Jerusalém x Tel-Aviv

José Horta Manzano

Em matéria de política externa (mas não só), o lulopetismo é contrarreferência. Para acertar, basta fazer o contrário do que fizeram eles. Se foram, convém não ir. Se ficaram, é bom afivelar malas e partir rápido. Agir assim é a melhor receita pra atingir o alvo.

Uma das gafes mais sonoras de Lula da Silva ‒ memorável vexame ‒ foi a desastrada tentativa de interferência no nó do Oriente Médio. Ao forçar a entrada de um lugar onde não tinha sido chamada, a trôpega diplomacia petista acabou se pondo mal com todos os envolvidos. Não resolveu problema nenhum e, humilhada, teve de recolher-se à própria insignificância.

A embrulhada médio-oriental é angu de caroço. Interesses conflitantes, irreconciliáveis e às vezes incompreensíveis se embolam num balaio de gatos. Pra quem é de fora, mais vale dar um sorrisinho, cumprimentar a todos educadamente, mas permanecer longe, equidistante de cada um.

Itamaraty, Brasília

Doutor Bolsonaro anunciou que tenciona transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Não sei o que é que o terá levado a essa ideia inoportuna. Num vespeiro daqueles, a melhor atitude a tomar é deixar como está. Toda ação, ainda que simpática a uns, será tomada como agressão por outros. Não vale a pena forçar a barra.

Desde que Mr. Trump anunciou a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, seu gesto foi seguido por um único país: a Guatemala ‒ por mistérios insondáveis, diga-se. Por que raios o Brasil tem de seguir por esse caminho pedregoso? Doutor Bolsonaro pode até sentir vontade de deslocar a embaixada, mas o Estado brasileiro não tem interesse nisso.

Ainda há tempo de minorar o efeito negativo do anúncio. Doutor Bolsonaro pode, por exemplo, ir adiando a transferência da embaixada até o dia de São Nunca. Não dá pra reparar o mal causado pelo anúncio, mas o tempo atenua o impacto.

Quanto a futuras decisões em negócios internacionais, o novo presidente deveria guardar sempre em mente, como um mantra: se o PT fez, não farei; se o PT não fez, faço rápido.

A única arma

José Horta Manzano

A sobriedade ‒ qualidade esplêndida ‒ é um dos atributos que mais dignificam um homem político. É marca certeira daquele que tem confiança nos próprios gestos e palavras. É traço distintivo dos que não precisam vociferar nem ameaçar. Ah, como tem feito falta ultimamente…

No Brasil, o que se vê é deprimente. Ex-presidentes berrando ameaças sem conseguir alinhavar pensamentos nem dizer coisa com coisa. Deputados, senadores, magistrados e integrantes de altas esferas dando pronunciamentos agressivos, ofensivos, intimidantes. Quanto menos têm a dizer, mais gritam. É sintomático.

Não só no Brasil é assim. Outras partes do mundo sofrem do mesmo mal. Os Estados Unidos, por exemplo, já estão há um ano sendo presididos por um senhor cuja qualidade principal não é exatamente o comedimento. Ainda estes últimos dias, mostrando que não se dá conta da fragilidade do equilíbrio que rege o balé das nações, tornou pública sua decisão de transferir a embaixada americana em Israel de Tel-Aviv a Jerusalém.

Muçulmano
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Em si, a mudança de endereço não altera uma palha na borbulhante situação da região. Cada contendor continuará a seguir o caminho de sempre. O ódio mútuo que nutrem permanecerá, nem maior nem menor. No fundo, quem mais tem a perder com o estrepitoso anúncio do presidente parlapatão são os EUA.

Ao pôr-se deliberadamente à margem do resto do mundo, contribuem para o isolamento do próprio país. Espicaçam, de resto, a animosidade de que já são objeto de parte de muita gente. Ao demonstrar parcialidade, demitem-se do papel de mediadores privilegiados e favorecem o aumento da importância política de outros atores. Um furo n’água.

Pode-se apreciar ou não o antigo presidente Barack Obama. Ninguém pode negar, no entanto, a sobriedade e o comedimento do homem, virtudes que espalham tranquilidade e confiança. Ao deixar a presidência, Mister Obama se propôs a não intervir nem comentar os atos do novo presidente. Mas Mister Trump é parada dura. Nem quem tem sangue de barata consegue aguentar calado.

Faz alguns dias, Obama deu palestra num encontro em Chicago. Sem citar nem uma vez o nome do sucessor, disparou flechas em sua direção. Lembrou que a democracia não deve ser considerada direito adquirido automático e imutável. Para despertar a consciência do auditório, usou a imagem de um hipotético salão de baile na Viena do final dos anos 1920. A magia da música levava a acreditar que o rodopio dos casais era sem fim, uma felicidade perpétua. Ninguém podia prever que, dali a poucos anos, a democracia desapareceria e a hecatombe da guerra ceifaria 60 milhões de vidas.

Tweet ‒ Nuclear
by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

A advertência do ex-presidente americano vale para o Brasil. Que ninguém tome o atual período democrático por garantido e eterno. Basta muito pouco para fazer o país resvalar ladeira abaixo. No andar de cima, há muita gente fazendo o que pode para enterrar a Lava a Jato a fim de escapar da cadeia. No andar de baixo, ainda há muito ingênuo achando que é muito engraçado votar no Tiririca, no Eneas ou no Cacareco. É a receita do cruz-credo.

Acordai, cidadãos! Temos uma única arma: o voto. Se soubermos manejá-la com engenho, temos uma chance de nos salvar. Uma só.

O embaixador e o banco

José Horta Manzano

Desastres raramente são fruto de causa única. Uma sequência de más decisões, aliadas a erros e apimentadas com inabilidade: está aí a melhor receita para um fracasso anunciado.

Quando o primeiro-ministro de Israel anunciou, em mensagem pelo tweeter, que um certo senhor Dayan tinha sido escolhido para ocupar o cargo de embaixador de seu país em Brasilia, cometeu o primeiro erro. Os sutis códigos diplomáticos recomendam que o Estado que vai receber o emissário seja avisado em primazia.

Tweeter 1O fato de o designado embaixador ser ativista na causa da implantação de colônias em território ocupado não agradou ao governo brasileiro. O Brasil, como a maioria dos países, não abraça essa política de colonização. Ao ser oficialmente notificada, Brasília respondeu com um longo silêncio que, na linguagem da diplomacia, significa desaprovação.

A coisa poderia ter terminado por aí. Ao dar-se conta da recusa, as autoridades israelenses podiam ter proposto outro nome. Teriam evitado constrangimento maior e a coisa teria passado batida, sem repercussão. Mas a série de más decisões continuou. O primeiro-ministro Netanyahu, conhecido por ser cabeçudo, recusou-se a retirar o nome do indicado.

Knesset - parlamento israelense

Knesset – parlamento israelense

Por seu lado, senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, fazendo jus ao histórico de trapalhadas que o caracteriza, houve por bem tornar pública a desavença. A partir daí, o caso assumiu proporções de escândalo internacional. Cada um se sentiu no direito de dar opinião. Jornais daqui e de lá argumentaram, comentaram e palpitaram. Qualquer desfecho que se desse ao caso frustraria uma das partes.

O quotidiano The Jerusalem Post, em editorial sensato e equilibrado, conta a história e dá a receita para um final suave. Propõe que senhor Dayan, rejeitado por Brasília, seja designado para o prestigioso posto de cônsul-geral em Los Angeles. O fato de esse senhor, que passou a infância na Argentina, falar castelhano é trunfo importante na California, onde reside importante contingente de origem hispano-americana.

Diz ainda o jornal que as relações de Tel Aviv com Brasília são demasiado importantes para serem perturbadas por essa queda de braço. Propõe que Israel envie ao Brasil um diplomata de carreira, afastado de correntes políticas. E completa lembrando que nosso país ‒ sétima ou nona economia do mundo, segundo o método de cálculo ‒ representa mercado importante para Israel. As relações bilaterais devem permanecer acima de querelas menores. Para coroar, a comunidade judaica brasileira conta com 120 mil membros, número significativo.

Banco 10Quando estourou a crise financeira sete anos atrás, o UBS, o maior banco suíço, balançou. Sob o argumento de que aquele estabelecimento era «too big to fail»grande demais para ir por água abaixo, o governo suíço injetou a respeitável quantia de dois bilhões de dólares para evitar a catástrofe.

O Jerusalem Post adapta o raciocínio ao caso do embaixador. Diz que «the Brazil relationship is too important to lose»as relações com o Brasil são importantes demais para serem postas a perder. Sosseguemos. Solução virá e, por certo, não vai custar dois bilhões de dólares.