Sexta-feira 13

José Horta Manzano

Torre Eiffel 1Os atentados que castigaram Paris neste 13 de novembro inspiram algumas reflexões. O assunto é espinhudo, mas é uma realidade que a gente não pode fazer de conta que não viu. Melhor tentar entender o que está por detrás.

Ataques indiscriminados não são novidade nem são exclusividade de nossos tempos. Aconteceram desde que surgiu a humanidade. O que mudou, neste século de comunicação de massa, foi a escala.

Antigamente, anarquistas destrambelhados agiam individualmente e por conta própria. O número de vítimas era limitado. Hoje, novos recursos permitem ação concertada, bem coordenada, mais ampla e muito mais impressionante.

O ataque às torres gêmeas de Nova York, em 2001, marcou o início de nova era. A história dos atentados se divide em antes e depois do 11 de setembro. Naquele dia, um mundo bestificado descobriu que as novas tecnologias de comunicação, que abriam tantas boas perspectivas, também tinham um lado sombrio.

Quando os homens se comunicavam por carta ou por telegrama, não era possível organizar ataque cometido simultaneamente por vários assassinos em lugares diferentes. Fax e telex tampouco ajudaram. Foi internet que, ao pôr meios eficazes e instantâneos de comunicação à disposição de todos, abriu as portas para atentados como os desta sexta-feira 13. Tudo indica que estamos só no comecinho – se não tomarmos medidas rapidamente, nossos netos serão obrigados a viver murados.

Metralhadora 1Como proceder? Como dizem os próprios franceses, le risque zéro n’existe pas – é impossível eliminar totalmente o risco. Sempre vai sobrar uma brecha pra quem quiser cometer atentado. A meu ver, o mal tem de ser combatido em duas frentes: neutralizando mentores e desmotivando executantes.

Torre EiffelMentores? Quem são? São indivíduos perigosos e desajustados, que reúnem vários fatores: têm alguma inteligência, dispõem de meios financeiros, são obcecados pela vertigem do poder. No entanto, são covardes: nenhum deles chega ao destemor de amarrar explosivos em torno da própria cintura – preferem aliciar incautos, doutriná-los, mandá-los ao batente e… esperar pelo estrondo.

Até certo ponto, sabe-se quem são esses mentores e onde se escondem. Com paciência e aplicação, não é impossível pô-los fora de combate. Para isso, serviços secretos e meios militares estão à disposição.

E quem são os executantes? Ah, aí é que está o nó. Meio século atrás, assim que as colônias africanas ganharam independência, a França, com falta de mão-de-obra, importou centenas de milhares de norte-africanos. Nunca ninguém se preocupou em integrá-los. Foram estacionados em bairros periféricos apinhados. A terceira geração de imigrantes vive até hoje nessas favelas de concreto. É uma população sem perspectivas, que evolui em círculo fechado e se exprime num falar característico, quase um dialeto.

Cagoule 1Essa massa de deserdados, com baixo nível de instrução, estigmatizada e desprezada por grande parte da população, é presa fácil para mentores mal-intencionados. O governo francês, jogando para a galeria, ordenou hoje o fechamento das fronteiras. Bobagem. É grande a probabilidade de os terroristas terem nacionalidade francesa e não estarem planejando deixar o país.

Remédio, há: essa franja da população tem de ser integrada. Mas os resultados não serão imediatos. A situação atual é fruto de meio século de descaso. Vai levar algumas décadas para consertar – se é que alguém está realmente interessado em consertar.

Enquanto isso, nossos amigos franceses vão viver tempos difíceis, de medos e de incertezas. Mas não há outro jeito: fora da integração, não há solução.

Trabalho escravo

José Horta Manzano

Interligne vertical 13Interligne vertical 13«Em Angola, segundo as reclamações trabalhistas, vários operários adoeceram, alguns com suspeita de febre tifoide, em razão das péssimas instalações sanitárias nas obras e das condições de higiene precárias na cozinha do canteiro. Como os banheiros eram distantes do local de trabalho e permaneciam cheios e entupidos, operários eram obrigados a evacuar no mato. A água não era potável, e a comida, muitas vezes, estragada. Na cozinha, era comum a presença de ratos e baratas.»

Esta aí um trecho do relato feito pelo jornal O Globo sobre trabalho escravo em Angola. “Coisa de país africano atrasado” – pode ser a primeira reação de quem lê. Pois não é bem assim, distinto leitor.

O fato é que, por detrás dessa barbaridade, está o dedinho… adivinhe de quem? De nosso conhecido Grupo Odebrecht, sim, senhor.

Por meio de uma nebulosa de empresas, a empreiteira baiana associou-se a uma empresa angolana cujos proprietários são dois generais e o próprio vice-presidente daquele país. É acerto de bom tamanho. Deram as mãos para construir uma usina açucareira.

Escravidao 1Os operários – 400 homens de origem humilde, aliciados em vários estados brasileiros – foram despachados para a África para trabalhar em condições análogas às da escravidão. Passaporte confiscado e vigias armados reforçam a suspeita de que o ambiente estava mais pra campo de concentração do que pra parque de diversão.

Denúncia ao MPT (Ministério Público do Trabalho) rendeu frutos: julgado, o conglomerado Odebrecht foi condenado a pagar indenização de 50 milhões de reais. Ainda não definitiva, a sentença admite recurso.Lula caricatura 2

Não é impossível que o negócio tenha sido intermediado por conhecido figurão que atua como lobista da empreiteira baiana. Sabe-se que o homem em questão andou intermediando operações do grupo em terras africanas. Em Angola, especificamente.

Na sentença proferida, um detalhe me surpreende. O montante exigido da empresa condenada é chamado de indenização. Todo dicionário confirma que indenizar é ressarcir, compensar alguém por um mal que lhe tenha sido causado. O Ministério Público do Trabalho reserva-se o direito de reverter os milhões para projetos e iniciativas, assim como para dar publicidade à decisão de justiça.

Corrente 1Se assim for, indenização não será. O nome adequado para esse tipo de condenação é multa. No meu modesto entender, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Nada impedia que o conglomerado, além de ser multado, também tivesse sido condenado indenizar a parte prejudicada.

Com a decisão, os 400 infelizes que sofreram na pele a cupidez, a ganância e a avareza dos megaempresários (e de seus lobistas) ficarão a ver navios. Certas decisões de justiça são, no mínimo, curiosas.