Sexta-feira 13

José Horta Manzano

Torre Eiffel 1Os atentados que castigaram Paris neste 13 de novembro inspiram algumas reflexões. O assunto é espinhudo, mas é uma realidade que a gente não pode fazer de conta que não viu. Melhor tentar entender o que está por detrás.

Ataques indiscriminados não são novidade nem são exclusividade de nossos tempos. Aconteceram desde que surgiu a humanidade. O que mudou, neste século de comunicação de massa, foi a escala.

Antigamente, anarquistas destrambelhados agiam individualmente e por conta própria. O número de vítimas era limitado. Hoje, novos recursos permitem ação concertada, bem coordenada, mais ampla e muito mais impressionante.

O ataque às torres gêmeas de Nova York, em 2001, marcou o início de nova era. A história dos atentados se divide em antes e depois do 11 de setembro. Naquele dia, um mundo bestificado descobriu que as novas tecnologias de comunicação, que abriam tantas boas perspectivas, também tinham um lado sombrio.

Quando os homens se comunicavam por carta ou por telegrama, não era possível organizar ataque cometido simultaneamente por vários assassinos em lugares diferentes. Fax e telex tampouco ajudaram. Foi internet que, ao pôr meios eficazes e instantâneos de comunicação à disposição de todos, abriu as portas para atentados como os desta sexta-feira 13. Tudo indica que estamos só no comecinho – se não tomarmos medidas rapidamente, nossos netos serão obrigados a viver murados.

Metralhadora 1Como proceder? Como dizem os próprios franceses, le risque zéro n’existe pas – é impossível eliminar totalmente o risco. Sempre vai sobrar uma brecha pra quem quiser cometer atentado. A meu ver, o mal tem de ser combatido em duas frentes: neutralizando mentores e desmotivando executantes.

Torre EiffelMentores? Quem são? São indivíduos perigosos e desajustados, que reúnem vários fatores: têm alguma inteligência, dispõem de meios financeiros, são obcecados pela vertigem do poder. No entanto, são covardes: nenhum deles chega ao destemor de amarrar explosivos em torno da própria cintura – preferem aliciar incautos, doutriná-los, mandá-los ao batente e… esperar pelo estrondo.

Até certo ponto, sabe-se quem são esses mentores e onde se escondem. Com paciência e aplicação, não é impossível pô-los fora de combate. Para isso, serviços secretos e meios militares estão à disposição.

E quem são os executantes? Ah, aí é que está o nó. Meio século atrás, assim que as colônias africanas ganharam independência, a França, com falta de mão-de-obra, importou centenas de milhares de norte-africanos. Nunca ninguém se preocupou em integrá-los. Foram estacionados em bairros periféricos apinhados. A terceira geração de imigrantes vive até hoje nessas favelas de concreto. É uma população sem perspectivas, que evolui em círculo fechado e se exprime num falar característico, quase um dialeto.

Cagoule 1Essa massa de deserdados, com baixo nível de instrução, estigmatizada e desprezada por grande parte da população, é presa fácil para mentores mal-intencionados. O governo francês, jogando para a galeria, ordenou hoje o fechamento das fronteiras. Bobagem. É grande a probabilidade de os terroristas terem nacionalidade francesa e não estarem planejando deixar o país.

Remédio, há: essa franja da população tem de ser integrada. Mas os resultados não serão imediatos. A situação atual é fruto de meio século de descaso. Vai levar algumas décadas para consertar – se é que alguém está realmente interessado em consertar.

Enquanto isso, nossos amigos franceses vão viver tempos difíceis, de medos e de incertezas. Mas não há outro jeito: fora da integração, não há solução.

Made in P.R.C.

José Horta Manzano

China PRCAté uns quinze anos atrás, os chineses eram mais que discretos ao etiquetar seus manufaturados para exportação. Se a legislação do país de destino fosse liberal, nem mencionavam a origem da mercadoria. Caso fosse absolutamente necessário, marcavam «Made in P.R.C.». A estranha e quase desconhecida sigla significava ‘feito na República Popular da China’.

De lá pra cá, as coisas evoluíram. Produtos daquele país já ostentam um desinibido «Made in China». Não se pode dizer que o que vem da China se tenha tornado chique, mas já não é olhado com tanta desconfiança.

Tendo-se transformado em fábrica do mundo, a China tornou-se incontornável. Pouco a pouco, a indústria básica dos demais países tem dismilinguido. Ninguém mais fabrica pianos na França. As fábricas brasileiras de brinquedo vão fechando uma atrás da outra. A indústria têxtil suíça sumiu. E assim por diante.

Chave 3Automóveis chineses, na Europa, nunca vi. Mas há de ser questão de tempo: mais dia, menos dia, chegarão. Parece que, no Brasil, já estão circulando. Espero que não sejam tão ruins como os carros russos – Lada –, importados nos anos 80, dos quais, com certa dose de maldade, a gente dizia que até a chave já vinha enferrujada.

Chinelo 1Nome, marca, origem da mercadoria podem ser prestigiosos. Em matéria de carnaval, praia, capoeira, caipirinha, chinelo de dedo, essas coisas, o nome de nosso País está por cima da carne seca. Deixa qualquer concorrente comendo poeira. Já em outros campos, a situação é menos dourada.

Como já mencionei recentemente, o banco brasileiro BTG Pactual comprou o tradicional banco suíço BSI, veneranda instituição com século e meio de história. Em casos assim, os clientes costumam ser avisados sobre a transação. É modo acertado pra tranquilizar todo o mundo dizendo que tudo continuará como antes. Em matéria de dinheiro, ninguém aprecia mudança.

O BSI seguiu a receita. Comunicou a cada cliente que, embora o dono fosse agora outro, nada mudaria nas relações com a clientela. Informou que, a partir de 15 de setembro, passava a pertencer ao BTG Pactual, «um dos mais importantes e influentes grupos bancários do mundo, com sede na América Latina».

BSI 1Meus distintos leitores hão de ter reparado que o nome do Brasil não aparece na comunicação. Ao ler a carta, lembrei-me do «made in P.R.C.» de antigamente. No mundo das finanças, a marca Brasil ainda é olhada com reserva e desconfiança. É compreensível. O conceito da banca brasileira não é lá essas coisas, o que justifica o fato de o BSI ter preferido situar sua sede, vagamente, em algum lugar da América Latina.

BSI 2Se a percepção das atividades financeiras brasileiras já não era tão favorável, o prognóstico não é alvissareiro. Mensalões, petrolões, eletrolões e refinões indicam que a onda de escândalos que assola o País ainda não atingiu o apogeu. Periga piorar. O arranhão causado à imagem do Brasil será mais duradouro do que supomos.

O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Novidades que incomodam

José Horta Manzano

radio 1A sociedade evolui, é fato. Novidades surgem todos os dias. Certas invenções têm vida longa – o rádio é uma delas. Começou a ser explorado comercialmente faz um século e está aí até hoje. O estilo das emissões se modificou e se adaptou ao gosto de cada época, mas, no fundo, o princípio é sempre o mesmo.

Cinquenta anos atrás, quando a televisão começou a se popularizar, muitos acreditaram no fim do rádio. Não foi o que aconteceu. Os dois passaram a compartilhar horário: rádio de dia, no carro, no banheiro, no café da manhã; e tevê à noite, na hora da poltrona.

KodakOutras novidades foram agressivas a ponto de destronar ramos inteiros da indústria ou até costumes arraigados. A foto digital está entre elas. Quem tem mais de 35, 40 anos há de se lembrar do tempo em que a gente comprava o filme (caro!), tirava os retratos, enrolava a bobina, levava até a loja de revelação, encomendava as cópias e, se tudo desse certo, três dias depois podia ir buscar as fotos. O processo se manteve firme e forte durante um século – de 1890 a 1990.

De repente… difundiu-se a foto digital. Kodak, o conglomerado que dominava o setor, desmilinguiu, capotou e foi à falência. Toda a cadeia de processamento tradicional de fotografia, perturbada, acabou desaparecendo. Que fazer? É a vida. Ninguém segura o progresso.

Internet ainda está engatinhando. Assim mesmo, novidades têm aparecido a cada dia, benéficas para uns, catastróficas para outros. Os aplicativos de comparação de preços de hotel e de passagens aéreas estão acabando com as agências de viagem. Operações bancárias se fazem mais e mais via internet, resultando em fechamento de agências físicas. Correspondência comercial e privada, antes encaminhada pelos Correios, deslocou-se para a internet, causando rebuliço na estatal.

UberEstes últimos tempos, tem-se falado muito na aplicação Uber, que põe em contacto motoristas não profissionais com eventuais clientes. À vista da ameaça frontal, a corporação dos taxistas entrou em pânico. Cada país – para não dizer cada cidade – vem reagindo às carreiras, na base do susto e do improviso.

Na França, por exemplo, a aplicação foi proibida. Está simplesmente fora da lei, decisão já homologada pelo Conseil Constitutionnel, equiparável a nosso STF. Sabe o distinto leitor quanto custa uma licença para operar táxi no município de Paris? Sai por ‘módicos’ 200 mil euros – algo próximo de 900 mil reais! Um patrimônio. Compreende-se que os profissionais tenham se rebelado contra a concorrência desbalanceada. O sujeito paga essa fortuna para poder praticar a profissão; de repente, aparece um gaiato para surrupiar-lhe a clientela? Foi um deus nos acuda. A Justiça, impelida a dar a palavra final, proibiu os não profissionais.

E agora, como é que fica? Bola de cristal, não tenho. Assim mesmo, é previsível que, dentro em breve, essa novidade venha a ser digerida como já foram tantas outras.

Taxi 2Os mil dólares que eu tinha investido, nos anos 80, para comprar uma linha telefônica fixa viraram pó nos anos 90, quando a telefonia se expandiu e telefone deixou de ter valor comercial. Trinta anos atrás, mil dólares eram uma fortuna. A quem, como eu, perdeu dinheiro, sobrou a solução de ir reclamar com o bispo. Acho que ninguém foi.

Assim será com o Uber e com outras novidades que estorvam alguma categoria. As novidades vão acabar entrando no dia a dia de todos nós, não há como escapar. Um sábio ditado nordestino ensina que «é no tranco da carroça que as abóboras se ajeitam». E a carroça segue.

O sete de setembro aqui e ali

José Horta Manzano

Sete de setembro não é feriado na França. Esta segunda-feira é dia como qualquer outro. O presidente da República, François Hollande, está concedendo entrevista coletiva a uma plateia de jornalistas. O formato é clássico: primeiro, fala o presidente; em seguida, jornalistas fazem perguntas.

A popularidade das personalidades políticas francesas é aferida mensalmente. A do presidente, embora seja bem superior aos 7% de dona Dilma, não vai além de 26% dos entrevistados. Um presidente impopular.

François Hollande 7Entrevistas coletivas presidenciais na França são organizadas duas vezes por ano. Ainda que a aprovação do presidente esteja lá no fundo, não há previsão de panelaço. Nem de colheraço. Os céus de Paris não perigam ver boneco inflado vestido de presidiário.

É permitido concluir que as vaias de que dona Dilma é obrigada a fugir não são unicamente fruto da baixa popularidade. O peso da roubalheira é que é insuportável. O sentimento de ter sido assaltado causa frustração e revolta. Eis o cerne da bronca dos brasileiros.

Festivais por quilo

José Horta Manzano

Você sabia?

Fogos artificio 1Na França, realizam-se cerca de dois mil festivais a cada ano. É número respeitável. Com relação ao número de habitantes do país, seria como se houvesse seis mil festivais no Brasil. Ano após ano.

Há festivais para todos os gostos. De música principalmente: erudita, popular, regional, instrumental, sacra, pop, folclórica, ópera, jazz, rock. Como disse? De samba-canção? Nunca ouvi falar, mas há festival de dança, de cinema, de escultura, de teatro. Entre os menos corriqueiros, está um festival de pirotecnia.

Para refrescar a memória, o termo pirotecnia é composto de duas raízes gregas: pýr (fogo) e techné (arte). É a arte de dominar o fogo. Em linguagem de todos os dias, o festival é um concurso de fogos de artifício.

Fogos artificio 2É organizado anualmente, em agosto, na cidadezinha de Saint-Brevin (13 mil habitantes), na costa atlântica. A cada edição, concorrem três países. Este ano, Alemanha, Holanda e Brasil eram os candidatos. Não sou admirador desse tipo de espetáculo, mas, a julgar pelas fotos e pelos filmes, há de ter sido deslumbrante.

A equipe brasileira levou a taça. Eta nós! Não chega a lavar o vexame da Copa do Mundo, é verdade. Mas, convenhamos, deixar pra trás justamente a Alemanha e a Holanda sempre deixa um gostinho especial.

Pena que, dissipada a fumaça, volte a realidade dura, nua e crua: nada mudou, o Brasil continua atolado. O resto é pirotecnia.

Interligne 18b

PS: Está no youtube um filminho com a apresentação dos artífices brasileiros. Por aqui.

Meia hora de atraso

José Horta Manzano

Até fins do século XIX, cada vilarejo vivia à hora local. O relógio da matriz ritmava o tempo da população. Mas, sacumé, ninguém segura o progresso. Em matéria de hora, a multiplicação de estradas de ferro marcou o fim da informalidade. A exatidão do horário dos trens depende da uniformização da hora.

Só para dar uma ordem de grandeza do problema, observe-se que, num país de dimensões relativamente modestas como a França, a hora local podia variar até 40 minutos entre localidades situadas no extremo oeste e no extremo leste do território. A medição padronizada do tempo se impunha.

Hora local – vigente até fins do séc. XIX

Hora local – vigente até fins do séc. XIX

O Império Britânico era a potência dominante à época. Por feliz coincidência, o meridiano que passa sobre Londres, se prolongado para dividir o globo em duas metades, atravessa o Oceano Pacífico justamente numa região despovoada, entre Ásia e América. Assenta como luva para se tornar linha de referência.

Assim ficou combinado: o meridiano de Londres – dito GMT ou «de Greenwich» em referência ao observatório astronômico local – foi adotado como ponto de partida para a divisão virtual do globo em 24 fusos de mesmo tamanho, um para cada hora do dia.

A maior parte dos países contenta-se de um único fuso horário para todo o território, seja por razões práticas, seja porque a superfície cabe inteira num gomo só. Já outros se estendem por dois ou mais fusos. A Rússia, com onze fusos, bate todos os recordes.

Linha internacional da data

Linha internacional da data

Quase todos os países se conformaram em adotar horas inteiras: GMT+1, GMT+5, GMT-3, etc. Fica mais cômodo. Mas é difícil pôr todo o mundo de acordo. Há um clube fechado de países que, mais meticulosos, optaram por hora quebrada: GMT+9½, GMT-5½. Há até um caso excepcional: o Nepal adotou o fuso GMT+5h45, caso único.

ChavezUm belo dia, a Venezuela de Chávez decidiu mudar de fuso horário. A razão invocada foi a adequação da hora oficial à hora solar. Poucos acreditaram. Observadores atribuem a reviravolta à síndrome do “falem mal, mas falem de mim”, atitude típica de mandatários autocráticos. Dia 9 dez° 2007, os relógios de todo o país foram atrasados em meia hora. Vivem agora num fuso sui-generis: GMT-4½.

Ultimamente, a Coreia do Norte – país mais fechado do planeta – considerou que era chegada a hora de apagar o último vestígio da colonização japonesa, encerrada faz exatos 70 anos. Dia 15 ago 2015, todos os relógios daquele triste pedaço de mundo foram atrasados em meia hora. Dando adeus à hora de Tóquio, os coreanos do norte vivem agora no original fuso GMT+8½.

Para o observador atento, é sintomático que dois países governados de modo truculento tenham atrasado os relógios. Vai além de simples coincidência. É marca simbólica de um atraso não de meia hora, mas de um século.

A guerra franco-suíça que não houve

José Horta Manzano

Você sabia?

Foto: Jean-Christophe Bott

Foto: Jean-Christophe Bott

Se tivesse ocorrido em outros tempos, teria sido casus belli, um daqueles acontecimentos que justificam declaração de guerra. Mas vamos passar o filme desde o começo.

As vacas suíças passam o inverno no estábulo. De outubro a março, os campos estão frequentemente cobertos de neve, mato não cresce, e os animais não têm o que comer. São alimentados com feno – mato ceifado durante o verão, secado e guardado para os meses frios.

Quando volta a bela estação, lá por março ou abril, os campos se cobrem de verde. Em comboio, as vacas são conduzidas a montes elevados, onde o pasto é gordo e farto. Ficam por lá até outubro, quando são trazidas de volta ao curral. Esse vaivém chama-se transumância.

É bom ter em mente que cada uma das 600 mil vacas leiteiras suíças ingere diariamente 100kg de mato e bebe de 100 a 130 litros d’água. No total, são 70 milhões de litros diários – volume respeitável.

A seca anda brava este ano. Entre 22 de junho e 22 de julho, não caiu uma gota de chuva. A temperatura tem sido senegalesa. Como resultado, começa a faltar água para os animais. Estão todos lá em cima, os tanques secaram, as reservas se esgotaram, que fazer?

Transumância

Transumância

O governo federal determinou que o exército desse uma mão. Helicópteros Super Puma foram encarregados de recolher água de lago e transportá-la até os reservatórios de montanha. A fronteira franco-suíça passa justamente na região dos Montes Jura. Do lado francês, há um lago de montanha.

Pertinho, do lado suíço, estão as vacas. O governo suíço pediu à França autorização para recolher água do lago. Paris permitiu o sobrevoo. Dia seguinte, helicópteros militares suíços deram início a um balé incessante de recolha d’água. Autoridades regionais francesas, que não haviam sido informadas, escandalizaram-se. É que a legislação francesa exige que, para retirar água de lago, se obtenha permissão das autoridades regionais.

O exército suíço, imaginando que a autorização de sobrevoo dada por Paris fosse suficiente, não cuidou de verificar regulamentos regionais. Foi um deus nos acuda. É compreensível. Imagine o distinto leitor o susto que levaram moradores do lado francês ao ver baixarem aeronaves militares estrangeiras pra roubar água do lago deles. É fato gravíssimo. Em outros tempos, podia ter dado origem a uma guerra.

Helicoptero 3

Foto: Eric Chevassus

Felizmente, os modernos meios de comunicação são rápidos. Em 24 horas, desfez-se o mal-entendido. O exército suíço apresentou pedido formal de desculpas ao governo francês e, imediatamente, parou de chupar água do laguinho.

O precioso líquido está sendo retirado agora do Lago Léman. Fica um pouquinho mais longe das vacas, mas, pelo menos, o transporte não periga provocar incidente diplomático. Além disso, com seus 100km de comprimento, 10km de largura e 300m de profundidade, o Lago Léman tem água pra muita vaca.

Tamanho não é documento

José Horta Manzano

A necessidade de aproximação entre países europeus se fez sentir sobre as cinzas fumegantes da Segunda Guerra. Para evitar que nova catástrofe sobreviesse, era urgente enquadrar a Alemanha. Era melhor não bobear. Se nada fosse feito, nova perigava estourar logo logo.

O embrião da atual União Europeia surgiu já no início dos anos 50, com a Ceca – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. São as matérias primas essenciais para fabricar armas e tanques. Controlar essa indústria em conjunto era boa vacina contra surpresas bélicas.

Em 1957, o Tratado de Roma fundou o Mercado Comum. Seis eram os países-membros: a Alemanha (naturalmente), a França, a Itália, a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo. Embora o peso econômico dos três grandes fosse incomparavelmente superior ao dos demais, o nível de desenvolvimento e o PIB per capita de todos eram equivalentes.

Europa UEQuase vinte anos depois, nos anos 70, a lembrança da guerra já começava a se esfumar. O clube foi admitindo novos sócios. Afastado o espectro de conflitos armados, foi-se firmando a ideia de que quanto maior fosse o número de sócios melhor seria para todos. Sucessivamente, países foram sendo incorporados até chegar aos atuais 28 membros.

No papel, é bonito. O conjunto conta com meio bilhão de habitantes (duas vezes e meia a população brasileira). Em extensão, é o sétimo território no planeta, logo após Brasil e Argentina. Tem o maior PIB mundial – 18 trilhões de euros. Porém…

Na prática, a teoria é outra. Na ânsia de arrebanhar países, privilegiaram a quantidade em detrimento da qualidade. Deu no que deu, um dramático desequilíbrio entre membros.

Enquanto cada um tinha sua moeda, ainda era possível, por meio de desvalorizações, corrigir discrepâncias entre sócios. Depois que se cometeu a loucura de instituir moeda única para economias díspares – deixando a cada país a liberdade de determinar sua própria política monetária – o desastre estava programado. Taí, estourou. O problema grego escancarou a imprudência.

Macarrão 1O Mercosul está seguindo o mesmo caminho temerário. Já emperrado pelas rusgas crônicas entre o Brasil e a Argentina, chamou a Venezuela e agora a Bolívia. Sem contar a Guiana (ex-inglesa) e o Suriname (antiga Guiana Holandesa), que estão à porta, com um pé dentro. Por que não a Mongólia?

Francamente, está armada a receita do cruz-credo. Se o clube já não funcionava com quatro sócios, por que, diabos, funcionará com sete ou oito? Tamanho não é documento. Como dizem os italianos: “Pochi ma buoni, come i maccheroni” – pouco, mas bom, como o macarrão.

Entre cobras e caranguejeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

Alguns dias atrás, contei-lhes o caso curioso de um hotel situado exatamente sobre a linha de fronteira entre França e Suíça, situação singular que faz do estabelecimento um caso à parte em matéria de pertencimento nacional.

O Brasil e o Suriname, como sabem meus cultos leitores, são os únicos países americanos a compartilhar fronteira terrestre com a Europa – melhor dizendo, com algum país europeu.

Fronteira seca entre Brasil e França

Fronteira seca entre Brasil e França

De fato, a Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, goza do estatuto de território francês ultramarino. É considerada por Paris parte integrante do país, sujeita às mesmas leis, aos mesmos direitos e aos mesmos deveres. Um guianense é tão francês quanto um parisiense ou um marselhês.

Séculos atrás, quando o Brasil começou a tomar forma como nação, a preocupação em demarcar fronteiras tinha caráter essencialmente militar. Cada Estado procurava proteger-se contra invasão de vizinhos.

Hoje a situação é mais complexa. Petróleo, urânio, tungstênio, manganês, lítio e outras preciosidades entraram na sacola de interesses. Convém definir muito certinho onde acaba meu quintal e onde começa o do outro, que é pra evitar confusão.

A fronteira seca entre o Amapá e a Guiana Francesa mede 320 quilômetros. Foi inspecionada pela última vez em 1962, quando se instalaram sete marcos divisórios. Neste meio século, surgiram GPS, drones, helicópteros, aparelhos de precisão, comida desidratada fácil de transportar, mas… a floresta continua lá, inóspita, úmida, impenetrável.

Borne = marco divisório Trijonction = fronteira tríplice

Borne = marco divisório
Trijonction = fronteira tríplice

Paris e Brasília puseram-se de acordo para conferir o trabalho dos anos sessenta. Organizaram uma expedição binacional incluindo legionários, pesquisadores, geógrafos, botanistas e guias. Estão, estes dias, em plena ação. Segundo o último relato, feito pela televisão francesa, já haviam encontrado quatro dos sete marcos divisórios plantados há 52 anos. Faltam três.

Fizeram descobertas surpreendentes, como um rio não repertoriado na última expedição. Ao final da aventura, a linha de fronteira deverá ser corrigida, uns quilômetros mais pra lá, outros mais pra cá.

Nem só de crise político-criminal vive o Brasil. Faz bem à alma saber que outras atividades continuam se desenvolvendo longe de ratazanas políticas e próximas de cobras, aranhas e macacos.

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Quem quiser dar uma espiada na reportagem de cinco minutos da televisão francesa clique aqui.

Fronteira entre os pés e a cabeça

José Horta Manzano

Você sabia?

Marco divisório francês

Marco divisório francês

Muitas das fronteiras entre o Brasil e os países vizinhos cruzam zonas escassamente povoadas, notadamente na região amazônica. Uma linha demarcatória tanto pode seguir cursos d’água – caso em que será dita «fronteira natural», como pode ser representada por divisor de águas ou por traçado artificial riscado num mapa. Neste caso, teremos uma «fronteira seca».

Fronteiras secas costumam ser assinaladas por balizas plantadas no solo. Antigamente, eram de pedra. Hoje em dia, é mais comum o concreto. A elas dá-se o nome de marcos divisórios ou geodésicos.

No Brasil, certos trechos de fronteira contam com balizas bastante espaçadas, uma aqui, outra quilômetros adiante. No fundo, tanto faz, que pouca gente passa de um lado para o outro. Na Europa, dada a densidade da população, fronteiras são demarcadas com bastante rigor.

O Tratado de Dappes, acertado em 1862 entre a França e a Suíça, delimita com precisão um trecho da fronteira entre os dois países na região dos Montes Jura. O acordo, concluído em dezembro daquele ano, ficou programado para entrar em vigor em fevereiro do ano seguinte.

Um certo Monsieur Ponthus, proprietário de um terreno no povoado de La Cure, ficou sabendo que seu lote seria atravessado pela nova fronteira. Aproveitou-se do intervalo e, pelas caladas e às pressas, erigiu imóvel provisório bem em cima da linha. A intenção era de contrabandear chocolate, tabaco e bebidas alcoólicas.

Assim que o tratado entrou em vigor, a construção era fato consumado – e com porta dos dois lados da fronteira, faz favor. E assim foi ficando. Com o tempo, os sucessores do esperto cavalheiro ampliaram o imóvel e o transformaram em hotel-restaurante. O estabelecimento está lá até hoje.

Hôtel Franco-Suisse clique para ampliar

Hôtel Franco-Suisse
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Alguns quartos do hotel oferecem ao hóspede a curiosa possibilidade de dormir com a cabeça na Suíça e os pés na França. Ou vice-versa. Na escada que leva ao segundo andar, o 7° degrau marca a fronteira entre os dois países. Alguns asseguram que a linha verdadeira passa pelo 13° degrau. A controvérsia persiste.

Marco divisório suíço

Marco divisório suíço

Durante a Segunda Guerra, com a França ocupada pelo exército alemão enquanto a Suíça permanecia neutra, a singularidade do local deu margem a uma movimentação sui generis. Além do contrabando habitual, inúmeros judeus perseguidos pelos nazistas conseguiram escapar entrando pelo lado francês e saindo do outro lado, já na Suíça, onde os alemães não podiam intervir. Dizem que outros fugitivos seguiram o mesmo caminho – paraquedistas ingleses entre eles. É verdade que não durou muito tempo. Militares alemães logo se deram conta do problema e condenaram portas e janelas do lado francês. Depois de tudo emparedado, ninguém mais passou.

Impávido, o Hôtel Franco-Suisse continua lá até hoje. Nestes tempos modernos, sem os controles de antigamente, a alfândega é relíquia de outras eras.

O imóvel representa um quebra-cabeça administrativo tanto para a França quanto para a Suíça. A situação é tão intrincada que Paris e Berna preferem empurrar com a barriga e deixar como está. Não vale a pena travar batalha judicial por tão pouco.

Vazamento seletivo

José Horta Manzano

Espião 4O que se passa na cabeça de cada um é mistério. Quem saberá dizer por que cargas d’água o australiano Julian Assange resolveu, um belo dia, criar um site para espalhar segredos de Estado? Curiosa ideia.

Meus cultos e distintos leitores sabem quem é o mencionado cavalheiro. Fundou um site especializado em divulgar informações sensíveis e chamou-o Wikileaks, numa (pretensiosa) alusão a Wikipedia acoplada à raiz inglesa leak (vazamento).

Vazamento 1Especializou-se em disseminar dados confidenciais do governo americano. Poderia ter escolhido outro país? Sem dúvida, mas, assim que recebeu de mão beijada informações sobre a diplomacia daquele país, optou pela facilidade. A limitação linguística de uma equipe monoglota também há de ter pesado na escolha.

Terá buscado a glória, aquela meia hora de fama que muitos almejam? Pode ser.

Terá agido por desafio pessoal, como aqueles que arriscam a vida escalando o Everest? Quem sabe.

Terá sido por interesse financeiro, como se esperasse recompensa por seus atos? Nada é impossível.

Terá sido para ficar na história como o homem que, sozinho, mexeu com as relações de poder entre as nações, como um Napoleão ressuscitado? Vai ver, é isso mesmo.

Napoleon 3Ninguém me fará acreditar que um peculiar sentido de justiça o tenha movido. Pelo contrário, acho que o indivíduo, parco de inteligência, carrega visão filosófica embotada.

Equador 1Apavorado com prováveis más consequências das estrepolias que praticou, refugiou-se na embaixada do Equador em Londres. Faz três anos que lá está, sem perspectiva de sair. Se puser o pé na rua, periga ser apanhado pela polícia britânica,  encarcerado e extraditado para os EUA.

Louco pra sair da embaixada, Mister Assange arquitetou um plano: deixar vazar informação susceptível de encolerizar determinado país e, em seguida, pedir asilo político às autoridades do Estado ofendido. Mas tem de ser país de peso, que possa forçar o Reino Unido a conceder-lhe salvo-conduto da embaixada até o aeroporto.

Começou pela França, tradicional adversário dos ingleses. Semana passada, seu site soltou informação segundo a qual não somente o atual presidente francês foi espionado pela NSA, mas também seus dois antecessores, Sarkozy e Chirac. Quatro dias depois, Mister Assange pediu asilo à França. A resposta veio no mesmo dia. O Palácio do Eliseu, estimando que o requerente não se encontra em situação de perigo imediato, rejeitou o pedido.

Espião 3O segundo na lista foi o Brasil. Logo depois que dona Dilma voltou dos EUA, Wikileaks noticiou que não só ela, mas dezenas de figurões da República tinham sido espionados. Não funcionou. O escândalo engendrado pelo Lula, quando recusou extraditar o condenado Cesare Battisti, deixou marcas em Brasília. Rapidinho, dona Dilma mandou dizer que essa história de espionagem é página virada.

Ela não disse, mas ficou o aviso: que não se atreva esse indivíduo a pedir asilo. Nem vem, que não tem.

Sejam quais forem os motivos que levaram o personagem traquinas a fazer o que fez, o preço está saindo salgado. E o equilíbrio entre as nações continua inalterado. Uma frustração. Ah, se arrependimento matasse…

A escapada do ministro

José Horta Manzano

Estadio 3Sábado passado, em Berlim, teve lugar a final da Liga dos Campeões, campeonato que congrega os mais prestigiados times europeus de futebol. Os finalistas eram o espanhol Barcelona – grande favorito – e o italiano Juventus. O jogo, retransmitido ao vivo para meio mundo, prendeu a atenção de europeus, africanos, mongóis e patagões.

Gente fina veio de longe para assistir ao vivo. A procissão de visitantes incluiu o primeiro-ministro da França, Manuel Valls. Convém ressaltar que Monsieur Valls é francês naturalizado. Nasceu espanhol – barcelonês, para ser mais exato.

Caso pouco comum, o homem tem três nacionalidades: herdou a cidadania espanhola do pai, a suíça da mãe e, para coroar, tornou-se francês por naturalização. É perfeitamente quadrilíngue. Domina o espanhol, o catalão, o italiano e o francês. O Barça é seu time do coração, todo o mundo sabe disso.

Mesmo inconfesso, ficou claro que o objetivo da visita relâmpago a Berlim era assistir ao jogo. Monsieur Valls não foi sozinho: deu carona a dois de seu filhos adolescentes. Hoje em dia, como sabe o distinto leitor, não se consegue esconder mais nada. No dia seguinte, a notícia estava no jornal, no rádio, na tevê, nas redes sociais.

Manuel Valls

Manuel Valls, primeiro-ministro da França

Políticos da oposição não deixaram escapar a ocasião. Unanimemente, condenaram a largueza do primeiro-ministro, acusado de fazer turismo em família à custa do contribuinte. É verdade que cada viagem num avião Falcon do governo movimenta grande número de colaboradores, técnicos, seguranças e custa uma nota preta, coisa de quatro mil euros por hora. Sem contar o combustível.

Acuado, Monsieur Valls pediu socorro a Michel Platini, que preside a Uefa – a organizadora do campeonato. Monsieur Platini confirmou que o primeiro-ministro tinha viajado a Berlim a seu convite. Não funcionou. Na França, a grita só fez aumentar. Nesta quarta-feira, a mídia não falava em outra coisa. Uma providência tinha de ser tomada para apagar o incêndio.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Monsieur Valls decidiu vir a público fazer seu mea-culpa. Não pediu desculpas, mas fez pronunciamento contrito e apaziguador. Disse que, se fosse possível voltar no tempo, não refaria a viagem. Prometeu ressarcir o erário do valor da passagem dos filhos: 2500 euros.

Pronto, pode-se virar a página. Malfeito confessado é malfeito (quase) perdoado.

Fiquei pensando no petrolão. Fiz as contas, comparei, pesei e… achei melhor pensar em outra coisa. Pra evitar ficar deprimido. Afinal, a primavera está tão linda, as árvores com folhas novas, os passarinhos cantando. Uma beleza.

Mãos ao alto!

José Horta Manzano

We shall never surrender!
Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Você sabia?

Não está claro qual era o termo usado pelos anglos, antes do ano 1000, para designar o fato de entregar os pontos ao final de uma batalha.

Brigas e conflitos sempre houve, tanto lá quanto em qualquer parte do planeta. Portanto, toda contenda deixava um vencedor e um vencido. Como é que o perdedor se entregava? Que dizia?

Linguistas acreditam que era usado o verbo arcaico geldan, com significado próximo de pagar, compensar com dinheiro, servir. Faz sentido. Desde tempos imemoriais, vencedor costuma exigir ressarcimento.

A palavra geldan – reconhecível no alemão atual Geld, com o significado de dinheiro – deixou dois descendentes em inglês: yield e gold. E por que será que perdedores, ao entregar-se, deixaram de usar termos dessa família? Por que é que surrender suplantou yield?

Como tantas outras, a palavra foi trazida pelos normandos, povo do norte da França que conquistou a Inglaterra mil anos atrás. Coisa curiosa: a atual palavra inglesa é resultado de um mal-entendido.

Assalto 1O que vem do estrangeiro sempre tem sabor especial. Se a novidade estiver sendo trazida pelo vencedor, então, o sabor especial será ainda mais acentuado. Considerando que o conquistador era portador de um modo mais civilizado de viver, os ingleses adotaram, sem reclamar, uma cachoeira de palavras – entre elas, as que se usavam no fim de batalhas.

Abandonaram o velho geldan e elegeram o francês se rendre (= render-se). Só que houve chiado na linha. Não se deram conta de que o verbo era reflexivo. A expressão foi incorporada à língua corrente inglesa tal qual era ouvida. Saiu tudo grudado e assim ficou até hoje: surrender.

Direito ou obrigação?

José Horta Manzano

Urna 5Em meu artigo O voto e a roda, publicado no Correio Braziliense um ano atrás, dei a visão que tinha, àquela altura, sobre a questão de voto facultativo x voto obrigatório. Hoje volto ao assunto.

Na França, como na maior parte das democracias, o voto é um direito do cidadão. Como todo direito, seu exercício é facultativo: vota quem quer. Se assim não fosse, seria obrigação. Os dois conceitos são excludentes: se é direito, não é obrigação; se for obrigação, deixa de ser direito.

Acontece que a participação da população francesa decresce a cada escrutínio. Já está nas cercanias de 50%. Na prática, apenas a metade dos cidadãos exerce o direito de dar sua opinião na hora de escolher presidente, deputados, prefeitos. Muitos julgam negativo esse desinteresse popular.

Urna 2Para remediar, entrou em pauta, estes dias, amplo debate sobre a matéria. Alguns acham oportuno acabar com o direito de votar, e torná-lo obrigação. Outros consideram que imposição do voto obrigatório desvirtuaria o princípio da democracia, onde cada um é livre de se exprimir – ou não.

Na França, qualquer fato político costuma assumir proporções gigantescas. Por um sim, por um não, figurões comparecem ao rádio e à tevê para dar opinião. Jornalistas, filósofos, sociólogos, atores, psicólogos, analistas, escritores, toda a nata da sociedade pensante espreme as meninges. Artigos inflamados e libelos pululam.

Como é de praxe, personalidades mais alinhadas com a esquerda veem com bons olhos a imposição do voto obrigatório. Mais Estado, mais obrigações, maior controle, mão firme e Big Brother em ação são traços distintivos do pensamento de socialistas, comunistas, trotskistas & afins.

Já os centristas e os que se afinam com a direita rejeitam a ideia. Menos Estado, maior liberdade individual, menos controle, menos imposições são características de liberais e de sociodemocratas.

Voto de cabresto

Voto de cabresto

Cada grupo tem seus argumentos. Todos devem ser ouvidos, pesados, avaliados. Há pontos positivos em ambas as visões.

Urna 7O voto obrigatório tem a vantagem indiscutível de alcançar número maior de eleitores. Em princípio, o resultado reflete melhor a pluralidade nacional. No entanto, muitos dos eleitores votam sem ter percepção exata do alcance do ato que estão praticando. O resultado pode ser desastroso, como já provou, no Brasil, a eleição de palhaços, modistas, artistas, futebolistas e outras figuras que, embora ultraconhecidas, não estão aptas a fornecer o trabalho que delas se espera.

O voto facultativo elimina, em teoria, essa obra de “engraçadinhos” que, desinformados e desinteressados, se abalam até à secção eleitoral unicamente por origação. Mas o voto opcional também tem seu lado sombrio. Em países como o Brasil, onde persistem, no seio da população, tremendas diferenças de nível financeiro, basta oferecer transporte, sanduíche, boné e camiseta para mobilizar multidões – que seguirão, naturalmente, a orientação de voto que lhes tiver sido dada.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Atenção: isso vale para todos os candidatos – não só para os daquele partido em que, tenho certeza, o distinto leitor pensou. Afinal, não precisa assaltar nenhuma petroleira pra reunir dinheiro suficiente pra sanduíche e camiseta.

Isso dito, como é que ficamos? Há prós e contras nas duas visões.

No fundo, no fundo, talvez convenha aguardar tempos melhores. No dia em o nível civilizatório do povo brasileiro se tiver aperfeiçoado, na hora em que cada um tiver consciência plena das consequências de sua escolha, será chegado o momento de revogar a obrigatoriedade do voto. Até lá, ainda tem chão.

O rádio e a taxa

José Horta Manzano

Você sabia?

Radio 5As primeiras emissões experimentais de radiodifusão foram realizadas na Bélgica em 1914. A Grande Guerra, que espocou meses depois, interrompeu os testes. Para evitar que os invasores alemães se apoderassem da novidade, os belgas destruíram as instalações e dinamitaram a antena. A novidade ficou de molho.

Terminada a guerra, os experimentos retomaram – e não só na Bélgica. No início dos anos 1920, a rádio comercial tornou-se, pouco a pouco, realidade. Na falta de aparelhos, os primeiros ouvintes eram obrigados a fabricar receptores rudimentares, os rádios de galena, símbolos de uma época bem anterior aos transístores.

Assim mesmo, a moda nova se alastrou. Surgiram fabricantes. Europa e Estados Unidos, naquele momento de decisão, tomaram caminhos diferentes. Enquanto os EUA deixaram que a iniciativa privada cuidasse da novidade, os países europeus entenderam que o Estado devia conservar o monopólio de toda atividade radiofônica.

Televisao 6No Velho Continente, ficou então combinado que todo possuidor de aparelho receptor de rádio teria de pagar uma taxa. Ainda hoje essa autorização é cobrada na maioria dos países europeus. O advento da televisão só fez aumentar o valor da conta que cada um de nós tem de pagar. Ano sim, outro também. Atenção: o pagamento da taxa apenas dá direito de possuir aparelho receptor. Não tem nada que ver com assinatura.

Até os anos 1970, todas as estações eram públicas. Portanto, fazia sentido pagar a concessão anual. De lá pra cá, embora estações estatais continuem firmes e fortes, derramou-se uma enxurrada de rádios e tevês privadas. Que faça sentido ou não, nenhum governo abriu mão da taxa: a cobrança continua. E olhe que não é barato. Na Suíça, pagamos a conta mais elevada da Europa: 460 euros por ano, perto de 1500 reais. Isso dá direito a possuir e utilizar aparelho(s) de rádio e televisão. Mais nada.

RedevanceFalando nisso, faz um mês que as emissoras da rádio pública francesa estão em greve, pode? São os inconvenientes do serviço público, que fazer? Ninguém imaginaria que funcionários da uma estação comercial decidissem cruzar os braços – seriam sumariamente dispensados. Já no serviço público…

Radio 6Na França – é tradição nacional – primeiro se entra em greve; depois, eventualmente, se discute. Pela lógica, deveria ser o contrário, né não? Greve deveria ser o último recurso. Mas assim são as coisas. E é por isso que as greves costumam ser longas: negociações são levadas a cabo enquanto os funcionários estão parados. Se as conversações se prolongam, a inatividade se prolonga também.

A meu ver, esse tipo de braço de ferro é suicidário para os próprios funcionários. Em um mês, fiéis ouvintes podem acabar simpatizando com outras estações. Podem até, ao fim e ao cabo, abandonar velhos hábitos e adotar nova rotina de escuta radiofônica. Greve de um ou dois dias já é suficiente. Um mês é absurdo.

Fico-me perguntando se o público francês não vai pedir reembolso parcial da taxa de recepção. Acho que têm direito.

Os malfeitos de lá e os daqui

José Horta Manzano

Meio século atrás, os chineses viviam como os europeus da Idade Média. Miséria, repressão, ascensão social improvável, nítida distinção entre a casta dos poderosos e a ralé. Era um «nós & eles» real e pra valer, longe do antagonismo que o marketing do Planalto tenta instaurar artificialmente entre nós.

Casamento 5Embora ainda estejam longe de chegar à homogeneidade social dinamarquesa ou ao PIB per capita luxemburguês, os chineses já deram passos decisivos na estrada civilizatória. A cada ano, milhões de cidadãos deixam a Idade Média para ensaiar os primeiros passos no mundo atual.

Vêm todos com sede – falo em sentido figurado. Há demanda represada em todos os campos: consumo, educação, turismo, liberdade de expressão. Como outros povos, também os chineses sentem fascínio pelo Velho Continente, particularmente pela França.

Faz já alguns anos que a cidade de Tours se especializou em receber jovens chineses cujo sonho é casar na França, noiva de véu e grinalda (como Esmeralda), beijinho (costume desconhecido na China), fotos de lembrança diante do château e em companhia do prefeito. Entre parênteses: na França, casa-se na prefeitura. O oficiante é o prefeito em pessoa.

Dois anos atrás, o prefeito de Tours foi acusado de corrupção. A polícia civil francesa descobriu que a agência de turismo contratada para organizar a vinda dos casais chineses pagava propina para manter exclusividade.

Monsieur Jean Germain, o prefeito, jurou de pés juntos que não tinha conhecimento de nenhum desvio de dinheiro. Se algum malfeito pudesse estar acontecendo só podia ser à sua revelia. Mas a máquina judicial estava em movimento, que fazer? Apesar de o homem continuar negando toda implicação, a investigação continuou.

Casamento 3Homem de comprovada honestidade, Monsieur Germain, de 67 anos, tinha sido prefeito de Tours durante 19 anos consecutivos – sem contar seu mandato de senador, que na França é permitido acumular mandatos. Aos poucos, foi-se descobrindo que o culpado mais provável pela falcatrua não era bem o prefeito, mas uma auxiliar dele, uma chinesa de Taiwan. Era ela, que gozava da confiança do chefe, quem cuidava da vinda dos chinesinhos e da organização dos casamentos. Se trapaça houve, convinha olhar pro lado da assessora.

O total desviado é calculado em cerca de 600 mil euros (menos de 2 milhões de reais). O início do julgamento estava marcado para a manhã de ontem, 7 de abril. Na hora marcada, todos os atores estavam presentes, só faltava o acusado principal. Passaram-se os minutos. No início, imaginou-se que o homem estivesse apenas atrasado. Não era bem assim.

Casamento 4Após rápida busca, a polícia descobriu o prefeito na garagem de casa. O homem tinha posto fim a seus dias. Uma carta manuscrita explicava as razões do gesto. Dizia que, como homem político honrado, Monsieur Germain não conseguia mais suportar a exposição midiática e o olhar de reprovação de seus eleitores por atos que ele não havia praticado.

Fiquei pensando nos acusados de mensalões e petrolões brasileiros. Apesar de abundantes provas, nenhum deles jamais admitiu ter cometido malfeitos. Nenhum tampouco pareceu incomodado de ser exposto como criminoso.

Pra você ver, distinto leitor: nem todos reagem de maneira uniforme diante da desonra. Se assim não fosse, haveria uma penúria danada de políticos no Brasil.

Desastre de avião

José Horta Manzano

Avião 7Quando eu era criança ‒ faz muitos anos ‒ um tio meu gostava de contar velha piada. Falava de um sujeito que tinha medo de andar de avião; o homem não entrava em máquina voadora nem por decreto do papa.

Veio um outro e lhe disse:
«Mas que bobagem! Cada um tem seu dia de morrer. Se não for seu dia, nada vai acontecer.»

E o medroso:
«É, pode não ser o meu dia, mas… e se for o dia do piloto?»
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Acabo de me lembrar dessa historinha. Só que hoje não faz rir. Nesta quinta-feira de manhã, reforçou-se a suposição de que o pavoroso desastre de avião ocorrido há dois dias nos Alpes franceses pode ter sido fruto de ato deliberado de quem estava dirigindo o aparelho.

As primeiras análises da «caixa preta» (que, na realidade, é de cor laranja) sugerem que o piloto se tinha ausentado da cabine. Na volta, deu de nariz na porta. Bateu, mas o copiloto não abriu. Tentou arrombar, sem sucesso. Fico imaginando o sobressalto e a angústia por que hão de ter passado os que se tiverem dado conta da situação. Há de ter sido como num filme de horror, com o avião descendo inexoravelmente sem que ninguém pudesse fazer nada.

A confirmar-se a hipótese, fica reforçada a imagem de um mundo que, gradativamente, perde as estribeiras. Normas de convívio civilizado tradicionalmente aceitas estão-se dissolvendo rapidamente.

Foto AFP/Christophe Ena

Foto AFP/Christophe Ena

Até não muito tempo atrás, o mais longe que «pasionarios» ousavam ir, em busca de atenção para sua causa, era imolar-se pelo fogo em praça pública. Mais recatadamente, um que outro se suicidava no recôndito de um cômodo deixando uma carta-testamento ‒ foi o que fizeram Stefan Zweig e Getúlio Vargas.

Hoje, as porteiras se abriram e a boiada desembestou. Aviões transformados em bomba, homens-bomba, mulheres-bomba e até crianças-bomba arrastam para a morte gente inocente que nada tinha a ver com a história. Quanto mais gente, melhor.

Prefiro acreditar que o copiloto do avião que se espatifou nos Alpes tenha perdido consciência. É insuportável imaginar que, num gesto suicida, tenha levado consigo 150 existências cuja única culpa era ter embarcado naquele aparelho.

Interligne 18b

O acidente ocorreu na França na segunda-feira, mas a maior parte dos viajantes desaparecidos provinha da Espanha e da Alemanha. Os mandatários-mores dos três países cancelaram sua agenda e se deslocaram até o lugar do desastre. No dia seguinte, estavam lá os três. Não foram levar nenhuma ajuda prática, é verdade, mas o gesto marcou solidariedade mútua. São atos que cabe a todo dirigente civilizado cumprir.

Crédito: Lydia Bultel

Crédito: Lydia Bultel

Lembrei-me do acidente que vitimou avião da TAM, em 17 jul° 2007, no Aeroporto de Congonhas. Os mortos foram 199. Fiquei, na época, muito impressionado com o silêncio do então presidente, o folclórico Lula.

Naquele momento de comoção nacional, nosso número um se escondeu atrás de um mutismo vil. Só se manifestou 73 horas depois ‒ isso dá três dias! Naquele momento, nem todos nos dávamos conta, mas hoje sabemos: quando o caldo engrossa, nosso guia sai de cena. Desaparece até que baixe a poeira.

Ainda bem que o mundo civilizado ainda não adotou o modo Lula de reagir a catástrofes.

O futuro das filhas do futebolista

José Horta Manzano

Bola futebolMaxwell Scherrer Cabelino Andrade, capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, é jogador de futebol. Por ter atuado desde jovem no exterior, é pouco conhecido no Brasil.

Aos 20 anos foi contratado pelo Ajax de Amsterdam e, desde então, seguiu carreira na Europa. Na sequência, foi contratado pelo Internazionale de Milão (Itália) e pelo Barcelona (Espanha). Faz três anos que o moço joga no Paris Saint-Germain.

Atualmente com 33 anos, o jogador vê aproximar-se a hora de pendurar as chuteiras. Em entrevista ao portal francês Goal, abriu-se e gerou a manchete: «Maxwell ne veut plus rentrer au Brésil» – «Maxwell não quer mais voltar para o Brasil».

É sabido que todo futebolista brasileiro em fim de carreira arruma um contratozinho em terra tupiniquim. Um ou outro vai para os EUA, mas a maioria prefere mesmo a terra tropical. Por que será que esse defensor do PSG pensa diferente? Na entrevista, ele mesmo conta.

Maxwell confessa ter sucumbido aos encantos de Paris. O que mais o deixa maravilhado é a oferta histórico-cultural da cidade. Museus estão por toda parte. O jogador considera que, para suas filhas, é uma grande sorte poder continuar vivendo na França. Crescendo naquele ambiente, elas terão oportunidades muito maiores do que se estivessem no Brasil.

Futebol Maxwell«Estou feliz de poder dar a elas algo que eu não recebi quando criança» – acrescenta o esportista. E completa: «A coisa mais preciosa que posso deixar a minhas filhas é a educação. Acredito que voltar ao Brasil hoje não seria a melhor solução para elas».

Como as coisas mudam, distinto leitor! Até dez ou vinte anos atrás, o sonho maior de todo brasileiro que tivesse vivido no exterior era voltar um dia para a terra natal. Praia, coqueiro, rede, sombra e água de coco falavam mais alto. Hoje, já não é mais sistematicamente assim.

Se bem que, com a Pátria Educadora… quem sabe as coisas mudam? Parece que agora vai.