, não resta dúvida de que é importante participar, um orgulho para todo atleta. Se, ao final do esforço, cair uma medalha, melhor ainda. Pra coroar, nenhum esportista vai desprezar um prêmio em dinheiro. Comitês olímpicos nacionais já se deram conta de que uma recompensa financeira pode ser estímulo poderoso.

Nem todos os comitês publicam o valor com que presenteiam medalhistas. Há controvérsia nas informações. No entanto, garimpando aqui e ali, dá pra estabelecer uma lista interessante.

A palma vai, sem sombra de dúvida, para Singapura. Naquela cidade-estado, o atleta que conseguir medalha de ouro levará a astronômica soma de 805 mil dólares, mais de 2,5 milhões de reais. Pra ninguém botar defeito.

O Azerbaidjão, que adoraria aumentar o número de medalhistas de ouro, propõe 510 mil dólares ao atleta que trouxer uma de volta a Baku.

JO 2016Os demais países vêm bem atrás. Há os mais generosos, como a Itália (180 mil dólares), o México (160 mil dólares), a Rússia e a Ucrânia (pouco mais de 100 mil dólares). A Espanha dá 94 mil, enquanto a França vem um pouco atrás, com 65 mil dólares para cada campeão. Japão e China têm orçamento mais restrito: 36 mil e 31 mil dólares respectivamente.

Os EUA presenteiam seus campeões com 25 mil dólares. Mais moderada ainda, a Alemanha não vai além de 19,5 mil dólares.

Cada medalhista brasileiro receberá quantia modesta. Serão R$ 35 mil (11 mil dólares) para campeões individuais e R$ 17,5mil para cada participante de esporte coletivo. A quantia está longe de ser exorbitante. Fico imaginando que o prêmio pudesse até ser maior mas, sacumé, rato roeu a roupa da rainha no meio do caminho. Para os atletas brasileiros, resta uma consolação: tanto faz que a medalha seja de ouro, de prata ou de bronze, o prêmio será o mesmo.

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Nota pitoresca:
Na Suécia, onde se acredita que esportista é profissão como qualquer outra e que ganhar ou perder faz parte do jogo, o comitê nacional não dá prêmio a ninguém. Medalhistas recebem um boneco de pelúcia. De tamanho grande para quem trouxer o ouro, médio para os medalhistas de prata e pequeno para os bronzeados.

O importante é competir.

Sob os olhares do mundo

José Horta Manzano

Você sabia?

A chamada que aparece logo abaixo está correta mas incompleta. «Sob os olhares do mundo» subentende que todos estarão de olho nas festividades de abertura dos JOs ao vivo, simultaneamente, no momento em que as dançarinas rodarem a baiana no Maracanã. Não é bem assim.

O mundo é movido a dinheiro ‒ os acontecimentos atuais da política brasileira estão aí pra comprovar. E quem é que sustenta o Comitê Olimpico Internacional? Ora, os direitos de transmissão. E quem é que paga esses direitos? Ora, quem retransmite.

A rigor, jornais, tevês, rádios e portais são todos iguais. Mas alguns são mais iguais que outros. Pequenos órgãos da mídia, com escassa audiência, pagam menos. Já as poderosas redes de tevê americanas despendem somas impressionantes pelo direito de transmitir as competições. Estamos falando de bilhões de dólares, com B de bola. Pagam mais que os outros, o que lhes dá direito a impor seus interesses.

Chamada do portal da Rádio Jovem Pan, 5 ago 2016

Chamada do portal da Rádio Jovem Pan, 5 ago 2016

A hora nos Estados do leste americano, agora no verão, está atrasada apenas uma hora com relação ao Rio de Janeiro. Portanto, para que jogos, corridas, pulos e outras competições caiam num horário conveniente para o público dos EUA, grande parte deles terá lugar à noite. Convém a quem vive nas Américas, mas atrapalha um pouco quem reside em outros pontos do planeta.

Às 20h de hoje, quando a festa de abertura começar, os cucos suíços e todos os outros relógios da Europa Ocidental já estarão marcando 1h da madrugada de sábado. Na Europa Oriental, serão já 2 horas. Sei de gente que vai tomar um café bem forte pra aguentar assistir ao vivo. Sei de outros que vão preferir acionar a função «replay» sábado de manhã.

Faço parte desses últimos. Desejo uma boa-noite a todos!

Vila Olímpica

José Horta Manzano

Os habitantes de Montréal, cidade que sediou os Jogos Olímpicos de 1976, não querem mais ouvir falar nesse tipo de aventura. Ficaram vacinados. A brincadeira deixou um déficit de um bilhão de dólares ‒ quantia vertiginosa para a época. Os contribuintes levaram três décadas pagando a fatura.

JO 1Os infelizes atenienses, que acolheram os Jogos em 2004, guardam lembrança catastrófica. Pelos números oficiais, não necessariamente confiáveis, o custo total foi de 11,2 bilhões de euros. Estimação extraoficial eleva o número a estonteantes 20 bilhões, tudo a ser coberto com os impostos da população. É evidente despropósito quando se leva em consideração o modesto PIB grego. Essa loucura precipitou a débâcle que o país sofreria poucos anos depois.

Algumas instalações construídas especialmente para os Jogos de Atenas encontram-se hoje em total abandono, depredadas, saqueadas, com mato crescendo em volta.

JO 2Mais do que a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016 trazem dano financeiro ao Brasil. Se a Copa deixou estádios ‒ perdão, arenas! ‒ subutilizados, as Olimpíadas podem deixar um rastro de instalações abandonadas. O número diminuto de esportistas nacionais dificilmente justificará os gastos de manutenção.

Uma coisa me deixa cismado. As prestigiosas delegações que disputam uma Copa dispensam a construção de alojamentos. Cada seleção escolhe a base que mais lhe agradar ‒ hotel, pousada, resort ou o que seja ‒ e paga do próprio bolso. Por que a mesma lógica não valeria para as Olimpíadas?

JO 3Se assim fosse feito, o contribuinte brasileiro não teria de arcar com o custo de contrução de toda uma Vila Olímpica. Não é tudo, mas é sempre um gasto a menos. E, do jeito que vão as coisas, uma vergonha a menos.

A infraestrutura hoteleira não suportaria o afluxo maciço de atletas, delegações e turistas? Que só se candidatem a sediar Olimpíadas as cidades dotadas de infraestrutura. Quem não tem competência não se estabelece.