Compra por impulso

José Horta Manzano

Quando Marco Polo partiu de Veneza, lá pelo fim do século 13, para uma viagem de um quarto de século até Pequim, já fazia tempo que a lábia e a manha eram qualidades primordiais de todo mercador. Valiam tanto ou mais que a mercadoria.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Pra começar, a duração das viagens: Pequim, Astracã e Samarcanda estão a algumas horas de avião, venha o viajante de onde vier. Especiarias, brocados, peças de seda, essências odorantes deixaram de ser os artigos mais procurados. Poucos gastariam anos numa jornada de 25 mil quilômetros para voltar carregados de bugigangas.

Não há o que faça desaparecer certos cacoetes, no entanto. Por mais que passem os séculos, tanto mais eficiente será o vendedor quanto melhor for seu traquejo em manejar as artes da persuasão. É a alma do negócio. Quanto aos compradores, bem, nem todos são imunes a uma boa conversa. Estão aí dezenas de variações do tradicional «conto do vigário» pra não me deixar mentir.

Atenção: longe de mim a intenção de acusar todo vendedor de ser aprendiz de estelionatário! O nó da questão está no fato de que, por credulidade contumaz ou enlevo passageiro, muito cidadão de boa-fé compra hoje e se arrepende amanhã. Arrependimento é bom e aconselhado por toda religião. Só tem um senão: livros sagrados recomendam reparar o mal feito a outrem. Arrepender-se de uma compra não se enquadra no preceito.

Seja como for, o fato existe e há que enfrentá-lo. Muita gente lamenta hoje a compra feita ontem. Quer devolver. Mas… e o comerciante como é que fica? A partir de que momento uma compra passa a ser definitiva e incontestável?

Desconheço os meandros da realidade brasileira, mas posso certificar que muitos países regulamentaram, há tempos, as situações em que uma compra pode ser posteriormente renegada. Na Suíça, por exemplo, a regra é simples. Caso o vendedor tenha abordado o candidato à compra fora do estabelecimento comercial, ou seja, na rua, numa feira ou batendo à porta de surpresa, pode-se invocar a figura da compra por impulso, quando a venda se consuma num momento de enlevo daquele que pagou ou que assinou o contrato. Se assim tiver acontecido, o comprador tem o direito de arrepender-se e desfazer o negócio. Para tanto, conforme as circunstâncias, a lei lhe concede prazo de até sete dias.

Já quando o comprador se dirige, por livre e espontânea vontade, ao estabelecimento do vendedor ‒ loja, barraquinha, banca, armazém ‒ desaparece a noção de «compra por impulso». Tendo procurado o vendedor por iniciativa própria, o comprador, ainda que impulsivo, não poderá legalmente se arrepender da compra.

No Brasil, está na pauta estes dias a possível concessão do direito ao arrependimento a compradores de passagem aérea por internet. Vinte e quatro horas serão concedidas ao futuro viajante para desfazer o negócio. Não estou de acordo com a proposta e digo por quê.

Ao entrar no site internet do vendedor, o indivíduo age exatamente como os antigos quando transpunham a porta de entrada de uma loja: visitavam um estabelecimento comercial. Que comprem ou não, pouco importa. A realidade é que a visita espontânea à loja virtual elimina a característica de impulsividade. Entrou, estudou, refletiu, clicou e confirmou, pronto! Está sacramentada a venda. Não pode haver volta. Há que considerar os direitos de ambas as partes contratantes. Se o comprador tem direitos, o vendedor também os tem.

Se ao brasileiro falta firmeza nas opiniões, iniciativas como essa só fazem reforçar espíritos hesitantes. Sem nos dar conta, estamos construindo nosso próprio Big Brother.

Como no faroeste

José Horta Manzano

Batedores de carteira ― antigamente conhecidos no Brasil como punguistas, termo vindo direto da gíria portenha ― sempre existiram. Na Europa, hoje em dia costuma-se chamá-los pickpockets.

Em qualquer aeroporto do continente, estão espalhadas placas alertando os frequentadores sobre o risco que representam esses amigos do alheio. Há até quadrilhas especializadas nesse estranho esporte. Aproveitam-se de algum momento de distração que o estresse da viagem possa provocar num passageiro para subtrair-lhe algum pertence.

É um delito, sem dúvida. Mas a violência está ausente, o que retarda o efeito. Só mais tarde o lesado se dará conta do furto. Ficará chateado, enraivecido, furioso até, mas não terá sofrido o trauma do ataque cara a cara.

Embora faça parte da coleção de crimes contra o patrimônio, está mais próximo do conto do vigário do que do assalto à mão armada.

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Sou do tempo em que arrastão era apenas o nome, aliás bem sugestivo, de um tipo de pesca. Elis Regina, nos anos 60, projetou-se no cenário artístico nacional justamente na garupa desse sucesso escrito por Vinicius de Morais e esplendidamente musicado por Edu Lobo.

A pesca de arrasto tem sido incluída ― com razão ― no rol das colheitas predatórias. Como o método não é seletivo, o que cair na rede é peixe. O método não faz diferença entre espécies, nem separa espécimes adultos de presas jovens. Arrasta tudo o que estiver pela frente e contribui para prejudicar a reprodução da fauna marinha. Se todas as pescas seguissem a mesma receita, não demoraria muito para que os oceanos perdessem seus habitantes.Diligencia

Nos últimos anos, o sentido da palavra se alargou. Infelizmente, para um lado pouco musical, nada piscoso, mas assaz inconveniente. Embora seja um quase sacrilégio utilizar o termo no novo sentido, vem sendo empregado para designar os covardes assaltos coletivos que se amontoam no noticiário nacional.

O pior é que os adeptos do novo «esporte» não se restringem ao território tupiniquim. Pode até ser que a expansão da nova modalidade de violência além-fronteiras seja mera emulação do original brasileiro, uma espécie de exportação da nova variedade criminosa. Eu não acredito nessa hipótese, contudo. Levando em conta que somos bilhões no planeta, não é impossível que a mesma ideia tenha surgido espontaneamente na cabecinha tortuosa de delinquentes juvenis do outro lado do oceano.

Faz quase dois meses, contei-lhes a história do primeiro arrastão europeu de que tive notícia. Foi num artigo publicado aqui em 4 de fevereiro. Quem saltou o capítulo que não perca o vale a pena ver de novo. Aqui.

Pois imaginem que a moda está pegando. Aconteceu outra vez. Foi de novo na França, desta vez num trem de subúrbio, faz pouco mais de uma semana. Um bando de 20 a 30 pessoas atacou os passageiros. Parece que a cena foi violenta. Arrancaram dinheiro, celulares e joias dos atônitos viajantes. Alguns dos agressores carregavam até bombonas de gás lacrimogênio para aturdir vítimas mais recalcitrantes. Fugiram a pé, como se usa fazer no Brasil.

Compreende-se a impossibilidade de que um policial seja postado, de plantão, em cada vagão. Que fazer, então?Diligencia 2

Não sei. Para começar do começo, vão ter de inventar um termo para tipificar a nova modalidade de crime. Por enquanto, vem sendo feita uma analogia com o que se costuma ver em filmes de faroeste. O novo tipo de assalto vem sendo chamado de «ataque à diligência».

Confira aqui, aqui e aqui.