Eleitorado conservador?

José Horta Manzano

É frequente ouvir dizer que, em política, o brasileiro está cansado de tudo o que está aí e quer mudança, novos ares, novos personagens. De tanto ouvir falar nisso, a gente quase acaba acreditando. E se a realidade não fosse exatamente essa?

Recentemente, o Grupo Record encomendou uma pesquisa a um certo Instituto Real Time Big Data(*), do qual nunca ouvi falar e sobre o qual não encontrei nenhuma referência. A pesquisa, que procura descobrir que tipo de presidente o brasileiro gostaria de ter, deve ser portanto encarada com um pé atrás. Assim mesmo, vale a pena olhar de esguelha.

A sondagem indica que dois terços do eleitorado preferem que a presidência seja ocupada por um homem. Após um desastre chamado Dilma Rousseff, o ressabiamento é compreensível.

Num rasgo de conservadorismo explícito, a sondagem informa que, de cada 4 brasileiros, 3 gostariam que o ocupante do cargo maior fosse branco. Sabendo que mais da metade da população do país é mestiça, dá pra medir o tamanho do preconceito: metade da população mestiça optaria por um branco no trono mais alto.

Nove entre dez compatriotas exigem que o chefe do Executivo acredite em Deus. A pesquisa não indagou se exigem também que pratique uma religião ou se basta dizerem que acreditam.

Uma estranha pergunta foi incluída: se preferem que o presidente venha de família rica ou pobre. Estranheza por estranheza, o povo se dividiu. Pouco mais da metade prefere que o homem tenha tido infância pobre, o que pressupõe que a outra metade prefira o contrário.

Confirmando a ancoragem na tradição, os eleitores ‒ numa proporção de 4 contra 1 ‒ fazem questão de que o eleito tenha experiência política, sinalizando preferir um político tradicional, à exclusão de todo novato.

Escaldados pela pobreza de ideias da era lulopetista, mais de três quartos dos eleitores exigem que o novo mandatário tenha formação universitária. Nunca se sabe ‒ formação mais sólida evita gafes internacionais e patacoadas internas.

Com lógica evidente, esmagadora maioria de 85% dos entrevistados não querem saber de ter de novo um presidente investigado por corrupção. Interessante é analisar a resposta pelo avesso. Por exclusão, 15% não se importam que o homem seja investigado. Ora, ora.

Aí está. Quem buscar lógica integral vai se sentir decepcionado. Repito que a sondagem deve ser olhada com certo distanciamento. Assim mesmo, não há de estar muito longe da verdade.

(*) Se o distinto leitor puder lançar alguma luz sobre o perfil desse instituto, convido-o a deixar comentário. Agradeço antecipadamente.

Dos paradoxos da pesquisa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias, li um artigo que tratava dos riscos de manipulação das pesquisas eleitorais. Com cuidado, o escrito alinhavava brechas que podem fragilizar ou até comprometer a credibilidade das sondagens. Provocativo, o texto terminava com a afirmação de que, considerando o impacto negativo que elas podem exercer sobre o ânimo do eleitorado, talvez fosse melhor abolir a divulgação de pesquisas eleitorais.

Fiquei pensativa e, confesso, um tanto incomodada com essa afirmação. Longe de mim o intuito de negar a existência de estratégias pouco éticas na área. Ao contrário, as teses que o artigo sustentava me fizeram lembrar de uma frase que ilustra bem como se pode destacar um determinado número para ludibriar a opinião pública: “A estatística vem sendo usada da mesma forma que um bêbado se utiliza de um poste de luz – não para iluminar, mas só como apoio”.

Há ainda uma velha piada que vai na mesma direção. Conta ela que o conselho de odontologia de uma cidadezinha do interior decidiu fazer um levantamento sobre as condições de trabalho dos dentistas locais. Ao cabo de poucas semanas, recebeu relatório bombástico de um pesquisador iniciante que apontava um dado inquietante: aumento de 50% no número de mortes entre os profissionais locais. Preocupado, o conselho destacou uma equipe para investigar in loco. Descobriu que a cidade contava com apenas dois dentistas e que um deles havia falecido no mês anterior.

O ponto crucial que pretendo levantar com essa pitada de humor é, portanto, que o problema não está só no modo como os institutos de pesquisa elaboram seus projetos, nem no modo como os dados são coletados. Está fundamentalmente na forma como os resultados são lidos pelos analistas e interpretados pela opinião pública.

O que nem todo mundo sabe é que não são feitos apenas levantamentos estatísticos de intenção de voto. Há diversos tipos de pesquisa eleitoral, que podem ser feitos isoladamente ou em conjunto.

As pesquisas quantitativas, o tipo mais difundido e gerador de muita polêmica, elaboram um retrato da concentração (ou da dispersão) de opiniões a favor deste ou daquele candidato. Funcionam, por assim dizer, como um termômetro do interesse popular. No entanto, deixam em segundo plano ‒ intencionalmente ou não ‒ os motivos que levam cada segmento da população a apoiar ou rejeitar cada candidato.

Esse é justamente o objetivo das pesquisas qualitativas, que propõem um mergulho profundo na motivação do eleitorado, independentemente do fato de uma dada opinião ser ou não majoritária ou representativa de seu segmento. Elas permitem a abertura de outras linhas de investigação, já que podem ser realizadas em grupo (para saber como as opiniões flutuam ao sabor da pressão da mídia e da visão de outros eleitores) ou através de entrevistas individuais.

Graças à abundância de dados sugeridos espontaneamente, as pesquisas qualitativas costumam anteceder os levantamentos quantitativos, e os resultados são normalmente usados para estruturar os questionários.

Não estou querendo dizer com tudo isso que as pesquisas qualitativas são mais confiáveis ou que deveriam sempre acompanhar a divulgação de números. Também não pretendo ingenuamente afiançar que elas são menos sujeitas a fraudes e a distorções intencionais.

Aonde quero chegar, então? Tão somente ao fato de que a força das pesquisas para alterar a disposição do eleitorado está intimamente ligada à falta de educação política. A crença disseminada de que optar livremente por um candidato mal colocado nas pesquisas seria o mesmo que “perder o voto” é icônica do analfabetismo ideológico e da indigência cultural.

Se o voto não fosse obrigatório por estas paragens, talvez ainda houvesse esperança de reverter esse quadro nefasto a curto prazo, mas…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Da força das pesquisas

José Horta Manzano

Uma discussão se alevanta, estes últimos tempos, sobre pesquisas de opinião. Computados os erros e os acertos dessas previsões, muitos acreditam que melhor seria se deixassem de ser publicadas. Já outros, alegando a liberdade de informação do cidadão, lutam pela manutenção da ordem atual.

No Reino Unido, o fiasco das sondagens por ocasião do plebiscito sobre o Brexit deu origem à atual discussão. Até a véspera do voto, todos os institutos de sondagem davam como certo que, por folgada maioria, o eleitorado recusaria o divórcio. Na véspera, foram todos dormir tranquilos. Imaginando que o assunto estava resolvido, muitos nem se abalaram pra ir votar. Os que queriam que o país permanecesse na União Europeia estavam tranquilos. Os demais, conformados.

Dia seguinte, catapum! Ninguém acreditava no que tinha acontecido. Grupos saíram às ruas, uns pra expressar euforia, a maioria pra gritar indignação. O malogro das pesquisas fez que muitos passassem a olhar os institutos com desconfiança e desprezo.

Transpondo o problema para o contexto brasileiro, o assunto dá que pensar. A seis meses da eleição presidencial, temos três ou quatro candidatos declarados e mais uma dúzia de «candidatos» entre aspas. Um deles está na cadeia. Um outro, sentado na presidência. Outros ainda são réus na justiça criminal.

Do portal Poder 360
Um candidato ainda não declarado já é dado como eleito

O quadro é baralhado e confuso. Assim mesmo, institutos de pesquisa já começaram a publicar os resultados de seus trabalhos. Não há como negar que, num cenário nebuloso como o atual, os supostos candidatos que aparecem bem nas pesquisas tendem a atrair a simpatia de eleitores perdidos. É inegável que elas podem, sim, influenciar os votantes. Afinal, ninguém quer «jogar fora o voto» nem «perder a eleição».

Embora ainda falte meio ano para o dia do voto, já se fala em candidatos «que não decolam». Na outra ponta, institutos já dão como vencedores candidatos que nem sequer se declararam. A meu ver, essas pesquisas, além de não servir pra nada, ainda dão nó na cabeça de muita gente. Acabam distorcendo os resultados.

Que partidos façam sondagens internas, está muito bem. Cada um deles tem o direito de saber como está se comportando o candidato que lançou. Já não vejo bem a utilidade de divulgar pesquisas ao grande público. Elas acabam orientando o voto de muita gente, num desvio do objetivo primeiro. Sem contar que, segundo as más línguas, certos institutos, subordinados a determinados interesses, organizam os questionários de modo a favorecer quem lhes dá ordens.

Constato que, segundo as pesquisas, já estão praticamente sentados no trono presidencial candidatos que ainda nem se declararam e dos quais não conhecemos as linhas básicas do programa de governo. Como é possível? Estaríamos elegendo candidato pela foto, como num concurso de Mr. Sorriso?

Rematado absurdo. Dependesse de mim, ficava abolida a publicação de pesquisas eleitorais.

Programa vazio

José Horta Manzano

Fico impressionado com a desenvoltura com que cidadãos se apresentam como candidatos ao mais alto cargo do Executivo. Não passa uma semana sem que novo nome venha se juntar à lista de «presidenciáveis». Justiça seja feita, alguns nomes são lançados ao vento à revelia do interessado principal. É o caso do juiz Sergio Moro. Embora o homem já tenha declarado que não se candidatará, seu nome continua aparecendo em dez em cada dez pesquisas.

Entre os possíveis candidatos, estão as incontornáveis velhas raposas da política coronelista, um antigo ministro do STF, um apresentador de tevê, um militar reformado, um antigo presidente da República, um governador de estado, um prefeito de capital, sem contar deputados e senadores pouco expressivos. Alguns juram de pés juntos que não se apresentarão. Outros preferem não confirmar nem negar, muito pelo contrário.

O que me deixa perplexo é que nenhum deles trouxe a público um programa de governo completo e coerente. Como sabe o distinto leitor, em nossa República, o presidente tem atribuição dupla: é, ao mesmo tempo, chefe de Estado e chefe do governo. Entre suas atribuições está, portanto, imprimir as diretivas mestras à condução da política nacional. O rumo do país depende, em larga medida, de sua visão.

Dirigir os destinos de duzentos milhões de compatriotas não é algo que se improvise. É atividade que demanda preparação minuciosa, planos apurados, projetos bem estruturados. No entanto, não é o que se vê entre os pré-candidatos. Passam o tempo a criticar-se mutuamente. Juntam-se todos para atirar pedras no governante atual. Essa é a parte fácil. Do mais difícil, que é mostrar seu programa de governo, esquivam-se todos. Lançam uma ideia aqui, outra acolá, mas não passa disso.

by Angel Boligán Corbo (1965-), desenhista cubano

Nas pesquisas, ouve-se que doutor Joaquim Barbosa subiu, que doutor Luciano Huck tem chances, que doutor Ciro Gomes isso, que o Lula aquilo, que doutora Marina sei lá mais o quê. São apenas palavras jogadas no ventilador. Qual é o programa de cada um desses personagens? Caso sejam eleitos, que pretendem fazer? Quando tiverem tomado posse do trono, qual será o passo seguinte?

Enquanto presidentes e outros dirigentes continuarem a ser eleitos sem programa claro e definido, apoiados apenas por marketing e slogans, não há esperança de escolhermos gente séria, competente e bem-intencionada.

Um resultado, duas análises

José Horta Manzano

Saíram esta semana os resultados de extensa pesquisa feita no Brasil pelo instituto Ipsos, de origem francesa. A sondagem avalia a percepção que o eleitorado brasileiro tem da política em geral e do momento atual em particular.

Perguntas referentes a doutor Temer, a doutora Dilma, a deputados e senadores são inevitáveis. As respostas mostram que o eleitor não vota nem avalia com o cérebro, mas com o fígado. Tem até os que julgam com o estômago. De fato, com o país atravessando momento difícil, com aumento de preços e queda na oferta de empregos, a população tende a culpar os dirigentes de turno. Ainda que não tenha responsabilidade direta sobre a situação atual do país, doutor Temer encarna o vilão da novela.

É interessante notar que cada analista enxerga nos resultados aqueles que vão de par com suas próprias convicções. Passando por cima das respostas que não lhe agradam, cada um dá ênfase aos resultados que vão ao encontro de suas teses. Senão vejamos.

O Estadão, jornal que nunca escondeu sua oposição à visão de mundo lulopetista, focalizou sua análise na ojeriza crescente inspirada pelos políticos. Destacou o fato da rejeição que atinge a totalidade dos políticos. Mencionou que, de cada quatro brasileiros, três são contra o voto obrigatório. Tece outras considerações sem se deter ao modo de governar de doutor Temer. Acrescenta que os brasileiros não se sentem representados por nenhum político.

Já o portal Gente de Opinião, que mostra simpatia para com o lulopetismo, analisa os resultados de outro jeito. Destaca que a democracia não é respeitada e explica que isso era previsível «desde que um impeachment afastou a presidente legítima e permitiu que o poder fosse usurpado (sic) pelo vice Michel Temer, que a traiu». Diz também que noventa e tantos porcento dos eleitores não se sentem representados por «Temer e sua turma».

Ao final, a gente fica pensativo. Pra que servem mesmo essas sondagens? Cada um vê o que quer ver, entende o que quer entender, analisa como lhe convém, chega à conclusão que lhe apraz. Eta, mundão grande… e hipócrita!

Sem chance

José Horta Manzano

Sabemos todos que pesquisa de opinião pode ser torcida, retorcida e distorcida conforme o que se está querendo ouvir. Os especialistas no assunto conhecem bem as manhas. Há perguntas que induzem o entrevistado a dar a resposta que se deseja. A ordem em que se apresentam as opções conta. Misturar nomes conhecidos do grande público com ilustres desconhecidos também tem importância. Há mil e um truques que pesquisadores não hesitam em utilizar.

Já faz algum tempo que tenho visto sondagens focadas nas eleições presidenciais de 2018, previstas para realizar-se para daqui a um ano e três meses. É cedo demais para sondar. Além disso, tirando o eterno candidato Lula, nenhum outro se declarou formalmente. Portanto, sem ao menos saber quem vai concorrer, como é possível chegar a resultado razoável?

Achei interessante que o nome da doutora Dilma não apareça em nenhuma das pesquisas. Seus direitos políticos foram mantidos, pois não? A doutora governou o país durante cinco anos. Por que, diabos, os institutos a eliminam arbitrariamente da lista de possíveis candidatos? E que dizer de doutor Temer então? Ainda que fosse destituído ‒ o que está longe de acontecer ‒, pode candidatar-se em 2018. Assim mesmo, não aparece em nenhum cenário.

Em compensação, aparecem figuras como Luciana Genro, Eduardo Jorge e Ronaldo Caiado que, convenhamos, pouca gente conhece. Francamente, em matéria de parcialidade, a mais recente pesquisa eleitoral parece imbatível. Falando em imbatível, o Lula aparece com 30% dos votos no primeiro turno, independentemente do nome dos concorrentes. É possível que nem a inclusão da doutora e do atual presidente viesse a modificar o resultado.

Como contrapeso, saiu ontem pesquisa do Instituto Paraná. Foi divulgada pelo blogue de Lauro Jardim, alojado no jornal O Globo. Aos entrevistados não foi perguntado em quem votariam. Mais sutil, o instituto quis saber se o sondado achava que, pelas denúncias já apuradas, há motivos para o Lula ou doutor Temer serem presos. Aí vem a surpresa: 62% dos entrevistados acham que o Lula deve ir para o xilindró ‒ perto de 2 em cada 3 brasileiros! Só doutor Temer bate nosso guia. De cada 5 eleitores, 4 acham que o lugar dele também é na cadeia.

Agora comparemos. No primeiro turno, o Lula mantém, em qualquer cenário, seus 30% de eleitores fiéis. Vamos admitir. No entanto… 62% querem mais é vê-lo atrás das grades. A conclusão se impõe. Por mais que nosso guia caído apregoe, não teria possibilidade nenhuma de ser eleito caso a eleição fosse agora. Dado que será daqui a 15 meses, a situação só tende a piorar. Para ele.

O poder das analogias

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A primeira vez que me dei conta da profunda sabedoria contida numa analogia ela veio envolta na saborosa e rústica forma de falar nordestina. Eu estava em Recife, coordenando um treinamento para a equipe de vendas da região. Fizemos uma pausa no meio da tarde para um café. Eu conversava com um dos participantes, que parecia empolgado com as propostas introduzidas na parte da manhã.

Ele mastigava descontraidamente uma bolacha cream-cracker enquanto me ouvia tecer considerações sobre o que viria a seguir. De repente, notei que ele fazia caretas de desagrado e, intrigada, perguntei o que o estava incomodando. Com um meio sorriso nos lábios, ele respondeu: “Não tem nada a ver com o treinamento, não. É esta bolacha… isto aqui é como dançar com irmã.” Sem entender aonde ele queria chegar, voltei a questionar: “Como assim?”. Ele retrucou de pronto, com um ar entre sério e safado: “Não tem gosto de nada!”

O poder de uma analogia reside exatamente no fato de que, ao se estabelecer uma conexão inesperada entre duas experiências díspares, vem à tona um traço fundamental do caráter de um produto/marca, de uma situação ou de uma pessoa, capaz de distingui-los de forma criativa de outros do mesmo segmento.

A pesquisa de mercado e a comunicação publicitária valem-se seguidamente desse recurso, já que não é preciso fazer nenhum esforço consciente para apreender qual é o benefício único do produto/marca que está sendo apresentado. Ao contrário, ele surge como uma espécie de revelação de algo que já se sabia, mas que ainda não havia sido colocado em palavras por ninguém. Graças a isso, o traço de união revelado adquire quase imediatamente o sentido de “verdade” para todos aqueles que partilham da mesma opinião.

Muitos devem se lembrar, por exemplo, de uma propaganda que já completou mais de vinte anos, cuja assinatura é usada até hoje como mote para fazer referência ao padrão de qualidade de alguma coisa, seja um produto/marca, situação ou pessoa: “Não é nenhuma Brastemp…”

Cansada do clima de mal-estar político e sem ver solução de curto prazo para pôr fim à agonia ética em que patinamos todos, resolvi me encher de coragem e propor aos que me leem um jogo de analogias. Para tornar o jogo mais palatável, não serão utilizados nomes de possíveis candidatos, filiações partidárias ou orientações ideológicas. Também não será levado em consideração o sistema de governo que cada um considera o mais adequado para o futuro.

O jogo é o seguinte: Imagine que a saída para boa parte dos males do país está nas mãos de uma única pessoa. Estabeleça agora uma analogia entre esse personagem e cada uma das categorias abaixo. Quando terminar, revise sua lista e identifique os motivos que o levaram a associar uma coisa à outra.

Se essa pessoa fosse:

   •  Um animal

   •  Uma ferramenta (manual ou aplicativo eletrônico)

   •  Uma música (ou gênero musical)

   •  Uma comida

Se lhe ocorrer alguma outra categoria que lhe pareça mais significativa para ressaltar a personalidade dessa espécie de “salvador da pátria” [no sentido de alguém capaz de abrir novos caminhos], não hesite em utilizá-la também. Mas atenção: o jogo tem de ser divertido e espontâneo. Registre sempre a primeira ideia que lhe passar pela cabeça, evitando o máximo que puder a autocensura, ou seja: não se importe se a ideia lhe parecer ridícula, sem sentido ou exagerada. Lembre-se sempre que não há respostas certas ou erradas.

Caso sejamos bem-sucedidos e consigamos reunir sugestões inovadoras e bem-humoradas, comprometo-me desde já a analisar os resultados e elaborar um resumo das principais características do futuro da nação com que sonhamos.

Agradeço de antemão a todos que se deixarem sensibilizar com minha proposta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desperdiçando dinheiro

José Horta Manzano

Saiu ontem nova pesquisa sobre a popularidade do presidente. A Confederação Nacional do Transporte(!) encomendou a uma empresa especializada, por nome MDA, sondagem de opinião. Imagino batalhões de agentes vasculhando os grotões a fim de descobrir o que o povo acha do governo atual. O resultado não trouxe surpresa. O presidente goza de apenas uns 10% de aprovação plena. Na outra ponta, quase metade dos habitantes estão muito descontentes. Para os demais, não fede nem cheira.

estatisticas-7aAcoplada à pesquisa sobre o presidente atual, veio um apenso ‒ um jabuti enxertado ‒ com perguntas sobre intenções de voto para as próximas eleições presidenciais. Faltando um ano e meio para o voto, ninguém sabe sequer quais serão os candidatos, especialmente quando se leva em conta o momento turbulento que o país atravessa. Ora, que não seja por isso. O instituto especializado simplesmente repetiu o nome dos candidatos das últimas eleições. A simulação cobre o primeiro e até o segundo turno! Quando se sabe que todo eleitor tende a mencionar os nomes mais conhecidos, fica fácil imaginar o preferido. Em diversas simulações dá nosso guia na cabeça. Quanto blá-blá-blá! A probabilidade de ele estar encarcerado é maior do que a de que saia candidato.

Não sou especialista em pesquisa de opinião, muito menos em transporte. Assim mesmo, como cidadão dotado de alguns gramas de espírito crítico, fico a cogitar sobre a razão pela qual a Confederação dos Transportes estaria interessada nesse tipo de sondagem. Suponho que custe um dinheirão. A pergunta inevitável é: de onde vêm os fundos para financiar a pesquisa? Quem teria interesse em sua publicação? Cui bono? ‒ quem é que ganha com isso?

Sem consultar minha bola de cristal, eu já imaginava ‒ e meus distintos e cultos leitores também ‒ que senhor Temer não era apreciado. Não tanto por carisma ou por falta dele. Num momento em que a inflação anda comendo braba, o desemprego corre à solta, a segurança nas ruas lembra Bagdá, bandoleiros se tornaram donos das cadeias, metade dos homens políticos está com um pé na prisão, é compreensível que o povo esteja desgostoso. E é natural que essa insatisfação se cristalize na figura do chefe do Executivo.

Estatísticas 8Que os descontentes sejam 40%, 50% ou 80%, pouca diferença faz. Sabemos todos que, salvo cataclisma, o presidente-tampão lá deve permanecer até o fim do ano que vem. Sabemos também que este é o melhor momento para destravar reformas estruturais engavetadas há anos ‒ a da Previdência Social em primeiríssimo lugar, mas não só. Antipático por antipático, melhor fazer o que tem de ser feito.

Nesse sentido, o governo atual, apesar dos pesares, tem dado passos na boa direção. Portanto, pergunto de novo: de que servem essas medições de antipatia? É mais que previsível que o presidente chegue ao final do mandato com aprovação baixíssima e reprovação nas alturas. No momento sinistro que o país atravessa, gastar dinheiro medindo popularidade de presidente e tentando adivinhar o sucessor parece-me desperdício. Estão jogando dinheiro pela janela. Só desperdiça quem tem pra desperdiçar. De onde vem essa dinheirama?

O patinho feio

José Horta Manzano

Com o impeachment e os Jogos Olímpicos ocupando corpo e mente, outras notícias vão irremediavelmente pra segundo plano. Sobra pouco espaço. Assim mesmo, procurando bem, sempre se encontra um detalhe interessante aqui, um pormenor curioso acolá.

O respeitado Ipsos ‒ Institut Politique de Sondages et d’Opinion Sociale ‒ é grupo internacional de origem francesa dedicado a pesquisa de opinião. Semana passada, um mês depois de os britânicos terem declarado a intenção de abandonar a União Europeia, publicou pesquisa interessante.

IpsosPediram, a mais de doze mil adultos em 16 países, opinião sobre o Brexit, ou seja, se achavam que o voto britânico tinha representado um passo na boa direção. Sem muita surpresa, entre os países da UE, 58% se mostraram reticentes à decisão do Reino Unido. Acreditam ter sido um erro.

Até eleitores de países que não integram o bloco dão parecer negativo à decisão britânica. A única exceção foi a Rússia, cujos entrevistados veem com simpatia o desmantelamento da UE. É compreensível.

O que me chamou a atenção, na pesquisa, não foi tanto o resultado quanto a escolha dos países a sondar. Dos 16, nove fazem parte da União Europeia, seleção lógica. Estão lá o próprio Reino Unido além de todos os grandes: Alemanha, França, Itália, Espanha. Outras quatro nações de médio porte completam o quadro.

Fora do bloco, o instituto procurou, naturalmente, escolher países importantes, daqueles cujo peso faz diferença no planeta. Aqui estão os sete finalistas: Estados Unidos, Canadá, Japão, Rússia, Índia, África do Sul e Austrália.

Bandeira UE UKTive de ler duas vezes pra ter certeza. Estão lá a Índia, a Austrália e até a África do Sul, mas o Brasil falta. O instituto há de ter considerado que sul-africanos e indianos estão mais bem informados que brasileiros. Ou que são mais politizados. Ou donos de espírito crítico mais firme.

Compreendo que a China não tenha sido incluída na seleção. Apesar do peso econômico do país, alguns problemas de liberdade de expressão individual persistem. Dá pra entender.

Mas… e o Brasil? Por que teremos sido deixados de lado? A pergunta deve ser feita ao instituto. Pensando bem, talvez seja melhor nem perguntar. A resposta pode ser aflitiva e desmoralizante. Parece que o Brasil se autoexcluiu da nata das nações. Sem plebiscito, num Brasex silencioso.

Pensando bem – 7

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Pra fazer uma sondagem
e encontrar opinião,
é preciso ter coragem,
escapar da malandragem,
caprichar na rechecagem
e contar tudo ao povão.

Um instituto conhecido
pela sua exatidão
anda quieto e encolhido
já não diz mais ter ouvido
a voz da população.

Pesquisou, já várias vezes,
o tal grau de aprovação
do governo do País.
Mas agora, já faz meses
que me deixam infeliz:
não há mais publicação!

O silêncio é contundente
e me deixa encafifado.
No fundo, quem me garante
que, neste Brasil amado,
inda temos presidente?

Gaúchos opinam

José Horta Manzano

O jornalista Políbio Braga repercute pesquisa realizada estes dias pelo Instituto Paraná Pesquisas. Trata da intenção de voto do eleitorado gaúcho, caso eleições para presidente da República fossem realizadas hoje.

Dos candidatos propostos, os eleitores escolheram na seguinte ordem:

Aécio Neves     43,8%
Lula da Silva   19,5%
Marina Silva    14,7%
Ronaldo Caiado   3,4%
Eduardo Cunha    2,8%
Nenhum deles     7,9%
Indecisos        7,9%

Urna 7

Quando o nome de Aécio Neves for substituído pelo de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, o resultado embolou. Assim mesmo, o amargor dos gaúchos pelo pífio desempenho do governo nos últimos 12 anos se reflete nas declarações de voto a nosso guia.

Fica assim:

Geraldo Alckmin   29,9%
Lula da Silva     20,7%
Marina Silva      20,3%
Eduardo Cunha      5,0%
Ronaldo Caiado     4,3%
Nenhum deles      10,4%
Indecisos          9,4%

Something is strange

José Horta Manzano

Algo está esquisito.

Datafolha e Ibope divulgaram resultado de pesquisa sobre a intenção dos eleitores para o segundo turno de votação. Parecia até combinado: o resultado de ambos os insitutos foi i-dên-ti-co, com as vírgulas e os pingos nos is. Deu empate entre os candidatos.

Dia seguinte, vem a pesquisa do Instituto Sensus, encomendada pela revista IstoÉ. O resultado é drasticamente diferente do empate previsto pelas outras duas instituições.

Estatísticas 6Segundo o Sensus, Aécio é dono da preferência de 56,4% do eleitorado, enquanto dona Dilma fica com 43,6%. Falamos aqui de votos válidos. Não é nada, não é nada, são 13 pontos de diferença.

A revista IstoÉ, que pagou pelo serviço, divulgou a informação em manchete. O Estadão e a Folha de São Paulo deram a notícia bem de leve, en passant.

Sem ser especialista em análise de sondagens, devo dizer que os números desta última pesquisa fazem mais sentido. Não é concebível que a maioria dos brasileiros anistie os que lá estão e lhes conceda mais quatro anos de poder.

Seja como for, a discrepância entre as pesquisas é bizarra. Pra não dizer mais.