Esperavam o quê?

José Horta Manzano

No dia 2 outubro 2009, quando se tornou público que os Jogos Olímpicos de 2016 se realizariam no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, nem vidente com bola de cristal turbinada poderia prever que, anos mais tarde, uma certa operação jurídico-policial lavaria a jato o Brasil.

Naquele momento, nosso país já havia esquecido o mensalão. No auge da glória, nosso guia se preparava para ungir Madame Rousseff como sucessora. A maioria acreditava que a pobreza, as desigualdades sociais, os desmandos, a má govervança, as injustiças estavam para desaparecer em nossas terras.

JO 2016 3Apesar da euforia de um Brasil que já se imaginava emparelhado com as grandes nações, acabou dando tudo errado. Poucos se deram conta de que Copa e Olimpíada não passavam de reboco grosso, daqueles que se aplicam para esconder rachaduras profundas. As mazelas nacionais continuavam latentes. Anestesiadas e subjacentes, mas bem vivas. Com ou sem Lava a Jato, o desastre era previsível.

Está aqui abaixo um florilégio de títulos e chamadas colhidos esta última semana na mídia nacional.

  • Princípio de incêndio atinge prédio da Austrália na Vila Olímpica

  • Atletas da Suécia apontam problemas e deixam Vila Olímpica da Rio 2016

  • Ambulante vende lugar na fila para ‘selfie’ diante de aros olímpicos

  • Esquema de segurança não impede tiroteio no caminho das delegações

  • Atletas japoneses ajudam na limpeza dos apartamentos na vila Olímpica no Rio de Janeiro

  • Paes pede que cariocas fiquem em casa no dia da abertura dos Jogos

  • Delegação chinesa fica presa em tiroteio perto do Complexo da Maré

  • Presidente do Comité Internacional Olímpico diz que a Olimpíada no Rio é teste de estresse

  • Festa de abertura da Rio-2016 recebe, em regime de urgência, 270 milhões de dinheiro público para cobrir rombo

  • Brasil dá início nesta sexta-feira à maior Olimpíada mergulhado no pior da recessão.

Esperavam o quê?

Vila Olímpica

José Horta Manzano

Os habitantes de Montréal, cidade que sediou os Jogos Olímpicos de 1976, não querem mais ouvir falar nesse tipo de aventura. Ficaram vacinados. A brincadeira deixou um déficit de um bilhão de dólares ‒ quantia vertiginosa para a época. Os contribuintes levaram três décadas pagando a fatura.

JO 1Os infelizes atenienses, que acolheram os Jogos em 2004, guardam lembrança catastrófica. Pelos números oficiais, não necessariamente confiáveis, o custo total foi de 11,2 bilhões de euros. Estimação extraoficial eleva o número a estonteantes 20 bilhões, tudo a ser coberto com os impostos da população. É evidente despropósito quando se leva em consideração o modesto PIB grego. Essa loucura precipitou a débâcle que o país sofreria poucos anos depois.

Algumas instalações construídas especialmente para os Jogos de Atenas encontram-se hoje em total abandono, depredadas, saqueadas, com mato crescendo em volta.

JO 2Mais do que a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016 trazem dano financeiro ao Brasil. Se a Copa deixou estádios ‒ perdão, arenas! ‒ subutilizados, as Olimpíadas podem deixar um rastro de instalações abandonadas. O número diminuto de esportistas nacionais dificilmente justificará os gastos de manutenção.

Uma coisa me deixa cismado. As prestigiosas delegações que disputam uma Copa dispensam a construção de alojamentos. Cada seleção escolhe a base que mais lhe agradar ‒ hotel, pousada, resort ou o que seja ‒ e paga do próprio bolso. Por que a mesma lógica não valeria para as Olimpíadas?

JO 3Se assim fosse feito, o contribuinte brasileiro não teria de arcar com o custo de contrução de toda uma Vila Olímpica. Não é tudo, mas é sempre um gasto a menos. E, do jeito que vão as coisas, uma vergonha a menos.

A infraestrutura hoteleira não suportaria o afluxo maciço de atletas, delegações e turistas? Que só se candidatem a sediar Olimpíadas as cidades dotadas de infraestrutura. Quem não tem competência não se estabelece.