Passo maior que a perna

José Horta Manzano

De criança, a gente costumava cantar:

Passa, passa três “vez”
O último que ficar
Tem mulher e filhos
Que não pode sustentar

Ah, essa sabedoria popular é… sabida! Os antigos já entendiam que só deve formar família quem tiver condições de a sustentar. Quem não tem competência não se estabelece, como diz o outro.

A ignorância e a ingenuidade de nosso guia causaram estragos profundos. Sua megalomania, à qual vassalos submissos diziam amém, atingiu em cheio a imagem do Brasil no exterior. A olhos estrangeiros, nosso país se apequenou.

O Lula e a sucessora mandaram criar 17 (dezessete!) embaixadas. Estão todas situadas em países pequenos, com os quais temos discretas relações políticas e comerciais. Só nas Antilhas e no Caribe ‒ sem contar estados maiores, como Cuba, República Dominicana e Haiti ‒ temos dez embaixadas. Estão em países que a gente não conhece nem de nome: Nassau, Antigua & Barbuda, St-Kitts e Nevis, Santa Lucia, Barbados, Granada, Dominica e por aí vai.

Ciranda 1Até na Coreia do Norte, o Lula abriu embaixada. Na época, havia 6 brasileiros no país, 3 dos quais formavam a família do embaixador. Os outros três eram funcionários da representação. Não se tem notícia de que a “colônia” tenha aumentado.

Meus distintos leitores hão de ter ficado sabendo, estes últimos meses, de vexames dados por numerosas representações brasileiras no exterior. Algumas não tinham recursos nem para aluguel, conta de telefone, salário de funcionário, despesas do dia a dia. Uma humilhação.

A decisão de instalar uma fileira de representações prendia-se à falsa premissa de que a quantidade de bandeiras nacionais içadas no exterior dava prova cabal de que o Brasil se havia tornado país importante. Uma pirotecnia. Um rojão que deu chabu.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Sob nova direção, o Ministério das Relações Exteriores acaba de encomendar estudo da relação entre os custos e os benefícios dessa megalomania. É provável que embaixadas ociosas sejam extintas.

Os caminhos para demonstrar a força de um país são outros, mais árduos. Experiências calcadas no amadorismo acabam custando caro aos cofres públicos ‒ que, ao fim e ao cabo, são alimentados pelos impostos de todos nós.

O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Curso de inglês grátis

José Horta Manzano

Você sabia?

Na França, há uma estação de rádio de informação contínua, que irradia durante 24h por dia. Difunde um jornal completo a cada meia hora e repete as manchetes a cada quinze minutos.

No meio dessa enxurrada de notícias, sobram alguns minutinhos aqui e ali, que são recheados com entrevistas curtas e outras amenidades. Aos sábados, quando o perfil dos ouvintes se modifica, até receitas culinárias são apresentadas.

Todas as manhãs, dois minutos são reservados a Jean-Pierre Gauffre, que tece uma crônica sobre algum acontecimento do momento. O homem é humorista fino. Sua arte está a milhas de distância do humor escrachado e escatológico que costuma dominar os espetáculos destinados a provocar o riso. Enfim, a cada artista, seu público. E vice-versa.

O tema de hoje girou em torno das aulas grátis de inglês e de espanhol que o Senac de Belo Horizonte está oferecendo. Trata-se de um curso básico dirigido especificamente às prostitutas da cidade. A intenção é prepará-las para acolher os clientes que a Copa-14 certamente trará.

Crédito noticias.r7.com

Crédito noticias.r7.com

A notícia é verdadeira, não foi invenção do cronista. Confira no site R7 de notícias. Monsieur Gauffre trata o tema com a necessária delicadeza. Pela seriedade da elocução, parece até estar lendo uma notícia qualquer. Mas lá no fundo se percebe uma fina ironia. Ele chega a propor ao presidente da França que se inspire nesse exemplo para enriquecer programas de formação profissional contínua já existentes no país.

Se alguém se dispuser a gastar dois minutos ouvindo a crônica de hoje, o endereço está aqui. O site de France-info funciona mais ou menos como um caraoquê: o texto e voz aparecem na tela ao mesmo tempo. É prático para desempoeirar velhos conhecimentos de língua francesa.

E a gente fica aqui a matutar por que cargas d’água certas iniciativas úteis ― não falo apenas de cursos de línguas para profissionais do sexo ― são tomadas somente na iminência de eventos considerados importantes, tais como eleições, copas do mundo, visita de estrangeiros ilustres.

Um ditado resume bem a situação: limpa-se somente por onde passa a procissão. É aforismo antigo, mas continua firme e forte. Valia ontem e continua valendo hoje.