Controle de armas

José Horta Manzano

Você sabia?

Arma 1Nos EUA, a cada nova chacina, volta-se a discutir o controle das armas. Parte dos cidadãos acredita que a disseminação de revólveres, espingardas e fusis é a causa principal das erupções de violência. Já outra parte do povo resiste. Parece que os resistentes são maioria. Reivindicam a liberdade de possuir arma e de portá-la no espaço público.

Por razões que nada têm a ver com as liberdades individuais garantidas pela Constituição americana, tendo a concordar com a «turma da metralha». Em outros termos, não acredito que a criminalidade esteja necessariamente ligada ao número de armas em circulação.

No Brasil mesmo, alguns sintomas nos mostram o caminho. Entrou na moda, ultimamente, assaltar com auxílio de arma branca (faca, punhal, peixeira). Como se pode imaginar, é impossível controlar e limitar a livre circulação de facas: toda cozinha tem. Como se vê, de pouco adianta restringir armas de fogo. Faca também mata.

2016-0221-04 TSRA prova maior é dada pela Suíça. Como sabem meus cultos leitores, todos os cidadãos suíços do sexo masculino cumprem serviço militar obrigatório. Mais que isso, permanecem durante muitos anos como reservistas, sendo periodicamente convocados para treinamento e atualização. Enquanto isso, cada um guarda seu arsenal em casa.

Essa particularidade se alia a uma das paixões nacionais: a prática do tiro ao alvo. Estandes de tiro se encontram por toda parte. Numerosos são os cidadãos que os frequentam uma vez por semana, como quem frequentasse academia de ginástica ou pista de boliche. Vão treinar. Para ir ao treino, cada um leva o revólver ou o fusil que costuma dormir no armário da sala.

Em virtude disso, não é espantoso constatar as estatísticas de posse de armas porem a Suíça em terceiro lugar no mundo. Em primeirão, estão os EUA, com 89 armas por 100 habitantes. Em seguida, vem o Iêmen, com 55. E a Suíça aparece logo depois. De cada 100 habitantes, 46 possuem pelo menos uma arma de fogo.

Suisse 24E nem por isso a taxa de criminalidade do país é mais elevada que em outros lugares, muito pelo contrário. Homicídio é tão raro que, quando acontece, sai no jornal, na tevê e na boca do povo.

Os antigos diziam que o hábito não faz o monge. De fato, a dispersão de armas não cria necessariamente a violência. A quantidade de armas à disposição pode, no limite, potencializar a violência. A criminalidade se assenta em outros alicerces.

Plebiscito ou referendo?

José Horta Manzano

Desta vez, o Planalto tem razão. Quem errou foi a imprensa. Pensam que estou brincando? Pois não estou. Explico.

Quando pipocaram os protestos populares de jun° 2013, dona Dilma propôs uma consulta popular seletiva, algo que a atual Constituição não contempla. O tempo passou, os ânimos se acalmaram e chegou a hora de dar nome aos bois. Afinal, como devia ser chamada a consulta ‒ referendo ou plebiscito?

Especialistas ensinaram. Os mais atentos prestaram atenção e tomaram nota. Até o mui oficial Blog do Planalto aprendeu! A coisa ficou assim:

Plebiscito
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria que ainda não foi votada. Assim, o povo é consultado antes que o parlamento legifere.

Referendo
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria já aprovada pelo Congresso. Assim, o povo é chamado a aprovar ou rejeitar lei existente.

Mr. Cameron vai submeter a seu povo uma questão sobre a qual o parlamento britânico ainda não se pronunciou. Portanto, trata-se de um plebiscito. Visto que ainda não há lei, não há como referendá-la. Logo, referendo não será.

Nenhum dos três grandes jornais brasileiros fez a lição de casa. Vejam só:

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Estadão

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

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Folha de São Paulo

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

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O Globo

Chamada d'O Globo, 20 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 20 fev° 2016

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Nada mudou

José Horta Manzano

A história da política brasileira registra espantoso fato ocorrido faz mais de meio século. É o caso do senador Arnon de Mello, despachado para o xadrez em 1963. No dia 4 de dezembro daquele ano, no plenário da Câmara Alta, senhor Mello sacou da arma e desferiu três tiros em seu inimigo Silvestre Péricles, também senador.

Bandido 2Em razão da péssima pontaria do pistoleiro, o inimigo não foi atingido. Por desgraça, uma das balas perdidas tirou a vida de José Kairala, suplente de senador, que se apresentava para seu primeiro dia na função.

Os senadores não julgaram conveniente cassar o mandato do colega. Não lhes pareceu que entrar armado na Casa do Povo, atirar e matar um homem fosse motivo suficiente para decretar quebra de decoro parlamentar.

O cangaceiro, acusado de homicídio, foi preso. Poucos meses depois, absolvido pela justiça, voltou ao Senado e reassumiu imediatamente o mandato. Na caradura, cumpriu a missão até o último dia sem ser importunado.

Só para informação: Arnon de Mello, o que atirou num e matou outro, é o pai de Fernando Collor de Mello, o «caçador de marajás» que, trinta anos mais tarde, chegaria à presidência do país. Não caçou marajás nem senadores: foi cassado.

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Senador pelo Mato Grosso do Sul, Delcídio Amaral foi preso em fins de novembro passado. A detenção deixou a República boquiaberta, não tanto por ter atingido pessoa de destaque, mas por estar o senador em pleno exercício do mandato, exatamente como tinha acontecido com senhor Mello meio século antes.

Revolver 2Desta vez, a prisão não ocorreu por crime de sangue, mas por delinquência ligada à corrupção. Assim mesmo ‒ ou talvez por isso mesmo ‒ assombrou a opinião pública. Não obstante, ninguém ousou criticar a medida, nem mesmo a alta cúpula do partido do senador.

No entanto, os fatos mostram que os cinquenta anos decorridos entre a prisão do senador de 1963 e a do senador de 2015 não modificaram as práticas bizarras em vigor no Senado da República. Assim como crime de sangue, tampouco crime de corrupção é motivo suficiente para determinar quebra de decoro. Delcídio Amaral continua dono do mandato.

Senado federal 1Por razões que, no momento em que escrevo, não estão claras, Amaral foi solto após menos de dois meses de cárcere. Uns dizem que teria concluído acordo de delação, outros dizem que não. Pouco importa. O que se constata, de certeza, é que, entre as restrições impostas ao ir e vir do investigado, não está a suspensão do mandato.

Estranha República a nossa. Em países civilizados, por mera suspeita de haver cometido algum «malfeito», qualquer eleito do povo é rejeitado por seus pares que, para eliminar toda suspeita de cumplicidade, o forçam à demissão. Entre nós, a vida segue numa boa.

Daqui a meio século, quem sabe, os eleitores e seus representantes se horrorizarão com a aberração a que estamos assistindo hoje. Quem viver verá.

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Post scriptum:

Chamada d'O Globo, 21 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 21 fev° 2016

Orthographia ‒ 2

José Horta Manzano

Como bem sabem meus cultos leitores, o AO90 ‒ acordo ortográfico assinado 25 anos atrás ‒ entrou em vigor definitivamente, no Brasil, dia 1° jan° 2016. Aqui está a homenagem de G. Passofundo, desenhista gaúcho.

by Geraldo 'Passofundo' Fernandes, desenhista gaúcho

by Geraldo ‘Passofundo’ Fernandes, desenhista gaúcho

Frango oriental

José Horta Manzano

Do Estadão, 19 fev° 2016 Clique para ampliar

Da Folha de São Paulo, 19 fev° 2016
Clique para ampliar

Povos diferentes têm hábitos culinários diferentes, é natural. Assim mesmo, é um alívio saber que o ensopado não leva raiz de dente nem raiz de cabelo.

O poder do vil metal

José Horta Manzano

Chacinas não fazem parte do quotidiano suíço. Estatísticas mostram que a taxa anual de homicídios voluntários no país não passa de 0,7 por cem mil habitantes. Para efeito de comparação, registre-se que a taxa brasileira é 30 vezes mais elevada, chegando a incríveis 22 assassinatos por cem mil habitantes.

A criminalidade, portanto, não figura entre as maiores preocupações da população da Suíça. Eis por que a matança de quatro pessoas, ocorrida no fim do ano passado no vilarejo de Rupperswil, Cantão de Argóvia, continua nas manchetes nacionais.

Rupperswil, Cantão Argóvia, Suíça

Rupperswil, Cantão de Argóvia, Suíça

Alguns dias antes do Natal, numa casa em chamas, a polícia encontrou quatro mortos. Logo se constatou que o incêndio tinha sido ateado para disfarçar crime maior: todas as vítimas haviam sido mortas a facadas. Eram quatro mulheres: a mãe, duas filhas adolescentes mais uma amiga das jovens.

Sem pistas, a polícia local não tem poupado esforços para elucidar o misterioso crime. Já colheu depoimento de 110 pessoas e já recebeu cerca de 250 testemunhos de outros indivíduos. Dezenas de automobilistas entregaram às autoridades imagens da minicâmera (dashcam) do automóvel. Quarenta policiais trabalham 24h por dia nas investigações. Até peritos suíços e alemães foram chamados para apoiar.

Wanted 1Visto que, decorridos dois meses, o inquérito não saiu da estaca zero, a polícia resolveu sacar o trunfo maior. Promete recompensa de cem mil francos suíços (quatrocentos mil reais!) a quem fornecer indícios que levem à elucidação do enigma. É um patrimônio, minha gente! São boas as chances de desmascarar finalmente o(s) culpado(s) e de entender o que aconteceu.

É o caso de cogitar se não valeria a pena oferecer, com maior frequência, recompensa em dinheiro para elucidar crimes no Brasil. Não precisa chegar a montante astronômico como o de Rupperswil, sejamos modestos! Com bem menos, já é possível destravar línguas. O poder do vil metal é irresistível. Com certeza, ajudaria o Brasil a se afastar da vergonhosa taxa atual de homicídios, digna de país mergulhado em guerra civil.

Mundo globalizado

José Horta Manzano

Este foi operário, líder sindical e, um dia, tornou-se presidente de seu país:

Chamada fa Folha de São Paulo, 18 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 18 fev° 2016

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Este foi operário, líder sindical e, um dia, tornou-se presidente de seu país:

Chamada de Último Segundo, 8 dez° 2013

Chamada de Último Segundo, 8 dez° 2013

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Qualquer semelhança pode ser… semelhante.

Mal de raiz

José Horta Manzano

Tudo indica que o risco oferecido pelo Brasil a investidores ‒ nacionais ou estrangeiros ‒ se esteja agravando. Importante agência de classificação acaba de rever sua apreciação. Considerando que a situação das finanças nacionais se deterioraram de alguns meses para cá, o instituto rebaixou a nota brasileira a um patamar mais próximo do fundo do poço.

Assalto 9Isso é mau porque importantes capitais ‒ cruciais para um país de baixa poupança interna ‒ tendem a migrar para outras plagas. Toda a mídia nacional captou o perigo. De ontem para hoje, o rebaixo da nota foi a manchete mais saliente em todos os jornais brasileiros.

Na imprensa estrangeira, no entanto, outro fato nacional ocupa espaço maior: o assassinato de turista argentina em Copacabana. Em inglês, francês, alemão, italiano ou espanhol, a notícia deu volta ao mundo.

O fato em si já é alarmante e comovente. Era uma turista estrangeira, pessoa de recursos limitados, cuja grande aspiração era conhecer o Rio. Enfrentou viagem de onze horas de ônibus desde sua recuada província argentina até São Paulo. Mais uma hora de ponte aérea e o antigo desejo se tornou realidade.

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

Chamada do argentino Clarín, 18 fev° 2016

O sonho, no entanto, virou pesadelo quando energúmenos, no que se supõe fosse tentativa de assalto, trucidaram a moça a facadas. Estava a poucos metros do hotel Copacabana Palace, emblema da acolhida de nível internacional que o Brasil costumava oferecer.

Situação financeira evolui. Basta os analistas enxergarem uma luzinha no fim do túnel para que a nota de avaliação retorne a níveis mais comportados. O mundo das finanças sobe e desce, é gangorra cíclica, nenhum país tem garantia contra sobressaltos.

Assalto 5Já as incivilidades, a violência e a criminalidade não são cíclicas ‒ muito pelo contrário. São permanentes, constantes, progressivas, crescentes. Criam raízes cada dia mais profundas e resistentes sem que ninguém dê grande importância.

Brasileiros se desassossegam com a coincidência de epidemia de zika com os Jogos Olímpicos deste ano. Não é a melhor combinação de fatores, concordo. No entanto, há que lançar visão mais ampla.

Num futuro próximo, vacina terá sido encontrada contra essa doença. E o problema estará resolvido. Bem mais difícil será, desgraçadamente, encontrar vacina contra a criminalidade. É problema mais profundo que não se resolve botando grade e cadeado na frente de casa.

Meu anjo

Anjo 1Myrthes Suplicy Vieira (*)

Conto sempre para as pessoas mais próximas – para as desconhecidas, não, porque não quero passar por louca – que sinto uma forte presença espiritual ao meu lado sempre que tenho de escrever. Na minha cabeça, trata-se de uma figura masculina poderosa, mas cheia de compaixão. Eu o chamo de “meu anjo”.

Não, ele não é um anjo da guarda comum, desses que se esfalfam por aí para salvar seus protegidos de atropelamentos, quedas, incêndios, bala perdida, etc. Ao contrário, ele já me colocou várias vezes no olho de furacões e em muitas saias justas. Não faz isso por maldade, já que é um ser do bem, mas porque gosta de me desafiar. Fica em pé às minhas costas, impávido e solene, esperando para ver se eu consigo contornar sozinha os obstáculos que enfrento no dia a dia e, quando jogo a toalha, entra em ação me acalmando, como se me dissesse “respira fundo e aprende como se faz”.

Anjo 5Ele atua na minha vida como consultor e conselheiro para assuntos linguísticos. Pode ser de ajuda num número incontável de situações, já que é articulado, culto, sábio, poliglota, versátil, dono de saber enciclopédico e está sempre de bom humor.

Ele não fala comigo. Apenas cochicha no meu ouvido as palavras que procuro em desespero quando tenho de redigir algum texto. Sugere termos coloquiais em outros idiomas quando estou às voltas com minhas traduções e quero impressionar. Alerta para as consequências negativas dos meus exageros, mas também me incita a não ter medo de optar por expressões provocativas. Já chegou a me soprar frases inteiras. Muitas vezes o ritmo de seus ditados é tão intenso que eu me sinto mergulhada numa atmosfera de psicografia – ou, melhor dizendo, de “psicodigitação”. Meu único trabalho é tentar copiar com a máxima rapidez possível as palavras que fluem como se estivéssemos conversando.

Anjo 2Não erra nunca. Certa vez, eu estava à beira de um ataque de nervos tentando passar para o inglês um texto muito complexo, fora da minha área de especialidade. Ele então cochichou no meu ouvido uma palavra que eu desconhecia. Aflita e sem tempo para conferir, digitei a palavra e concluí o trabalho. Mais tarde, ao revisar o texto, fui procurar no dicionário a palavra para ter certeza de que ela se encaixava bem na frase. Um arrepio frio percorreu minha coluna de alto a baixo quando constatei que era a palavra precisa, a mais adequada para transmitir com elegância a mensagem que eu queria.

Outra de suas especialidades é inspirar ideias e projetos sempre que minha criatividade está em baixa. Quando meu cérebro se agita para encontrar saídas para situações difíceis com que me deparo, uma lampadazinha se acende magicamente na minha cabeça. Corro para o computador e começo a digitar febrilmente uma série de lembretes – a respeito de autores, livros, conexões com outros temas, etc. – para investigar mais tarde, com calma. Depois, basta acionar um mecanismo de busca qualquer na rede mundial de computadores para encontrar as referências de que preciso ou investigar nos dicionários possíveis significados das palavras que elenquei ou as ilações que precisam ser mais bem compreendidas.

Anjo 4É nesses instantes que meu anjo entra na área de sua máxima ‘expertise’. Coloca no meu caminho uma série de pistas, assim como quem não quer nada. As pistas podem vir sob forma de uma conversa casual com um vizinho ou amigo, uma experiência na natureza, um comportamento inesperado de minhas cachorras, um livro que surge inesperadamente na minha frente, ou até uma reportagem na televisão.

Foi o que aconteceu ontem. Eu tinha ido dormir com uma sensação de impotência e incredulidade frente aos acontecimentos trágicos do dia. Acordei, porém, maravilhada e embalada por um discurso para lá de otimista de meu anjo. Suas palavras eram tão sábias e doces que me pareciam estrofes de um poema. Falava de esperança, incentivava a procurar novos ângulos de visão para atacar velhos problemas, instilava fé na capacidade de adaptação e superação que é típica do humano. Aconselhava a ir além das aparências e descobrir os sentimentos que estão por trás da realidade violenta de nossos dias.

Anjo 3A mensagem que julguei ter recebido e que me encheu de alegria foi, em resumo, a de que é chegado, enfim, o tempo da delicadeza. As reações exacerbadas de tudo e de todos à nossa volta nada mais são do que meros indicativos de que um ciclo se finda. Já não há mais espaço para dicotomias nem para o maniqueísmo. De agora em diante, seremos todos convidados a nos posicionar ao longo de um contínuo que vai do branco ao negro, do masculino ao feminino, da razão à emoção, da certeza à dúvida. Novas nuances de significados se abrirão diante de nossos olhos atônitos. Bem e mal se misturam e se diluem num oceano de possibilidades de aconchego e de tolerância.

Eu, que sempre fui tão catastrofista, mesmo a contragosto me deixo levar por essa delicada cantiga de despertar. Extasiada, ainda sentindo a onda de esperança evolucionária bater forte no meu peito, só consigo torcer para que outros anjos, ao passar por perto, a ouçam também e digam amém.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escrita automática

José Horta Manzano

Se o distinto leitor imagina que a escrita automática do título é introito de artigo sobre psicografia, devo desenganá-lo. O caso de hoje é mais prosaico.

Falar sem refletir é próprio do ser humano. Ao falar, a gente hesita às vezes, por um instante, em busca de um adjetivo ou de um verbo mais adequado. O mais das vezes, no entanto, as palavras fluem automaticamente. Sai como sai. E é bom que assim seja, senão a comunicação seria difícil.

Avião 3Já a escrita demanda um bocadinho de reflexão. O exercício se complica com a importância do texto. Bilhetinho a ser grudado na geladeira não exige concentração nem volteios, a coisa sai como sai. Pra redação de concurso ou artigo de jornal, a história é outra. Não se deve simplesmente lançar as palavras como nos brotam.

Nem todos se dão conta disso, é uma evidência. Ainda hoje topei com artigo no Estadão ‒ bem escrito, por sinal ‒, que peca por irreflexão. O assunto não é transcendente. Relata-se o bloqueio, por parte do fisco, de bens de conhecido jogador de futebol. Iate e avião confiscados! Ao fechar a matéria, o escriba informa que «a sentença cabe recurso».

Iate 1Escorregou. É usual, em notícia de condenação, explicar que cabe recurso. Com isso, quer-se dizer que a sentença não é definitiva, e que o condenado ainda pode contestar. Em outras palavras, cabe recurso significa que é cabível que o interessado interponha recurso. Trocando em miúdos, é admissível a possibilidade de apelar à autoridade que proferiu a sentença para tentar reformá-la.

Ao declarar que «a sentença cabe recurso», o articulista trocou os pés pelas mãos. O que cabe não é a sentença, mas o recurso. Tivesse dito «a sentença admite recurso» ou «contra a sentença, cabe recurso», teria acertado. Fica para a próxima.

A segunda língua

José Horta Manzano

Você sabia?

O serviço central americano de informação ‒ a conhecida CIA ‒ não se restringe a espionar e a colecionar informações militares sensíveis. Para chegar lá, precisa, naturalmente, coletar alentada massa de dados em diferentes setores de atividade.

Depois de extrair o que lhe interessa, deixa toda informação não sigilosa à disposição do distinto público. Mapas e estatísticas fazem a alegria de apreciadores.

Lingua 5Entre as resenhas, há uma relação das línguas faladas em cada país. Estão lá a língua oficial ‒ que não é necessariamente a mais falada ‒ e os idiomas secundários.

Algumas surpresas aparecem. Em Moçambique, que contamos como país lusófono, apenas 10% da população conhecem a língua de Camões. No pequeno Belize (antiga Honduras Britânica), o total percentual excede 100%, o que demonstra que parte da população fala duas ou mais línguas.

Lingua 3Todos sabem que a segunda língua mais falada nos EUA é o espanhol. Mais surpreendente é saber que, na Austrália, a segunda posição é ocupada pelo chinês.

Quanto ao Brasil, porcentagens não são especificadas. Menção é feita a alguns idiomas europeus, assim como a «grande número» de línguas indígenas.

Lingua 4O portal Movehub valeu-se desses dados e desenhou um mapa-múndi da segunda língua falada em cada país. O resultado é curioso. Sem ser imperdível, não deixa de ser interessante.

Curiosos devem clicar aqui. Em seguida, para ampliar os mapas, clique em cada um deles. Quanto aos mais apressados, basta clicar nas ilustrações para ampliar.

Esplanada das religiões

José Horta Manzano

A cidadezinha francesa de Bussy St-Georges, de 25 mil habitantes, está situada na região parisiense, a 30km da capital e apenas a 7km do parque de diversões Disneyland.

Em 1980, com menos de quinhentos habitantes, não passava de sonolento vilarejo da zona rural. Em quarenta anos, a população multiplicou-se por mais de quarenta. É fato notável que, sem enquadramento atento, pode fazer desandar o quotidiano dos cidadãos.

Fotomontagem de ritos religiosos

Fotomontagem de ritos religiosos

Gente de muitos horizontes veio acrescentar-se aos camponeses originais. Franceses de raiz, fugindo os aluguéis inabordáveis da capital, fixaram residência no pequeno burgo. Imigrantes muçulmanos das antigas colônias francesas do norte da África também estão presentes. Por seu lado, imigrantes chineses, vietnamitas e cambodgianos constituem 35% da população do burgo.

Nestes tempos de enfrentamento entre fiéis de diferentes religiões, a presença de pessoas oriundas de diferentes universos periga transformar-se em foco de tensões. Em vez de esperar de braços cruzados que o pior acontecesse, as autoridades municipais optaram por tomar a iniciativa.

Grande área foi reservada para a construção de uma Esplanada das Religiões. Mal comparando, respeita-se o mesmo princípio de uma praça de alimentação de shopping center onde pizzas, sushis, paellas, brigadeiros e pastéis podem ser degustados a alguns centímetros de distância uns dos outros, sem que ninguém se sinta incomodado.

Armonitace

Armonitace

A esplanada compõe-se de dois templos budistas, uma mesquita (para os muçulmanos), uma sinagoga (para os judeus), uma igreja protestante. Um centro cultural para católicos armênios completa a coleção. A comunidade católica tradicional não está representada no novo espaço porque a cidadezinha já conta com duas igrejas, uma das quais fica bem próximo. Foi considerado supérfluo erigir mais um templo.

A construção do empreendimento ainda não chegou ao final, mas as obras continuam aceleradas. É que, para não favorecer nenhuma religião, a municipalidade cedeu o terreno mas se absteve de bancar as obras. Aliás, a lei francesa proíbe o uso de dinheiro público para fins religiosos. Cada comunidade teve de encontrar seu próprio financiamento.

O homem costuma temer aquilo que não conhece, é natural. A coabitação incentiva o mútuo conhecimento e favorece o mútuo respeito. Dificilmente Bussy St-Georges será, um dia, palco de combate interreligioso. Os que tiveram a ideia merecem parabéns.

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PS: Armonitace ‒ que aparece na ilustração ‒ é criação artística encomendada para simbolizar a Esplanada. O conjunto entrelaça o símbolo estilizado de cada uma das religiões.

Muito processo pra pouco tribunal

José Horta Manzano

Folheando The Irish Times, quotidiano de Dublin, encontrei artigo sobre um certo Mr. Lynn, cidadão irlandês que escapou à polícia de seu país e se homiziou no Brasil. Sua extradição por crime de estelionato foi solicitada.

O homem havia montado um império financeiro. Ao vê-lo ruir, botou as pernas pra correr. Como por acaso, achou que o Brasil era o melhor país para se acoitar. (Ô fama que temos!…) Antes do desmoronamento da empresa, Mr. Lynn há de ter salvado algumas libras. A prova é que, assim que foi pedida sua extradição, contratou bons advogados.

Tribunal 1Como costuma acontecer no Brasil quando operam advogados espertos, o processo se arrasta há anos. Todas as chicanas e todos os expedientes dilatórios foram acionados. O STF deferiu em favor da extradição, mas o time de defensores se prepara a contestar a decisão. Por consequência, o ponto final não será inscrito senão daqui a alguns meses.

Confiante, o Irish Times diz que, segundo as estatísticas, as chances de a decisão ser revertida são praticamente nulas. Nos últimos quarenta anos, 76 decisões de extradição tomadas pelo STF foram contestadas. Em nenhum desses casos, a decisão foi reformada. O jornal se lamenta da lentidão de nosso tribunal supremo. E atribui o ritmo de tartaruga à inacreditável quantidade de processos que chegam à corte maior: 50 mil por ano.

TribunalNão precisa ser jurista nem perito no assunto pra se dar conta de que algo não está batendo. Não é aceitável que os onze ministros do STF, aos quais incumbe esmiuçar e julgar casos que envolvem o interesse nacional, tenham de cuidar de divórcios litigiosos e de brigas de condôminos. É incabível que os que julgam mensalão e petrolão tenham de se ocupar de briga de bar.

Cinquenta mil processos distribuídos a onze ministros dá perto de cinco mil por cabeça. Descontando férias forenses, férias escolares, feriados nacionais e faltas justificadas, a coisa aperta ainda mais. É ingênuo imaginar que os magistrados-mores deem conta, pessoalmente, desse volume. Isso nos deixa a desagradável impressão de que, na verdade, os casos são destrinchados, analisados e julgados por uma equipe de juristas anônimos. Os ministros só apõem o jamegão ao pé da última lauda. Que fazer pra corrigir a distorção?

STFA França, por exemplo, põe filtros e barreiras para afunilar o acesso à corte maior. Antes da aceitação do recurso, uma comissão estatuirá se ele é recebível ou não. Se não for, o percurso termina ali. Para desencorajar o acesso à corte suprema, a França exige ainda que a defesa seja entregue a advogados especialmente acreditados junto àquele tribunal. São defensores homologados, que praticam tarifas elevadas, o que obriga o cidadão a pensar duas vezes antes de entrar com recurso.

Alguma coisa tem de ser feita no Brasil também. Não é aceitável atulhar o STF com processos menores. Nem extradição de criminosos merece ser submetida à corte maior. Não se trata de negar justiça a quem a solicita, mas de encaminhar cada caso ao tribunal adequado.

Brasil, o triturador de empresas

Rubens Menin (*)

No último mês de dezembro, foram criados 200 mil postos de trabalho nos EUA. No mesmo período, foram extintas 150 mil vagas de emprego no Brasil.

Por que isso aconteceu? As causas são muitas e variadas, mas a grande maioria delas resulta de opções equivocadas ou ineficientes tomadas por aqui, tanto na área política como na econômica.

Fabrica 1Quem perdeu com isso? Enganam-se aqueles que acreditam que perderam apenas as empresas e seus donos ou acionistas. Perderam os brasileiros.

Perderam salários, perderam renda, perderam a possibilidade de sustentar a si e à família com emprego garantido. Perderam dignidade e perderam, principalmente, a chance de prosperar na busca de um futuro melhor.

Rubens Menin é empresário. O texto integral está no Diário do Poder.

Nome de rua

José Horta Manzano

Decisão sensata foi tomada pelo governador do Maranhão. Cumprindo promessa de campanha, regulamentou a atribuição de nome a logradouros públicos.

decreto, assinado no começo deste ano, aplica-se a todo o Estado e proíbe emprestar nome de pessoa viva a bem público de qualquer natureza. A interdição abrange ruas, praças, avenidas, viadutos, becos, esplanadas, bulevares, caminhos, estradas, rodovias. Atinge também prédios públicos, estações rodoviárias, escolas, hospitais públicos & assemelhados.

Placa 16É verdade que a invasão de nomes ligados ao clã de José Ribamar, dito Sarney, tornou-se escandalosa no simpático Estado nordestino. Convenhamos: vaidade e autoincensamento têm limite, sob risco de chegarmos ao ridículo de autocracias de segunda linha, como a Coreia do Norte ou o Haiti dos Duvalier.

Placa 15O decreto se estende a figuras ligadas à mais recente ditadura militar, aquela que finou em 1985. Dado que o governador é afiliado ao Partido Comunista, a rebarba é compreensível. Mais difícil é compreender por que razão nomes que evocam outras ditaduras mais antigas não são contemplados pela proibição. Ditadura por ditadura, se Castelo Branco & companhia estão banidos, Getúlio Vargas & confrades também deveriam estar. Afinal, sob ambos os regimes, o partidão esteve fora da lei.

Passando por cima do rancor seletivo, a decisão é digna de aplauso e tem direito a ser espichada além das divisas maranhenses. A interdição merece ser objeto de lei federal, de abrangência nacional.

Placa 3Dependesse de mim, iria até mais longe. Mesmo entre os mortos, nem todos fizeram por merecer figurar em placa de rua. Melhor mesmo seria excluir nome de gente. Tem muito nome mais interessante pra ser utilizado. Animais, rios, países, poemas, nomes abstratos, frutas, profissões e ofícios, flores, acidentes geográficos, árvores estão à disposição.

Em Lisboa, temos a Rua das Janelas Verdes; no Porto, a Rua da Palma; em São Paulo, a Rua dos Trilhos; no Recife, a Rua da Aurora; no Rio, a Rua da Quitanda. As opções são infinitas, todas muito simpáticas.

A exceção ficaria por conta de algumas dezenas de figuras excepcionais, daquelas que realmente deram notável contribuição à nação ‒ com a condição de que tenham falecido há pelo menos meio século.

Placa 1A decisão, caso a caso, seria responsabilidade de um conselho ad hoc ‒ criado para esse fim. Seria composto de uma ou duas dezenas de personalidades de bom senso, representando amplo espectro da cultura nacional.

Para evitar criar mais um cabide de emprego, o comitê não se reuniria mais que uma ou duas vezes por ano para deliberar sobre os casos pendentes. Cada componente receberia não mais que um jetom simbólico. E basta.

Sonhar custa barato.

A brasilidade em tempos de folia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que define a brasilidade aos olhos de um estrangeiro?

Futebol 3Eu diria que, se fossemos investigar há algumas décadas como outros povos conceituam nossa cidadania, três fatores seriam elencados em uníssono: futebol/Pelé, café e samba. O tempo passou, muita coisa mudou sob nosso céu de anil e outras percepções foram sendo agregadas para ajudar a formar um painel ilustrativo de nosso país varonil: exotismo tropical (sol, calor, belas paisagens de praia, campo e florestas), povo amistoso, alegre, tolerante e musical, belas mulheres desinibidas e semidesnudas, etc.

Décadas mais tarde, nuvens de chumbo passaram a cobrir os céus deste paraíso tropical e o quadro geral ganhou contornos tenebrosos para além de nossas fronteiras: o lar da corrupção, o campeão no ranking da insegurança pública, o berço das mais diversas endemias e epidemias, o abrigo de malfeitores internacionais, anão diplomático, o lugar no qual a elite é perversa e o povo é domado. Constrangedor, não é? Mas, tudo bem, deixa estar. Afinal, minha gente, é Carnaval! Vamos para a rua festejar!

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

Para os que não sabem o que isso significa no contexto do imaginário nacional, eu explico: antes de mais nada, Carnaval é o espaço da fantasia, da utopia e da autoafirmação nacional. Durante quatro dias, a pirâmide social se achata, papéis sexuais são invertidos, o machismo é suspenso temporariamente, a hipocrisia social desmancha-se no calor dos corpos em êxtase. O país todo se detém mesmerizado para assistir à deslumbrante parada de luzes e sons. Economia e política perdem totalmente seus significados. Não há “sofrência” amorosa que se sustente, não há negativismo capaz de toldar a alegria geral, não há preocupação com o futuro capaz de desbotar as cores da festa. Tudo o que se quer é que o mundo inteiro caia de joelhos diante de nossa criatividade, nossa genialidade, nossa capacidade de superação. Vira-latas são mais belos, mais resistentes, mais amorosos e mais simpáticos do que outras raças, bradamos a plenos pulmões.

Entender um brasileiro que não goste de Carnaval, que não se sinta tentado a jogar tudo para o alto e cair de boca na folia, é coisa que gringo nenhum consegue fazer. Cá para nós, também não há brasileiro que não pense que seus compatriotas avessos ao samba são ruins da cabeça ou doente dos pés. Pois bem, feliz ou infelizmente, esse é o meu caso.

Café 5Trancafiada em casa, tento fazer de conta que o mundo é normal lá fora. Ligo a televisão, ansiosa para mergulhar de cabeça em outra dimensão que exale um pouco de racionalidade, sensatez e compostura. Ledo engano! A mercadoria que você procura não está disponível no momento, alertam todas as emissoras, inclusive os assim chamados canais educativos. Talvez seja essa a época em que o pensamento único seja mais glorificado e incensado.

Nem mesmo os telejornais escapam do delírio geral. Encurtados para não atrapalhar a cobertura dos desfiles nas principais capitais, eles passam atabalhoadamente de um tema para outro, sem aprofundar nenhum. Terremoto atingiu cidade no interior de Mato Grosso? Ai, que hora mais ingrata para acontecer isso! Dilma se suicidou para evitar a cassação? Nossa, não esperava por isso, mas prometo que na Quarta-feira de Cinzas vou entrar na internet para ver os detalhes do velório e as discussões sobre quem vai ser o sucessor. O Lula assumiu que se lambuzou todo com o melaço que nunca havia comido antes e entrou para um convento franciscano, doando todos os seus bens para a caridade? Poxa, se ele tivesse feito isso antes eu ainda votaria nele! O Papa Francisco assumiu que é gay e decretou que, de agora em diante, só haverá mulheres à testa da igreja? Que bom, eu sempre achei esse cara sensacional, mesmo ele sendo argentino. O dólar foi cotado a 8 reais e a CPMF foi aprovada? Isso não me abala em nada, eu já tinha cancelado mesmo minha viagem para Miami.

Samba 3Nada ganha destaque, nada consegue prender a atenção do telespectador por mais de dois minutos. Uma vez transpostos os temas chatos do cotidiano, a mídia toda abre enormes espaços para o deslumbramento da rainha de bateria, para o escândalo causado por uma socialite que tirou toda a roupa em plena avenida, para a descontração dos blocos de rua. E dá-lhe festa.

Quem não se deu ao trabalho de assistir aos desfiles, não precisa se preocupar. Basta acessar a Internet para ver um resumo dos melhores momentos de cada escola, as fotos mais constrangedoras, as chamadas mais empolgantes do que ainda está por vir. Nas redes sociais, bem ao lado das fotos da participação doméstica na folia, comentários irados de quem dela não fez parte: Já imaginou uma multidão dessas saindo às ruas para protestar? Por que as mulheres aceitam fazer esse papel? Depois se queixam da violência…

Carnaval 1Quer um conselho? Não tente entender nem explicar nada, nem para os moralistas de plantão nem para os estrangeiros atônitos. Somos secularmente o país da improvisação. Depois damos um jeito de colocar a casa em ordem de novo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O embaixador e o banco

José Horta Manzano

Desastres raramente são fruto de causa única. Uma sequência de más decisões, aliadas a erros e apimentadas com inabilidade: está aí a melhor receita para um fracasso anunciado.

Quando o primeiro-ministro de Israel anunciou, em mensagem pelo tweeter, que um certo senhor Dayan tinha sido escolhido para ocupar o cargo de embaixador de seu país em Brasilia, cometeu o primeiro erro. Os sutis códigos diplomáticos recomendam que o Estado que vai receber o emissário seja avisado em primazia.

Tweeter 1O fato de o designado embaixador ser ativista na causa da implantação de colônias em território ocupado não agradou ao governo brasileiro. O Brasil, como a maioria dos países, não abraça essa política de colonização. Ao ser oficialmente notificada, Brasília respondeu com um longo silêncio que, na linguagem da diplomacia, significa desaprovação.

A coisa poderia ter terminado por aí. Ao dar-se conta da recusa, as autoridades israelenses podiam ter proposto outro nome. Teriam evitado constrangimento maior e a coisa teria passado batida, sem repercussão. Mas a série de más decisões continuou. O primeiro-ministro Netanyahu, conhecido por ser cabeçudo, recusou-se a retirar o nome do indicado.

Knesset - parlamento israelense

Knesset – parlamento israelense

Por seu lado, senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, fazendo jus ao histórico de trapalhadas que o caracteriza, houve por bem tornar pública a desavença. A partir daí, o caso assumiu proporções de escândalo internacional. Cada um se sentiu no direito de dar opinião. Jornais daqui e de lá argumentaram, comentaram e palpitaram. Qualquer desfecho que se desse ao caso frustraria uma das partes.

O quotidiano The Jerusalem Post, em editorial sensato e equilibrado, conta a história e dá a receita para um final suave. Propõe que senhor Dayan, rejeitado por Brasília, seja designado para o prestigioso posto de cônsul-geral em Los Angeles. O fato de esse senhor, que passou a infância na Argentina, falar castelhano é trunfo importante na California, onde reside importante contingente de origem hispano-americana.

Diz ainda o jornal que as relações de Tel Aviv com Brasília são demasiado importantes para serem perturbadas por essa queda de braço. Propõe que Israel envie ao Brasil um diplomata de carreira, afastado de correntes políticas. E completa lembrando que nosso país ‒ sétima ou nona economia do mundo, segundo o método de cálculo ‒ representa mercado importante para Israel. As relações bilaterais devem permanecer acima de querelas menores. Para coroar, a comunidade judaica brasileira conta com 120 mil membros, número significativo.

Banco 10Quando estourou a crise financeira sete anos atrás, o UBS, o maior banco suíço, balançou. Sob o argumento de que aquele estabelecimento era «too big to fail»grande demais para ir por água abaixo, o governo suíço injetou a respeitável quantia de dois bilhões de dólares para evitar a catástrofe.

O Jerusalem Post adapta o raciocínio ao caso do embaixador. Diz que «the Brazil relationship is too important to lose»as relações com o Brasil são importantes demais para serem postas a perder. Sosseguemos. Solução virá e, por certo, não vai custar dois bilhões de dólares.

Jogo dos sete erros

José Horta Manzano

Segunda-feira de Carnaval. Na redação do jornal, saíram todos: chefe, subchefe, vice-chefe, auxiliar do chefe. Nem o pretendente a chefe ficou. Sobrou para os estagiários.

Jacques, gaúcho trilegal e leitor fiel do blogue, costuma prestar atenção ao que lê na mídia. Ficou ‘estarrecido’ ‒ como costuma dizer aquela em quem vocês estão pensando ‒ com o que encontrou. A edição gaúcha do G1 traz uma coleção de fazer inveja.

Alguns são modismos, outros são imprecisões, outros, ainda, erros primários. A Pátria Educadora continua arreganhando os dentes. Cariados.

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2016-0208-04 G1 RSEstado (da Federação) pede letra maiúscula.

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2016-0208-03 G1 RSFazer foto? Soa esquisito. Este blogueiro é do tempo em que ninguém “fazia” foto. Foto se tirava.

Interligne 28a2016-0208-02 G1 RSÉ irritante ver o verbo seguir usado como sinônimo de continuar. Seguir sugere algum movimento: seguir em frente, seguir alguém, seguir um desfile. No presente caso, o barco está imóvel debaixo d’água há dez dias. Seguir não serve. Substitua-se por continua, permanece, está, perdura, mantém-se.

Interligne 28a2016-0208-07 G1 RSComo todo nome próprio, Carnaval, que é nome de festa, pede inicial maiúscula.

Interligne 28a2016-0208-01 G1 RSNão contente com o sumiço do til, o escriba transformou o feriado numa ferida. Uma grande ferida. Um feridão!

Interligne 28a2016-0208-05 G1 RSNuma curta chamada, três reparos.
Primeiro: não se ateia fogo em, ateia-se fogo a.
Segundo: o cobrador não foi ferido após o assalto, mas no assalto.
Terceiro: dizer que o suspeito fugiu com o dinheiro é exagerar no politicamente correto. Não se pode dizer assaltante? Ou será que tem de esperar que o processo transite em julgado?

Interligne 28a2016-0208-06 G1 RSPronto, aqui está a cereja em cima do bolo. O termo óculos, redução da expressão par de óculos, é plural. Sempre. Os linguistas chamam a esse fenômeno pluralia tantum. Não se assuste. Diga os óculos, meus óculos, seus óculos. Vai acertar.

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