Missão Patrimônio

José Horta Manzano

Numa terrível coincidência, justamente no 3 de setembro em que o Brasil chorou a destruição do prédio do Museu Nacional e de tudo o que ele continha, o governo da França lançou um programa direcionado à salvaguarda de seu patrimônio histórico e cultural. Trata-se de uma loteria nacional.

O nome do jogo é «Mission Patrimoine» ‒ Missão Patrimônio. Tíquetes de raspadinha e bilhetes de loteria tradicional estão à disposição dos apostadores em todos os quisques e bancas do país. Durante algumas semanas, cada um poderá fazer sua fezinha. Ganhos de raspadinha são imediatos. Quem preferir comprar bilhete deverá esperar pelo sorteio final. Os prêmios milionários são extremamente atrativos.

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Em loterias tradicionais, 1/3 do valor arrecadado vai para o erário e o resto é distribuído aos ganhadores. Nesta Missão Patrimônio, o terço que iria para o erário vai para um fundo exclusivamente destinado à conservação de monumentos, abadias, igrejas, prédios históricos, museus e outros marcos da história nacional. O Ministério da Cultura, depois de examinar dois mil imóveis que requerem cuidados especiais, identificou 269 que estão a perigo. Com a loteria, o governo conta arrecadar de 15 a 20 milhões de euros, que serão inteiramente destinados à manutenção desses objetos periclitantes. A intenção é repetir a operação todos os anos, no mês de setembro.

No Brasil, em que dezenas de milhões de cidadãos são incapazes de ler e de contar, e em que outros milhões dependem de um óbulo mensal pra poder comer, as prioridades são outras. Assim mesmo, a iniciativa francesa pode ser aplicada. Milhões de cidadãos estão em condições de arriscar num bilhete de loteria. Por que não lançar a ideia?

Todos saem ganhando.

• O governo estará cumprindo, sem desembolsar um centavo, sua missão no campo sócio-cultural.

• Os apostadores terão a chance de embolsar inúmeros prêmios, uns pequenos, outros fabulosos.

• O patrimônio histórico e cultural do Brasil agradecerá. Quantas igrejas serão salvas de desabamento causado por cupins! Quantos prédios históricos serão resguardados contra a degradação infligida pela passagem dos séculos! Quantos museus serão reformados e protegidos contra incêndio!

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Para nosso Museu Nacional, é tarde. O que foi perdido, perdido foi. Não há nada mais a fazer. Mas a vida continua. Ainda há tempo de proteger outros bens de nosso patrimônio. Se o distinto leitor aderir a essa ideia, que tal propagá-la pelas redes sociais? Quem sabe o chamamento chega até as altas esferas que decidem nosso destino. Vamos cruzar os dedos.

A empresa

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Era uma empresa de porte médio, mas crescendo a cada dia. Muitos funcionários. Entre eles um chefe, o Januário, dono de um cargo de destaque e que supervisionava o trabalho de toda aquela gente que carregava a empresa nas costas.

Como tinha curso universitário, muito embora nunca tivesse defendido nenhuma tese, era tratado por doutor. Era, portanto, o Doutor Januário, muito prazer.

Era um homem que sempre tirava nota baixa em toda prova de humildade. Sem “por favor” nem “muito obrigado”. Ninguém lhe prestava favor algum, pois era sempre uma obrigação servi-lo. A ninguém agradecia, pois não precisa agradecer quando alguém não faz mais que a obrigação.

Mas onde será que andava o Macedinho? Já uma semana sem comparecer ao trabalho. Ninguém sabia dizer. Nenhuma notícia, nenhum telefonema, nenhum pedido de desculpa. Aquilo era demais, era só ligar ou mandar um recado por outra pessoa, sei lá. Mas não, ninguém sabia dele.

Na segunda-feira seguinte, lá apontou o Macedinho, sorridente, com o mesmo semblante calmo e sereno de sempre. Por onde passava, todos olhavam para ele como se fosse um homem-bomba em direção ao seu triste destino, coitado, prestes a explodir a qualquer instante. Ninguém ousava dirigir-lhe a palavra nem sequer aproximar-se dele. Subiu, sem ninguém lhe dizer nada, até o 3º andar do prédio, onde, depois de bater à porta anunciando sua chegada, entrou no gabinete do dr. Januário, que o recebeu não com cara de poucos amigos mas com cara de amigo nenhum amigo.

‒ Entre e feche a porta, sr. Macedo. Sente-se e vamos conversar. Vai ser rápido.

O Macedinho sentou-se numa das duas poltronas em frente à mesa do chefe. Não parecia preocupado, transmitia tranquilidade. Parecia feliz.

‒ Pois bem, sr. Macedo. Uma semana sem comparecer ao trabalho. Já vi algumas coisas acontecerem em minha vida, mas uma ousadia dessas é a primeira vez. Esqueceu que há um chefe aqui, que quem manda aqui sou eu, que todos têm a obrigação de dar satisfações? Ainda mais num caso destes! Uma semana!

‒ É… – ponderou em tom tranquilo o Macedinho.

‒ O que é que o senhor acha que eu devo fazer agora? Não, não me diga. Aposto que vai me contar uma história qualquer, de uma tia velhinha lá do interior que estava doente e coisa e tal. Esqueça, não vai colar. E também não estou a fim de ouvir bobagem.

‒ Claro, tem razão, bobagem… ‒ comentou impassível o funcionário.

‒ Já vi funcionários rebeldes, já vi muitos desleixados, mas o senhor me parece mais do que isso. É um grande idiota… Mas pode ser que seja só um retardado mental mesmo. Aliás, o senhor pode até escolher. Pode ser um idiota ou um retardado mental. Para mim, tanto faz, dá na mesma. Pode escolher.

Sem dar qualquer espaço para que o funcionário, ao menos, tentasse se explicar (ou optasse entre idiota e retardado), o chefe continuou:

‒ Olhe aqui, eu cheguei aonde estou depois de muitos anos batalhando e não por puro puxa-saquismo, como dizem esses seus colegas idiotas por aí. Por competência. E agora, mesmo com essa história que a gente já está sabendo, da venda da empresa, saiba que eu vou continuar aqui, neste mesmo lugar, tá ouvindo? Por competência no cargo.

Houve um pequeno intervalo de total e desconcertante silêncio, após o quê o chefe disse:

‒ Agora, se quiser, pode falar. Mas seja breve.

‒ Bom, dr. Januário, eu gostaria só de fazer duas perguntas. São fáceis de responder. Vai ser rápido.

‒ Pode fazer, mas rápido.

‒ Pois bem. O senhor ficou sabendo que o sorteio da mega-sena da semana passada teve só um ganhador para aquela fortuna toda de quase 30 milhões?

Nesse momento deu um clique na cabeça do chefe, que se ajeitou melhor na cadeira, descruzando as pernas para novamente cruzá-las do outro lado com ambas as mãos segurando os braços da poltrona e respirando um pouco mais profundamente.

‒ Muito bem. Primeira pergunta: adivinhe só quem foi esse sortudo ganhador? – perguntou o Macedinho abrindo um grande e muito malicioso sorriso no rosto, olhando fixamente nos olhos do chefe.

O dr. Januário não respondeu, talvez com medo da própria resposta. Ficou com o olhar paralisado, fixado no funcionário, a boca entreaberta.

‒ Segunda pergunta: adivinhe só quem foi que passou a semana toda em negociação e acabou comprando esta empresa?

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

A meta

José Horta Manzano

«Não vamos fixar meta. Mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrá-la.»

Meus distintos leitores hão de se lembrar da frase pronunciada por doutora Dilma. A presidente emérita foi pródiga em ditos tragicômicos. A saudação à mandioca e a exaltação da mulher sapiens também têm lugar garantido no folclore político nacional.

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Num país como o nosso, onde público e privado se entrelaçam, onde Estado e governo são encarnados por uma única pessoa, os interesses do governo (de curto prazo) e do Estado (de longo alcance) se confundem. Dessa mistura entre o passageiro e o duradouro, nascem imbróglios. A admissão da Venezuela no Mercosul é um deles ‒ um problema cabeludo. O distanciamento comercial entre o Brasil e os países economicamente poderosos é outro nó difícil de desatar.

Em nosso país, cada governo vive e age como se, depois dele, o mundo fosse acabar. O interesse do Estado é abandonado em prol da sobrevivência política dos inquilinos temporários do andar de cima. Nem vale a pena fixar metas ou arquitetar planos, que serão desmantelados pelo governo seguinte.

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Trinta anos atrás, o universo esportivo da Grã-Bretanha andava ao deus-dará. O fraco desempenho nacional desdourava a imagem do país. O vexame culminou com a classificação britânica nos JOs de 1996, em Atlanta. Naquela edição, eles terminaram em 36° lugar(!), com quinze medalhas, das quais apenas uma de ouro. Países como a Argélia, a Nigéria, a Turquia, a Etiópia e até o Brasil passaram à frente.

Mister John Major, então primeiro-ministro do reino, entendeu que algo precisava ser feito. Os resultados olímpicos tinham de voltar a corresponder à imagem gravada no inconsciente coletivo do mundo: a de uma Inglaterra poderosa. Mas como proceder? O caminho era um só: investir. Mas tirar dinheiro de onde? Alguma nova fonte tinha de ser criada sem aumentar impostos.

JO 4A solução foi inventar uma nova loteria nacional. Com bom trabalho de marketing, o novo jogo logo caiu no gosto popular. Grande parte dos ganhos foi, desde então, dedicada a apoiar esportistas. Mas, atenção: a intenção era aumentar a colheita de medalhas nos Jogos Olímpicos. Portanto, mais valia investir em esportes em que a concorrência é menor.

Assim foi feito. O orçamento tradicionalmente reservado para esportes muito concorridos como o futebol, o vôlei e o basquete foi diminuído. Em compensação, esportes olímpicos menos praticados receberam uma injeção de recursos. Só para dar uma ideia de como a loteria ajudou, basta mencionar que, em 1996, o financiamento público para os esportes era de 5 milhões de libras por ano. Vinte anos mais tarde, nos quatro anos que antecederam os JOs do Rio, a quantia subiu para 274 milhões de libras mais 73 milhões para os paraolímpicos.

Medalha não cai do céu por obra e graça de São Benedito. Tem trabalho e investimento por detrás. Mas compensa. Para espanto geral, o Reino Unido deverá terminar hoje classificado em segundo lugar. Reparem que as medalhas não vêm de esportes ultrapopulares e concorridos. Modalidades como atletismo, ginástica artística, remo, canoagem, hipismo, saltos ornamentais, triatlo, vela sobressaem.

Bandeira UK 2E isso tudo por quê? Porque tiveram a sensatez de entender que os interesses maiores do Estado britânico primam sobre os interesses passageiros de cada governo. John Major, o criador da loteria, deixou o cargo em 1997, um ano depois de Atlanta. De lá para cá, a casa n° 10 de Downing Street já foi ocupada por outros quatro primeiros-ministros. Dois deles eram trabalhistas e os outros dois, conservadores.

Ajuizados, todos entenderam que a promoção do esporte não era política de governo específico visando a perpetuar-se no poder. Não passou pela cabeça de ninguém suspender o programa. O resultado está aí: o Reino Unido transformou-se em potência olímpica capaz de peitar uma China de bilhão e meio de habitantes.

Nota:
Não encontrei notícia de casos de corrupção no movimento olímpico britânico. Salvo melhor juízo.

Todos na rua

José Horta Manzano

Há quem tenha espírito jogador. É gente que acredita firme que vai tirar a sorte grande. Os meios de chegar à fortuna variam conforme o gosto de cada um: jogo do bicho, corrida de cavalos, carteado, loteria, roleta. A característica comum a todo jogador é a certeza obstinada de que vai ganhar um dia destes. Se não for hoje, será amanhã. Garantido.

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

Respeito esse traço de personalidade, mas não comungo com ele. Não me parece aconselhável entregar as rédeas do destino, sem mais nem menos, a mãos alheias. Convém segurá-las com firmeza enquanto for possível.

Para este 13 de março, estão marcadas manifestações de protesto em todo o país. As reivindicações, embora cubram amplo espectro, concordam em um ponto: basta de corrupção e de incompetência. A expectativa de ver multidões pelas ruas vem sendo acirrada por redes sociais e pela mídia. Como prova, o principal editorial do Estadão de hoje leva o título Chegou a hora de dizer: basta! ‒ exatamente assim, com ponto de exclamação. Lembra chamamento revolucionário.

Acho uma temeridade pôr tanta ênfase num acontecimento sujeito a tantos tropeços e a tantos imprevistos. Pode chover. Pode fazer friozinho. Pode não vir tanta gente quanto se espera. O medo de confronto com baderneiros pode fazer que muitos hesitem. Podem certos «institutos» desonestos contabilizar o número de participantes com erro a menor. Em resumo: o resultado das passeatas está à mercê de fatos aleatórios.

Bandeira olho 2Fazer demonstração em praça pública ‒ pacifica e civilizadamente ‒ para exprimir anseios é atitude positiva. Exibe a maturidade do povo e dá prova das liberdades que a democracia lhe concede. Já o fato de atribuir tamanha importância a uma determinada passeata é arriscado. Pode falhar, e aí, como é que fica?

De qualquer modo, alea jacta est ‒ a sorte está lançada. Vou parando por aqui, que é pra não carregar na consciência o peso de ter atrasado algum distinto leitor já paramentado de verde-amarelo. Tomara que não chova.

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Coincidência
Manif 2Observe-se que o Comício da Central do Brasil, protagonizado pelo presidente Jango Goulart, soou o dobre fúnebre do regime. O presidente cairia 18 dias mais tarde. O comício teve lugar num 13 de março, faz hoje exatamente 52 anos.