O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Os juros

José Horta Manzano

Estatísticas 9Nos últimos doze meses, os juros cobrados do brasileiro que ousar pedir socorro ao cheque dito «especial» subiram 43,3%. Atenção: esse foi só o aumento. O juro anual atinge agora estratosféricos 187,8%, nível mais elevado dos últimos quinze anos.

Em miúdos: quem tomar hoje algum dinheiro emprestado, daqui a um ano estará devendo praticamente o triplo! Quando se leva em conta que a inflação oficial deste ano ficou abaixo de 7%, como explicar aumento de mais de quarenta porcento nas taxas de crédito?

Estatísticas 7Vamos ver como funcionam as coisas deste lado do planeta. Na Suíça, faz já 20 anos que cheques viraram peça de museu – desapareceram de circulação. O equivalente do cheque «especial» brasileiro chama-se, aqui, crédito ao consumo. Diferencia-se do crédito hipotecário pela solidez da garantia apresentada pelo tomador do empréstimo.

No crédito hipotecário, o cliente oferece em garantia um objeto de valor igual ou superior ao do empréstimo. O mais das vezes, esse objeto é um imóvel. Em vista da robusta caução, o banco oferece juros bem camaradas. Atualmente, as taxas andam pela casa dos 2,5% ao ano.

Já o crédito ao consumo é concedido pelos bancos depois de uma conversinha com o gerente. É considerado empréstimo de alto risco, dado que o reembolso é garantido unicamente pelo salário do cliente. As taxas de juro sobem vertiginosamente. Variam de 10% a 14% ao ano. Sim, senhor, ao ano.

A variação prende-se à solvabilidade do cliente. Quanto mais sólido for seu perfil financeiro – estabilidade no emprego, salário elevado, ficha limpa –, mais baixa será a taxa. Quem fizer a tramitação por internet, sem incomodar o gerente, ainda tem direito a 20% de desconto. Essas taxas valem para empréstimos pessoais de 1.000 a 80.000 francos (3.000 a 220.000 reais).

Estatísticas 8Ah, tem mais. Banqueiro suíço não está acostumado a perder dinheiro nem a fazer obra de benemerência. Portanto, as taxas que cobram hão de ser suficientes para manter Rolls-Royces e mordomos. Por que, diabos, persiste essa brutal diferença entre as taxas decentes cobradas em países civilizados e o esbulho usurário embolsado pelos banqueiros tupiniquins? Como disse? Algo está drasticamente errado no Brasil? Parece. E não é de hoje.

Estatísticas 1A jurisprudência brasileira tende a reprimir a agiotagem, desde que não tenha sido praticada por instituição financeira. Ora vejam só… O banco tem toda liberdade de nos extorquir, sem risco, a quantia que bem lhe aprouver. Se nós, mortais comuns, ousássemos emprestar ao vizinho nas mesmas condições, passaríamos uma temporada no calabouço.

Há de ser por isso que se vê sorriso largo e permanente estampado no rosto dos banqueiros da abençoada Terra de Santa Cruz.