Juros civilizados

José Horta Manzano

Os clientes do banco suíço UBS ‒ o mais importante do país ‒ receberam estes dias uma cartinha. O banco lembra aos que possuem cartão de crédito que podem parcelar pagamentos, se lhes for conveniente.

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O estabelecimento informa que um pagamento mínimo de 50 francos por mês é obrigatório. E adverte para a taxa de juros: são 12% ao ano. Sim, você leu bem. Ao ano.

Foi só pra dar água na boca.

Três casos emblemáticos

José Horta Manzano

Caso número um
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio. Descobriu-se que sua tese de doutorado havia sido fortemente inspirada ‒ pra não dizer copiada ‒ de textos anteriores.

Em países sérios, não se brinca com certas coisas. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira. Incriminada, a doutora foi chorar sua vergonha nalgum canto. Nunca mais se ouvir falar dela.

Caso número dois
Em março de 2013, uma investigação levada a cabo por um jornal parisiense descobriu que o ministro do Orçamento da França havia sido titular de uma conta pessoal secreta num banco suíço. Se o fato já seria grave para um cidadão comum, imagine a saia justa do ministro ao qual cabe cuidar do orçamento do país.

Num primeiro momento, monsieur Cahuzac compareceu à Assembleia Nacional e, diante dos eleitos do povo, negou veementemente. Mas o jornal tinha mais trunfos. Deu a público uma gravação em que o ministro se referia abertamente à conta secreta. Não teve jeito. Imediatamente, monsieur Hollande, então presidente do país, mostrou ao ministro a porta da saída. Banido da vida pública, o antigo ministro teve de enfrentar processo criminal.

Caso número três
Em janeiro de 2018, uma certa doutora Cristiane Brasil ‒ nome pio e sobrenome patriótico ‒ foi designada pelo presidente da República para assumir a pasta do Trabalho.

Antes que fosse ungida no cargo, veio à tona a notícia de que a doutora é ré em processo que corre na Justiça do Trabalho. Pelo menos três antigos funcionários a acusam de haver burlado leis trabalhistas. Acionado, um juiz suspendeu liminarmente a nomeação da doutora.

Diante do contrassenso de instalar no Ministério do Trabalho uma pessoa contra a qual correm processos justamente na Justiça trabalhista, o presidente da República cancelou imediatamente a nomeação. Certo?

Errado, senhores! O presidente mandou acionar a Advocacia Geral da União ‒ cujos funcionários, como todos os demais, são (bem) remunerados com nosso dinheiro ‒ e deu-lhes a incumbência de lançar mão de todos os recursos possíveis para segurar o rojão e assegurar que a quase ex-futura ministra tome posse do cargo.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…

Quem nunca comeu melado

José Horta Manzano

Smoking 1Imagine o distinto leitor um senhor grisalho, elegantíssimo dentro de smoking impecável, cravo vermelho na lapela, calçado com… um par de chinelos de dedo. Chama tanto a atenção como se estivesse carregando uma melancia pendurada no pescoço. Não há de passar despercebido.

As coisas têm de se encaixar num conjunto. Se algum dos componentes do quadro destoa, acende-se luz vermelha. É assim que se desmascaram impostores, mentirosos, farsantes: quando um detalhe parece fora de esquadro.

Chinelo 2É natural que cliente de banco comercial – Bradesco, Itaú, Santander & similares – utilize caixa automático para movimentar pequenas quantias, tenha cartão de crédito e até talão de cheque, dê ordens de pagamento a torto e a direito. Combina com os usos e costumes de banco de varejo, que está aí justamente pra isso.

Já bancos privados e bancos de investimento fogem a esse figurino. Pra começar, nada de abrir agência em cada esquina. Não costumam ter mais que meia dúzia de representações, espalhadas por meia dúzia de países. Nada de guichês. Nada de portas abertas ao grande público. Nada de letreiro no frontispício. Não dão cartão de crédito nem emprestam dinheiro. A função deles é gerir a fortuna do cliente, cuidar bem dela e fazê-la frutificar.

Cidadão que sempre viveu na opulência sabe disso desde criancinha. Os que batalharam duro e, aos poucos, amealharam uns cobrinhos também acabam conhecendo e se familiarizando com esse ramo específico da banca. Já aqueles que enricaram de repente, por veredas nem sempre confessáveis, têm dificuldade em perceber a nuance.

Banco 6Estes dias, toda a mídia revelou que a mulher do presidente da Câmara é, como o marido, cliente de banco privado na Suíça. Más línguas dizem até que os milhões ali depositados têm origem ilícita. Cruz-credo! Fato é que a referida senhora utilizava a conta como se estivesse lidando com o Bradesco da esquina.

Dinheiro lavagemFez numerosas transferências para pagar escola, academia, curso particular, gastos de cartão de crédito. A moça deu bandeira. Ao persistir na insólita movimentação, acabou dando na vista. Controladores internos do banco hão de ter-se dado conta da falta de traquejo daqueles clientes. O comportamento anômalo revelou que se encaixavam no perfil dos que lidam com riqueza recente, presumivelmente oriunda de corrupção. Foram postos em observação. Tudo o que bancos suíços não querem, agora que o secular segredo ruiu, é agasalhar fortunas de origem duvidosa.

Dinheiro voadorNo caso da família do presidente da Câmara, a movimentação atípica foi considerada altamente suspeita e gerou denúncia ao Ministério Público helvético. Uma vez lançada, a bola de neve não parou mais de rolar. Foi-se avolumando e veio a público. Para senhor Cunha, a ameaça maior não é a perda do mandato, que isso é o de menos. O risco é ser presenteado com uma temporada na Papuda. A mão dos juízes anda um bocado pesada ultimamente.

Dinheiro fácil traz sensação de poder, segurança e solidez. É sensação falsa. Como diz o povo: dinheiro mal ganho, dinheiro mal gasto.

Made in P.R.C.

José Horta Manzano

China PRCAté uns quinze anos atrás, os chineses eram mais que discretos ao etiquetar seus manufaturados para exportação. Se a legislação do país de destino fosse liberal, nem mencionavam a origem da mercadoria. Caso fosse absolutamente necessário, marcavam «Made in P.R.C.». A estranha e quase desconhecida sigla significava ‘feito na República Popular da China’.

De lá pra cá, as coisas evoluíram. Produtos daquele país já ostentam um desinibido «Made in China». Não se pode dizer que o que vem da China se tenha tornado chique, mas já não é olhado com tanta desconfiança.

Tendo-se transformado em fábrica do mundo, a China tornou-se incontornável. Pouco a pouco, a indústria básica dos demais países tem dismilinguido. Ninguém mais fabrica pianos na França. As fábricas brasileiras de brinquedo vão fechando uma atrás da outra. A indústria têxtil suíça sumiu. E assim por diante.

Chave 3Automóveis chineses, na Europa, nunca vi. Mas há de ser questão de tempo: mais dia, menos dia, chegarão. Parece que, no Brasil, já estão circulando. Espero que não sejam tão ruins como os carros russos – Lada –, importados nos anos 80, dos quais, com certa dose de maldade, a gente dizia que até a chave já vinha enferrujada.

Chinelo 1Nome, marca, origem da mercadoria podem ser prestigiosos. Em matéria de carnaval, praia, capoeira, caipirinha, chinelo de dedo, essas coisas, o nome de nosso País está por cima da carne seca. Deixa qualquer concorrente comendo poeira. Já em outros campos, a situação é menos dourada.

Como já mencionei recentemente, o banco brasileiro BTG Pactual comprou o tradicional banco suíço BSI, veneranda instituição com século e meio de história. Em casos assim, os clientes costumam ser avisados sobre a transação. É modo acertado pra tranquilizar todo o mundo dizendo que tudo continuará como antes. Em matéria de dinheiro, ninguém aprecia mudança.

O BSI seguiu a receita. Comunicou a cada cliente que, embora o dono fosse agora outro, nada mudaria nas relações com a clientela. Informou que, a partir de 15 de setembro, passava a pertencer ao BTG Pactual, «um dos mais importantes e influentes grupos bancários do mundo, com sede na América Latina».

BSI 1Meus distintos leitores hão de ter reparado que o nome do Brasil não aparece na comunicação. Ao ler a carta, lembrei-me do «made in P.R.C.» de antigamente. No mundo das finanças, a marca Brasil ainda é olhada com reserva e desconfiança. É compreensível. O conceito da banca brasileira não é lá essas coisas, o que justifica o fato de o BSI ter preferido situar sua sede, vagamente, em algum lugar da América Latina.

BSI 2Se a percepção das atividades financeiras brasileiras já não era tão favorável, o prognóstico não é alvissareiro. O desdobramento de mensalões, petrolões, eletrolões e refinões indicam que a onda de escândalos que assola o País ainda não atingiu o apogeu. Periga piorar. O arranhão causado à imagem do Brasil será mais duradouro do que supomos.

Suíço pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno fazia tempo que não aparecia. Veio hoje com aquele ar deslumbrado de quem acaba de inventar a roda.

Banco 2– Olá! Não acredito em coincidências. Nessa história de dinheiro escondido na Suíça, tem coisa fora do lugar.

– Bons dias, Sigismeno! Tem razão você. Dá realmente vontade de trucidar esse pessoal que andou enfiando a mão em nosso bolso pra enriquecer.

– Não estou falando da paisagem geral. Estou-me referindo ao caso especial do senhor Cunha, aquele que preside a Câmara.

– Especial por que, Sigismeno? Pelo que diz a mídia, andou se servindo do nosso dinheiro igualzinho a dezenas de outros. Ou não?

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

– Assim foi, mas parece que escolheu o banco errado pra encafuar seus milhões.

– Banco errado? Mas foi na Suíça, Sigismeno! Parece que o pessoal de lá entende do ramo. Errado por quê?

– Raciocine comigo. Por tradição, banco suíço é discreto. Faz parte do jogo. A cada vez que o MP do Brasil precisou obter dados de outros larápios foi um custo. Qualquer retalhozinho de informação só sai com saca-rolhas. Informação costuma vir a conta-gotas. Já no caso desse senhor Cunha, foi diferente.

– Diferente como, Sigismeno?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Pois você não viu? Diz aqui no jornal que o Cunha foi denunciado pelo próprio banco. Coisa do outro mundo, amigo! Terá sido a primeira vez que banco suíço denuncia cliente sem ser compelido pela justiça.

– Tem razão, Sigismeno, parece fora de esquadro. E qual é sua teoria, você que sempre encontra explicação pra tudo?

– Antes de dar minha conclusão, quero voltar a um acontecimento ocorrido faz pouco mais de um mês. Certamente você se lembra daquele caso da conta suíça do Romário.

– Aquela que a Veja denunciou?

– Essa mesmo. A revista obteve, sabe-se lá como, extrato bancário do senador, com papel timbrado, número de conta, montante, tudo nos conformes. Era perfeito demais pra ser verdadeiro, mas a revista caiu no logro e publicou.

– Mas, Sigismeno, além do fato de serem cariocas, o que tem o Romário a ver com o Cunha?

Banco 4– Olhe, meu amigo, é cristalino como água de mina. Por um lado, o pessoal lá do andar de cima tem bronca da revista Veja, não tem?

– Todo o mundo sabe disso.

– Por outro, eles têm interesse em tirar o senhor Cunha do caminho, não têm?

– Ô, se têm. Afinal, a chave do processo de destituição da presidente está nas mãos do homem.

– Pois é, embora seja raro no andar de cima, alguma cabeça pensante pensou, veja você. E arquitetaram um jeito malandro de dar uma cutucada feia na Veja e no Cunha.

– Nos dois?

Chamada d'O Globo, 1° out° 2015

Chamada d’O Globo, 1° out° 2015

– Nos dois, amigo. Valeram-se do fato de Cunha ter milhões de dólares escondidos no BSI, um banco suíço. Já Romário não tem conta nesse banco.

– Agora está ficando difícil seguir seu raciocínio, Sigismeno. Qual é o ponto comum entre esse três personagens, o Romário, a Veja e o Cunha?

– Não seja impaciente. Continuo. O Romário, a meu ver, foi inocente útil na história. Seu nome foi usado. Podiam ter usado qualquer figura pública. Escolheram o senador.

– Usado? Para quê?

– Para quê? Ora, é evidente: pra atingir a revista Veja, deixá-la numa saia justa e levar a cabo a vingança. Forjaram um extrato bancário do ex-jogador e deram um jeito de fazê-lo chegar à revista como se verdadeiro fosse. Imaginando que era legítimo, os editores, felizes com o ‘achado’, publicaram imediatamente. Daí deu aquela confusão toda: o Romário viajou até Genebra, a revista se retratou e pediu desculpa, um forrobodó dos diabos. Foi um vexame. Os que urdiram o plano devem ter gargalhado.

– Então você acha mesmo que os dois foram ludibriados, Sigismeno? O Romário e a Veja?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Acho. A Veja era o alvo, enquanto o senador foi o inocente útil.

– E onde é que o Cunha entra nessa história?

– O senhor Cunha não foi ludibriado. Foi traído. Traído pelo banco suíço onde tinha enfurnado seus milhõezinhos. Jamais se tinha visto banco suíço denunciando cliente. Foi a primeira vez. Um despautério!

– Que coisa mais extraordinária, Sigismeno. E por que, diabos, esse banco teria agido assim?

– Olhe, agora estamos pisando no terreno das suposições. Dou-lhe uma dica que pode ser a chave do mistério: o tradicional banco suíço BSI, nascido 150 anos atrás, foi comprado no ano passado por um banco brasileiro.

– Hã?

BSI 3– Sim, senhor. Faz um ano que o conceituado BSI pertence ao Banco BTG Pactual, cujo dono é um bilionário brasileiro. Agora, não me pergunte se há relação entre a ‘brasilidade’ do banco suíço e o Planalto. Não saberia responder. Mas ficam no ar as perguntas. Como é possível um falso extrato do Romário ter sido impresso em papel timbrado do banco, direitinho como manda o figurino? Como é possível que, pela primeira vez na história, banco suíço denuncie um correntista, assim, gratuita e espontaneamente?

– Ih, Sigismeno, acho bom você parar por aqui. Por minha parte, já entendi, mas, se alguém nos ouvir, ainda vamos ter problemas. Só vou dizer-lhe uma coisa: se um dia eu tirar a sorte grande na loteria, vou pensar duas vezes antes de botar meu dinheirinho naquele banco.

O cofrinho

José Horta Manzano

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Muita gente anda excitada por saber que abastados brasileiros têm (ou tinham) conta no banco HSBC, agência de Genebra. O alarido só não tem se avolumado em virtude dos escândalos múltiplos – e muito mais midiáticos – ligados ao assalto da Petrobrás.

Com raras exceções, todos os ricos do planeta sempre guardaram dinheiro por aqui. Durante duzentos anos, o compromisso suíço – sempre cumprido –de nunca revelar identidade de detentor de conta atraiu fortunas grandes e pequenas, lícitas e fraudulentas, limpas e sanguinolentas.

Mas tudo que tem começo acaba tendo fim. O edifício construído pacientemente durante dois séculos ruiu de repente por obra de um único homem, um obscuro funcionário de banco. O rapaz trabalhava no setor de informática, sem contacto direto com clientes. Por razões que só Deus explica, resolveu um dia chupar uma lista detalhada de clientes, copiá-la num pendrive e oferecê-la ao fisco francês, equivalente a nossa Receita Federal.

A partir daí, as versões divergem. Juram todos os envolvidos que jamais – oh, que horror! – jamais houve nem sombra de pretensão pecuniária por parte do funcionário infiel. O roubo de dados foi feito por amor à honestidade. O governo francês também jura de pés juntos que não deu um centavo ao moço. Acredite quem quiser.

Swissleaks 3

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Fato é que, na esteira desse episódio, o segredo bancário suíço foi pra cucuia em poucos anos. Mas que não seja por isso. Quem tem dinheiro sempre acaba se arranjando. Fechado um paraíso, abrem-se dez novos. Singapura, Cayman, Hong Kong, Panamá, Bahamas estão de braços abertos à espera de clientes fortunados.

Um detalhe me deixa curioso. Cento e vinte e três bancos têm agência ou representação no Cantão suíço de Genebra. São 123(!) bancos, que perfazem um total de 214 agências. O HSBC é apenas um deles. Sendo estabelecimento estrangeiro, não figurava entre os preferidos pelos clientes. Bancos genuinamente suíços sempre inspiraram mais confiança àqueles que optavam pela discrição.

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Esse único banco contava com quase 9000 clientes brasileiros, cujos depósitos se situavam, conforme a fonte, entre 6 e 8 bilhões de dólares. Agora vem a dúvida: quanto dinheiro da terra onde canta o sabiá haverá nos outros 122 bancos da praça de Genebra? Melhor nem perguntar. Se tivessem de ir todos para a cadeia, Congresso e grandes firmas fechariam suas portas por falta de gente.

Que se tranquilizem meus distintos leitores. Brasileiros não são os únicos a fazer uso de bancos estrangeiros para guardar dinheiro. Praticamente todos os ricos do mundo fazem o mesmo. Provavelmente, pelas mesmas razões.

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PS: Para quem quiser saber quais são os bancos estabelecidos em Genebra, aqui está a lista.

Dinheiro de volta

José Horta Manzano

Banco 2Por artigo do Estadão, fico sabendo do embarque, segunda-feira 24 nov°, de procuradores da República. Vêm à Suíça com a missão de agilizar (sic) o confisco de 23 milhões de dólares atualmente depositados em nome de antigo diretor da Petrobrás – justamente aquele que, preso, virou dedo-duro pra salvar a própria pele.

Traduzindo em miúdos, os emissários brasileiros vieram encontrar-se com autoridades suíças para dar uma apressadinha no procedimento de recuperação de alguns milhões roubados – uma merreca perto do total do saqueio.

Fondue suíça

Fondue suíça

De passagem, os visitantes podem até aproveitar para apreciar uma fondue, que a temperatura deste fim de outono já convida à degustação da rústica e robusta especialidade alpina.

Torço para que a intervenção pessoal de procuradores brasileiros seja coroada de sucesso. Permita-me, no entanto, o distinto leitor guardar um pé atrás. Tenho cá minhas dúvidas.

Repatriamento de dinheiro não é mera formalidade. Ponha-se no lugar do banco. Um dia, um cavalheiro lá chegou, abriu uma conta, fez depósitos. Anos mais tarde, chegam autoridades estrangeiras. Vêm recuperar os fundos alegando que o titular da conta está na cadeia.

Dinheiro voadorSeria muito fácil, mas a coisa não funciona bem assim. E não são eventuais tapinhas amistosos que nossos procuradores possam dar nas costas de circunspectos suiços que vão resolver o problema. Há caminhos ortodoxos traçados para casos como este. Suíços costumam respeitar padrões rigorosos de procedimento.

Como ter certeza de que a confissão do encarcerado não foi obtida sob coação ou, pior, sob tortura? A polícia brasileira não é conhecida por seus métodos suaves. A culpabilidade do acusado, que pode parecer óbvia para o público brasileiro, não é tão evidente para autoridades estrangeiras.

Em rigor, a visita dos representantes do Ministério Público brasileiro não seria necessária. Representantes diplomáticos e advogados especialistas estão aí exatamente para isso. Em tempos de internet e de videoconferência, encontros pessoais, em casos como este aqui, tornaram-se supérfluos.

Berna, capital federal suíça

Berna, capital federal suíça

Um detalhe, no finzinho da reportagem do Estadão, me deixa perplexo. Diz lá que o dinheiro repatriado será depositado em favor da União. Dito assim, parece patriótico e justo. Mas, pensando bem, a firma lesada foi a Petrobrás, não? O que é que dá à União o direito de se apossar de dinheiro roubado de uma sociedade anônima?

Tenha-se em mente que uma parte do capital da Petrobrás está pulverizado entre milhares de pequenos acionistas. Se o dinheiro for parar nos cofres da União, será como se a Petrobrás estivesse sendo roubada pela segunda vez. Muito estranho.