Blasé

José Horta Manzano

No Brasil de hoje, nada mais assusta, não é? Tem certeza? É verdade que as os sobressaltos que o governo nos causa são de deixar qualquer um blasé. Como sabe meu culto leitor, blasé é palavra francesa que, com cinco letrinhas, exprime um misto de sentimentos que flutuam entre: indiferença, enfado, fastio, cansaço, desgosto.

Mas não é um sentimento positivo. Quando a gente se sente blasé é como se tivesse entregado os pontos. Não é bom. Mais vale guardar o frescor de quem acaba de desembarcar do planeta Marte e não está a par do que se passa. Mais vale deixar que os sobressaltos diários continuem a nos comover. É importante manter a capacidade de levar sustos.

Só quem mantém o olho vivo está em condições de reagir. A intenção do bando que nos governa é justamente de entorpecer a população com bombardeio diário de horrores. O acúmulo de catástrofes embota a mente. Povo de mente embotada não reage. É justamente o que eles querem, e é contra isso que devemos lutar.

Ao abrir o jornal hoje, encontro três horrores e uma boa notícia. Aqui estão.

Folha de São Paulo

Ai, São Benedito! Lá vai ele nos envergonhar de novo. Talvez a ideia seja de explicar o ‘golpe’ do 7 de Setembro. Se tiver fracassado, como esperamos, ele é capaz de desistir da viagem.

O Globo

Que cara de pau! Se ridículo matasse, poucos de nossos eleitos sobreviveriam.

O Globo

“No meu governo, não tem corrupção!” Alguém se lembra dessa declaração?

Estadão

Uma notícia boa. Livre, finalmente, daquele extraterrestre que ocupava o posto de chanceler, o Itamaraty volta a tomar atitudes dignas. Já que o governo não quer saber dos desgraçados nacionais, pelo menos que estenda a mão aos desgraçados estrangeiros.

O uso do cachimbo

José Horta Manzano

Fala-se muito da anestesia do povo brasileiro que, cada dia mais blasé, não se abala mais com os desatinos cometidos por seu desastrado governo. Os parâmetros estão-se perdendo. Os pés estão escapando do estribo.

Acabam todos com a impressão de que tudo é permitido. Só não pode chamar cego de cego, surdo de surdo, louco de louco, preto de preto. O resto pode.

O governo comete enormidades. Ninguém se choca. Todos se sentem liberados para fazer o que bem entenderem. Diante dessa situação, o governo se sente ainda mais livre para continuar a tomar suas decisões extravagantes. Assim, o círculo vicioso se fecha e se realimenta, num movimento infernal cada dia mais difícil de ser freado com meios suaves.

A vizinha Venezuela está mergulhada num torvelinho semelhante faz mais de 10 anos. Talvez por contar com instituições menos sólidas que as nossas, o encadeamento está lá mais adiantado. Os amigos do rei já dominam praticamente todo o processo decisório do país. Executivo, legislativo e judiciário, já subjugados pelo mandachuva maior, guardam fidelidade aos sucessores do falecido e respeitam seus caprichos.Maduro

A arrogância dos figurões do país vizinho está-se tornando insuportável. Estão convencidos de que, façam o que fizerem, ninguém os poderá atingir. O mais recente exemplo do descomprometimento deles com as regras básicas que regem o mundo civilizado chegou estes dias.

Sem se preocupar em solicitar a devida autorização, utilizaram um trecho da música Detalhes, do capixaba Roberto Carlos para ilustrar uma peça de propaganda política. O compositor, cioso de sua obra, não apreciou. Ficou de cobrar direitos autorais dos usurpadores, com juros e correção.

Señor Maduro ― um tanto verde em matéria de recato ― zombou do ocorrido. Aos olhos do bolivarianismo, propriedade intelectual é noção ultrapassada, coisa de burguês.

Roberto Carlos promete entrar com pedido de indenização. Deve apresentá-lo à Justiça venezuelana. E é aí que a porca torce o rabo. Visto que, naquele país, o poder judiciário virou capacho do executivo, a probabilidade de sucesso do compositor é mínima.

Assim como o uso do cachimbo faz a boca torta, o exercício do poder sem contestação afasta os governantes da realidade. Faz que passem a viver num mundo de fantasia.

Se a boca dos dirigentes brasileiros anda meio oblíqua, a de seus colegas bolivarianos já entortou de vez.