Trump e os estrangeiros

José Horta Manzano

Segundo a definição da ONU, imigrante é a pessoa que não nasceu no país em que reside. Por esse critério, cerca de 13% dos habitantes dos Estados Unidos entram na categoria. A atual proporção de estrangeiros é praticamente a mesma que habitava no país há um século, nos anos de imigração maciça. De fato, a quantidade de habitantes nascidos fora do país em 1860 (13,2%), em 1880 (13,3%), em 1900 (13,6%) ou em 1920 (13,2%) equivale à de hoje.

Portanto, o número de imigrantes naquele país não deveria, em si, surpreender ninguém. Por um lado, o fenômeno não é novo. Por outro, o número não é assustador. Convenhamos, se um estrangeiro sai de casa pra fazer a vida do outro lado do mundo, não é por pura vocação turística. É sinal positivo que indica que há boas oportunidades de trabalho.

alfandega-3Tem mais: o imigrante tende a ocupar os extremos da escala social. A maioria cuida justamente das atividades que os nativos desdenham. São pessoas com pouca instrução, que aceitam empregos de baixo salário recusados pelos nacionais. Na outra ponta, estão os profissionais solidamente formados, disputados por universidades, centros de pesquisa, empresas de desenvolvimento tecnológico.

O grau de avanço de países de forte imigração parece demonstrar os benefícios que a vinda de estrangeiros traz. EUA, Suíça, Canadá, França, Austrália, Suécia, Nova Zelândia são bons exemplos. Não fosse a criminalidade descontrolada e o roubo institucionalizado, Brasil e Argentina também apareceriam nessa lista.

Na França, os imigrantes representam cerca de 12% da população. O grosso desses indivíduos vem de antigas colônias (Argélia, Tunísia, Marrocos, África subsaariana), países de maioria muçulmana. Como resultado, no imaginário popular, o imigrante é identificado como maometano. Para combater esse clichê, as autoridades evitam dar destaque à religião em recenseamentos. Embora a escassez de estatísticas ligando imigração e religião não elimine o preconceito, o esforço e a intenção são louváveis. Sem essa orientação oficial, a clivagem seria ainda mais importante.

Mr. Trump, truculento e pouco experimentado, nem sempre consegue calcular o alcance de seus atos. Acaba de fechar as portas dos EUA a pessoas oriundas de determinados países de maioria muçulmana. A decisão, ofensiva e de sabor medieval, equivale a identificar em cada cidadão dos países vetados um potencial terrorista. É inacreditável como um mandachuva, sozinho, pode causar estrago tão grande em tão pouco tempo.

green-card-1Acredito que, se pudessem voltar atrás, muitos dos que votaram nele reconsiderariam a escolha feita. De qualquer ponto de vista que se analise a ferocidade do novo presidente, só se conseguem ver consequências negativas.

O mundo civilizado está atônito. A antipatia planetária espalhada por Bush Jr. volta com força total. Os oito anos durante os quais Obama tentou amenizar a imagem do país estão escorrendo pelo ralo em poucos dias. Negar entrada no país até a cidadãos munidos de autorização permanente ‒ o chamado «green card» ‒ gera insegurança jurídica, situação típica de países atrasados. Vai-se dormir sem saber como será o dia seguinte.

Francamente, os EUA não mereciam um líder de mente tão embotada.

Véus, burcas e cabelos curtos

José Horta Manzano

Que me perdoe o distinto leitor se a leitura deste artigo coincidir com a desgustação de um sorvete ou de outro alimento. O ditado que vou citar não é o mais apropriado para essas horas: certas coisas, quanto mais se mexe, mais fedem. Suavizei um pouco para espíritos sensíveis.

Tempos houve em que a França dominava metade da África. No apogeu do império colonial, a Argélia era o florão da coroa: a colônia preferida, a mais rica, a mais próxima, a mais promissora, a que concentrava maior número de colonos da metrópole. Era parte integrante do território nacional. A partir da independência, no começo dos anos 60, a sólida fraternidade entre matriz e filial se espatifou.

Praia 5Assim mesmo, a França continuou ‒ e continua até hoje ‒ a exercer irresistível atração sobre jovens argelinos. Os laços tecidos durante século e meio de colonização deixaram marcas. Os franceses descendentes de argelinos estão hoje na casa dos milhões. A esses, juntam-se outros norte-africanos cujos antepassados vieram do Marrocos e da Tunísia. Sem esquecer que a imigração continua.

As leis francesas proibem o recenseamento de raças e origens. Portanto, toda estatística sobre a presença de maometanos será estimativa não oficial. De qualquer maneira, há muita gente. A imensa maioria, embora guarde proximidade com a religião dos pais e avós, não segue rigorosamente os preceitos. Os descendentes se espalham por todos os matizes ‒ vão dos mais agarrados às tradições aos que já se distanciaram definitivamente.

Foto de Marc Ferrez

Foto de Marc Ferrez

Na França, estes últimos anos, vem crescendo a polêmica sobre mulheres que se vestem à moda islâmica. Antes de seguir, devo esclarecer que faz pouco sentido falar em «moda islâmica», expressão que acabo de inventar. Entre véus, hidjabes, nicabes e burcas, cada região tem suas tradições. Se a burca, que cobre totalmente o corpo, é comum no Afeganistão, quase não se vê na Indonésia, maior país maometano do planeta.

Acho uma pena dar tanta importância a coisa pouca. Que cada um se vista como lhe parece. Não é com leis, decretos e proibições que se resolve esse tipo de problema. Pelo contrário, controles e proibições tendem a exacerbar ânimos. A meu ver, o melhor remédio é a paciência, que o tempo acaba pondo as coisas no lugar.

Praia 4Imagens do Brasil de 150 anos atrás mostram negras africanas vestidas à maneira tradicional. Sem proibições nem perseguições, isso desapareceu em benefício de roupas que não mais desvelam as origens de cada um. Hoje em dia, trajes tradicionais africanos só são usados em ocasiões especiais ou por vendedoras de acarajé.

Estes dias, o STF decidiu autorizar pessoas tatuadas a prestar concurso público.  É atitude positiva, um passo na boa direção. Fico pensando no escândalo provocado pelas primeiras mulheres que ousaram apresentar-se com cabelo curto, no início do século passado. Naquela ocasião, não houve proibição, todos se acostumaram e o tempo acabou dando um jeito. Ninguém segura o progresso.

Sem vinho, nada de almoço

José Horta Manzano

A tolerância ‒ que alguns, equivocadamente, confundem com preconceito ‒ é um dos pilares do processo civilizatório. Tolerar a diferença alheia não quer dizer aderir a ela.

Significa esforçar-se por conviver com ela. Exigir que todos ajam e se comportem como nos agrada é dar mostra de intolerância no mais alto grau. É atitude que polui o relacionamento entre as gentes. Guerras deflagradas por motivos de intolerância religiosa já mataram milhões.

Itália: estátuas ocultadas

Itália: estátuas ocultadas

O Irã, país que até o mês passado estava banido do mundo civilizado, passou por uma lavagem a jato ‒ sem trocadilhos. De supetão, os pecados foram perdoados e o país se viu reintegrado no convívio planetário. Uma ressureição instantânea.

No entanto, não convém acreditar em milagres. Nada se transforma de golpe. Assim como o grão de milho, depois de virar pipoca, guarda alma de cereal, os dirigentes da república islâmica não perderam o inconfundível viés autoritário, despótico até.

Hassan Rohani, líder religioso, é o sucessor de Ahmadinedjad na presidência do Irã. Na esteira da anulação das sanções econômicas que pesavam sobre seu país, visitou Itália e França, esta semana, para reatar relações comerciais.

Dando prova de que tolerância é conceito desconhecido na alta cúpula de Teerã, o medalhão exigiu que, nas refeições, o cardápio fosse halal(*) e que bebidas alcoólicas não fossem postas à mesa.

França & Irã: reunião de trabalho

França & Irã: reunião de trabalho

A Itália dobrou-se à imposição dos visitantes. O tradicional copo de vinho foi substituído por água. Mais que isso, esculturas do Capitólio romano mostrando corpos desnudados foram ocultadas.

Já na França, menos disposta a vergar-se, o banquete programado foi simplesmente cancelado. Sem vinho, nada de refeição. O cerimonial francês julgou a exigência inadmissível. A delegação iraniana almoçou separada dos demais.

François Hollande 8A meu ver, a decisão de Paris foi acertada. Note-se, aliás, que as normas ocidentais de etiqueta impõem que homens se apresentem em reuniões e à mesa com a cabeça descoberta. Assim como o turbante do visitante foi tolerado, cabia ao dignitário aceitar que os franceses acompanhassem a refeição com a bebida à qual estão acostumados. Cada um se serviria de vinho ou de água, conforme lhe apetecesse.

É um toma lá dá cá necessário. A tolerância ensina que cada um deve dar um passo em direção ao outro. Embora tenha progredido, a cúpula iraniana mostra que ainda não chegou lá.

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(*) Diz-se refeição halal daquela em que as carnes provêm de animais abatidos segundo as normas da charia, o conjunto de preceitos maometanos.

História e cultura da África

José Horta Manzano

Quem já não esboçou um sorriso ao ouvir a velha frase «Brasil, capital Buenos Aires»? É como a gente zombava do desconhecimento quase total que estrangeiros tinham do Brasil.

Hoje já é folclore. Pessoalmente, nunca pilhei ninguém trocando Brasília por Buenos Aires. Mais comum ― embora as coisas venham mudando lentamente estes últimos 20 anos ― era a crença de que nossa língua era o espanhol. Muitos, no exterior, ainda imaginam que assim seja. A maioria, no entanto, já se deu conta de que falamos uma outra língua, derivada do português, aqui na Europa geralmente chamada de brasileiro.

No Brasil destes últimos tempos, tornou-se politicamente correto ― obrigatório, eu diria ― classificar nossa população em raças. Ooops, corrijo-me. Falar em raças é um exagero. Nossa população está sendo forçada a se separar em duas facções. De um lado, brancos, orientais e mulatos muito claros. De outro, pretos, mulatos escuros, índios, e qualquer indivíduo visivelmente mestiço. Meus leitores são gente esclarecida. Mas não se pode dizer o mesmo do grosso da população de Pindorama. A grande massa silenciosa certamente não se está dando conta do balaio de gatos que estamos tecendo.

África ― principais famílias linguísticas

África ― principais famílias linguísticas

Muitos países, especialmente aqueles que têm problemas pesados provocados pela convivência forçada de raças, etnias ou religiões diferentes, sempre nos invejaram. Podiam até não saber distinguir entre Brasília e Buenos Aires, mas sempre acreditaram que o Brasil era um país tolerante, sem conflitos raciais, sem briga com vizinhos, sem tensões religiosas. E era mesmo.

Não estou perto de me conformar com o estrago que os atuais ocupantes dos cargos de mando estão causando a nosso País. Posso até acreditar que haja uma dose de boa intenção na cabeça de alguns. Se bem que… tendo mais a crer que essas medidas proativas sejam fruto de meros cálculos eleitoreiros. Enfim seja lá qual for a razão, estamos inventando um problema novo, artificial. Dá muita pena. Já temos dores de cabeça suficientes. Não faz falta fabricar pontos de conflito entre categorias de habitantes.

Toda clivagem é potencial fonte de atritos. Zelite e povão, politicos e eleitores, «nós» e «eles», patrões e empregados, citadinos e camponeses, com-teto e sem-teto, automobilistas e pedestres, empregados e desempregados, trabalhadores com carteira assinada e trabalhadores sem carteira assinada, assalariados e autônomos, cristãos tradicionais e neopentecostais, com-terra e sem-terra. Já temos antagonismos suficientes, não fazia falta criar mais um.

Era só o que faltava: o Brasil tornar-se um país cujos cidadãos se distinguem uns dos outros por critérios raciais… O fim do mundo deve estar próximo.

Li nos jornais que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ― excelente iniciativa que não existia no meu tempo, diga-se de passagem ― incluiu um número elevado de perguntas sobre a história e a cultura da África.

Não quero entrar aqui na polêmica sobre se o número de questões é baixo, médio ou alto. O que me atrapalha é outra coisa. As autoridades brasileiras encarregadas da Instrução Pública parecem estar seguindo o mesmo caminho que desorienta europeus e americanos. Não faz sentido falar em «cultura da África».

África ― religiões principais

África ― religiões principais

O continente africano conta com superfície quase 4 vezes superior à do Brasil, é povoado por mais de um bilhão (yes!) de habitantes, distribuídos por 52 países independentes. Entre línguas e dialetos, mais de 2000 falares são recenseados no continente. As diferenças culturais e religiosas são muito acentuadas. Há árabes e tuaregues maometanos. Há pretos maometanos também. Há egípcios cristãos, assim como há pretos cristãos. Há negros animistas e há brancos protestantes. Há pretos evangélicos. Em alguns países se fala árabe. Em outros, o francês o inglês ou o português é língua oficial ― o que não impede que seus habitantes utilizem dezenas de línguas diferentes. A África do Sul, sozinha, tem 11 línguas oficiais!

«Cultura da África» é expressão redutora. Seria como pretender contar a «História da Ásia». Não faz sentido. Desconfio que a intenção das autoridades brasileiras encarregadas da Educação Pública não seja exatamente ensinar geopolítica nem História a nossos jovens. Eu não duvido que, por detrás dessa bondade, se esconda um cálculo indecente de fidelização de eleitores pelo viés da valorização do orgulho racial.

É claro que posso me enganar. Mas seria mais prudente não brincar com fogo.