Erros que roubam pontos

Dad Squarisi (*)

A lista não tem fim. São tropeços que atropelam redações, entrevistas e diálogos amorosos. É o caso da poetisa que ganhou importante prêmio literário. Os amigos decidiram homenageá-la com um jantar de adesão no restaurante que a artista mais apreciava. Quando ela soube, contou ao namorado. “Eu adero”, respondeu ele entusiasmado. Pra quê? Jogou água fria na paixão. O amor acabou ali.

Ele se esqueceu de pormenor pra lá de importante. Aderir joga no time de preferir. Um e outro se conjugam do mesmo jeitinho: eu prefiro (adiro), ele prefere (adere), nós preferimos (aderimos), eles preferem (aderem). Outras falhas desempenham papel similar. Eis algumas. Xô! Xô! Xô!

Ladrões de pontos

houveram – no sentido de existir ou ocorrer, o verbo é impessoal. Só se conjuga na 3ª pessoa do singular: Houve distúrbios. Houve três acidentes.

intermedia – intermediar se conjuga como odiar: odeio (intermedeio), odeia (intermedeia), odiamos (intermediamos), odeiam (intermdeiam).

interviu – intervir deriva de vir: ele veio, ele interveio.

irá dizer – a indicação do porvir pode ser feita de duas formas. Uma: o futuro simples (dirá). A outra: o futuro composto (vai dizer). Assim — com o verbo ir no presente. Nunca no futuro.

manter o mesmo – manter só pode ser o mesmo. Se não é o mesmo, escolha outro verbo. Que tal trocar? Ou mudar?

medio – mediar se conjuga como odiar: odeio (medeio), odeia (medeia), odiamos (mediamos), odeiam (medeiam).

meio-dia e meio – a concordância nota 10 é meio-dia e meia (hora).

Nóbel – Nobel é oxítona como Mabel, papel, cruel.

obrigado – ele diz obrigado; ela, obrigada; eles, obrigados; elas, obrigadas. Todos respondem por nada.

o óculos – óculos, como férias e pêsames, é substantivo plural: os óculos, óculos escuros, meus óculos.

panorama geral – todo panorama é geral. Basta panorama.

passeiamos — não presenteie formas dos verbos terminados em -ear com o i: passear, frear, cear & cia. têm um capricho. O nós e o vós dos presentes do indicativo e subjuntivo dispensam o izinho que aparece nas demais pessoas. Dê-lhes crédito: eu passeio, (freio, ceio) ele passeia (freia, ceia), nós passeamos (freamos,ceamos), vós passeais (freais, ceais) eles passeiam (freiam, ceiam).

pequeno detalhe – todo detalhe é pequeno. Basta detalhe.

plano para o futuro – todo plano é para o futuro. Basta plano.

pôrcos – nomes em que o o soa fechado no masculino e aberto no feminino o plural opta pelo salto alto e batom. Segue o feminino: porco, porca, porcos, porcas; porto, porta, portos, portas, torto, torta, tortos, tortas. Exceções? Elas confirmam a regra. É o caso de canhoto e canhota. No masculino, o som é fechado. No feminino, aberto. O masculino plural não segue o feminino. É canhotos, com o o fechado.

possue – não confunda a terminação dos verbos terminados em -uir: a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo termina com i — ele possui, ele contribui, ele retribui, ele diminui, ele atribui (não: possue, contribue & cia. indesejada).

pobrema — não troque sons: problema (não: probrema), estupro (não: estrupo), mendigo (não: mendingo), encapuzado (não: encapuçado).

récorde – recorde se pronuncia como concorde. A sílaba tônica é cor.

rúbrica – rubrica é paroxítona como futrica. A sílaba fortona: bri.

rúim – a palavra é dissílaba – ru-im. A sílaba tônica: im.

se eu caber, se eu deter, se eu pôr, se eu trazer, se eu ver – olho no futuro do subjuntivo: se eu couber, detiver, puser, trouxer, vir.

seje – a forma é seja.

subzídio – pronuncie o s como em subsolo.

vítima fatal – fatal significa que mata. A vítima não mata. Morre. Diga morto.

vou estar mandando & similares – vou mandar.

Ufa!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Profissões desaparecidas ‒ 2

José Horta Manzano

Será que o distinto leitor conhece a palavra italiana «sciuscià»? Pronuncia-se ‘’chuchá’’. A história é interessante. Em 1943, em meio à Segunda Guerra, soldados americanos desembarcaram no sul da Itália para expulsar os alemães que ocupavam o país. Aos poucos foram ganhando terreno até reconquistar o país inteiro em 1945.

Um bom contingente militar ficou estacionado em Nápoles. Naqueles tempos conturbados, a miséria era grande. Crianças perambulavam pelas ruas à cata de alimento. Os soldados americanos, que tinham onde comer e dormir, sentiam pena daquele povo sofrido. Propunham então aos adolescentes que lhes engraxassem as botas pra ganhar algumas moedas. Com gestos apontando o calçado, perguntavam: «Shoeshine?» ‒ lustra o sapato?

Os ouvidos napolitanos, não habituados à língua inglesa, adaptaram a expressão à própria fonética. Deu sciuscià (= chuchá). A palavra ficou conhecida em virtude de ter sido título de filme dirigido por Vittorio de Sica em 1946. Em italiano padrão, o nome do ofício é «lustrascarpe» ‒ lustrador de sapato, correspondente a nosso engraxate. Nestes últimos setenta anos, muita coisa mudou na Itália e na Europa. Aos poucos, os «lustrascarpe» foram minguando. A profissão está hoje em via de extinção.

Nadando contra a corrente, o diretor da secção de Palermo (Sicília) da Confederação Italiana dos Artesãos teve a ideia de ressuscitar o ofício. Abriu concurso para 15 engraxates. Para sua surpresa, apareceram 75 candidatos entre os quais muitos com diploma universitário. A crise anda feia.

A Confederação selecionou 15 deles com base na motivação de cada um e na fé que botavam no projeto. Estes dias, ofereceu aos eleitos uma formação de cinco dias, dada por um antigo especialista no assunto. Se é pra fazer, melhor fazer como manda o figurino. Os aprendizes se familiarizam com as características de cada tipo de couro, com o uso da graxa e com a manipulação das escovas. Têm de adquirir o automatismo dos gestos.

Depois disso, receberão um primeiro kit grátis, com o material necessário para o bom profissional. Em seguida, poderão alugar, por 50 euros/mês, um dos quinze pontos designados pela prefeitura. Mais tarde, se acharem que vale a pena, podem até comprar o ponto. Para tanto, terão de desembolsar 500 euros.

Os selecionados estão entusiasmados com a perspectiva de trabalhar e ganhar a vida. Esperam engraxar uma média de 10 pares de sapato por dia, o que lhes renderá entre 30 e 50 euros a cada jornada de trabalho. Pelos padrões locais, não é nenhuma fortuna, mas é sempre melhor do que continuar desempregado.

Festivais por quilo

José Horta Manzano

Você sabia?

Fogos artificio 1Na França, realizam-se cerca de dois mil festivais a cada ano. É número respeitável. Com relação ao número de habitantes do país, seria como se houvesse seis mil festivais no Brasil. Ano após ano.

Há festivais para todos os gostos. De música principalmente: erudita, popular, regional, instrumental, sacra, pop, folclórica, ópera, jazz, rock. Como disse? De samba-canção? Nunca ouvi falar, mas há festival de dança, de cinema, de escultura, de teatro. Entre os menos corriqueiros, está um festival de pirotecnia.

Para refrescar a memória, o termo pirotecnia é composto de duas raízes gregas: pýr (fogo) e techné (arte). É a arte de dominar o fogo. Em linguagem de todos os dias, o festival é um concurso de fogos de artifício.

Fogos artificio 2É organizado anualmente, em agosto, na cidadezinha de Saint-Brevin (13 mil habitantes), na costa atlântica. A cada edição, concorrem três países. Este ano, Alemanha, Holanda e Brasil eram os candidatos. Não sou admirador desse tipo de espetáculo, mas, a julgar pelas fotos e pelos filmes, há de ter sido deslumbrante.

A equipe brasileira levou a taça. Eta nós! Não chega a lavar o vexame da Copa do Mundo, é verdade. Mas, convenhamos, deixar pra trás justamente a Alemanha e a Holanda sempre deixa um gostinho especial.

Pena que, dissipada a fumaça, volte a realidade dura, nua e crua: nada mudou, o Brasil continua atolado. O resto é pirotecnia.

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PS: Está no youtube um filminho com a apresentação dos artífices brasileiros. Por aqui.

Novo hino

José Horta Manzano

Você sabia?

A história do hino nacional suíço é tão movimentada como a história do país. Imagine só: até 1961, a melodia era a mesma do hino britânico. Não cheguei a assistir pessoalmente, mas imagino que a execução dos hinos antes de encontros esportivos internacionais havia de ser um momento histriônico.

Num jogo entre Suíça e Reino Unido, bastava tocar o hino uma vez só. Os britânicos cantariam «God save the Queen» enquanto os helvetos entoariam «Rufst du, mein Vaterland» (ou «Ô monts indépendants», conforme a língua do freguês).

Suisse 16Quando o hino suíço começou a se difundir pelo país, em meados do século XIX, o fato de dois países usarem a mesma melodia não tinha tanta importância. Aliás, a melodia do hino britânico ‒ cujo autor não se conhece com certeza ‒ foi ou ainda é utilizada em numerosos outros cânticos nacionais, oficiais ou reais.(*)

Em 1961, o governo federal abandonou o hino antigo e adotou um canto provisório. Foi promovido ao estatuto de Cântico Suíço e está em vigor até hoje. A adoção de uma música definitiva foi adiada. Agora, meio século depois, a hora chegou.

Em 2014, foi lançado um concurso para a escolha de novo hino. As condições, bastante restritivas, exigem que a nova melodia lembre a antiga. Além disso, a letra tem de ser calcada na mensagem contida no preâmbulo da Constituição do país. Não sobra muita margem para inventar moda.

Das 208 composições inscritas, as seis finalistas acabam de ser publicadas na rede. Todos os residentes no país estão convidados a visitar o site oficial e votar em sua preferida. Das seis, sairão as três finalistas. Todos votarão de novo, e a grande vencedora será anunciada em 12 set°, considerado dia aniversário da fundação da Suíça moderna.

Suisse 17Caso o distinto leitor tenha curiosidade em conhecer as seis classificadas, pode clicar aqui. Dado que o país tem quatro línguas nacionais, cada hino conta com quatro versões: alemã, francesa, italiana e romanche. Para mudar de língua, clique na janelinha que aparece no canto superior direito da página.

O planeta está morrendo de impaciência de conhecer o vencedor. Vai ser difícil esperar até setembro.

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(*) A melodia do «God save the Queen» foi (ou ainda é) adotada em outros países:

Alemanha ‒ hino do império até 1918
Liechtenstein ‒ hino nacional até hoje
Noruega ‒ hino real até hoje
Rússia ‒ hino nacional até 1833
Suécia ‒ hino nacional em vigor no século XIX
Suíça ‒ hino nacional até 1961

Entra, sortudo

Dad Squarisi (*)

Quem quer? Nove em cada 10 brasileiros levantam a mão. Querem entrar no serviço público. A Constituição de 88 lhes deu um senhor estímulo. Tornou QIs & companhia apadrinhada práticas obsoletas como carteiradas e crachás de autoridade. A única porta de acesso é a seleção aberta a todos os interessados. Só os melhores entram.

A novidade despertou ambições. Criou a indústria dos concursos. Cursos preparatórios enriquecem empresários de norte a sul do país. Não são poucos os candidatos que abandonam o emprego e se dedicam aos estudos em tempo integral. Viraram profissionais. Concursandos passaram a ser chamados de concurseiros.

Concurseiro

Concurseiro

Nada mau. O Estado precisa de profissionais qualificados pra responder aos desafios de uma administração cada vez mais complexa. Recrutá-los com base na meritocracia, porém, tem sido tarefa turbulenta. O pomo da discórdia reside no processo de seleção. Falta seriedade e sobra amadorismo em entidades que organizam o certame.

Falhas em editais, organização e aplicação das provas constituem regra. Com frequência batem à porta da polícia e acabam na Justiça. O mais grave, porém, é a qualidade da cobrança. Qual a relevância, em concurso para nutricionista, saber o estado de origem da Luiza, garota que teve 15 minutos de fama na internet? Ou a frase final do livro sobre os affairs de Bill Clinton na Casa Branca?

As questões tropeçam em conteúdo e forma. Malformuladas, trombam de frente com a clareza e atropelam vírgulas, concordâncias, regências, colocações. A correção não fica atrás. Enchergar, trousse e rasoavel fazem a festa com receitas de miojo e nós pesca o peixe . Resultado: passa o sortudo. O injustiçado chora. Faz companhia ao contribuinte, que paga e não leva. Reclamar ao bispo? Qual o quê! Melhor engrossar o grito das ruas.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura.

A polícia e o fio dental

José Horta Manzano

Setecentos anos atrás, os europeus começavam a despertar do longo período de semiletargia que hoje chamamos Idade Média. O mundo moderno engatinhava. Pouco a pouco, a necessidade de instituições formais e organizadas foi-se fazendo premente. Entre elas, a criação de tribunais.

Não havemos de esquecer que, à época, o poder eclesial abarcava tanto o espiritual quanto o secular. Um foro estável e sistemático era, assim, duplamente oportuno.

Em 1331, durante o pontificado de João XXII, foi instituído o Tribunal Rotæ Romanæ, mais conhecido como Sacra Rota, Tribunal da Rota ou simplesmente Rota. Dizem que o nome curioso tem origem na disposição dos juízes, sentados em volta de quem estivesse sendo inquirido.

Sabemos todos que o poder temporal da Igreja esgarçou-se com o passar dos séculos, reduzindo-se hoje ao território vaticano. O Tribunal da Rota, apesar disso, continua lá, firme e forte. Já não lhe cabe julgar feiticeiros, hereges ou apóstatas. Exceptuando-se crimes cometidos no interior da Santa Sé, a Rota está hoje para os fiéis como o STF está para os cidadãos brasileiros. É o tribunal máximo. Seu poder restringe-se, naturalmente, ao julgamento de transgressões do direito canônico.

Rota Romana

Entre outras atribuições, o Tribunal da Rota tem o poder de anular casamentos religiosos. Prestemos bastante atenção. O doutrina católica considera que o matrimônio é sacramento único e indissolúvel. Portanto, a Rota não tem o poder de «desfazer» ou «dissolver» casamentos. Não é um tribunal secular onde se discutem casos de divórcio. Seu único poder é de estatuir que um casamento era nulo ab initio, desde o começo. Em outras palavras, a Rota se determinado casamento foi válido ou não. Se chegarem à conclusão de que o par nunca formou um casal aos olhos da Igreja, isso significa que o casamento nunca existiu. Estarão, assim, ambos os antigos noivos livres para contrair matrimônio religioso. Sem peso na consciência.

Há uma boa dezena de razões pelas quais uma união pode ser considerada nula. Entre elas, um caso de casamento forçado, combinado contra a vontade de um dos contraentes. O caso (raro) de erro de pessoa pode também ser invocado como motivo de nulidade. Algo do tipo “pensei estar-me casando com Fulano, mas depois descobri que ele era Beltrano”. Há ainda outras motivações pitorescas. Uma razão à qual por vezes se recorre é o dolo. Configura-se o dolo quando um dos nubentes esconde voluntariamente do outro algum fato que, se conhecido, teria dissuadido o parceiro de se casar.

Cheguei a conhecer pelo menos um caso que terminou em anulação de casamento por motivo de dolo. Aconteceu nos anos 50 com pessoa que cheguei a conhecer. Para encurtar a história, digo logo: na noite de núpcias o noivo descobriu que a noiva não era mais virgem. Teimoso, o marido fez questão de apelar para o Tribunal da Rota Romana para reclamar a anulação do casamento. Custou-lhe anos de esforço, muito dinheiro, viagens a Roma. Mas conseguiu. Aos olhos da Igreja, voltou a ser solteiro. A história escandalizou metade da cidade, mas os tempos eram outros.

Mais de meio século se passou. Sou incapaz de dizer se a Rota ainda considera que a não virgindade da noiva seja alegação válida para pedido de anulação de casamento. Na cabeça da maioria da população, certamente não é mais assim.

.:oOo:.Bagues 3

Com espanto, li hoje no Correio Braziliense que um edital lançado pela Polícia Civil da Bahia acendeu uma polêmica danada. Um concurso para preenchimento de 600 vagas foi anunciado. Entre as exigências estão, naturalmente, acuidade visual, boa saúde, senso cromático (ausência de daltonismo), equilíbrio psíquico. Muito mais assombrosa é a quase exigência de … virgindade. Comprovada por exame ou assinada e carimbada por médico com registro no CRM.

Desconfiado de que se tratasse de primeiro de abril, fui conferir. Pois não é que a Folha de São Paulo confirma?

E eu que pensava que homens e mulheres eram considerados iguais perante nossa Constituição. Fico matutando como é que comprovarão micoses, fungos e outros bichos nos candidatos do sexo masculino. Quiçá uma declaração de virgindade emitida por oficial de justiça com fé pública e firma reconhecida?

A coisa tá preta, como diria o outro! Fosse no Afeganistão ou na Arábia, daria para entender. No país do fio dental, do carnaval e do samba, pega mal.

Brasil, país de todos. Desde que sejam virgens, naturalmente.