O uso do cachimbo

José Horta Manzano

Fala-se muito da anestesia do povo brasileiro que, cada dia mais blasé, não se abala mais com os desatinos cometidos por seu desastrado governo. Os parâmetros estão-se perdendo. Os pés estão escapando do estribo.

Acabam todos com a impressão de que tudo é permitido. Só não pode chamar cego de cego, surdo de surdo, louco de louco, preto de preto. O resto pode.

O governo comete enormidades. Ninguém se choca. Todos se sentem liberados para fazer o que bem entenderem. Diante dessa situação, o governo se sente ainda mais livre para continuar a tomar suas decisões extravagantes. Assim, o círculo vicioso se fecha e se realimenta, num movimento infernal cada dia mais difícil de ser freado com meios suaves.

A vizinha Venezuela está mergulhada num torvelinho semelhante faz mais de 10 anos. Talvez por contar com instituições menos sólidas que as nossas, o encadeamento está lá mais adiantado. Os amigos do rei já dominam praticamente todo o processo decisório do país. Executivo, legislativo e judiciário, já subjugados pelo mandachuva maior, guardam fidelidade aos sucessores do falecido e respeitam seus caprichos.Maduro

A arrogância dos figurões do país vizinho está-se tornando insuportável. Estão convencidos de que, façam o que fizerem, ninguém os poderá atingir. O mais recente exemplo do descomprometimento deles com as regras básicas que regem o mundo civilizado chegou estes dias.

Sem se preocupar em solicitar a devida autorização, utilizaram um trecho da música Detalhes, do capixaba Roberto Carlos para ilustrar uma peça de propaganda política. O compositor, cioso de sua obra, não apreciou. Ficou de cobrar direitos autorais dos usurpadores, com juros e correção.

Señor Maduro ― um tanto verde em matéria de recato ― zombou do ocorrido. Aos olhos do bolivarianismo, propriedade intelectual é noção ultrapassada, coisa de burguês.

Roberto Carlos promete entrar com pedido de indenização. Deve apresentá-lo à Justiça venezuelana. E é aí que a porca torce o rabo. Visto que, naquele país, o poder judiciário virou capacho do executivo, a probabilidade de sucesso do compositor é mínima.

Assim como o uso do cachimbo faz a boca torta, o exercício do poder sem contestação afasta os governantes da realidade. Faz que passem a viver num mundo de fantasia.

Se a boca dos dirigentes brasileiros anda meio oblíqua, a de seus colegas bolivarianos já entortou de vez.

Senzalas francesas

José Horta Manzano

Quando, em 1830, os franceses se apossaram do território norte-africano que hoje se chama Argélia, estavam selando o destino da França. Ad vitam æternam.

Quando, a partir do século XVI, os brasileiros(*) e outros plantadores de cana decidiram ir buscar mão de obra gratuita na África, estavam selando o destino do Brasil. Ad vitam æternam.Interligne 3d

A independência da Argélia, reconhecida em 1962, provocou uma descolonização a toque de caixa. Um milhão de franceses oriundos da metrópole tiveram de ser repatriados em regime de urgência, deixando para trás tudo o que possuíam.Torre Eiffel

Essa chegada súbita e maciça dos retornados não teve grande impacto na metrópole. Os anos 60, 70 e 80 foram, na Europa ocidental, décadas de prosperidade. Fechavam-se as últimas cicatrizes da guerra e construía-se e reconstruía-se em ritmo acelerado. Centrais nucleares, aviões supersônicos, construção civil, estradas ― tudo isso exigia mão de obra.

Grandes contingentes de norte-africanos, especialmente argelinos, foram trazidos. Faziam o trabalho mais humilde, justamente aquele que os franceses não queriam mais fazer.

Embora fossem remunerados ― uma situação bem diferente da dos africanos levados à força para o Brasil ―, foram propositadamente apartados do resto da população. Grandes conjuntos de imóveis especialmente destinados aos imigrantes argelinos, tunisinos e marroquinos foram construídos na periferia das cidades.

Cada conjunto dispunha de comércio de base, como as superquadras da Brasília dos anos 60. A intenção era conter os novos imigrantes dentro do espaço que lhes era destinado, concentrá-los, coibir sua interpenetração com a boa sociedade. Os conjuntos habitacionais exerciam ― exercem até hoje ― o papel da senzala conhecida dos brasileiros. Todos juntos, sim, mas… vocês lá e nós cá.Interligne 3d

A vida dá voltas. O boom dos anos dourados arrefeceu. Os descendentes de imigrantes progrediram. Se alguns, é verdade, descambaram para a criminalidade, a droga e outros tráficos, muitos seguiram trilha melhor. Estudaram, se esforçaram, não se conformaram em continuar no baixo patamar social em que haviam nascido.

Abandonados à própria sorte, os habitantes dessas cités não têm a vida fácil. Estigmatizados pela cor de sua pele, pelo aspecto físico ou pelo sobrenome, às vezes até pelo prenome que denota origem norte-africana, são usados, especialmente por partidos de extrema direita, como bodes expiatórios. Todos os males nacionais lhes são atribuídos.

Costuma-se dizer que, entre dois currículos de categoria semelhante, um dos quais tenha sido mandado pelo candidato Mohamed Sahraoui enquanto o outro esteja louvando as qualidades de Jean Martin, o selecionador tenderá a preferir Jean. Talvez nem mesmo chegue a propor entrevista a Mohamed.

Para remediar esse problema, tem-se falado com muita insistência em instituir currículos anônimos. Sem se deixar influenciar por preconceitos de origem étnica, o selecionador julgaria os méritos e as qualidades de seus candidatos e chamaria para entrevista os que lhe parecessem convir. Se o sistema ainda não foi adotado, é por dificuldades práticas. Mais dia, menos dia, será instituído.Interligne 3d

Um editorial do Estadão de domingo 5 de maio nos traz uma boa análise de uma inacreditável situação. O perfil que cada pesquisador mantém no incontornável Currículo Lattes, verdadeira instituição conhecida por todos os cientistas brasileiros e respeitada por todos eles, deverá obrigatoriamente trazer a raça ou a cor de pele de cada acadêmico(!).Moulin rouge

Se não tivesse saído no Estadão, seria de duvidar da veracidade da história. Com que então, os que vêm tomando essas decisões estes últimos tempos acreditam mesmo que a melhor maneira de atenuar preconceito racial é oficializar a compartimentação dos cidadãos em etnias distintas e conferir a cada uma direitos diferentes das demais? Combate-se uma discriminação lançando mão de outra? Para compensar os maus tratos de que foram vítima os tataravós de certos cidadãos, discriminam-se os tataranetos dos algozes de séculos atrás? Tudo isso atropela o bom-senso.

Mas o mundo gira. Por mais que isso atrapalhe os planos dos racistas brasileiros ― que preferem pudicamente ser chamados de racialistas ― a miscigenação da população continuará. Dentro de muito pouco tempo, não brancos (pretos e pardos) serão maioria, se é que isso já não aconteceu. E aí, como ficamos? Estabeleceremos quotas para a minoria eurodescendente?

Ao invés de olhar para o próprio umbigo e dar tiros em seu próprio pé, esses novos racistas deveriam estudar soluções encontradas por outros países que enfrentam o mesmo problema. Não basta ir a Paris só para subir à Tour Eiffel e assistir a um espetáculo no Moulin Rouge. Há que aproveitar para aprender com a experiência dos outros.

Um pouco de humildade não faz mal a ninguém.

.

(*) O termo brasileiros é utilizado aqui na sua acepção original de comerciantes de pau-brasil.

Lá como cá

José Horta Manzano

A cidade de Bruges fica na provícia de Flandres Ocidental, no norte da Bélgica. Seus canais lembram uma ultraconhecida cidade italiana, daí seu apelido de Veneza do Norte. Na região fala-se flamengo, um dos dialetos do holandês. Cá entre nós, holandês é apenas o nome popular do idioma. Quem quiser se exprimir corretamente e impressionar diga neerlandês.

Aliás, o verdadeiro nome da língua é, realmente, neerlandês. Holanda do Norte e Holanda do Sul (Noord-Holland e Zuid-Holland) são duas das doze províncias que compõem o Reino dos Países Baixos. São as mais importantes, é verdade, mas não as únicas. Dizer que a língua do país é o holandês equivale a dizer que os brasileiros falam carioca. É inapropriado.

Na periferia de Bruges fica a cidadezinha de Zedelgem, pouco mais de 20 mil habitantes, um daqueles lugares pacatos, onde pouca coisa acontece. A vila é mais conhecida por seu edifício medieval, o lindíssimo Castelo de Baesveld. A quem interessar possa: o monumento pode ser alugado para casamentos e outras celebrações. Informações na prefeitura.

Castelo de Baesfeld, Bélgica Crédito: belgiumview.com

Castelo de Baesfeld, Bélgica
Crédito: belgiumview.com

Algo fora do comum aconteceu estes dias no tranquilo vilarejo. Caiu uma chuva de dinheiro. Nada de sobrenatural, vou contar-lhes como ocorreu. Deu na televisão.

Um assalto ― coisa rara naquelas bandas ― deu errado. Malfeitores se apoderaram de dois cofres-fortes e os embarcaram num furgão. Assim que se puseram a escapar do lugar do crime, perceberam que estavam sendo seguidos pela polícia.

Para atrapalhar os que os perseguiam, atiraram um dos cofres no meio da rua, com o carro em movimento. Com o choque, a caixa-forte se partiu e uma chuva de notas atapetou a rua principal. Notas verdes de 100 euros caindo do céu? A Bélgica é país chuvoso, por certo, mas em princípio o que costuma cair é água fria. A população nunca tinha assistido a espetáculo tão fascinante.

A Bélgica não é conhecida por abrigar gente desonesta, mas, sacumé, a ocasião faz o ladrão. Quem pôde, saiu à rua para catar nem que fosse algumas notas. Parece até que uma distinta senhora chegou ao local empunhando uma vassoura, para racionalizar e apressar a preciosa colheita antes que algum aventureiro lançasse mão.Ladrão

A polícia conseguiu recuperar boa parte do butim, assim mesmo faltava meio milhão de euros. O prefeito do lugarejo, cioso da fama de honestidade de seus governados, teve uma ideia: mandou instalar uma espécie de caixa de cartas onde cidadãos arrependidos poderiam inserir, de forma anônima, as cédulas surrupiadas.

A emenda saiu pior que o soneto. Na calada da noite, outros ladrões vieram e levaram… a caixa de cartas. Com seu conteúdo, naturalmente.

Lá como cá…

Angola, pobre mas vigilante

José Horta Manzano

Angola? O que é que você sabe de Angola? Muito pouco, não é? O que todos aprendemos na escola é que o país se formou ao longo dos quase cinco séculos que durou a colonização portuguesa.

Fique também sabendo que o comandante luso Diogo Cão aportou por aquelas bandas alguns anos antes do desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro.

Claro está que o país não existia ainda como entidade política naqueles tempos recuados. Como do lado de cá do Atlântico, os novos chegados criaram entrepostos em diversos pontos do litoral, estabelecimentos esses que não necessariamente mantinham contacto entre si. Não havia telefones nem GPS naquele tempo.

Com o passar dos anos, as terras africanas ― assim como as americanas ― atraíram aventureiros de outras origens. Ingleses, franceses, holandeses, espanhóis, muitos se interessaram pela exploração das riquezas.

A costa africana que, conforme a Bula Intercaetera e o Tratado de Tordesilhas, deveria ser reservada à exploração portuguesa foi-se esfacelando. Os proprietários que o decreto papal havia designado como «legítimos» não eram numerica nem militarmente suficientes para garantir a posse do longuíssimo litoral do continente.

Os portugueses se saíram bem na defesa de seus estabelecimentos americanos. Já na costa ocidental da África, conseguiram segurar somente o arquipélago de Cabo Verde e mais alguns minúsculos territórios esparsos. Preferiram concentrar suas forças para assegurar a posse da então chamada África Ocidental Portuguesa, embrião da atual Angola.

A Revolução dos Cravos, que sacudiu Portugal em 1974, provocou súbita e desastrada descolonização. Tudo o que restava do império ultramarino foi abandonado. Angola mergulhou num longo período de caos e de lutas cujas cicatrizes ainda estão hoje sendo tratadas.

Angola

Angola

Apesar da pobreza em que vive grande parte da população, os dirigentes do país vêm mostrando, estes últimos anos, uma clarividência que gostaríamos de enxergar nos mandachuvas de nosso ultraorganizado Brasil.

Faz já uns 20 ou 30 anos que seitas neopentecostais ditas «evangélicas» proliferam em terra tupiniquim. Em nome da liberdade de culto, inscrita na Constituição de nossa República Federativa, o governo central tem dedicado pouca atenção à espantosa e desordenada multiplicação desses agrupamentos.

É importante que liberdade de consciência seja garantida a cada cidadão. Sem isso, estaríamos escorregando para uma ditadura. No entanto, há princípios que primam sobre outros. A obrigação maior de um Estado civilizado é proteger os mais frágeis entre seus cidadãos. As variadas bolsas têm, mal e mal, dado conta das necessidades materiais básicas do brasileiro.

No entanto, a proteção há de ser mais ampla. Não basta aplacar a fome dos que não têm como prover a seu próprio sustento. Há quantidade de brasileiros que, embora consigam garantir seu prato de comida sem ter de esperar pela esmola de quem quer que seja, não dispõem de estrutura intelectual suficientemente sólida para resistir a charlatanismos vários.

Ao mesmo governo que mitiga a fome cabe também defender a população contra flagrantes abusos que vêm sendo cometidos. O País está cheio de espertinhos que se valem da ingenuidade de pessoas simples. Muitos andam enchendo os bolsos à custa da credulidade alheia. Além de ser coisa muito feia, abusar da fragilidade de outrem é crime. Mas vem passando impune no Brasil de todos.

Pela pluma de Patrícia Campos Mello, a Folha de São Paulo nos informa que os governantes de Angola ― o pobre e sofrido país africano ― têm tomado iniciativas para proteger sua população mais frágil contra o que consideram «propaganda enganosa».

Recomendo a leitura da reportagem. É edificante. Enquanto a ex-colônia portuguesa, machucada e cansada de guerra, se preocupa com a proteção de seus cidadãos mais fracos, a Câmara Federal brasileira escolheu um pastor neopentecostal racista e homófobo para comandar sua Comissão de Direitos Humanos. De direitos humanos!

E pensar que os «emergentes» somos nós…

.

Casamento gay

José Horta Manzano

Quando a infamante qualificação de filho ilegítimo ou filho natural foi oficialmente abolida no Brasil, dez anos atrás, já fazia muito tempo que, na prática, os documentos de identidade não mais ostentavam essa especificação discriminatória. Até os anos 1930, 1940, os formulários de registro de nascimento brasileiros traziam uma linha pré-impressa com os dizeres «filho(a) _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ de (…)». O espaço tracejado servia para informar se o pequerrucho era nascido de pais casados ou não.

Havia os legítimos, filhos de pais casados. E havia os ilegítimos, naturais ou ― se o escrivão estivesse de mau humor ― bastardos. Os tempos mudaram. Hoje em dia, mostrar esse detalhe não faria o menor sentido.

Neste 23 de abril, o parlamento francês aprovou, em votação definitiva, a instituição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Até aí, morreu o Neves, como diria o outro. Não há aí nenhum pioneirismo. Outros 13 países já haviam seguido o mesmo caminho antes. Por que, então, a França tem sido palco de tantas manifestações, passeatas, discursos inflamados, uma gritaria que não acaba mais?Drapeau arc-en-ciel

A razão não está no cerne da nova lei, que, de qualquer maneira, reflete os tempos atuais. Duas pessoas que decidam compartilhar seu destino, quer sejam do mesmo sexo ou não, têm direito a serem tratadas e consideradas como um casal. Um par, se preferirem.

Herança, direito de visita em caso de internação hospitalar, situação perante o fisco, pensão alimentar em caso de divórcio são agora, aos olhos da lei, as mesmas para todos os casais. Sejam eles homo- ou heterossexuais. Em caso de falecimento do parceiro, problema espinhoso em todos os sentidos, as consequências e os trâmites post mortem passam a ser os mesmos para todos os casais.

Parece justo. Até aí, poucos se sentirão chocados com a nova regulamentação. O problema maior, aquele que agitou (e continua agitando) multidões, é um dos dispositivos da lei. Foi concedido aos casais de mesmo sexo o direito a adotar. Uma adoção plena transmite à criança o sobrenome do pai. E agora, como é que fica?

Joãozinho carregará pelo resto da vida documentos em que aparece como filho de Pedro e de Paulo, ou de Maria e de Marisa. Qual dos pais (ou das mães) legará o sobrenome ao rebento? Sem dúvida, ser filho de ladrão, de assassino, de traficante é bem pior, concordo. Assim mesmo, convenhamos, ser oficialmente filho de dois pais ou de duas mães não deve ser situação fácil para um guri frágil e imaturo.

Os franceses que, por um sim ou por um não, entram em greve e fazem passeata, não deixaram passar em branco a oportunidade. O país dividiu-se entre os que são a favor da nova lei e os que se opõem a ela. Para uns, já estava passando da hora de encarar a modernidade e desempoeirar o arsenal judiciário. Para outros, é cedo demais para assumir o risco de expor crianças a situações potencialmente vexatórias.

Mas há que manter a cuca fresca e encarar essas mudanças filosoficamente, com uma certa distância. Se não fosse hoje, seria amanhã, no ano que vem ou daqui a poucos anos. Portanto, por que não já?

Assim como filhos «ilegítimos» já não assustam ninguém, alguns anos bastarão para que a poeira baixe. Filhos de dois homens ou de duas mulheres farão parte da paisagem.

Daqui a algumas dezenas de anos, algum articulista ainda há de mencionar o rebuliço que a oficialização do casamento gay causou na França de 2013. Os filhos de nossos netos dificilmente entenderão o porquê de tanto barulho.

República Federativa

José Horta Manzano

Você sabia?

Federal ― está aí um termo de uso corrente no Brasil. Pacto federal, Polícia Federal, Tribunal Federal, Câmara Federal. Alguns filhotes também estão na língua do dia a dia: federação do comércio, federação de esportes, federação estudantil. Mas de onde, diabos, vem essa palavra?

Já no sânscrito, etimólogos identificam a raiz bandh, com significação de ligar. O radical chegou ao grego antigo sob a forma feithê e, daí, passou ao latim como fides. Nessa altura já havia assumido o sentido de fé, confiança.

Com o passar dos séculos, a família foi crescendo e se multiplicando, como mandam as Escrituras. Mas o significado pouco evoluiu. Continua expressando a fé, a confiança entre pessoas ou conjuntos de pessoas. Uma federação é um grupo em que uns confiam nos outros e todos miram a um objetivo comum.

Confiar, desafiar, perfídia, confidência, fiança, fiador, fiel, fidelidade são da mesma família. Quem vende fiado, vende na confiança.

Interligne 3d

A Confederação Helvética ― nome pomposo da Suíça ― divide-se em cantões, correto? Não, caros leitores, não é bem assim. A Confederação Suíça não se divide em cantões, mas é formada por eles. Como assim, que diferença faz?

Diferentemente da idéia que temos no Brasil, segundo a qual o País se divide em unidades mais ou menos estáveis, a Confederação Suíça foi formada pela agregação paulatina de novos estados. As unidades já existiam antes de se juntarem ao grupo.

Tudo começou mais de 700 anos atrás, quando três pequenos territórios se uniram no intuito de defender-se mutuamente de predadores externos. Uma espécie de «unidos, venceremos», ideia avançada para a época. Aconteceu na Idade Média, exatamente em 1291, reza a História.

Suisse

Suíça – Confederação Helvética

A partir de então, vendo que a união podia realmente fazer a força, outros pequenos territórios foram, pouco a pouco, solicitando sua adesão à federação. Que tenha sido em razão de perseguição religiosa ou por algum outro interesse comercial ou estratégico, outras pequenas províncias foram aderindo ao agrupamento inicial.

Não aconteceu da noite para o dia. Mais de 500 anos separam o pacto entre os três cantões e os últimos a se juntarem ao grupo. Um detalhe interessante: em listagens e estatísticas suíças oficiais, os cantões não aparecem em ordem alfabética. São sistematicamente relacionados na ordem de entrada na Confederação.

Como em toda família que se preze, desavenças também ocorreram por aqui. Em alguns casos, razões de ordem religiosa ou linguística fizeram que cantões se desentendessem e acabassem se subdividindo. Mas nem por isso abandonaram a federação.

Jamais aconteceu de a autoridade central decretar a subdivisão de cantões. A iniciativa sempre partiu do nível local para ser, em última instância, referendada pelos outros membros da confederação.

A última refrega é relativamente recente. O Cantão de Berna, dono de grande território ― para os padrões suíços, naturalmente ― conta com população majoritariamente de língua alemã e com uma minoria de francofalantes. Os de fala francesa, que, ainda por cima, são católicos, diferentemente da maioria protestante, reivindicaram durante séculos sua autonomia.

A coisa foi sendo cozinhada em água morna até que ferveu no século XX. A região chegou até a conhecer espantosos atentados terroristas! Bem, não há que imaginar homens-bomba explodindo em plena multidão, nada disso. Um ou outro artefato arrebentou alguma estátua, na calada da noite, sem que ninguém fosse atingido.

Nos anos 70, Berna finalmente concordou em organizar um plebiscito nos distritos de fala francesa para permitir que a população se pronunciasse. Em 1974, a maioria dos distritos se pronunciou pela separação. Outros preferiram continuar a fazer parte do Cantão de Berna.

Por sorte, os distritos que votaram pela autonomia formavam um território contínuo. Como havia sido combinado, ganharam o direito a formar um novo cantão. Faltava ainda ver se os cidadãos da Confederação aceitavam o novo membro. O povo se pronunciou favoravelmente. Ufa! Em 1978 nasceu, assim, o último cantão suíço. Chama-se Jura.

Interligne 3b

No Brasil, fala-se frequentemente em subdividir estados. Aliás, a teoria já foi posta em prática algumas vezes no século passado. Taí uma visão enviesada da ideia de federação. Criar novos estados sem que haja uma real demanda da população contraria o figurino.

Faz ano e meio, escapamos por pouco de ver o Pará fragmentado em unidades menores. Numa república federativa que se preze, tentativas assim não fazem sentido. O anseio pela independência deve vir de baixo para cima. Não é o que acontece no Brasil.

A fé e a confiança têm de nortear decisões graves como essa. Uma federeção não é criação artificial decidida por um poder central. Pelo contrário, é um agrupamento voluntário de unidades autônomas ou semiautônomas. Tudo isso não foi feito para satisfazer a interesses particulares deste ou daquele clã.

Há uma alternativa: é rasgar a Constituição atual, votar uma nova, eliminar a palavra federativa do nome da República e anular a autonomia dos Estados. Teremos então, como a França e tantos outros países, uma república unitária, na qual o poder emana unicamente da autoridade central. Aí, sim, estaremos entendidos.

Não é proibido, evidentemente. Mas não acredito que seja o anseio maior dos brasileiros.

Que tal um friozinho?

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, quando o termômetro cai a 18°, a gente diz que está friozinho. Se desce mais uns 5 graus, dizemos que está muito frio. Abaixo de 10°, todos reclamarão que está parecendo o Polo Norte. É uma questão de hábito.

A vilazinha siberiana de Oymyakón (Оймякон em escrita cirílica), com seus quinhentos habitantes, é considerada a localidade ― habitada em permanência ― mais fria do planeta. Há regiões ainda mais geladas, mas são povoadas por pinguins ou por algum cientista de passagem.Oymyakón 1

O lugarejo de que lhes falo está situado na Federação Russa, na parte oriental da Sibéria, mais precisamente na República da Yakútia. Nas noites de janeiro, o mês mais frio, faz 50° abaixo de zero. Isso é uma média, evidentemente. Há períodos em que a temperatura desce de verdade. Já roçaram os 70° abaixo. Isso, sim, é que é frio para ministro nenhum botar defeito.

O mais inacreditável é que, em alguns dias do verão, o termômetro resolve subir tropicalmente. Em julho de 2010, encostou nos 35°! Não segurou a canícula por muito tempo, mas chegou lá.

Oymyakón é uma das três únicas localidades habitadas em que a amplitude térmica ― a diferença entre a máxima e a mínima ― ultrapassa 100 graus centígrados. As outras vilas estão também na Sibéria, naturalmente.

E olhe que a latitude, embora elevada (63°) não justifica tudo. No extremo norte da Noruega, por exemplo, fica a cidadezinha de Hammerfest onde, apesar da latitude mais elevada (70°), a média do mês mais frio não desce abaixo de menos 5°. São artes do Gulf Stream.Oymiakón 3

Em outras regiões do mundo, as escolas primárias fecham suas portas quando neva. A autoridade considera que um chão nevado pode representar perigo para a passagem dos petizes. Em Oymyakón, a escola só fecha quando o frio desce abaixo de menos 50°.

Mas não se afobem. Já estamos em abril, a primavera está aí. Oymyakón já está registrando médias bem mais confortáveis, em torno de menos 13, menos 14, por aí. Para este 14 de abril, a Central Meteorológica Russa prevê mínima de –27° e máxima de –2°. O verão, como podem ver, está batendo à porta. Para a semana que entra, deve melhorar.

Os serviços meteorológicos brasileiros não trabalham com a precisão dos russos, que, temos de reconhecer, são campeões no assunto. Também, não temos tanta necessidade. Nossa amplitude térmica é bem mais estreita. O que interessa mesmo é saber se vai chover ou não.

Falando em amplitude, não consegui identificar a localidade brasileira com maior diferença entre a máxima e a mínima absoluta. Acredito que poderia bem ser alguma cidadezinha da serra catarinense. De qualquer maneira, a variação anual não chega nem à metade dos 100 graus de Oymyakón.Oymiakón 2

Muito pelo contrário, nossa tropicalidade faz que a diferença entre os meses quentes e os mais frescos seja pequena, às vezes insignificante. Fernando de Noronha, um dos pontos mais observados de nosso território, registra média de 26.8° no mês mais quente e 25.5° no mais frio. Dá para ir à praia o ano inteiro.

Aceita um refrigerante?

.

Nota: Em Oymyakón não há moradores de rua.

De olhinhos puxados

José Horta Manzano

Você sabia?

O tomate, tal como o conhecemos hoje, é resultado de uma longa aventura. Originário da região onde se encontra atualmente o Peru, esse legume que alguns classificam como fruta já era cultivado pelos incas, nas encostas andinas, desde tempos pré-colombianos. Seu nome primitivo era tomalt.Tomate

Com o passar dos séculos, migrou até o México, onde teve o nome alterado para tomatl, mais adaptado à fonética dos dialetos astecas. Era uma frutinha minúscula, de gosto um tanto amargo, cuja maior atração era a cor, variando de amarelo a vermelho vivo.

Os conquistadores espanhóis se encantaram com a beleza da frutinha, mas readaptaram-lhe o nome para facilitar a pronúncia. Virou tomate, termo que nos chegou até hoje. Entre outras mudas de espécies exóticas, a frutinha também foi levada para a Europa. A aclimatação não foi difícil, dado que a solanácea é de natureza rústica e resistente.

No entanto, nos primeiros tempos, os europeus estranharam a novidade. Hesitaram em consumi-la, imaginando que pudesse ser venenosa. Serviu como planta ornamental.

Foram os italianos os primeiros a quebrar o tabu, assim mesmo uns dois séculos mais tarde. Assim que a provaram, aprovaram. E a polpa vermelha passou logo a colorir pratos peninsulares.

Tanto foi apreciado na Itália, que recebeu ali o nome excepcional de pomodoro (= fruta de ouro), denominação que guarda até nossos dias e que difere do original que, bem ou mal, se manteve em outras línguas.

Foi preciso que mais algum tempo passasse para que o tomate entrasse na culinária de outros países da Europa e da orla mediterrânea. Até não muitos anos atrás, os Estados Unidos e a Itália dominavam, soberanos, a produção mundial.

O tomate nunca foi adotado nas mesas do Extremo Oriente. Mas os chineses, bons comerciantes, deram-se conta de que valia a pena investir em seu cultivo. Para exportação, naturalmente.Tomate 2

Um conglomerado baseado em Ürümqi, na província de Xinjiang ― no longínquo Turquestão chinês, região fria e árida, onde o plantio só é possível durante 70 dias por ano ― encarregou-se da produção em escala industrial. Outras culturas exigem mais tempo para germinar, crescer e atingir a maturação, enquanto o tomate frutifica rápido. A produção é gigantesca, à moda chinesa. Catorze usinas espalhadas pelo território daquele país são atualmente capazes de processar 50 mil toneladas diárias da fruta.

O fato é que em poucos anos a semiestatal chinesa apoderou-se de respeitável fatia do mercado mundial de tomate industrializado. Abrange o leque completo, da fruta enlatada ao extrato concentrado, passando, naturalmente, pelo ketchup.

Em 2004, o conglomerado engoliu o maior produtor francês de tomate enlatado, uma cooperativa que vendia sob a tradicional marca Le Cabanon. Como não são bobos, os chineses mantiveram as aparências: conservaram o nome e a marca tradicionais. As etiquetas são as mesmas. A propaganda continua aludindo à romântica região da Provence, sul da França ― sem divulgar, naturalmente, a verdadeira proveniência geográfica do conteúdo.Xinjiang

Na França, poucos sabem que, ao consumir tomates Le Cabanon, não estão degustando produtos locais, mas mercadoria produzida a 10 mil quilômetros de distância.

Estes dias, jornais brasileiros andaram discretamente informando que «a polpa de tomate importada da China é mais barata que a brasileira». Isso é só o começo.

Não seria espantoso se, dentro de muito pouco tempo, conservas de tomate deixassem de ser fabricadas em Pindorama. Preparem-se. Nossas pomarolas e nossos elefantes perigam ter olhinhos puxados.

Mas… nada de pânico! Ainda temos soja para vender. Por enquanto.

Inteligência comercial

José Horta Manzano

Em 2009, no auge da época em que prestigiava governos autoritários e ditatoriais ao redor do planeta, o Brasil decidiu investir esforço e dinheiro para abrir uma embaixada em Pyongyang, capital da Coreia do Norte.

Na época, ficamos sabendo que nosso comércio bilateral com aquele longínquo país somava magros 178 milhões de dólares por ano. A justificativa anunciada para a abertura da nova representação diplomática era justamente incrementar trocas comerciais. Pelo menos, foi o que declarou nosso governo. Alguns até acreditaram.

No ano seguinte, segundo dados divulgados pela Divisão de Inteligência Comercial do Itamaraty, nossas trocas com o país oriental haviam baixado 20%, atingindo um total de parcos 143 milhões.

Mais um ano, novo decréscimo. A mesma Divisão de Inteligência Comercial anunciou para 2011 um resultado final de minguados 65 milhões, evidenciando nova queda de 54% com relação ao ano anterior.

Os dados de 2012 ainda não estão totalmente computados. Nem precisa. Até setembro, irrisórios 35 milhões de dólares haviam sido comerciados. Atenção: essa é a soma da mercadoria que vai com a mercadoria que vem!

Coreia do Norte

 

É bom saber quando se tem de entrar num jogo. É ainda melhor saber quando se tem de sair.

Se a intenção que levou à instalação da embaixada brasileira naquele fim de mundo foi realmente vitaminar trocas comerciais, há que reconhecer que foi um rotundo fracasso. Caso nosso governo tivesse a intenção de carregar alguns navios com víveres básicos para aliviar a miséria daquele desafortunado povo, não havia necessidade de abrir uma embaixada para isso. Se havia outras intenções, não foram divulgadas.

Seja como for, não se tem notícia de que as condições de vida dos infelizes norte-coreanos tenha melhorado de 2009 para cá. Se o Brasil, por sua vez, avançou em alguns aspectos, certamente não terá sido em consequência de nosso comércio com aquele país.

Alguns dias atrás, o governo da Coreia do Norte recomendou a todos os estrangeiros que deixassem o país. Não estão brincando. O risco de um conflito já está apontando na esquina. O governo brasileiro ficou de pensar no assunto.

Um detalhe importante: 6 (seis) brasileiros vivem atualmente naquele país. Entre eles, o embaixador, sua esposa, seu filho e mais um funcionário administrativo. Os outros dois são a esposa e a filha do embaixador da Palestina, que detêm a dupla nacionalidade. Nossa embaixada em Pyongyang é, sem sombra de dúvida, assaz movimentada.

Diante desse fiasco, vem a pergunta: vale a pena manter aberta essa representação? Deixemos que a Divisão de Inteligência Comercial proponha a melhor solução.

Vesgo

José Horta Manzano

Acostumados que estamos a ouvir políticos de alto coturno discursando ou dando entrevista diante de câmeras, tendemos a imaginar que a boa postura e o recato fazem parte da personalidade de cada um deles.

Crédito: Ginette Ayral

Crédito: Ginette Ayral

Não é necessariamente assim. Como qualquer ser humano, eles também têm seus momentos de descontração, contam pilhérias em rodas de amigos, se soltam quando se sentem em ambiente menos pomposo.

Embora isso aconteça frequentemente, o mais das vezes o público não chega a ficar sabendo. São momentos reservados a plateia cúmplice e reduzida.

Mas todo cuidado é pouco. Nestes tempos em que cada um carrega no bolso uma máquina fotográfica, uma filmadora e um gravador, há que redobrar o cuidado. Melhor pensar duas vezes antes de pronunciar palavras desairosas.

Faz alguns dias, o presidente do vizinho Uruguai se viu numa situação embaraçosa. Momentos antes do início de uma palestra oficial, acreditando que os microfones estivessem desligados, referiu-se à mandachuva do outro lado do Rio da Prata com palavras pouco elegantes.

Para azar dele, os microfones já estavam ligados. E deu no que deu. A cena foi vista, ouvida, fotografada, gravada e filmada. Não tem como deixar o dito pelo não dito.

Ao referir-se à presidente da Argentina, o figurão, entre outras amabilidades, saiu-se com esta: «Esta vieja es peor que el tuerto. El tuerto era más político, esta es más terca».

Em vernáculo tupiniquim, ele disse nada menos que: «Esta velha é pior que o vesgo. O vesgo era mais político, esta é mais cabeça-dura».

Todos entenderam que «o vesgo» era o falecido Nestor Kirchner e que «a velha» é a viúva, a atual presidente.

Pegou muito mal. Já não não bastasse que os recatados habitantes das Falkland/Malvinas se refiram amavelmente a Doña Cristina como «old plastic face», vem agora o muy amigo vizinho pisar a ferida e chamá-la de «vieja». A presidente há de ter apreciado o cumprimento.

.:oOo:.

Fiquei pensando que, com uma pequena adaptação, a observação do senhor Mujica cairia como uma luva para nossos dois mais recentes mandachuvas maiores. Bastaria substituir «o vesgo» por uma palavra mais condizente, mais clara, mais branquinha. Deixo que cada leitor encaixe o termo que lhe parecer mais adequado.

O resto da frase fica como está.

Caiu

José Horta Manzano

Em artigo de 21 de março, contei-lhes as desventuras do ministro francês pilhado com a boca na botija. Caia, realmente, muito mal que o ministro encarregado de combater a fraude fiscal e a evasão de divisas fosse detentor de uma conta não declarada no exterior.

O figurão, como lhes disse, foi obrigado a pedir demissão. Diferentemente do que costuma acontecer no Brasil, o caso não parou por aí. As investigações continuaram.

Neste 2 de abril ― até que não demorou muito ― a pressão chegou a tal ponto que o agora ex-ministro não teve mais como esconder. Pateticamente, confessou à nação e ao mundo que, sim, a história da conta bancária secreta era verdadeira.

Foi um escândalo nacional. Mais que isso: a mídia se declarou em estado de sidération, termo raro e muito forte. Sentiram-se fulminados. A última vez que a palavra tinha sido utilizada tinha sido em 2011, quando chegou a notícia da detenção de Dominique Strauss-Kahn, então chefe do FMI.

Crédito: Pakmanwww.bakchich.info

Crédito: Pakman
bakchich. info

A acusação contra o ministro do orçamento veio a público faz quatro meses. Caradura, o homem afirmou, garantiu, jurou que tudo não passava de boataria mal-intencionada. Mentiu ao povo, ao Congresso e até ao presidente da República.

Toda a mídia dedicou enorme espaço à notícia. Como é natural na França, cada um tem sua própria opinião sobre o assunto. E todos fazem questão de exprimir seu pensamento, daí a duração excepcional dos programas de informação. O que mais ofendeu não foi tanto o fato de o figurão ter ou deixar de ter conta secreta. Foi a mentira deslavada.

O fato é que, politicamente falando, a carreira do homem terminou. Evasão fiscal, na França, é vista como crime de lesa-pátria. O acusado terá agora de enfrentar processo pesado que lhe pode render até 5 anos de cadeia. Nestes tempos em que grande parte do povo, com dificuldades econômicas, luta para sobreviver e sofre a ameaça de perder o emprego a qualquer momento, o sentimento popular certamente não vai ajudá-lo.

Como diziam os antigos, aqui se faz, aqui se paga.

.:oOo:.

Ah, antes que me esqueça. Um conhecido homem público brasileiro ― antigo prefeito da cidade de São Paulo, antigo governador, antigo candidato à presidência da República nos tempos da ditadura, fichado na Interpol e procurado por ela ― continua negando, com voz cada vez mais nasal, ter jamais sido beneficiário de conta secreta no exterior.

Ele tem razão. Não há mais razão de falar ainda em «contas secretas». Muito pelo contrário, elas são notórias, conhecidas, atestadas pela Justiça de vários países civilizados.

Em Pindorama, o homem continua livre, leve e solto.

As pilhérias e os peixes

José Horta Manzano

Os antigos adoravam fazer festa. Qualquer motivo valia. Comemorações pagãs ou litúrgicas, pouco se lhes dava. Por que tanta gana de sair do sério?

Será porque o dia a dia era mónotono e sem variedade. Será porque a ordem das coisas parecia imutável, não deixando nenhuma esperança de melhora. Será porque eram poucos os anos que a cada um cabia viver. Será porque a vida miserável e sofrida que levavam demandava momentos de escapatória.

A origem de muitos desses festejos ― alguns dos quais perduram até nossos dias ― é muita vez desconhecida. Um exemplo significativo é o do primeiro de abril. Na infância, conhecíamos a data como o dia da mentira. Era o único momento do ano em que contar mentira não era pecado a confessar ao padre. Não somos o único povo a enxergar esse dia como diferente dos outros.

Como sói acontecer quando ninguém tem certeza, muitos são os que garantem que o dia da mentira é obra de algum antiquíssimo conterrâneo. Seja como for, a tradição de pregar peças continua muito forte em vários países.

Na França, as crianças costumam recortar peixes de papel e em seguida grudá-los nas costas de algum distraído. Não demora muito para gritarem em coro: Poisson d’avril!, peixe de abril.

Poisson d'avril!

Poisson d’avril!

Para os franceses, a versão mais aceita da origem da brincadeira segue uma lógica que todos imaginam cartesiana. Até meados do século XVI, algumas regiões do país consideravam que o ano começasse em abril, não em janeiro. Outras já tinham adotado o primeiro de janeiro. Assim foi até 1564, quando o rei Carlos IX decidiu botar ordem no coreto e oficializar o 1° de janeiro como primeiro dia do ano.

No entanto, os franceses, sempre prontos a contestar decisões vindas de cima, não se conformaram tão facilmente. Muitos continuaram a formular votos de bonne année no dia 1° de abril. Essa data cai frequentemente em plena Quaresma. período em que era proibido comer carne. Acontece que março/abril são também os meses em que os peixes se reproduzem. Pescar nessa época significaria prejudicar a pesca para os anos seguintes. O remédio, então, era presentear os amigos com… peixes falsos. Ninguém é obrigado a acreditar, mas é a versão mais aceita por estas bandas.

Já os ingleses, que dão a esse dia o nome de April Fools’ Day (dia dos loucos), não estão de acordo com a versão francesa. Brandem antigos manuscritos dos Contos de Canterbury para demonstrar que as troças de 1° de abril já eram mencionadas 200 anos antes do decreto de Carlos IX.

Espanhóis fazem as mesmas artes, mas escolheram outra data para zombarem dos ingênuos. As pilhérias são pregadas dia 28 de dezembro, justamente o dia dos Santos Inocentes. A tradição passou a algumas regiões da América hispânica.

Jornais, rádios e até canais de televisão costumam publicar notícias falsas dia 1° de abril. E sempre tem quem acredite. Uma delas, excelente, foi inventada por um jornal de Lausanne (Suíça) já faz anos.

As Filipinas tinham acabado de se livrar do casal ditatorial Ferdinand e Imelda Marcos. Os dois tinham abandonado palácios e bens na última hora, a tempo de salvar a própria pele. Os primeiros a penetrar nos aposentos particulares do par infernal ficaram boquiabertos com a quantidade de sapatos que a Primeira Dama possuía. Parece que eram mais de mil pares.

De brincadeira, o jornal anunciou que os sapatos de Imelda iam ser oferecidos, numa venda especial de um dia só, a preços de liquidação. O excepcional acontecimento se daria dia 1° de abril daquele ano, num dos salões do maior hotel 5 estrelas da cidade. Parece que o hotel nunca foi tão visitado como aquele dia.

Poisson d’avril!

Acerte seu relógio

José Horta Manzano

No tempo dos romanos, não havia relógio. Nem precisava. A passagem do tempo era marcada pelo sol, pelo canto do galo, pelo mugir das vacas. Sabia-se que era meio-dia porque o sol estava no ponto mais elevado. E isso bastava.

Clepsidrarelógio movido a água

Clepsidra
relógio movido a água

Assim continuou na Idade Média. Os viventes, em maioria analfabetos, não sabiam sequer em que ano estavam. E isso não tinha a menor importância. O tempo era ritmado pelo calendário litúrgico que os clérigos não deixavam de recordar.

Todos sabiam que era tempo de Quaresma, que domingo que vem é Pentecostes, que estava para chegar a festa da Ascensão, de São José, ou da Imaculada. A hora do dia pouco importava.

Media-se a passagem de um tempo específico. Para os gregos, a clepsidra preenchia essa função. Seu parente, a ampulheta, continuou a satisfazer o mundo medieval. Para quem fizesse questão de ter uma ideia mais precisa das horas do dia, havia o relógio solar ― esse mesmo que ainda se pode observar no frontispício de antigos edifícios europeus. É verdade que só funcionava em dias de sol. Mas não havia outro jeito, que a técnica da época não permitia voos mais altos.

O problema começou a se agravar com as grandes navegações. Para medir latitudes, o sextante era suficiente. Mas como medir longitudes? Na falta de um relógio razoavelmente preciso, como saber que distância havia percorrido o barco e quanto faltava para chegar ao destino?

Relógio solar

Relógio solar

Ideias havia, já desde a antiguidade. Mas a precisão não era lá muito confiável. Há controvérsia quanto à invenção do relógio tal como o conhecemos hoje. Os ingleses são reconhecidos por sua importante contribuição para aperfeiçoar o aparelho. Grandes navegadores, tinham necessidade crucial de uma medida confiável.

Durante alguns séculos, o relógio embarcado nos navios resolveu o problema dos navegantes. E o mostrador redondo encravado na torre das igrejas foi suficiente para ritmar o dia a dia de vilas e vilarejos.

Lá por meados do século XIX, quando começaram a aparecer as primeiras ferrovias, a coisa se complicou. Antes disso, cada localidade era regulada pelo relógio de sua igreja. Contudo, os horários dos trens careciam de marcação uniforme da hora. Era impossível estabelecer horários se cada vilarejo se regia por uma hora diferente.

Para encurtar a história, digamos simplesmente que o problema acabou sendo resolvido. A precisão cada vez maior dos relógios e o telégrafo ajudaram. A humanidade chegou ao século XX com uma hora, se não universal, pelo menos bem mais generalizada do que 50 anos antes.

.:oOo:.

Guerras são acontecimentos terríveis, sem sombra de dúvida. Mas são também períodos que favorecem avanços nas artes médicas, nas comunicações e na vida prática.

A Grande Guerra 1914-1918 trouxe penúria para os beligerantes. O petróleo, que já então começava a substituir o vapor e a mover o mundo, fez-se raro. A Alemanha, envolvida até o pescoço no conflito, não produzia uma gota sequer do precioso líquido. Medidas tiveram de ser tomadas para reduzir seu consumo doméstico, a fim de que sobrasse para uso militar.

Sextante

Sextante

Foi quando surgiu a ideia de instituir o horário de verão. A defasagem artificial entre a hora solar e a hora oficial seria benéfica para poupar combustível. A economia de eletricidade significaria, naturalmente, diminuição do gasto de petróleo.

Em 1916, os alemães foram os primeiros a oficializar o avanço dos relógios durante o período estival. Outros países apreciaram a ideia e, pouco a pouco, adotaram o sistema. Dois anos depois, os Estados Unidos já fariam sua primeira experiência.

A França discutiu, tentou, tergiversou, torceu o nariz, hesitou. A partir de 1940, ocupada pelas tropas alemãs, não teve como escapar. Enquanto durou a presença estrangeira, a cada verão os relógios tiveram de ser adiantados em uma hora. Depreciativamente, os franceses diziam que aquela era a heure allemande, a hora alemã.

O Brasil fez sua primeira experiência em 1931, quando Getúlio mandava no País. De lá para cá, houve outras tentativas esporádicas. A partir de 1986, a hora de verão foi oficializada. Tornou-se medida rotineira.

A Europa regularizou a medida em meados dos anos 1970. Desde então, às 2h da madrugada do último domingo de março, «perde-se» uma hora, ou seja, os relógios têm de ser adiantados. Essa hora nos é devolvida às 3h da madrugada do último domingo de outubro, a noite mais longa do ano.

A partir deste 31 de março, portanto, a Europa está um pouquinho mais distante do Brasil. Brasília está a quatro horas de Lisboa e a cinco de Madrid, Paris, Berlim, Roma.

Voltaremos a nos reaproximar no fim de outubro.

Páscoa

José Horta Manzano

Muito antes que o primeiro humano se equilibrasse sobre dois pés, a Terra já estava lá, naturalmente. E também o ciclo da natureza que se renovava a cada ano.

Dizem os cientistas ― e, certamente, terão razão ― que os primeiros hominídeos surgiram no continente africano. Faz sentido. Desprovidos do pelame de um urso, da independência veloz de uma águia, das mandíbulas de um lobo, da faculdade de adaptação térmica de uma marmota, os humanos só poderiam ter aparecido em terras tropicais, sob clima quente e clemente.

O aumento da população, a escassez da caça, secas devastadoras impeliram os primeiros grupos a migrar. Muitas e muitas gerações depois de Lucy, os primeiros bandos alcançaram territórios mais ao norte.

O clima das regiões temperadas já não era mais marcado pela alternância de estações secas e úmidas, mas por uma estação quente e promissora, seguida por um período frio e inóspito.

As condições eram bem diferentes da suavidade tropical, mas os humanos já haviam desenvolvido novas capacidades. O uso de utensílios, o domínio do fogo e, finalmente, a descoberta da agricultura permitiram a sobrevivência nos novos territórios.

A adaptação não deve ter sido fácil nem rápida. Muitos milênios hão de ter corrido, mas o homem acabou por amoldar-se às novas condições. A prova maior dessa acomodação é o fato de estarmos aqui ainda hoje.

Nestes tempos de calefação central e luz elétrica, é preciso um esforço de imaginação para avaliar o efeito que a sequência inexorável das estações do ano produzia em nossos antepassados.Primavera

Aqueles que sempre viveram no lugar que foi um dia descrito como uma terra que, em que se plantando, dará tudo têm de fazer um esforço de imaginação ainda maior. Em terras europeias, asiáticas e no Oriente Médio não é bem assim.

No verão, a vida é mais suave. A caça é farta. A agricultura nutre os viventes. Na estação fria, a paisagem é outra. A neve pode ser linda em cartão postal, mas os antigos temiam a chegada dos primeiros ventos gélidos. As folhas caem. A vegetação adormece. A caça desaparece. Os dias encolhem. Se ainda hoje, com todo o conforto que o progresso nos legou, os invernos nos parecem longos, fico a imaginar como deve ter sido para os humanos de cinco ou dez mil anos atrás.

O fato é que a chegada da primavera, com pássaros cantando de novo e árvores revestidas de verde, traz um imenso alívio. A natureza renasce. A vida retoma a suavidade. É tempo de festa.

Desde as primeiras primaveras, os longínquos descendentes de Lucy sentiam-se felizes com a volta dos belos dias. À medida que os homens foram desenvolvendo um sentimento de religiosidade, sentiram que era hora de agradecer a quem lhes devolvia a alegria de viver.

Politeístas num primeiro momento, os agrupamentos humanos se habituaram a reunir-se em regozijo para comemorar o renascimento da natureza. Todos os deuses eram homenageados. Gregos, romanos, sumérios, egípcios sentiam a mesma euforia. Cada um desenvolveu sua própria maneira de demonstrar agradecimento. Sacrifício de animais e fogueiras foram as manifestações primitivas mais comuns.

O aparecimento do monoteísmo não eliminou o entusiasmo pela chegada da bela estação. Sacrifícios foram abolidos, e práticas mais civilizadas ocuparam o espaço.

Os judeus insituíram o Pessach. O Êxodo e a travessia do deserto guardam uma inequívoca simbologia. A ideia de passagem está presente. Comemora-se o fim de um tempo de sofrimento e a chegada de uma era promissora.

Os cristãos seguiram na mesma linha. Escolheram o mesmo período do ano para fixar a Páscoa. O símbolo do renascimento continua presente na ressureição de Jesus, o nazareno.

Não por acaso, chineses, turcos, curdos, persas e outros povos também elegeram a época do retorno da primavera para celebrar o renascimento, a renovação. Todos festejam um recomeço que traz consigo a promessa de uma vida melhor.

Que seja melhor para nós todos!

Boa Páscoa!

Show para a galeria francesa

José Horta Manzano

Na quinta-feira 28 de março, o presidente François Hollande concedeu uma entrevista. A notícia parece banal, mas tem significado especial.

Como acontece em muitos países, no Brasil inclusive, o jornal televisivo francês das 20h é programa de forte audiência. O presidente escolheu esse momento particular para fazer seu pronunciamento.

Grande parte da população deve ter engolido seu jantar sem olhar para o prato, preferindo degustar as palavras presidenciais, olhos fixados na telinha. No entanto, os que esperavam ouvir algum anúncio espalhafatoso continuaram famintos.

Os tempos mudaram. Ilhas de prosperidade em meio a oceanos tempestuosos ― como o governo brasileiro apresentava nosso País lá pelos anos 70 ― ficaram no passado. Hoje em dia, sem muito alarde, a globalização vai-se impondo. Se a China espirra, o mundo pega uma gripe danada. Se os Estados Unidos bambeiam, o planeta desaba. Está tudo muito ligado. Ninguém mais faz milagre sozinho.

Durante sua campanha, o candidato Hollande fez uma montanha de promessas, algumas delas gritantemente demagógicas. Uma no cravo, outra na ferradura, tentou arrebanhar votos de simpatizantes de toda a paleta política, da esquerda trotskista à direita radical.

Entre outros compromissos polêmicos, jurou por todos os deuses que faria incidir imposto de 75% sobre beneficiários de salários superiores a um milhão de euros por ano. Não precisa ser nenhum mágico em economia para entender que pouquíssimos atingem essa faixa de ganho.

Era o tipo de promessa inócua, pura jogada de marketing. Feita apenas para agradar à galeria, seria incapaz de encher os cofres da nação e muito menos de endireitar as finanças. Assim mesmo, muita gente deve ter-se deixado impressionar pela falácia. O resultado é que Monsieur Hollande foi eleito, no segundo turno, com 51% dos votos.François Hollande

Já comentei sobre consequências dessa promessa aberrante em artigo de dezembro do ano passado. O primeiro efeito foi afugentar gente que, sem ter cometido nenhum crime, se sentiu subitamente malquista pelo simples motivo de ganhar muito.

O sistema eleitoral do país, com deputados eleitos em dois turnos, faz que o parlamento seja composto quase exclusivamente por representates dos dois partidos majoritários: um ligeiramente de esquerda, outro levemente de direita. Não há, portanto, necessidade de coalizões, muito menos de mensalões.

Hollande, que conta com folgada maioria parlamentar, conseguiu sem dificuldade fazer votar a lei dos 75%. Ato contínuo, deputados descontentes apelaram para a Cour Constitutionnelle(*), a instituição francesa que tem por atribuição pronunciar-se sobre a constitucionalidade de uma nova lei. A corte negou provimento, com o argumento de que todo imposto ultrapassando 2/3 dos ganhos do cidadão é confiscatório. Portanto, inconstitucional. A lei foi invalidada.

Pois não é que o presidente, certamente para não deixar transparecer a derrota, voltou ao ataque? Fez isso durante a entrevista televisiva. Anunciou que a intenção de confiscar três quartas partes de ganhos elevados continuava em pauta.

Na impossibilidade de cobrar a derrama de cidadãos, decidiu enviar a conta às empresas. A nova lei ― que será seguramente votada por sua maioria parlamentar ― especifica que os cidadãos pagarão, de seu próprio bolso, o máximo autorizado, e que o resto será pago por seu empregador. Assim, chegará de qualquer maneira aos 75% e estará cumprida sua promessa de campanha.

Formado em excelentes e prestigiosos institutos, o presidente é, supõe-se, homem de cultura. Imagina-se que seus assessores também sejam. Portanto, a solução proposta é desconcertante. É produto típico do que os franceses chamam la gauche caviar, a esquerda festiva. Um agrupamento de políticos bem-nascidos, daqueles que só conhecem a precariedade de ouvir falar.

Muito poucas empresas pagam salários tão elevados. E muito poucos são os funcionários que atingem esses picos. As firmas visadas são todas multinacionais, com ramos, braços, filiais e sucursais implantadas em dezenas de pontos do planeta. Não é difícil imaginar que uma parte dos salários mais elevados possa vir a ser paga fora das fronteiras nacionais, longe do alcance do fisco.

Pior que isso, há um efeito perverso que pode causar mal maior ao país inteiro. Firmas estrangeiras que, em ascensão acelerada, estejam procurando um país para acolher sua base europeia vão pensar duas vezes antes de escolher a França.

A Receita sempre alcança os pequeninos, aqueles que não têm como escapar de sua malha. Malha fina ou malha grossa. Já os que ganham milhões têm acesso a subterfúgios cuja existência nós outros nem de longe imaginamos.

As atuais sondagens de opinião mostram que o presidente da França está navegando em patamares baixíssimos de aprovação popular. Não será a insistência cabeçuda nessa medida confiscatória que lhe servirá de alavanca para subir nas pesquisas.

Melhor teria sido se Monsieur Hollande tivesse aproveitado a deixa, jogado a culpa na corte constitucional e virado a página.

.

(*) No Brasil, o STF acumula as funções de Corte Suprema e de Corte Constitucional. Na França, há uma instituição para cada uma dessas funções. A finalidade precípua da Cour Constitutionnelle é, quando instada a fazê-lo, pronunciar-se sobre a compatibilidade de uma lei com a Constituição.

Nicósia ou Nicosia?

José Horta Manzano

A crise econômica cipriota tem trazido ao noticiário o nome de um país do qual pouco se costumava falar. Trata-se de Chipre, grande ilha situada não longe das costas turcas.

Alguns se referem a Chipre como «uma ilhota». São considerações um tanto depreciativas que, sobretudo, não correspondem à realidade. Um território de 240km de comprimento por 100km de largura não constitui propriamente uma «ilhota». Aliás, no Mediterrâneo, a superfície da ilha é superada apenas pela da Sicília e pela da Sardenha.Chipre

No entanto, o que mais me surpreende é a maneira como o nome da maior cidade da parte grecofalante da ilha vem sendo pronunciado. Dizem e escrevem Nicósia, com acento tônico no ó. Soa muito estranho.

Os gregos ― e os cipriotas, naturalmente ― pronunciam as palavras terminadas pelo hiato ia com acento no i.

Em nossa língua, as palavras proveniente do grego e terminadas em ia, com raras exceções(*), são pronunciadas com acento no i. Dizemos democracia, filosofia, anemia, hipocrisia, homeopatia, neurastenia, zoologia, hemorragia, analogia, uremia. Por coerência, deveríamos dizer também Nicosia, como Alexandria, com a tônica no i. Os cipriotas agradecerão.

.

(*) Entre as pouquíssimas exceções estão: farmácia, peripécia e polícia.

A democracia direta

José Horta Manzano

Você, sozinho, pode mudar a lei?

Sinto decepcioná-lo. Na imensa maioria dos países, você não tem nem sombra desse direito. Pode querer ou deixar de querer, pode até espernear que não vai adiantar. Quem faz a lei não é você. Nem eu.

Nos países democráticos, a atribuição de fazer, desfazer ou modificar leis é atributo dos representantes do povo. Que se chame congresso, assembleia, dieta, duma, câmara, incumbe a seus integrantes legislar. Com algumas escassas exceções.

.:oOo:.

A Suíça mantém, com bastante orgulho, uma democracia sui generis. É um sistema à primeira vista arcaico, resquício dos primórdios da expressão da vontade popular. Mas permanece vivo, firme, forte e atuante.

O povo elege, naturalmente, seus representantes, como na maioria dos países. O poder legislativo é bicameral, composto por dois agrupamentos de eleitos. Uma lei, para entrar em vigor, tem antes de ser validada por ambas as instituições. Exatamente como no Brasil, nos EUA, na França, na Alemanha, na Itália.

Até aí, morreu o Neves, como se costuma(va) dizer. A particularidade vem agora: a Confederação Helvética, nome pomposo e mui oficial do país, reconhece o princípio da democracia direta. Que vem a ser isso?

Qualquer cidadão ― digo bem: qualquer cidadão ― tem o direito de lançar uma iniciativa constitucional. Pode propor um novo artigo para a Constituição, a modificação de um já existente ou até a abolição pura e simples de algum que não lhe convenha.Urna

E como é que funciona? Proponho hoje, e amanhã entra em vigor? Bem, não é assim tão simples. Para evitar uma avalanche de asneiras, o processo obedece a regras rigorosas, a seguir minuciosamente. Dependendo do teor da proposição, a lei fixa um número mínimo de apoiadores. O indivíduo que quiser alterar a Constituição terá de provar que sua proposta está sendo apoiada por uma determinada quantidade de cidadãos.

Para apresentar essa prova, o proponente terá de colher assinaturas. Distribuirá listas, frequentará feiras livres, fará comícios, solicitará ajuda de simpatizantes, concederá entrevistas. O importante é que consiga o número necessário de assinaturas dentro de um prazo determinado.

Terminada a colheita de adesões, apresentará as listas às autoridades federais. As assinaturas serão verificadas uma por uma. Se o número mínimo tiver sido alcançado dentro do prazo estipulado, a iniciativa terá tido sucesso. A população do país será então convocada para um plebiscito. Caso a maioria dos votantes seja a favor da proposta, a Constituição do país será alterada.

Pronto, está aí, de forma bastante resumida, o funcionamento da democracia direta. Embora seja teoricamente possível, dificilmente um solitário e desconhecido indivíduo conseguirá divulgar sua ideia e obter o número necessário de apoiadores. Mas a possibilidade está teoricamente aberta a todos. É de lei.

.:oOo:.

A lei brasileira não concede a um cidadão qualquer a possibilidade de propor alterações na Constituição. O poder de requerer mudanças é reservado a um círculo restrito de entidades. Entre elas, o Senado Federal, a Câmara dos Deputados, governadores, partidos políticos. Sindicatos até.

Um artigo do Estadão nos dá conta de que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados acaba de aprovar uma proposta de emenda à Constituição Federal. Fizeram, em algumas horas, o que demandaria meses de campanha, caso estivessem sob a lei suíça.

A Comissão de deputados propõe que o poder de requerer modificações na Constituição seja estendido a entidades religiosas. Mais que espantoso, esse alargamento abre precedente inquietante.

Das duas uma: ou mantemos nosso sistema de democracia indireta, em que somente os representantes eleitos pelo povo têm o poder de mexer na lei, ou instituímos logo a democracia direta. Ficar assim, meio cá, meio lá, não vai dar certo.

Não convém abrir a caixa de Pandora, que nunca se sabe o que pode sair lá de dentro. Com todo o respeito que tenho por instituições, agremiações, associações, organizações e sociedades, receio que, num futuro próximo, outros grupos possam ser agregados à elite que detém hoje o poder de bulir na Constituição de nossa República Federativa. Bem mais útil e certeiro seria a adoção do voto distrital para eleições legislativas.

O País já está suficientemente bagunçado. Não vejo necessidade de alargar os limites da «elite» legislativa. Interesses setoriais não deveriam ser tão levianamente acolhidos.

Perigo à vista.

Teje preso!

José Horta Manzano

Alguém imagina que o estelionatário Bernard Madoff sairá um dia da cadeia? Mas nem que a vaca tussa! ― como se costuma dizer. Isto é, até que pode sair. Desde que cumpra os quase 150 anos de prisão a que foi condenado. Para azar dele, o país onde cometeu seus crimes costuma exigir que prisioneiros purguem sua pena até o último dia.

A França é bem menos drástica com o regime imposto aos que infringem a lei. Depois de cumprirem 2/3 da pena, têm o direito de requerer liberdade condicional. Para conseguirem o intento, a peneira é fina. Além de bom comportamento, exige-se que o candidato à soltura tenha alojamento e emprego garantido. Assim mesmo, a libertação não é automática. Um juiz especial, chamado juge des libertés, decide sobre cada caso. Se entender que a condicional não deve ser concedida, o apenado continuará preso e terá de ser paciente durante um bom tempo antes de apresentar novo pedido.

Tanto nos Estados Unidos quanto na França e em outros países menos laxistas que o nosso, o acusado de um crime permanece preso até o fim do processo. Não tem essa de «réu primário, com residência fixa».

Na França, assim como em outros países civilizados, certos estabelecimentos penitenciários contam com hospital próprio. Por outro lado, alguns grandes hospitais mantêm uma ala prisional, preparada especialmente para receber prisioneiros enfermos. No Brasil, um abalo de saúde é motivo suficiente para justificar a prisão domiciliar.Cadeia

No Brasil, somos gente fina. Deveres, temos muito poucos. Em compensação, contamos com direitos a mancheias. Tenho reparado que os direitos mais visíveis ― e mais usufruídos ― são os que beneficiam o agressor, o criminoso, o corrupto, o invasor, o ladrão. As vítimas parecem menos protegidas. É curioso, não?

Uma pena inferior a 8 anos(!) de cárcere é praticamente sinônimo de liberdade, dado que o condenado poderá cumpri-la em regime semiaberto. Desde o primeiro dia, usará a prisão como hotel. À nossa custa.

.:oOo:.

No fim dos anos 90, rebentou no Brasil um tremendo escândalo de desvio de dinheiro público que beneficiou, entre outros, o cidadão Nicolau dos Santos Neto, vulgo Lalau. O homem colecionava títulos e postos importantes: advogado, auditor fiscal, procurador público, desembargador, juiz. Chegou até a presidente do TRT. O roubo apurado na época foi de cerca de 170 milhões, o que equivale a uns 300 milhões de hoje.

Acuado, o magistrado empreendeu fuga rocambolesca que incluiu até homizio no Uruguai. Acabou-se entregando, não sem antes fazer suas exigências: nada de algemas, nada de publicidade, condições especiais de detenção.

Lalau foi julgado e condenado a quase 30 anos de encarceramento. A habilidade de seus advogados conseguiu que fosse reconhecido como velho e doente e, assim, obtivesse o direto ― ah, esses famigerados direitos! ― de cumprir pena em casa. Casa? Casa pode ser a sua ou a minha, caro leitor. A do Lalau é uma mansão no ultrachique bairro paulistano do Morumbi. Como é fácil pagar bons advogados quando se usa o dinheiro dos outros, não?

Passados muitos anos, a Justiça acaba de reconsiderar sua posição. Não vê incompatibilidade entre a idade do sentenciado e seu encarceramento. Para confirmar, aqui está a notícia publicada pelo Estadão e pela Folha. Lalau voltou para a cadeia, de onde nunca devia ter saído.

Il n’est jamais trop tard pour bien faire, dizem os franceses. Antes tarde que nunca.

Mas engana-se quem acreditar que permaneça atrás das grades. Os milhões que roubou ― e não devolveu ― hão de lhe permitir contratar os melhores defensores do País. Os direitos dos bandidos, quando invocados, costumam ser garantidos.

Como no faroeste

José Horta Manzano

Batedores de carteira ― antigamente conhecidos no Brasil como punguistas, termo vindo direto da gíria portenha ― sempre existiram. Na Europa, hoje em dia costuma-se chamá-los pickpockets.

Em qualquer aeroporto do continente, estão espalhadas placas alertando os frequentadores sobre o risco que representam esses amigos do alheio. Há até quadrilhas especializadas nesse estranho esporte. Aproveitam-se de algum momento de distração que o estresse da viagem possa provocar num passageiro para subtrair-lhe algum pertence.

É um delito, sem dúvida. Mas a violência está ausente, o que retarda o efeito. Só mais tarde o lesado se dará conta do furto. Ficará chateado, enraivecido, furioso até, mas não terá sofrido o trauma do ataque cara a cara.

Embora faça parte da coleção de crimes contra o patrimônio, está mais próximo do conto do vigário do que do assalto à mão armada.

.:oOo:.

Sou do tempo em que arrastão era apenas o nome, aliás bem sugestivo, de um tipo de pesca. Elis Regina, nos anos 60, projetou-se no cenário artístico nacional justamente na garupa desse sucesso escrito por Vinicius de Morais e esplendidamente musicado por Edu Lobo.

A pesca de arrasto tem sido incluída ― com razão ― no rol das colheitas predatórias. Como o método não é seletivo, o que cair na rede é peixe. O método não faz diferença entre espécies, nem separa espécimes adultos de presas jovens. Arrasta tudo o que estiver pela frente e contribui para prejudicar a reprodução da fauna marinha. Se todas as pescas seguissem a mesma receita, não demoraria muito para que os oceanos perdessem seus habitantes.Diligencia

Nos últimos anos, o sentido da palavra se alargou. Infelizmente, para um lado pouco musical, nada piscoso, mas assaz inconveniente. Embora seja um quase sacrilégio utilizar o termo no novo sentido, vem sendo empregado para designar os covardes assaltos coletivos que se amontoam no noticiário nacional.

O pior é que os adeptos do novo «esporte» não se restringem ao território tupiniquim. Pode até ser que a expansão da nova modalidade de violência além-fronteiras seja mera emulação do original brasileiro, uma espécie de exportação da nova variedade criminosa. Eu não acredito nessa hipótese, contudo. Levando em conta que somos bilhões no planeta, não é impossível que a mesma ideia tenha surgido espontaneamente na cabecinha tortuosa de delinquentes juvenis do outro lado do oceano.

Faz quase dois meses, contei-lhes a história do primeiro arrastão europeu de que tive notícia. Foi num artigo publicado aqui em 4 de fevereiro. Quem saltou o capítulo que não perca o vale a pena ver de novo. Aqui.

Pois imaginem que a moda está pegando. Aconteceu outra vez. Foi de novo na França, desta vez num trem de subúrbio, faz pouco mais de uma semana. Um bando de 20 a 30 pessoas atacou os passageiros. Parece que a cena foi violenta. Arrancaram dinheiro, celulares e joias dos atônitos viajantes. Alguns dos agressores carregavam até bombonas de gás lacrimogênio para aturdir vítimas mais recalcitrantes. Fugiram a pé, como se usa fazer no Brasil.

Compreende-se a impossibilidade de que um policial seja postado, de plantão, em cada vagão. Que fazer, então?Diligencia 2

Não sei. Para começar do começo, vão ter de inventar um termo para tipificar a nova modalidade de crime. Por enquanto, vem sendo feita uma analogia com o que se costuma ver em filmes de faroeste. O novo tipo de assalto vem sendo chamado de «ataque à diligência».

Confira aqui, aqui e aqui.

Caixa 2 e outros bichos

José Horta Manzano

Todos os países têm seus jeitinhos, suas malandragens, suas falcatruas. Todos são constituídos por seres humanos, falíveis e frequentemente venais.

O que faz, então, a diferença entre um país mais evoluído e um outro, mais atrasado? Não é fácil dar assim, de supetão, a resposta definitiva. Todo um feixe de condições tem de ser respeitado para garantir que um país seja considerado desenvolvido.

Uma delas é a universalidade da lei. O fato de certos cidadãos serem considerados acima do bem e do mal é típico de sociedades atrasadas. Todos se lembram do pronunciamento em que o Lula, presidente do país àquela época, declarou que José Sarney merecia tratamento diferenciado por «não ser uma pessoa qualquer».

Abusando da ingenuidade que só a ignorância lhe concede, o então presidente não se deu conta da enormidade que estava a proferir. Respeito merecemos todos, desde os amigos do rei até o mais humilde dos cidadãos. E nenhum de nós deveria ter direito a desfrutar favores negados a outros cidadãos.

Nossa república dá (muitos) outros sinais de atraso, mas hoje vamos nos ater a este: a igualdade dos cidadãos perante a lei.

Uma categoria de cidadãos constitui, realmente, um grupo especial. É de lei. São os eleitos do povo: presidente, governadores, deputados, senadores. Enquanto dure seu mandato ― repito: enquanto dure o mandato ―, a imunidade os protege. Se assim não fosse, não fariam outra coisa senão depor nos tribunais.

Para resguardá-los de uma enxurrada de processos, a lei garante imunidade a uma categoria de eleitos, enquanto dure seu mandato. Essa prática, difundida na maioria dos países, visa a não entravar os governantes.

O que marca a diferença entre as democracias evoluídas e o resto é o que acontece depois que o eleito cumpre seu mandato e dá adeus à imunidade. Em princípio, volta a ser um cidadão comum, sujeito a ventos, tempestades e a processos também.

Liliane Bettencourt

Liliane Bettencourt

O ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, acaba de ser indiciado num processo. É acusado de ter recebido ajuda monetária de Madame Bettancourt para reforçar sua campanha presidencial, em 2007. Só para ilustrar o assunto, conto-lhes que a senhora Bettancourt, dona de 15 bilhões de euros, é a mulher mais rica da França, acionária majoritária da multinacional gigante L’Oréal.

A não ser que instâncias superiores decidam anular o indiciamento, o que é pouco provável, o ex-presidente terá de enfrentar os tribunais. Como beneficiário evidente do caixa 2, terá de responder pelo malfeito.

.:oOo:.

Nas nossas aprazíveis terras tropicais não é bem assim que funciona. Que o caso chamado mensalão tenha sido levado adiante já foi um espanto. Que tenha sido julgado pelo STF, então, foi de causar estupefação. Foi a exceção que confirma a regra.

Nosso antigo presidente, mesmo destituído da blindagem que a imunidade lhe concedia, foi o beneficiário maior do financiamento ilícito (= caixa 2) e da compra de apoio parlamentar (=mensalão). Apesar disso, não foi importunado. Continua livre, leve e solto.

Decididamente, não é um cidadão comum. Pertence a uma casta a cujos privilégios nós outros, meros plebeus, não teremos jamais acesso.