Foguetes maranhenses

José Horta Manzano

Cada um usa os trunfos que tem. Se não usar, estará dormindo no ponto. E olhe que tem gente tirando soneca profunda. Desde que os russos ‒ então conhecidos como soviéticos ‒ tomaram a dianteira na corrida espacial ao lançar o Sputnik em 1957, uma luzinha vermelha acendeu no painel dos países mais avançados. Se eles podem, nós também, uai!

Na época, a competição só tinha mais um participante: os EUA. De lá pra cá, meia dúzia de países se aventuraram na empreitada. O clube, assim mesmo, continua seletíssimo. A França veio logo em seguida. Já no início dos anos 60, montou um centro de lançamento de foguetes no desértico sul da Argélia, então colônia francesa. A China, a Índia e até a misteriosa Coreia do Sul têm feito o que podem para acompanhar os pioneiros.

Um fator constante salta aos olhos. Todos escolheram sítio de lançamento próximo da linha do Equador. Próximo é maneira de dizer, que cada um fez o que pôde. A URSS, situada longe dos trópicos, instalou-se em Baikonur, no Cazaquistão, a uma latitude de 45°, um dos pontos mais ao sul de seu território. Os americanos deram preferência à Florida, estado mais meridional do país. Estabeleceram-se no Cabo Cañaveral(*), a 28,5° de latitude. A França, que se tinha instalado no sul da Argélia, a 31° de latitude, ficou de mãos abanando ao perder a colônia. Depois de estudar diferentes possibilidades, transferiu o centro espacial para Curu (Kourou), na Guiana Francesa, praticamente na linha do Equador.

E por que é que todos procuram se aproximar do Equador? É fácil entender. A Terra gira de oeste para leste. Para aproveitar o impulso dado pela própria rotação do globo, todo foguete é lançado em direção ao leste. A velocidade de rotação da Terra ‒ conhecida na física como velocidade tangencial ‒ é tanto mais elevada quanto mais próximo se está do Equador.

Base de Alcântara, Maranhão

Portanto um foguete lançado da região equatorial requer menos combustível para o arranque. Calcula-se que, em comparação com Cabo Cañaveral, utiliza-se 15% de combustível a menos para obter o mesmo desempenho. É considerável. Eis uma das razões pelas quais a Agência Espacial Europeia tem tanto sucesso com a base francesa da Guiana. Até foguetes russos são lançados de lá.

No tempo dos generais, o Brasil se deu conta de que contamos com esse trunfo: o Equador corta nosso território. Desde 1983, foi instalado um centro de lançamento em Alcântara, no Estado do Maranhão, a 2° de latitude. Uma tragédia ocorreu em 2003, quando uma explosão acidental matou mais de 20 técnicos e cientistas, e acabou freando o projeto.

Passaram-se 14 anos. Foram justamente anos em que as preocupações do andar de cima estavam focalizadas em outros assuntos. Lançamento de foguete não costuma gerar propina, que fazer? O projeto foi sendo empurrado com a barriga. E olhe que a localização do sítio é ideal. Fica praticamente no Equador, em região de clima estável, não sujeita a furacões nem a terremotos. Além disso, a linha costeira é orientada de norte a sul, com o mar a leste. Dado que os foguetes são lançados em direção ao oceano, o risco de caírem acidentalmente sobre zona habitada é praticamente nulo.

Cañaveral: campo de caniços
crédito: wikipedia

Com esse trunfo, é difícil entender por que razão a base ficou até hoje sem utilização comercial. Li esta semana que os EUA estão interessados em utilizar as instalações. Alvíssaras! A negociação terá de ser conduzida com perspicácia. Há que se evitar, a todo custo, a implantação de uma espécie de Guantánamo, que escape à soberania nacional. Obtidas as garantias, o resto é lucro. Que venham logo lançar satélites a partir do Maranhão. Só temos a ganhar.

(*) Cañaveral é palavra de origem castelhana. Designa um campo coberto de caña vera, planta nativa cujo nome científico é Phragmites australis. Na nossa língua, dizemos caniço. Cañaveral é um caniçal, se é que nos podemos exprimir assim.

Lição de Psicanálise

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Assistindo ontem ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em que se debatia o projeto anticorrupção aprovado recentemente na Câmara dos Deputados, vi-me forçada a relembrar muitos dos sábios ensinamentos do pai da Psicanálise.

Quando você se depara com um comportamento bizarro, aparentemente sem sentido e cuja motivação lhe escapa, não se deixe abater. Controle por alguns segundos a sensação de que sua mente é obtusa e lembre-se: Freud explica. Tudo. Sempre. Se não parece explicável sob nenhum ângulo, é porque você ainda não absorveu inteiramente o arcabouço teórico do genial mestre.

Com um pouco de paciência para estudar a obra freudiana, você descobrirá que, dentre os mecanismos de defesa do ego propostos por ele, há um particularmente curioso chamado de “formação reativa”. O conceito é complexo, denso, cheio de meandros teóricos, mas pode ser fácil e rapidamente compreendido quando se dá um exemplo.

falar-em-publicoImagine que você tem pavor de falar em público. Só a simples ideia de que terá de se levantar, dirigir-se ao centro da sala, encarar as pessoas sentadas à sua frente e apresentar suas ideias de forma concatenada já é suficiente para detonar uma série de reações orgânicas de desconforto. Suas pernas bambeiam, suas mãos ficam trêmulas e úmidas, sua boca seca, sua voz falha e sai como um sussurro, assumindo por vezes um tom esganiçado.

Você sente que, para não ter de passar pela situação, seria capaz de fazer qualquer coisa. Ao mesmo tempo, sabe que não há escapatória. Todos serão chamados a falar, é só uma questão de tempo para que seu nome seja anunciado. Sua ansiedade extravasa e bloqueia sua mente. Não conseguindo suportá-la por mais tempo, você se voluntaria para ser o primeiro da fila.

Estranho, não é mesmo? Por que alguém aceitaria fazer o exato oposto do que está sendo pedido em seu íntimo? A explicação, no entanto, é simples: literalmente qualquer coisa é melhor para a preservação de sua saúde psíquica do que suportar a ansiedade. Sendo o primeiro, você se livra rapidamente da tensão e pode se preparar emocionalmente para responder a eventuais dúvidas ou contestações.

O exemplo mais emblemático de formação reativa no cenário político brasileiro recente é o que acometeu o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Para quem não lembra, o ex-deputado optou por depor espontaneamente numa CPI, ocasião em que declarou enfaticamente não possuir contas no exterior. Deu no que deu.

roda-viva-1Voltando ao debate no Roda Viva, estava presente o deputado maranhense responsável pela apresentação da emenda sobre o abuso de autoridade de magistrados e membros do Ministério Público. Acuado por comentários irados dos demais debatedores, ele deu início a suas explicações de peito estufado e voz firme, tecendo comentários vagos a respeito da coragem que teve para se opor ao clã Sarney em seu estado natal e relembrando um pacto assinado em 2009 entre o Executivo e o Legislativo para reformular a lei de abuso de autoridade, que data do período de ditadura militar. Foi recebido com um silêncio sepulcral.

Na sequência, um respeitado jurista fez questão de ler cada uma das 10 medidas contra a corrupção descartadas no substitutivo aprovado e concluiu enfático: “Isso é um estelionato legislativo, um verdadeiro projeto de facilitação e institucionalização da corrupção”.

Várias mensagens de apoio à fala do jurista começaram a chegar através das redes sociais. O deputado maranhense tentava se defender das acusações, mas não conseguia deixar de gaguejar e tremer. Foi então que um advogado se mostrou solidário à emenda do deputado. Elencou vários dos erros cometidos pela Operação Lava Jato e exigiu respeito à Constituição, argumentando que “ninguém está acima da lei”. Mais uma vez, a tela foi inundada por comentários de apoio dos telespectadores.

Logo depois, foi a vez de uma procuradora do Ministério Público falar. Fazendo menção às quase 2 milhões e 400 mil assinaturas coletadas, ela lembrou que várias das 10 medidas propostas haviam sido “importadas” de outros países democráticos e, algumas, recomendadas pela ONU. Ao final, sugeriu sem sutileza alguma que a intenção do “nobre deputado” só podia ser a de intimidar juízes e promotores, numa tentativa de autodefesa de parlamentares investigados por corrupção. Milhares de comentários indignados com a safadeza de membros do parlamento foram recebidos.

peticao-1Minha sensação de pasmo ao ouvir as teses apresentadas podia ser resumida pelo ditado popular que afirma que “em casa em que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. Não me escapava a impressão de que todos os lados da polêmica haviam recorrido inconscientemente a mecanismos de defesa. Tudo pairava no plano da “nobreza” das intenções declaradas para os próprios projetos em contraste com a suspeição quanto às “intenções ocultas” dos projetos alheios.

Freud deve ter se revirado na tumba várias vezes e se arrependido de ter formulado o conceito de motivações psíquicas inconscientes. Provavelmente, pensei eu já em meio à minha própria formação reativa, estaríamos pisando em terreno mais seguro caso fosse convocada uma Assembleia Constituinte fora do congresso e implantadas novas regras para a escolha de nossos representantes. É, concluí, Sartre estava mesmo certo: o inferno, decididamente, são os outros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Minha casa, meu barraco

José Horta Manzano

Vi ontem uma foto aérea de um conjunto habitacional versão «Minha casa, minha vida». Fica em Imperatriz, no Estado do Maranhão. Que tristeza, minha gente!

Imagem Estadão, 16 jul° 2016

Imagem Estadão, 16 jul° 2016

A panorâmica mostra cerca de mil residências, todas rigorosamente iguais, alinhadas como num acampamento de refugiados de guerra. A cor ocre é uniforme. O verde simplesmente não existe, o que dá ao conjunto um aspecto lunar. Não há o esboço da suspeita do rascunho de um arbusto.

A gente fica na dúvida se o espetáculo melancólico é fruto de falta de imaginação ou de descaso. Fica a desagradável impressão de que, na cabeça de quem projetou aquele horror, está a certeza de que «pra quem é, goiabada basta». Nos tempos de antigamente, costumava-se usar esse refrão pra avisar que, pra receber visita simples, humilde e de baixa extração, ninguém precisava vestir roupa de domingo.

by Charles Samuel Addams (1912-1988), desenhista americano

by Charles Samuel Addams (1912-1988), desenhista americano

Será que os brilhantes idealizadores do projeto não são capazes de bolar, digamos, meia dúzia de diferentes modelos de habitação? Que tenham todos a mesma área, pouco importa. Mas que tenham pequenas variações e que sejam misturados aleatoriamente, nem que seja pra quebrar esse aspecto de acampamento militar. Variar a cor das fachadas tampouco sai mais caro. O custo de tinta verde não deve ser muito diferente do custo de tinta amarela, azul ou cor de abóbora.

Fica a impressão de obra feita de má vontade, pra cumprir tabela. Pra quem é, goiabada basta.

Ai, que preguiça…

José Horta Manzano

Há de ser birra minha, porque errado não é. Assim mesmo, continuo pasmo com o fato de numerosos escrevinhadores ‒ falo de profissionais ‒ não se preocuparem em fugir da rotina e do ramerrão. Gente de jornal, cujo escrito atingirá milhares de leitores, parece não estar nem aí, como se usa dizer.

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Compreendo que dá menos trabalho copiar ‒ ou, digamos, reproduzir ‒ o que já vem pronto. Pra que fazer se é tão mais prático comprar feito, não é?

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

O Brasil viveu, neste 9 de maio, mais um dia de república bananeira. Confirmamos, a cada dia mais, a veracidade do conceito que imaginávamos definitivamente banido: «O Brasil não é um país sério». Não se sabe direito quem lançou essa desagradável expressão. Seja quem for, havemos de convir que não estava longe da verdade.

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Voltando à preguiça dos que escrevem, reparei na manchete principal da mídia na manhã desta terça-feira. Uma sensaboria. Quase tudo igual.

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

O Estadão (SP), a Folha (SP), O Tempo (BH) usaram os verbos recuar, revogar e anular. A Gazeta do Povo (PR) e Zero Hora (RS) contentaram-se com revogar e anular. Mais econômico, O Globo (RJ) limitou-se a anular.

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

O riquíssimo Dicionário Aulete online ‒ de acesso gratuito, aberto a todos ‒ propõe mais de 800 mil verbetes. A linguagem repetitiva não se deve, portanto, a eventual pobreza vocabular da língua. Continuo acreditando que o problema maior é a preguiça. De quem escreve e de quem supervisiona.

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Vários verbos podem substituir recuar(1): voltar atrás, retratar-se, reconsiderar, abandonar, retrogredir, retroceder, fugir, ceder, desistir, recolher-se, reverter, retroagir, retrogradar, rever, retrosseguir, retrair-se. Há outros, basta procurar.

O mesmo vale para revogar. Conforme o caso, pode ser substituído por: extinguir, cancelar, abolir, eliminar, anular, suprimir, afastar, proscrever, retirar, apagar, subtrair, remover, abandonar, abortar, revocar, cassar.

Interligne 18cCulotte 3Curiosidade etimológica
A gente nem sempre se dá conta, mas algumas palavras de uso corrente derivam de raiz tabuística, daquelas que a gente não pronuncia na frente de senhoras de fino trato.

Falo de recuar, acuar, cueca, cueiro, culote. São todas derivadas de cu. Surpreendente, não?

Nome de rua

José Horta Manzano

Decisão sensata foi tomada pelo governador do Maranhão. Cumprindo promessa de campanha, regulamentou a atribuição de nome a logradouros públicos.

decreto, assinado no começo deste ano, aplica-se a todo o Estado e proíbe emprestar nome de pessoa viva a bem público de qualquer natureza. A interdição abrange ruas, praças, avenidas, viadutos, becos, esplanadas, bulevares, caminhos, estradas, rodovias. Atinge também prédios públicos, estações rodoviárias, escolas, hospitais públicos & assemelhados.

Placa 16É verdade que a invasão de nomes ligados ao clã de José Ribamar, dito Sarney, tornou-se escandalosa no simpático Estado nordestino. Convenhamos: vaidade e autoincensamento têm limite, sob risco de chegarmos ao ridículo de autocracias de segunda linha, como a Coreia do Norte ou o Haiti dos Duvalier.

Placa 15O decreto se estende a figuras ligadas à mais recente ditadura militar, aquela que finou em 1985. Dado que o governador é afiliado ao Partido Comunista, a rebarba é compreensível. Mais difícil é compreender por que razão nomes que evocam outras ditaduras mais antigas não são contemplados pela proibição. Ditadura por ditadura, se Castelo Branco & companhia estão banidos, Getúlio Vargas & confrades também deveriam estar. Afinal, sob ambos os regimes, o partidão esteve fora da lei.

Passando por cima do rancor seletivo, a decisão é digna de aplauso e tem direito a ser espichada além das divisas maranhenses. A interdição merece ser objeto de lei federal, de abrangência nacional.

Placa 3Dependesse de mim, iria até mais longe. Mesmo entre os mortos, nem todos fizeram por merecer figurar em placa de rua. Melhor mesmo seria excluir nome de gente. Tem muito nome mais interessante pra ser utilizado. Animais, rios, países, poemas, nomes abstratos, frutas, profissões e ofícios, flores, acidentes geográficos, árvores estão à disposição.

Em Lisboa, temos a Rua das Janelas Verdes; no Porto, a Rua da Palma; em São Paulo, a Rua dos Trilhos; no Recife, a Rua da Aurora; no Rio, a Rua da Quitanda. As opções são infinitas, todas muito simpáticas.

A exceção ficaria por conta de algumas dezenas de figuras excepcionais, daquelas que realmente deram notável contribuição à nação ‒ com a condição de que tenham falecido há pelo menos meio século.

Placa 1A decisão, caso a caso, seria responsabilidade de um conselho ad hoc ‒ criado para esse fim. Seria composto de uma ou duas dezenas de personalidades de bom senso, representando amplo espectro da cultura nacional.

Para evitar criar mais um cabide de emprego, o comitê não se reuniria mais que uma ou duas vezes por ano para deliberar sobre os casos pendentes. Cada componente receberia não mais que um jetom simbólico. E basta.

Sonhar custa barato.

Formalismo estúpido

José Horta Manzano

Erros acontecem, é da vida. Já me aconteceu ir à farmácia, receita em punho, e ouvir do farmacêutico algo do tipo «Mas qual é a dosagem do remédio? Vinte ou quarenta miligramas?» É quando o médico, distraído, se esquece de que aquele remédio é vendido em dosagens diferentes.

Remedio 1Na incerteza, que faz o farmacêutico? Pede-me que aguarde um instante, vai até o escritório que fica a dez passos do balcão, pega o telefone e liga para o consultório médico. Identifica-se e expõe a dúvida. Dez vezes em dez, recebe a resposta na hora. Em menos de dois minutos, a dúvida está esclarecida. O farmacêutico volta então ao balcão tendo já nas mãos o remédio. Pago a conta, levo o produto e o problema termina ali. Sem mortos nem feridos.

Li ontem estonteante notícia no jornal. Aconteceu no Maranhão estes dias. Ao não conseguir decifrar o que estava escrito na receita, o atendente da farmácia recusou-se a servir o cliente. Despachou-o de volta ao galeno exigindo que trouxesse prescrição legível. Irritado, o médico se excedeu. Reescreveu a receita acrescentando insultos: tratou o farmacêutico de imbecil e de analfabeto.

Receita 1Nessa altura, quem se enfezou de vez foi o paciente. Fez chegar o acontecido à imprensa causando alarido. O irrespeitoso comportamento pode custar ao médico uma sanção. Deveria render um puxão de orelhas ao farmacêutico também. A notícia não diz se, ao final, o paciente conseguiu receber a medicação. Fica só a certeza de ter sido inutilmente maltratado, jogado de lá pra cá como se marionete fosse.

Farmacia 1Por que tudo isso? De onde vem essa agressividade que, longe de resolver, agrava situações e arma conflitos? É difícil apontar causa única, que é fruto de um conjunto de fatores. Intolerância, soberba, arrogância, visão corporativista, baixa instrução se misturam. É flagrante o menosprezo pelo cliente que é, no fim das contas, justamente quem sustenta médico e farmacêutico.

Falta, acima de tudo, educação básica. Pra corrigir, é necessário percorrer longo caminho. Se começarmos hoje, só daqui a uma ou duas gerações nossa sociedade terá começado a aprender a viver em harmonia. Todo caminho, por mais longo que seja, começa com o primeiro passo.

Com incentivo do governo federal, que persiste em compartimentar os brasileiros em categorias estanques, antagônicas e adversárias, ainda estamos longe de dar esse primeiro passo. Por enquanto, tentamos sobreviver na selvageria primitiva do nós contra eles”.

De mentirinha

José Horta Manzano

Como ocorreu nas demais unidades federadas, o eleitorado maranhense votou, domingo passado, para escolher novo governador. Ganhou um certo senhor Flávio Dino de Castro e Costa, sorridente advogado de 46 anos. E ganhou bem: abocanhou 63% dos votos válidos. Foi aclamado por dois em cada três eleitores.

Até aí, morreu o Neves. Que ninguém veja aqui alusão ao candidato à presidência da República. Estou usando expressão bem-educada para substituir o grosseiro «e daí?».

Lenin 2A mídia toda deu destaque ao fato de o novo governador ter desbancado o clã Sarney, que dominava e assombrava a governança estadual havia quarenta anos. Mandou pra aposentadoria o capo e tutta la famiglia. Bravo!

Em meio aos festejos, poucos prestaram atenção ao partido ao qual o recém-eleito é afiliado. Afinal, na algaravia das 32 legendas(!) registradas no TSE, não há cristão que ache seu caminho. Pois o moço é membro do… PC do B – o Partido Comunista do Brasil.

Tive a curiosidade de dar uma espiada nos estatutos do PC do B. Ele prega a «luta contra a exploração e opressão capitalista e imperialista». Vai mais longe: «[o partido] tem como objetivo superior o comunismo». Os estatutos nomeiam e louvam Marx, Engels e Lênin. E se propõem chegar ao comunismo através de um primeiro estágio – o «socialismo científico» – seja lá o que isso signifique. Está tudo preto no branco, pode conferir.

O novo governador é bem-nascido. Advogado, filho de advogados, já foi juiz federal durante 12 anos. Entrou na política relativamente tarde, quando já tinha 38 anos de idade. Sua ascensão foi rápida.

Eleito, seu discurso de vitória incluiu banalidades como «enfrentar a corrupção», «fazer um governo bom, simples, com os pés no chão», «tirar nosso Estado das páginas policiais». Declarações que cairiam bem na boca de qualquer político.

Longe de mim acusar esse senhor de falsidade ideológica. Mas custa crer que, no Brasil, em pleno século XXI, um homem maduro, aparentemente instruído, formado e experiente ainda possa comungar na cartilha comunista. Alguma coisa está fora de lugar.

Reuniao trabalho 1Fica no ar a impressão de divórcio consumado entre estatuto de partido e motivação de afiliado. O Partido Comunista não é necessariamente composto por comunistas. A recíproca é verdadeira: os comunistas – se é que sobrou algum – não estão necessariamente afiliados ao Partidão.

Partido político, hoje em dia, está mais pra balcão de negócios do que para caldeirão ideológico. São clubes de mentirinha.

Nome de gente

José Horta Manzano

A Europa e a Ásia são regiões habitadas há muito tempo. Agrupamentos humanos estabelecidos há milênios deram nascimento às cidades atuais. Com pouquíssimas exceções, os vilarejos e as cidades levam nomes tradicionais cuja origem se perde na poeira do passado.

Alexandria, Egito

Alexandria, Egito

As raríssimas exceções ficam por conta de nomes tais como Alexandria (homenagem a Alexandre, o Grande), Leningrado, El Ferrol del Caudillo, Stalingrado. Estas três últimas, aliás, após a queda do homenageado, livraram-se da artificialidade de carregar um nome inventado.

Assim, Leningrado voltou a ser São Petersburgo. Na Espanha, El Ferrol del Caudillo alforriou-se do ditador e passou a assinar O Ferrol. E Stalingrado, à beira do Rio Volga, adotou nome sugestivo: Volgogrado.

No continente americano, a coisa funciona de outra maneira. Especialmente no que é hoje nosso país, o povoamento autóctone não seguia o mesmo padrão do colonizador. Não havia nenhuma cidade. Os agrupamentos humanos eram de pequena importância. Vilas e cidades foram surgindo com a colonização, e seu batismo ficou a critério dos fundadores.

Em alguns casos, a toponimia tupi foi respeitada. Em outros, funcionou a criatividade dos fundadores. Característica dos países americanos em geral e do nosso em particular é o costume de darmos a cidades nome de gente. A mim, parece uma tremenda falta de imaginação. Essa prática deveria ser proibida por lei.

Edison Lobao

Clique na foto para ler o artigo da Folha

A Folha de São Paulo tirou do fundo do baú a história de um povoado do Maranhão profundo que teve sua denominação tradicional alterada 20 anos atrás ao desmembrar-se de Imperatriz. Sem que os habitantes fossem consultados, o novo município perdeu a tradicional e poética denominação de Ribeirãozinho. Sapecaram-lhe o nome do figurão que acabava de cumprir seu mandato de governador do Estado. Dizem as más línguas que a razão dessa enormidade é o fato de o figurão ser chegado ao clã Sarney. Seja como for, era personagem vivo, em carne e osso. Por sinal, ainda vive.

Se alguém achou absurdo, vai-se encantar com a ironia da situação atual. O governador que emprestou seu nome ao município vive hoje em Brasília, onde ocupa o cargo de Ministro de Minas e Energia. Pois fique sabendo, distinto leitor, que certos distritos da cidadezinha que leva seu nome… não dispõem de energia elétrica.

Se não fosse dramático, seria até engraçado.

Rapidinha 11

José Horta Manzano

Coincidência
Num único artigo, a Folha de São Paulo nos brinda hoje com um pequeno relato surrealista. O primeiro parágrafo se refere a uma ilha da fantasia, um lugar de abundância, felicidade e despreocupação. O último descreve um universo sórdido ― mas real ― feito de calabouços e de seres que ainda vivem na idade das trevas.

Ambos os fragmentos relatam realidades banais no Estado do Maranhão.

Interligne vertical 10Primeiro extrato
«O governo do Maranhão adiou as licitações para compra de alimentos para as duas residências oficiais. Os novos pregões não têm data para acontecer. Em meio ao caos em presídios, o Estado previa gastar R$ 1 milhão para alimentar a família Sarney e seus convidados até o fim do ano.»

Segundo extrato
«A Folha visitou um dos presídios superlotados de São Luís. São cerca de 200 homens, o dobro da capacidade. A comida dos presos se limita a arroz e galinha crua. Uma chapa no chão da cadeia funciona como fogão para os presos terminarem de cozinhar o frango para conseguir comer.»

Deve clicar aqui quem quiser conhecer as minúcias da sóbria lista de compras da governadora do Maranhão.

PS: É de perguntar quem é que vive na idade das trevas ― os do andar de cima ou os do andar de baixo?

Stop novelas, please!

José Horta Manzano

Tevê: não me identifico

Tevê: não me identifico

Percorrendo as manchetes dos jornais brasileiros online deste sábado, levei um susto. O Correio Braziliense informa que mais de 2/3 dos brasileiros não se identificam com a programação de tevê. Ué, como é possível? Dizem que nove em cada dez telespectadores seguem fanática e religiosamente as novelas. Parece até que um antigo presidente da República não costumava perder nenhum capítulo. A coisa me pareceu fora de esquadro.

O Correio dava como fonte a Agência Brasil. Fui conferir. De fato, o despacho original tinha sido transcrito ipsis litteris, com todas as vírgulas, os esses e os erres. A agência cita a Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, como autora da pesquisa. Dado que essa fundação não faz parte dos institutos de sondagem de opinião pública tradicionais ― Ibope, Ipsos, Datafolha ― continuei a puxar o fio da meada.

Cheguei ao site da fundação. Curiosamente, não aparece ali menção à pesquisa cujo resultado a própria instituição acaba de publicar e difundir.

Não precisa ser doutor em psicologia para entender que, dependendo das perguntas e de como forem formuladas, pode-se induzir o entrevistado a dizer aquilo que queremos ouvir.

Tevê: não aguento mais!

Tevê: não aguento mais!

Tem mais. Para que se possa avaliar a seriedade de uma sondagem, é necessário saber qual foi o universo abrangido pela pesquisa, quais foram as perguntas, quantos indivíduos foram entrevistados e como foram escolhidos. Nada disso aparece neste 17 de agosto no site da fundação. Repito que os resultados da consulta foram publicados ontem, dia 16.

Tudo muito estranho. Esses números, lançados assim ao vento, vão na contramão do bom-senso. É descabido afirmar que, numa terra onde a esmagadora maioria não perde um capítulo de novela, 2/3 dos telespectadores «não se identificam» com a programação. Desconfiado, quis saber um pouco mais sobre a Fundação Perseu Abramo.

No site, não consegui encontrar os estatutos ― talvez não lhes interesse expô-los, assim, ao primeiro bisbilhoteiro. Mas o histórico se encarrega de nos esclarecer. Está lá, com todas as letras:

Interligne vertical 7«A natureza da Fundação, como instituição de direito privado, instituída pelo Partido dos Trabalhadores mas com autonomia jurídica e administrativa, com sede em São Paulo, mas de âmbito nacional, “tendo como fins a pesquisa, a elaboração doutrinária e a contribuição para a educação política dos filiados do Partido dos Trabalhadores e do povo trabalhador brasileiro”.»

Pronto, agora ficou claro e explicado. A «pesquisa», apresentada como verdade lapidar, emana de uma fundação cuja finalidade explícita é a educação doutrinária dos filiados de um partido politico. Se realmente pesquisa houve, fico eu a imaginar quem terão sido os entrevistados e como terão sido formuladas as perguntas. Digo bem: se pesquisa foi levada a cabo.

Quando o resultado de uma consulta diverge a tal ponto da realidade perceptível, fica difícil acreditar. Até a velhinha de Taubaté, se viva fosse, ficaria desconfiada.

Por detrás dessa ― digamos francamente ― desajeitada jogada de marketing, está uma das ideias fixas dos que nos conduzem há pouco mais de dez anos: cercear a liberdade de expressão e fazer que a mídia difunda unicamente o que a eles interessa. Além de irritante, essa insistência padece de dois defeitos maiores: é ilógica e perigosa.

Televisor com imagem adequada

Tevê:  imagem adequada

Ilógica? Pois, sim. Ressalte-se que tanto Collor quanto Sarney (aquele brasileiro que não pode ser tratado como pessoa comum, lembram?) são, ao mesmo tempo, sustentáculos do atual governo e concessionários de um império midiático.

A família Collor de Mello é proprietária da TV Gazeta de Alagoas, afiliada à Rede Globo. É dona também de jornal, de estações de rádio, de sites internet e… de um instituto de pesquisa. A família Sarney possui a TV Mirante do Maranhão, afiliada à Rede Globo. Um jornal e outras emissoras completam o império.

Perigosa? Pois, sim. Os atuais mandachuvas federais certamente imaginam eternizar-se no poder. Controlando a mídia, o círculo estará fechado. O poder segura a mídia e a mídia segura o poder. Uma espécie de bolivarianismo tupiniquim. Mas… e se um milagre de São Benedito fizer que a atual maioria seja mandada para o vestiário? Os novos ocupantes das altas esferas terão à sua disposição uma mídia servil. O feitiço pode virar contra o feiticeiro.

Se eu tivesse de dar um conselho à fundação que se transmutou em instituto de pesquisa de opinião, lembraria a eles que é melhor não brincar com fogo. Criança que brinca com fogo faz pipi na cama. E pode até se queimar.

Interligne 18h

De última hora
Acaba de me ocorrer uma interrogação. Quantos, dos supostos entrevistados, conheciam o significado de «identificar-se» com algo ou com alguém? Não são muitos os brasileiros familiarizados com essa palavra. Na maior parte dos casos, desde que pesquisa tenha realmente havido, o entrevistador deve ter sido obrigado a traduzir a frase para um vernáculo mais elementar. Quais terão sido os termos empregados? Seria interessante ficar sabendo. Em resumo: quais terão sido as verdadeiras perguntas? Um doce a quem descobrir.

Miscelânea 9

José Horta Manzano

Você sabia?

Nome mal escolhido
A Universidade Federal de Minas Gerais aliou-se à Universidade Federal de Uberlândia para juntas trabalharem num projeto de avião. É um aparelho diferente ― ou diferenciado, como se usa dizer hoje. Tem hélice e motor na traseira, mais ou menos como o 14bis do também mineiro Santos-Dumont.

Bumerangue Ex-27

Bumerangue Ex-27

O nome atribuído à nova aeronave é surpreendente: bumerangue. Um nome que sugerisse algo rápido, que vai para a frente, me pareceria mais adequado. Qualquer coisa como flecha, lança, catapulta, seta, foguete, raio, corisco, chispa transmitiria essa noção. Já bumerangue lembra algo que vai e volta. Aplicado a um objeto comercializado, sugere que será devolvido pelo cliente. Enfim, cada um escolhe para seus filhos o nome que lhe apraz.

Desejamos boa sorte ao bumerangue mineiro. Quando for vendido, que vá e… não volte.

Interligne 18hBandidagem europeia
Tem duas coisas que sempre me surpreenderam nos filmes de cinema, quando o personagem chega de automóvel a algum lugar. A primeira é que sempre ― mas sempre, mesmo ― encontra uma vaga para estacionar exatamente na porta do lugar aonde tem de ir. A segunda é que, diferentemente da vida real, atores jamais trancam a porta do veículo. Batem a porta do carro, e tchau!

Carro sem rodas Neuchâtel, Suíça

Carro sem rodas
Neuchâtel, Suíça

Vaga para estacionar já faz tempo que se tornou artigo raro, seja no Brasil, seja no exterior. Quanto à segurança, já não é a mesma de antigamente. Aqui ao lado está uma foto tirada na Suíça algumas semanas atrás. Mostra um carro cujas rodas foram surrupiadas durante a noite. Parece impossível, não é? Pois é, eu também jamais imaginei que algo parecido pudesse ocorrer.

E tem mais: aconteceu num vilarejo minúsculo onde, segundo o proprietário do veículo, «há mais vacas que habitantes».

Já não se fazem mais lugares civilizados como antigamente.

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Protesto incongruente

Caixa d'água

Caixa d’água

Aconteceu durante a onda de manifestações de junho passado. Em meio a tanta coisa que ocorria naqueles dias agitados, a notícia passou meio despercebida.

Na mui nobre localidade maranhense de Paraibano, situada a 425 quilômetros de São Luís, os munícipes, exacerbados pela crônica falta d’água, não tiveram dúvida: atearam fogo à estação de distribuição de água da Companhia de Saneamento.

Agora, sim, terão água à vontade. Taí o exemplo magistral de um protesto inteligente.

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Um povo cordial

José Horta Manzano

Tempos houve em que as notícias levavam semanas ou meses para chegar a regiões recuadas. Dizem que, em meados de 1890, em certos cafundós brasileiros situados pra lá de onde o vento faz a curva, ninguém estava ainda a par de que um golpe de estado havia rompido a ordem legal e imposto um novo regime. Achavam todos que o imperador ainda estivesse no trono.

Depois veio o telégrafo sem fio. Depois veio o telefone. Depois veio o rádio. Depois veio a televisão. E por fim chegou a internet ― por enquanto, a última palavra em matéria de modernidade. E tudo mudou. Notícias agora viajam à velocidade da luz. Não se consegue mais dar um espirro sem que, de Nova York a Pequim, todos fiquem sabendo. Será mesmo?

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Parece que nem sempre é assim, a julgar pelo que lhes vou relatar agora. A notícia é de arrepiar. Daquelas que não acontecem mais desde a Revolução Francesa. É o que imaginamos, pelo menos.

Para quem não ficou sabendo até agora, aconteceu dia 30 de junho passado, na localidade de Centro do Meio, município de Pio XII, Estado do Maranhão. Exatamente no domingo em que se jogaria, logo mais à noite, a partida final da copinha. As cenas são de uma barbárie inconcebível. Melhor que eu, o despacho da Folha de São Paulo dá os sórdidos detalhes. Conselho a almas sensíveis: abstenham-se de ler. Aqui.

Os crimes ocorreram em 30 de junho. Justiça seja feita ao site G1 (Globo), que deu a notícia no dia seguinte. Foi o único. Três dias depois, a horripilante informação começou a pingar aqui e ali, em sites de esporte, blogues, um jornal português, alguma gazeta interiorana. Da mídia prestigiosa, apenas a Folha de São Paulo deu a notícia, já no dia 4 de julho.

Decapitação

Decapitação

Foi preciso esperar até o dia seguinte, 5 de julho, para encontrar no Estadão uma nota de 5 linhas sobre o caso. Somente a partir daí a notícia espalhou-se pelo mundo. Está chegando por aqui estes dias.

Perguntas ficam no ar sobre o porquê dessa demora. É intrigante também esse véu de pudor com que os meios de comunicação brasileiros minimizaram ou simplesmente ocultaram a cena digna de tempos medievais.

De onde terá vindo a decisão de pôr panos quentes? Autocensura ou ordens superiores? Receio de que a realidade violenta do Brasil arranhe a imagem idílica do brasileiro cordial? Ignorância ninguém poderá alegar, visto que o G1, um site importante, já publicou a ocorrência nas horas que se seguiram.

Acho que não saberemos nunca. Talvez politólogos ou sociólogos possam explicar.

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Para os curiosos, aqui estão alguns sites que deram a notícia escabrosa do duplo assassinato:

1° de julho ― G1 (Globo)

2 de julho ― nada

3 de julho ― nada

4 de julho ― Esportes Terra

4 de julho ― Record (site esportivo português)

5 de julho ― Gazeta de Alagoas

5 de julho ― Estadão

6 de julho ― 20 minutes (tabloide suíço)

7 de julho ― Le Parisien (jornal francês)

8 de julho ― Gentside (site esportivo francês)

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No tempo do telefone a manivela, as notícias viajavam mais depressa.

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