Brexit ‒ 8

José Horta Manzano

A Irlanda do Norte é um caso muito sério. É um país, pero no mucho. São seis pequenos condados que, agrupados, formam hoje «nação constitutiva» do Reino Unido. Congregando, grosso modo em partes iguais, cidadãos protestantes e cidadãos católicos, a região sempre foi um barril de pólvora pronto a explodir à primeira faísca.

O país vive fragmentado entre as duas comunidades. Por um lado, os católicos não se oporiam à ideia de a província passar a fazer parte da República da Irlanda. Por outro, os protestantes, temendo tornar-se minoria desprezível, aferram-se à coroa britânica e preferem continuar firme como súditos da rainha Elisabeth II.

Desde sempre, as práticas religiosas falaram mais alto que a língua, a história e a cultura comuns. A contar dos anos 1970, emboscadas e atentados tingiram de sangue o quotidiano. A região entrou em convulsão e caiu num círculo vicioso: a violência atiçava o ódio, que nutria a violência. Era impossível antever o fim das hostilidades. Permanecendo as causas, é natural que o efeito permanecesse.

A entrada conjunta na União Europeia da República da Irlanda e do Reino Unido (incluindo a Irlanda do Norte) foi passo importante para a pacificação da região. De repente, Grã-Bretanha, Irlanda e Irlanda do Norte integravam uma entidade maior, supranacional. A ficha até que demorou a cair, mas lá pelo fim do século XX, cansados de guerra, católicos e protestantes norte-irlandeses chegaram a uma trégua que já ninguém ousava esperar. Embora a desconfiança mútua perdure, já faz duas décadas que parecem ter aprendido a conviver.

Eis senão quando… uma infeliz decisão britânica vem perturbar a paz da região. Refiro-me ao plebiscito que deu origem ao Brexit ‒ a saída do Reino Unido da União Europeia. Para a Irlanda do Norte, é terrível desastre. Quarenta anos de união aduaneira haviam apagado a noção de fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. As gentes e as mercadorias passavam de um lado para o outro sem pedir licença. Até os postos de fronteira haviam desaparecido.

Depois do Brexit, as duas Irlandas vão voltar ao statu quo ante bellum, ou seja, à situação em que se encontravam antes da adesão à UE. Voltam a ser países separados. Dado que uma das Irlandas permanece na UE enquanto a outra vai embora, a fronteira entre elas torna-se fronteira exterior da Europa. Uma tragédia!

O potencial explosivo da nova situação é tão forte que está emperrando o acordo de divórcio entre o Reino Unido e a UE. Irlandeses ‒ do norte e do sul ‒ gostariam que a fronteira continuasse como está: invisível, permeável, aberta e amiga. Mas a União Europeia não pode admitir que sua fronteira externa, ainda que seja num curto trecho, esteja desguarnecida.

O dilema é cabeludo. Ninguém sabe qual será a solução. Seja ela qual for, descontentará uma das partes e deixará sequelas.

A meta

José Horta Manzano

«Não vamos fixar meta. Mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrá-la.»

Meus distintos leitores hão de se lembrar da frase pronunciada por doutora Dilma. A presidente emérita foi pródiga em ditos tragicômicos. A saudação à mandioca e a exaltação da mulher sapiens também têm lugar garantido no folclore político nacional.

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Num país como o nosso, onde público e privado se entrelaçam, onde Estado e governo são encarnados por uma única pessoa, os interesses do governo (de curto prazo) e do Estado (de longo alcance) se confundem. Dessa mistura entre o passageiro e o duradouro, nascem imbróglios. A admissão da Venezuela no Mercosul é um deles ‒ um problema cabeludo. O distanciamento comercial entre o Brasil e os países economicamente poderosos é outro nó difícil de desatar.

Em nosso país, cada governo vive e age como se, depois dele, o mundo fosse acabar. O interesse do Estado é abandonado em prol da sobrevivência política dos inquilinos temporários do andar de cima. Nem vale a pena fixar metas ou arquitetar planos, que serão desmantelados pelo governo seguinte.

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Trinta anos atrás, o universo esportivo da Grã-Bretanha andava ao deus-dará. O fraco desempenho nacional desdourava a imagem do país. O vexame culminou com a classificação britânica nos JOs de 1996, em Atlanta. Naquela edição, eles terminaram em 36° lugar(!), com quinze medalhas, das quais apenas uma de ouro. Países como a Argélia, a Nigéria, a Turquia, a Etiópia e até o Brasil passaram à frente.

Mister John Major, então primeiro-ministro do reino, entendeu que algo precisava ser feito. Os resultados olímpicos tinham de voltar a corresponder à imagem gravada no inconsciente coletivo do mundo: a de uma Inglaterra poderosa. Mas como proceder? O caminho era um só: investir. Mas tirar dinheiro de onde? Alguma nova fonte tinha de ser criada sem aumentar impostos.

JO 4A solução foi inventar uma nova loteria nacional. Com bom trabalho de marketing, o novo jogo logo caiu no gosto popular. Grande parte dos ganhos foi, desde então, dedicada a apoiar esportistas. Mas, atenção: a intenção era aumentar a colheita de medalhas nos Jogos Olímpicos. Portanto, mais valia investir em esportes em que a concorrência é menor.

Assim foi feito. O orçamento tradicionalmente reservado para esportes muito concorridos como o futebol, o vôlei e o basquete foi diminuído. Em compensação, esportes olímpicos menos praticados receberam uma injeção de recursos. Só para dar uma ideia de como a loteria ajudou, basta mencionar que, em 1996, o financiamento público para os esportes era de 5 milhões de libras por ano. Vinte anos mais tarde, nos quatro anos que antecederam os JOs do Rio, a quantia subiu para 274 milhões de libras mais 73 milhões para os paraolímpicos.

Medalha não cai do céu por obra e graça de São Benedito. Tem trabalho e investimento por detrás. Mas compensa. Para espanto geral, o Reino Unido deverá terminar hoje classificado em segundo lugar. Reparem que as medalhas não vêm de esportes ultrapopulares e concorridos. Modalidades como atletismo, ginástica artística, remo, canoagem, hipismo, saltos ornamentais, triatlo, vela sobressaem.

Bandeira UK 2E isso tudo por quê? Porque tiveram a sensatez de entender que os interesses maiores do Estado britânico primam sobre os interesses passageiros de cada governo. John Major, o criador da loteria, deixou o cargo em 1997, um ano depois de Atlanta. De lá para cá, a casa n° 10 de Downing Street já foi ocupada por outros quatro primeiros-ministros. Dois deles eram trabalhistas e os outros dois, conservadores.

Ajuizados, todos entenderam que a promoção do esporte não era política de governo específico visando a perpetuar-se no poder. Não passou pela cabeça de ninguém suspender o programa. O resultado está aí: o Reino Unido transformou-se em potência olímpica capaz de peitar uma China de bilhão e meio de habitantes.

Nota:
Não encontrei notícia de casos de corrupção no movimento olímpico britânico. Salvo melhor juízo.

Com ou sem a Escócia?

José Horta Manzano

Você sabia?

UK sem Escócia

UK sem Escócia

Neste momento em que os habitantes da Escócia estão decidindo, pelo voto, se querem continuar membros do Reino Unido ou se preferem seguir caminho separado, convém lançar uma vista d’olhos a alguns aspectos da questão.

Para começar, vamos lembrar que a mui fotogênica bandeira do Reino Unido é formada pela superposição de três símbolos nacionais: a Cruz de São Jorge (que representa a Inglaterra), a Cruz de Santo André (emblema da Escócia) e a Cruz de São Patrício (que simboliza a Irlanda). O esquema é este aqui:

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Caso o sim seja majoritário e os escoceses (re)conquistem a independência perdida séculos atrás, o Reino Unido será amputado de alguns símbolos fortes. Alguns deles:

A bandeira
Pela lógica, a Cruz de Santo André ― o azul da bandeira ― deverá ser apagado. O novo lábaro perderá seu charme. Ficará assim:

Union Jack sem Escócia

Union Jack sem Escócia

James Bond
Sean Connery, que estrelou os primeiros filmes do célebre agente secreto britânico, é escocês. E se orgulha disso. Prova é, que milita num partido nacionalista escocês. James Bond passará a fazer parte do inconsciente coletivo de outro país, não mais do Reino Unido.

Personagens famosos
Outra pessoas famosas, que a gente costuma considerar «inglesas», são, na verdade escocesas.
Interligne vertical 10Andy Murray, tenista
Jackie Stewart, legendário piloto de Fórmula I
Alex Ferguson, treinador e ícone do futebol britânico
Sir Robert Watson-Watt, inventor do radar
Lord Kelvin, físico que deu nome à Escala Kelvin
Adam Smith, pai da moderna Economia
David Hume, filósofo
Alexander Fleming, descobridor da penicilina
Tony Blair, antigo primeiro-ministro do Reino Unido
Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes
Jimmy Clark, piloto de Fórmula I

Johnnie Walker
A marca legendária do uísque iria por água abaixo ― ou por uísque abaixo(*). Não só o Johnnie, mas todo o prestígio da bebida escocesa por excelência.

O pico
O pico mais elevado do Reino Unido (na Europa) está na Escócia. É o Monte Ben Nevis, de cerca de 1350m de altitude. O Reino Unido verá sua altitude rebaixada.

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E olhe lá: isso tudo sem mencionar que a quase totalidade das reservas britânicas de petróleo se encontram em águas escocesas. Aí, sim, vai doer no bolso. Enfim, eles, que são britânicos, que se entendam. Visto assim de longe, parece briga de somenos importância. E acho que é.

Interligne 18c(*) Observação etimológica
O termo whiskey/whisky é redução da expressão gaélica uisge beatha, que significa «água de vida». Uisge/uisce é água nas línguas celtas.
Supõe-se que a expressão seja um decalque do latim medieval aqua vitae. Confronte-se com o francês moderno eau de vie, com o italiano acquavite, com o escandinavo aquavit.

Parlez-vous portugais?

José Horta Manzano

Você sabia?

Carlos Ghosn, Renault

Carlos Ghosn, Renault

Em 1903, a indústria francesa respondeu pela metade da produção mundial de automóveis. Naquele mesmo ano, os EUA produziram 18% do total mundial. Os britânicos foram responsáveis por 15%, e os alemães, por 11%. A Itália e a Bélgica fechavam a fila. E era só. Ninguém mais construía automóvel naquele tempo.

Em 1914, havia 155 fabricantes de automóvel na França. O tempo se encarregou de eliminar excedentes, cortar sobras, limar beiradas. Atualmente ― exceptuado algum montador artesanal ― sobraram apenas dois grandes grupos: Peugeot e Renault.

Longe da antiga glória, a Peugeot ocupou um modesto 10° lugar na classificação global 2013 das montadoras, pelo critério de volume de vendas. A Renault, então, nem aparece na lista das dez mais. Assim mesmo, são dois grandes grupos industriais.

As duas empresas apresentam uma curiosa particularidade: têm ambas um presidente estrangeiro. Ambos se chamam Carlos e nasceram fora do território nacional.

Carlos Tavares, Peugeot

Carlos Tavares, Peugeot

O Grupo Renault é presidido por Carlos Ghosn. Neto de libaneses, nasceu em 1954 em Guajará-Mirim, no então Território do Guaporé ― hoje Rondônia. Quando o senhor Ghosn era ainda menino, sua família se transferiu a Beirute, onde ele foi escolarizado num liceu jesuíta. Ele detém três nacionalidades: a brasileira (pela lei do solo), a libanesa (pela lei do sangue) e a francesa (por naturalização).

O Grupo Peugeot tem como presidente o senhor Carlos Tavares, nascido em Lisboa em 1958. Seu pai trabalhava para uma firma francesa e sua mãe ensinava a língua de Molière. O menino cursou o Liceu Francês de Lisboa. Optou por não se naturalizar. Conserva sua nacionalidade portuguesa.

Em resumo, por um capricho do destino, cada um dos dois grupos automobilísticos franceses é comandado por um lusófono.

Grande jogada

José Horta Manzano

A partir do século XVII, os habitantes de grandes países começaram a se dar conta de que não era normal que uma pessoa ou um pequeno grupo desse as cartas e governasse sozinho. Foi assim na Grã-Bretanha de Cromwell, na França da Revolução, nas colônias da Nova Inglaterra. Aqueles povos se consideravam já maduros para dar um basta à oligarquia. Regimes absolutistas ― com rei sol ou sem ele ― já não combinavam mais com os novos tempos.

Boca de urna 1No Brasil, demorou um pouco. Durante o período imperial, o monarca detinha o Poder Moderador, que, na prática, lhe conferia atributos dignos de um soberano absolutista. Foi preciso esperar até 1889, quando um golpe de Estado derrubou o regime e instaurou a República. A partir de então, nosso país disse adeus, pelo menos em teoria, a governantes discricionários.

Tivemos recaídas. Com golpes em 1930 e em 1937, Getúlio Vargas fez retroceder o Brasil a um regime fechado, no qual uma pequena casta voltava a deter o poder. A liberalização de 1945 durou pouco. Menos de vinte anos depois, as rédeas do País eram entregues a um grupo de militares de alta patente. Novo retrocesso. Finalmente, a democracia voltou em 1985, abrindo para todos os cidadãos a possibilidade teórica de ter acesso a postos de mando.

Por um erro ― proposital? ―, a Constituição de 1988 dava ao chefe do Executivo o poder de editar medidas provisórias. A intenção do legislador há de ter sido nobre: visava a evitar a paralisia do governo. A medida provisória deveria ser reservada para casos de extrema urgência, quando não se pudesse aguardar um voto do parlamento. Deveria servir para prevenir casos como a queda de braço a que estamos assistindo estes dias entre o presidente dos EUA e seu Congresso.

Boca de urna 3Mas, sabemos todos, a carne é fraca. Com uma arma tão poderosa na ponta da caneta, nenhum presidente se privou de lançar mão de MPs intempestivas e mesmo de abusar delas. Fizeram isso, com frequência, em casos não justificados por urgência. Estes últimos tempos, o abuso de MPs tem crescido a ponto de se tornar flagrante, escancarado, indecente. Vê-se que o Executivo continua governando um povo anestesiado. Um novo golpe sem armas está sendo assestado contra a democracia.

Um editorial do Estadão de 15 de outubro nos informa que a MP 615, editada por dona Dilma em maio passado, foi aprovada pelo Senado. A nova lei é verdadeira colcha de retalhos. Subvenciona produtores de cana, autoriza agentes penitenciários a portar arma em horário de folga, alarga prazo de renegociação de dívidas fiscais, regulariza terras ocupadas por templos no DF.

Entre esses variegados balangandãs, um sobressai. A atribuição de licença para motoristas de táxi deixa de ser concessão sujeita a licitação e passa a ser hereditária (sic). Como as Capitanias, lembram-se das aulas de História? Como os cartórios. A partir de agora, filho de taxista, taxistinha será. Por direito adquirido. Não é a prova cabal de que o Brasil está enfim se tornando um país civilizado? O Estadão explica o absurdo da situação tim-tim por tim-tim. Não vale a pena repetir o arrazoado aqui.

Em meu artigo A bolsa eleição, publicado pelo Correio Braziliense de 7 de setembro, denunciei a intenção que se oculta por detrás da importação maciça de médicos cubanos. Vejo em cada um daqueles profissionais um cabo eleitoral pronto a influenciar os mais ingênuos de seus pacientes a apoiar, com seu voto, a oligarquia reinante no Planalto.

Boca de urna 2Se analisarmos sob esse aspecto a concessão de licença hereditária a todos os taxistas, entenderemos que o raciocínio é o mesmo. Motoristas de táxi estão em contacto com dezenas de pessoas a cada dia. Muitas vezes, uma conversa amistosa se estabelece entre o profissional e seu passageiro. Se todos os taxistas do País ― que devem ser muitos milhares ― agirem como cabos eleitorais e derem uma forcinha ao governo, a aristocracia que nos governa estará mais próxima do sonho de se perpetuar no comando.

Um taxista que recebeu, de mão beijada, um patrimônio transmissível a seus herdeiros há de estar muito satisfeito com o inesperado presente. Não precisa nem doutriná-lo para elogiar o governo ― ele fará isso espontaneamente.

Grande jogada, não?

O segredo é a alma do negócio

José Horta Manzano

Nosso governo insiste em provar seu amadorismo. Faz questão de que o mundo saiba que o Brasil ― o mesmo Brasil que pretende fazer parte do primeiro escalão das nações ― não dispõe de serviços de inteligência. O raciocínio dos que nos governam é simples, quase simplório: não temos inimigos, portanto, a quem interessaria espionar-nos?

Espionagem by Cam - Ottawa Citizen

Espionagem
by Cam – Ottawa Citizen

Segundo essa filosofia de boteco, ou «cês tá com nóis» ou «cês tá contra nóis». É certo que não estamos em guerra (militar) contra ninguém, daí a dedução lógica: «eles tá tudo com nóis». E pronto. Pra que gastar dinheiro com proteção de dados? Mais vale utilizar melhor as verbas que escaparem do roubo e da corrupção. Que sejam investidas para angariar votos e para garantir o pirão aos comensais de sempre.

Com o devido estardalhaço, dona Dilma anunciou neste domingo a implantação de um sistema nacional de email criptografado. Com isso ― acredita ela ― as autoridades estarão a salvo de toda espionagem. Duas perguntas ficam no ar.

A primeira: por que razão o governo esperou que a porta fosse arrombada para só então pensar em botar tranca? A segunda: que é que faz crer aos luminares do Planalto que os novos sistemas garantirão a inviolabilidade das mensagens?

Vasques 1

Espionagem
by Edgar Vasques, desenhista gaúcho

O fato de não se terem prevenido contra espionagem reafirma ― se necessário fosse ― o despreparo de um governo cujo objetivo único é a conservação do poder. Dado que o empenho em autofortalecer-se preenche todos os minutos dos dirigentes, é compreensível que não lhes sobre tempo para cuidar do funcionamento do País, ocupação para a qual foram escolhidos. O salário que lhes pagamos é justamente destinado a sustentar uma equipe que zele pelo País. Assim deveria ser, pelo menos.

Quanto à crença de que um sistema de criptografia seja suficiente para proteger segredos oficiais, devo concluir que bom-senso e um pouquinho de cultura histórica andam fazendo uma falta danada aos que ocupam os mais altos postos de nossa hierarquia política. Se dona Dilma se tivesse interessado em saber o que já foi tentado no campo da dissimulação de mensagens ― desde o tempo dos pombos-correio até hoje ― seus pronunciamentos seriam menos bombásticos e mais humildes. Melhor até que nem se pronunciasse.

Enigma ― máquina de criptografar

Enigma ― máquina de criptografar

No começo dos anos 20, matemáticos alemães desenvolveram uma máquina eletromecânica, a superfamosa Enigma, destinada a encriptar comunicações. Uma versão reforçada foi preparada, sob encomenda do governo nazista, especificamente para comunicações militares. A criptagem da Enigma era reputada inviolável.

Pois hoje sabemos que um trio de matemáticos poloneses conseguiu quebrar o código da máquina alemã. E fizeram isso já antes de a Segunda Guerra estourar! Assim, graças àqueles pré-históricos hackers, os britânicos já tinham sido informados com antecedência sobre o ataque «de surpresa» que a Alemanha desferiria à Polônia, dando início à guerra mundial. Naturalmente, todos aparentaram surpresa, de modo a deixar que os alemães acreditassem que suas mensagens continuavam indevassadas.

Códigos, cifragens, criptogramas são feitos para serem quebrados. Todo Estado dotado de serviços de inteligência sabe disso.

A intervenção

José Horta Manzano

Quem examinar um mapa do Oriente Médio atual, com seus países bem delimitados e desenhados em diferentes cores, dificilmente se dará conta de que aquela partilha territorial é criação totalmente artificial.

Desde tempos imemoriais, a extremidade leste do Mediterrâneo foi habitada. Para lá convergiram populações vindas de horizontes diversos, cada qual com sua língua, seus costumes, suas tradições, sua religião.

Seja pela fertilidade de alguns de seus vales, seja por razões religiosas, seja ainda por sede de poder econômico, muitos se interessaram por aquelas terras ― tanto gente miúda, quanto poderosos. Desde os sumérios e os hititas, muitos povos habitaram a região. Até mesmo os romanos estenderam seus domínios até lá, ao conquistarem a orla mediterrânea do Oriente Médio.

Após a débâcle de Roma, Constantinopla, a atual Istambul, tornou-se o centro de gravidade. Dali saíam as ordens e ali chegavam os impostos, que é o que mais interessava.

A partir do século X, levas de população turcomana provenientes da Ásia Central arribaram e fincaram pé no extremo leste da Anatólia, a península onde se assenta a Turquia atual. Era um povo aguerrido. Seus chefes tinham sede de expansão.

Em cinco séculos, conquistaram toda a Anatólia, tomaram Constantinopla, desbancaram o Império Romano do Oriente, subjugaram a península balcânica e chegaram às portas de Viena. O Oriente Médio, do Mar Negro ao Egito, da Arábia Saudita à Tunísia foi submetido a uma dominação turca que duraria 400 anos. Formou-se o longevo Império Otomano.

Império Otomano

Mas o mundo gira. Quando estourou a Grande Guerra, em 1914, o sultão de Constantinopla tomou uma decisão que levaria ao desaparecimento do império: aliou-se à Alemanha. Perderam a guerra. O Tratado de Sèvres (1920) e o Tratado de Lausanne (1923) sacramentaram o esfacelamento da velha potência e sua partilha entre os vencedores.

A região foi retalhada na prancheta pelos vencedores. Inglaterra e França, potências dominantes à época, decidiram quem ficaria com o quê. E desenharam o contorno dos novos países. Raças, religiões, costumes, línguas e tradições não foram a preocupação maior dos novos mandatários.

O resultado foi a criação de países artificiais. A Síria, o Iraque, a Jordânia, o Líbano abrigam populações heterogêneas, que pouco têm a ver entre si. Dentro das fronteiras nacionais coabitam inimigos históricos.

Se um simulacro de coesão subsistiu até nossos dias, foi porque cada um dos novos países foi governado com mão de ferro por ditaduras ou governos pra lá de autoritários. Foi uma calma de aparência, como a que se viu na  Iugoslávia de Tito, na Espanha de Franco, na Tchecoslováquia comunista.

Nós outros, que vivemos em nações mais uniformes e que desconhecemos tensões étnicas ou religiosas, temos dificuldade em entender a realidade daquela região. Em palavras mais chãs, temos a impressão de que todos são meio malucos por ali, que se agridem sem real motivo.

É um pouco mais complicado que isso. A Síria, como o Iraque e os vizinhos, abriga nações díspares. Um curdo da Síria deve sentir-se tão sírio quanto um escocês se sente inglês. Certos xiitas de Basra consideram-se tão iraquianos quanto certos bascos se consideram espanhóis. A região é uma verdadeira colcha de retalhos.

Estes dias, o presidente da França e o primeiro-ministro britânico ameaçaram fornecer armas aos oponentes do mandachuva sírio. À primeira vista, parece uma decisão justa. Se a ditadura pode, impunemente, massacrar seu próprio povo, por que razão não auxiliar os pequeninos a se defenderem?

Desgraçadamente, o problema não é assim tão simples. Se, por hipótese, o ditador for apeado do poder, quem tomará seu lugar? Qual das minorias sobrepujará as demais? Vamos simplesmente trocar uma ditadura por outra?

Longe de mim aprovar que velhos, mulheres e crianças sejam trucidados nessa guerra sem fim. Que o ditador abandone seu trono e vá curtir o resto de seus dias nalgum paraíso ― há sempre gente interessada em acolher endinheirados. Mas como ficará depois?

Não tenho a resposta, muito menos o poder de interferir. Não tenho muita fé, mas sempre resta um fio de esperança de que os grandes deste mundo estejam pensando nisso.

Como em 1918, são justamente a França e a Grã-Bretanha as potências que se dizem prontas a intervir. Que intervenham, pois, e que ponham fim ao massacre. E que redesenhem o mapa da região levando em conta, desta vez, o interesse das populações. Não será tarefa fácil.

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Nota: Um artigo do Estadão de 17 de março, de autoria de Guilherme Russo, vem corroborar minha opinião. Quem se interessar vai encontrá-lo aqui.

O general tinha razão

José Horta Manzano

Ingleses e franceses são ligados pela língua. Não, não me entendam mal, cada um tem a sua, disso sabemos. O fato é que, desde que Guilherme, duque da Normandia, juntou suas tropas, atravessou o Canal da Mancha e

The white cliffs of Dover

The white cliffs of Dover

venceu os ingleses na Batalha de Hastings, no longínquo ano de 1066, a influência da língua francesa tornou-se avassaladora nas terras conquistadas.

Estudiosos andaram fazendo as contas e chegaram à conclusão de que 70% do vocabulário inglês é de origem latina. A maior parte dessa importação maciça chegou a bordo dos navios invasores, o resto veio por via erudita.

O francês ― tal como era falado um milênio atrás ― tornou-se a língua da corte inglesa, o que lhe conferiu grande prestígio. O substrato anglo-saxão não se perdeu de todo, mas passou a ser considerado linguajar camponês. Gente fina falava a língua dos cortesãos, desprezando altaneiramente o vernáculo.

Um exemplo: cada animal já tinha, evidentemente, seu nome secular. Que estivesse sobre quatro patas ou no prato, o nome era o mesmo. Com a chegada da nova elite, os campônios guardaram a antiga denominação, mas as classes mais chegadas ao poder adotaram logo o novo nome trazido pelos conquistadores. Daí termos hoje os binômios ox/beef, pig/pork, calf/veal, sheep/mutton e tantos outros. O nome germânico permaneceu para o bicho vivo, enquanto a denominação importada ficou valendo para o animal já transformado em alimento.

Apesar de o francês ter sido a língua de cultura da Inglaterra durante três séculos e a despeito da impressionante interpenetração linguística que daí resultou, ingleses e franceses foram inimigos desde sempre.

A Entente Cordiale, um arreglo político costurado entre as potências coloniais quase 200 anos atrás, ainda na esteira do que tinha sido o turbilhão napoleônico, trouxe uma certa distensão. Ideias guerreiras foram deixadas de lado, mas uma vaga animosidade persiste até hoje. Diz-se, jocosamente, que os ingleses são os melhores inimigos dos franceses. E vice-versa.

Quando de bom humor, um inglês chamará um francês de Frenchie. Se estiver de maus bofes, vai chamá-lo de frog (=rã). Como se sabe, na França se comem coxas de rã, hábito capaz de horripilar qualquer inglês. Um francês, bem ou mal-humorado, não hesitará em epitetar o inglês de rosbif, palavra que dispensa tradução. Os dois povos vivem uma permanente relação de atração-repulsão que só Freud explica. Amam-se e repelem-se ao mesmo tempo.

Quando o Tratado de Roma inaugurou as bases do que seria o Mercado Comum Europeu e, mais tarde, a União Europeia, o Reino Unido não participou da festa. Provavelmente não quis. Estávamos ainda no fim dos anos 50, o reino insular ainda guardava seu status de grande potência mundial, controlava metade da África, tinha incontáveis possessões espalhadas pelo planeta. Achou que não lhe convinha afiliar-se a uma confraria de vizinhos.

O tempo passou, foram-se as colônias, a Grã-Bretanha entrou em crise profunda. Empobreceu. Lembrou-se então dos vizinhos, cujo mercado comum ia indo bem, e pediu para entrar.

Foi aí que entrou em cena o velho general. Falo de Charles de Gaulle, presidente da República Francesa de 1958 a 1969. Teria seus defeitos, como cada um de nós, mas pelo menos uma grande qualidade não se lhe pode negar: era visionário. Conseguia fazer abstração das minúcias do dia a dia para projetar-se no futuro e vislumbrar o que poderia acontecer se esta ou aquela decisão fosse tomada agora.

Entendeu que o Reino Unido não devia ser acolhido pela Comunidade Europeia. Inglaterra e Europa eram, no seu entender, incompatíveis. Ele enxergava as duas entidades como água e óleo: por mais que se chocalhe, acabarão se separando. O general barrou a entrada do vizinho do norte. Durante seus onze anos de mando, bateu pé firme, como quem dissesse «enquanto eu viver, a Inglaterra não entra».

Como todo mortal, um dia o general se foi. A Inglaterra ficou. Voltou a pleitear admissão no clube. Finalmente, em 1973, foi aceita.

A teimosia do velho general, que nunca explicou tim-tim por tim-tim as razões de sua recusa em aceitar o Reino Unido na Comunidade, foi intuída, anos mais tarde, por analistas. O tempo encarregou-se de deixar claro que a Inglaterra nunca teve ― e ainda não tem ― intenção de tornar-se membro de uma Europa Federal, objetivo final da UE. Seu interesse sempre se restringiu a usufruir das vantagens comerciais que a participação no bloco lhe pudesse oferecer. E vamos parando por aí.

Enquanto tudo ia bem, economia mundial de vento em popa, inflação próxima de zero, nenhuma crise à vista, as vozes divergentes permaneceram anestesiadas. Mas nada como uma crisezinha para despertar velhos ressentimentos. E não é que a crise chegou?

Estes dias, David Cameron, Primeiro-Ministro britânico prometeu que, caso seja reeleito, convocará um plebiscito para que seu povo, afinal, se pronuncie. Votarão pela permanência ou não do país na União Europeia. A notícia espocou no continente como raio em céu azul. Não se fala de outra coisa estes dias.

UEDizem uns que a fala do dirigente destinava-se tão somente a apaziguar os ânimos dos compatriotas mais radicalmente anti-europeus. Dizem outros que não é bem assim. Fato é que, naquelas plagas, promessas de Primeiro-Ministro costumam ser cumpridas. Votarão? É bem provável. Quando? Dentro de alguns anos, certamente. Que decidirão? Só Deus sabe.

Desde o século XVII, os franceses mais cultos dão ao Reino Unido o terrível apelido de Pérfida Albion. Por que pérfida? Pérfidos são os que não cumprem com sua palavra. Por que Albion? Parece que o termo tem origem na primeira visão de quem chega às ilhas britânicas atravessando o Canal da Mancha: os famosos «white cliffs of Dover», as falésias brancas de Dover. Branco em latim é albus. Daí a Albion é um pulo.

Será que os britânicos vão abandonar o barco? Será que o velho general tinha mesmo razão? O túnel que passa sob o Canal da Mancha será mesmo tapado?

Quem viver verá.

Nota: Neste artigo, para evitar repetições maçantes, usei indistintamente as expressões Inglaterra, Grã-Bretanha, Reino Unido e Ilhas Britânicas. Minhas distintas leitoras e meus eruditos leitores sabem que não são termos intercambiáveis.

O Reino Unido é composto de quatro países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A Grã-Bretanha é a ilha principal que abriga três deles, à exceção da Irlanda do Norte.  “Ilhas Britânicas” é expressão imprecisa, geograficamente pouco significativa.