Escrita pedregosa ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 16 dez° 2017

Escritor, dramaturgo e poeta, o professor Ariano Suassuna não apreciaria nem um pouco a chamada que o estagiário ousou no Estadão online.

«Livro que Suassuna iniciou a escrita»? Definitivamente, não.

Mais adequado será dizer:

Livro com que Suassuna iniciou a escrita (…)

ou

Livro com o qual Suassuna iniciou a escrita (…)

Vale também fazer um esforço de imaginação e torcer a frase. Por exemplo:

Livro que lançou Suassuna

ou

Livro com que Suassuna deu início à obra.

Pra ir até o fim

O uso da preposição durante não cai bem na chamada. Durante exprime um tempo determinado, com começo, meio e fim. Por exemplo:

Leu durante a viagem. (= Enquanto durou a viagem, leu. Subentende-se que, terminada a viagem, parou de ler.)

Recebeu muitas visitas durante a convalescença. (= Enquanto durou a recuperação, recebeu muitas visitas. Fica implícito que, terminada a convalescença, as visitas cessaram.)

Dizer que «Suassuna iniciou a escrita durante os anos 1980» é afirmação desconcertante. Pode até levar a pensar que, finda a década, o autor abandonou a escrita.

Melhor mesmo será dizer que «Suassuna iniciou a escrita nos anos 1980». A sentença perderá ambiguidade e ganhará clareza.

Três em um

José Horta Manzano

Estou acostumado a dar uma passada d’olhos na imprensa internacional. Posso garantir-lhes que, fora de nosso país, erros gramaticais são raros e excepcionais. Que se trate de regência, de sintaxe ou simplesmente de datilografia ‒ perdão! de digitação ‒, a raridade é a mesma.

Dizem que o desleixo com que costumamos nos comportar no Brasil é herança do colonizador. Se assim for, constato que a herança frutificou. Em vez de regredir, o desmazelo parece aumentar a cada dia. O filho saiu melhor que o pai.

Até o Estadão, que, afinal de contas, é o jornal brasileiro de referência, reverenciado no mundo todo, tem-se deixado levar pela negligência. E logo na primeira página! A impressão que fica é de que as chamadas ‒ que são justamente as palavras mais lidas do veículo ‒ ficam por conta de estagiários ou de gente que não tem suficiente domínio da norma culta.

Na edição de 1° de agosto, três escorregões coexistiam na página principal da edição online. Ao mesmo tempo, sim, senhores. Aqui estão:

Chamada Estadão, 1° ago 2017

Conselho prorroga mais 1 ano da Lava Jato
Eta, frase torturada! Prorroga-se algo por determinado tempo. Deveriam ter posto «Conselho prorroga Lava a Jato por um ano».

Chamada Estadão, 1° ago 2017

Béndine tentou dissuadir Ferreirinha a depor
Aqui também, a regência foi pro beleléu. Dissuade-se alguém de (fazer) algo. Teria sido melhor: «Béndine tentou dissuadir Ferreirinha de depor».

Chamada Estadão, 1° ago 2017

Neymar viaja à Barcelona
Essa é primitiva. Salvo as exceções, que não chegam a meia dúzia (Cairo, Porto, Rio de Janeiro, Recife, Crato), nome de cidade não aceita artigo. Ninguém mora na Barcelona, nem trabalha na Florianópolis, nem pretende estudar na Paris. Sem artigo, sobra somente a preposição. Naturalmente, não ocorre crase. Melhor seria: «Neymar viaja a Barcelona».

Água mole em pedra dura… Vamos em frente. Quem sabe, um dia ainda chegamos lá.

Dolce far niente

José Horta Manzano

Durante uma época, tive uma cabeleireira, moça jovem de 23 aninhos, sorridente, simpática e cheia de vida. Quando a gente está sentado na cadeira do salão, a conversa flui.

Um dia, não me lembro no meio de que assunto, me disse ela que seu maior sonho era… estar na aposentadoria. Surpreso, perguntei por quê. «É que aí eu podia fazer o que quisesse sem ter de trabalhar.»

Volta e meia, esse diálogo me volta à lembrança. Tento recordar os anseios que eram os meus aos 23 anos. Muito tempo passou, o que pode falsear a memória. Não me lembro, assim mesmo, de ter tido a mesma pressa de me aposentar. Tinha toda a vida pela frente, perspectiva animadora.

Chamada da Folha de São Paulo, 2 ago 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 2 ago 2016

Achei que minha cabeleireira fosse um caso especial, um ponto fora da curva, como se usa dizer hoje. Neste começo de agosto, encontrei mais um que mostra rezar pela mesma cartilha. Foi o estagiário que dá título às chamadas noturnas da edição online da Folha de São Paulo. A notícia fala de um funcionário contratado temporariamente para vigiar piscinas durante os Jogos Olímpicos ‒ emprego pro forma, só pra cumprir tabela. O funcionário não tem que fazer.

O texto da notícia não vai pela mesma linha, isto é, não glorifica o ócio remunerado. A chamada fica por conta de quem a escreveu que, é lícito supor, seja pessoa de pouca idade. Para esse jovem brasileiro, o melhor emprego do mundo é aquele em que não precisa trabalhar.

Dá pra entender por que é que o Brasil não se desenvolve? Parece que minha antiga cabeleireira não é o único ponto fora da curva. Há muitos outros.

Jogo dos sete erros

José Horta Manzano

Segunda-feira de Carnaval. Na redação do jornal, saíram todos: chefe, subchefe, vice-chefe, auxiliar do chefe. Nem o pretendente a chefe ficou. Sobrou para os estagiários.

Jacques, gaúcho trilegal e leitor fiel do blogue, costuma prestar atenção ao que lê na mídia. Ficou ‘estarrecido’ ‒ como costuma dizer aquela em quem vocês estão pensando ‒ com o que encontrou. A edição gaúcha do G1 traz uma coleção de fazer inveja.

Alguns são modismos, outros são imprecisões, outros, ainda, erros primários. A Pátria Educadora continua arreganhando os dentes. Cariados.

Interligne 28a

2016-0208-04 G1 RSEstado (da Federação) pede letra maiúscula.

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2016-0208-03 G1 RSFazer foto? Soa esquisito. Este blogueiro é do tempo em que ninguém “fazia” foto. Foto se tirava.

Interligne 28a2016-0208-02 G1 RSÉ irritante ver o verbo seguir usado como sinônimo de continuar. Seguir sugere algum movimento: seguir em frente, seguir alguém, seguir um desfile. No presente caso, o barco está imóvel debaixo d’água há dez dias. Seguir não serve. Substitua-se por continua, permanece, está, perdura, mantém-se.

Interligne 28a2016-0208-07 G1 RSComo todo nome próprio, Carnaval, que é nome de festa, pede inicial maiúscula.

Interligne 28a2016-0208-01 G1 RSNão contente com o sumiço do til, o escriba transformou o feriado numa ferida. Uma grande ferida. Um feridão!

Interligne 28a2016-0208-05 G1 RSNuma curta chamada, três reparos.
Primeiro: não se ateia fogo em, ateia-se fogo a.
Segundo: o cobrador não foi ferido após o assalto, mas no assalto.
Terceiro: dizer que o suspeito fugiu com o dinheiro é exagerar no politicamente correto. Não se pode dizer assaltante? Ou será que tem de esperar que o processo transite em julgado?

Interligne 28a2016-0208-06 G1 RSPronto, aqui está a cereja em cima do bolo. O termo óculos, redução da expressão par de óculos, é plural. Sempre. Os linguistas chamam a esse fenômeno pluralia tantum. Não se assuste. Diga os óculos, meus óculos, seus óculos. Vai acertar.

Interligne 28a

Cada um vê com os próprios olhos

José Horta Manzano

Acredite, distinto leitor, as três manchetes que se seguem dão a mesma notícia.

Interligne 28aO Estado de São Paulo:

Chamada do Estadão, 2 fev° 2016

Chamada do Estadão, 2 fev° 2016

Interligne 28aFolha de São Paulo:

Chamada da Folha de São Paulo, 2 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 2 fev° 2016

Interligne 28aO Globo:

Chamada d'O Globo, 2 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 2 fev° 2016

Interligne 28aNenhum deles mente. Está aí um estupendo exemplo do fabuloso poder da palavra: basta ajeitá-las com habilidade, e darão o recado que nos interessa.

Por sinal, nossos dirigentes têm usado esse recurso e abusado dele. Consiste em contar o que interessa e ocultar o que não deve ser mostrado. De todo modo, poucos são os que lerão o artigo inteiro.

Abuso de aspas

José Horta Manzano

Aspas devem ser usadas em três casos:

Interligne vertical 131) para indicar citação

2) para indicar ironia

3) eventualmente, para indicar neologismo ou termo estrangeiro

Fora isso, não convém. Podem dar recado desacertado.

Chamada do Estadão, 14 set° 2015

Chamada do Estadão, 14 set° 2015

Essa chamada apareceu no Estadão online de 14 set° 2015. Tanto “engano” quanto “terroristas” aparecem cercados de dois pares de urubus. Não há razão nem motivo pra isso. Não denotam citação nem estrangeirismo, portanto, só podem estar aí para indicar ironia.

Assim sendo, o título informa que forças egípcias mataram turistas de propósito mas alegaram que tinha sido por engano. Acusação pra lá de pesada.

Mais abaixo, as aspas que envolvem «terroristas» deixam dúvida. O leitor fica sem saber qual é o recado. Fica a impressão de que a região é seguríssima e que encontrar terroristas ali é tão improvável quanto encontrar marcianos.

Levando em conta que nove entre dez leitores não vão além do título ou da chamada, jornais e portais deveriam tomar especial cuidado com manchetes.