Extrema-direita

José Horta Manzano

Estes últimos dias, desde que doutor Bolsonaro foi vítima de um estúpido atentado numa esquina de Juiz de Fora, a mídia europeia tem dado atenção ao assunto. Parece que, de repente, acordaram e se deram conta de que o Brasil se apronta para eleições gerais.

Dado que a tentativa de assassinato foi filmada por numerosos telefones, a matéria se tornou publicável. Hoje em dia, evento sem imagem não dá camisa a ninguém. Reportagem sem imagem é como macarrão sem queijo: não tem graça e parece que a gente não comeu. As cenas gravadas desse atentado são realistas e dramáticas, motivo a mais para serem exibidas em todos os telejornais.

Todos os canais de todos os países, sem exceção, apresentaram doutor Bolsonaro como «candidato da extrema-direita». Discordo da qualificação. Se, no Brasil, já é tradicionalmente problemático posicionar candidatos no espectro político, a coisa se complica no caso de populistas.

Para ser descrito como ‘de extrema-direita’, o mínimo que se espera de um político é que professe a correspondente ideologia. Não é o caso do candidato ora hospitalizado. De seus discursos, não salta fora o mais tênue sinal de ideologia. O que se ouve são pronunciamentos soltos, estabanados, de bate-pronto, figadais, desconexos. Aparentam ser fruto do momento. Ou são reação gratuita a alguma provocação ou são proferidos pra impressionar plateia de convictos.

O fato de ter personalidade áspera, tosca e bronca não indica necessariamente ter propensão para extremismos. Doutor Ciro Gomes é tão áspero quanto doutor Bolsonaro e, no entanto, está longe dos extremos. O mesmo se aplica a Lula da Silva, que, embora rugoso no trato, sempre se amancebou com políticos de todos os matizes, provando não estar comprometido com nenhuma ideologia.

Na política brasileira, o uso das etiquetas ‘direita’ e ‘esquerda’ é vazio de sentido. Com mais forte razão, deve-se manipular com cuidado classificações como ‘extrema-direita’ e ‘extrema-esquerda’. Há, sem dúvida, políticos que, jovens e em começo de carreira, se encaixam nessas categorias. No entanto, à medida que galgam posições, vão se amoldando, se adaptando, se acomodando. E as firmes convicções de antanho vão escorrendo pelo meio-fio. É no tranco da carroça que as abóboras se ajeitam.

Novidades que incomodam

José Horta Manzano

radio 1A sociedade evolui, é fato. Novidades surgem todos os dias. Certas invenções têm vida longa – o rádio é uma delas. Começou a ser explorado comercialmente faz um século e está aí até hoje. O estilo das emissões se modificou e se adaptou ao gosto de cada época, mas, no fundo, o princípio é sempre o mesmo.

Cinquenta anos atrás, quando a televisão começou a se popularizar, muitos acreditaram no fim do rádio. Não foi o que aconteceu. Os dois passaram a compartilhar horário: rádio de dia, no carro, no banheiro, no café da manhã; e tevê à noite, na hora da poltrona.

KodakOutras novidades foram agressivas a ponto de destronar ramos inteiros da indústria ou até costumes arraigados. A foto digital está entre elas. Quem tem mais de 35, 40 anos há de se lembrar do tempo em que a gente comprava o filme (caro!), tirava os retratos, enrolava a bobina, levava até a loja de revelação, encomendava as cópias e, se tudo desse certo, três dias depois podia ir buscar as fotos. O processo se manteve firme e forte durante um século – de 1890 a 1990.

De repente… difundiu-se a foto digital. Kodak, o conglomerado que dominava o setor, desmilinguiu, capotou e foi à falência. Toda a cadeia de processamento tradicional de fotografia, perturbada, acabou desaparecendo. Que fazer? É a vida. Ninguém segura o progresso.

Internet ainda está engatinhando. Assim mesmo, novidades têm aparecido a cada dia, benéficas para uns, catastróficas para outros. Os aplicativos de comparação de preços de hotel e de passagens aéreas estão acabando com as agências de viagem. Operações bancárias se fazem mais e mais via internet, resultando em fechamento de agências físicas. Correspondência comercial e privada, antes encaminhada pelos Correios, deslocou-se para a internet, causando rebuliço na estatal.

UberEstes últimos tempos, tem-se falado muito na aplicação Uber, que põe em contacto motoristas não profissionais com eventuais clientes. À vista da ameaça frontal, a corporação dos taxistas entrou em pânico. Cada país – para não dizer cada cidade – vem reagindo às carreiras, na base do susto e do improviso.

Na França, por exemplo, a aplicação foi proibida. Está simplesmente fora da lei, decisão já homologada pelo Conseil Constitutionnel, equiparável a nosso STF. Sabe o distinto leitor quanto custa uma licença para operar táxi no município de Paris? Sai por ‘módicos’ 200 mil euros – algo próximo de 900 mil reais! Um patrimônio. Compreende-se que os profissionais tenham se rebelado contra a concorrência desbalanceada. O sujeito paga essa fortuna para poder praticar a profissão; de repente, aparece um gaiato para surrupiar-lhe a clientela? Foi um deus nos acuda. A Justiça, impelida a dar a palavra final, proibiu os não profissionais.

E agora, como é que fica? Bola de cristal, não tenho. Assim mesmo, é previsível que, dentro em breve, essa novidade venha a ser digerida como já foram tantas outras.

Taxi 2Os mil dólares que eu tinha investido, nos anos 80, para comprar uma linha telefônica fixa viraram pó nos anos 90, quando a telefonia se expandiu e telefone deixou de ter valor comercial. Trinta anos atrás, mil dólares eram uma fortuna. A quem, como eu, perdeu dinheiro, sobrou a solução de ir reclamar com o bispo. Acho que ninguém foi.

Assim será com o Uber e com outras novidades que estorvam alguma categoria. As novidades vão acabar entrando no dia a dia de todos nós, não há como escapar. Um sábio ditado nordestino ensina que «é no tranco da carroça que as abóboras se ajeitam». E a carroça segue.