Alô! Quem fala?

José Horta Manzano

Muito se tem falado em espionagem estes últimos tempos. Pouco, muito pouco sobre contraespionagem. Que bicho é esse? É uma atividade patrocinada por Estados para, entre outras funções, protegê-lo da bisbilhotagem alheia.

O escândalo que surgiu faz algumas semanas ― falo do anúncio de ações de espionagem monitoradas pelo governo dos EUA ― só espantou o distinto público. Governantes estão cansados de saber que espionagem entre Estados é prática mais antiga que o rascunho da Bíblia.

Governos de países mais desenvolvidos foram bem mais comedidos em sua reação. Mostraram um simulacro de indignação, mais para satisfazer a galeria. E ficou por isso mesmo. O mundo continuou a girar. Business as usual. Por que reagiram de maneira tão branda? Por dois motivos.

Telefone celular

Telefone celular

Primeiro, porque já faz tempo que se deram conta de que as maiores ameaças externas não provêm mais de armamento bélico. Foi-se o tempo em que possuir um grande número de tanques e de aviões era garantia de ganhar qualquer guerra. Os países mais bem orientados fazem a distinção entre objetivos do Estado (a longo prazo) e metas de governo (a curto prazo). Essas nações vêm-se dedicando, faz anos, a proteger-se desse tipo de ameaça cibernética. É atribuição de seus serviços de contraespionagem.

Em segundo lugar, a reação foi comedida justamente pelo fato de esses países mais desenvolvidos fazerem exatamente a mesma coisa que os EUA, cada um na medida de suas possibilidades. Quem tem telhado de vidro procura não atirar pedrinhas no telhado do vizinho. Ainda que o vizinho tenha sido flagrado roubando frutas do seu quintal, mais vale fazer de conta que não viu. Ou, melhor ainda, dizer: «Olhe aqui, que não se repita, hein!».

Muita informação não costuma ser divulgada. Não é preciso que todos saibam de tudo a todo momento. Seria malsão. Vazou hoje a informação de que o pessoal do andar de cima da França (ministros, secretários e figurões de alto escalão) estão proibidos de utilizar seus smartphones comuns para transmitir dados referentes a assuntos do governo. Já faz tempo que essa recomendação vigora. Os mandarins de Paris contam com cerca de 2300 telefones especialmente concebidos para esse fim. São smartphones só na aparência. Ultrasofisticados, enviam mensagem criptadas e passam por canais diferentes dos que nós, simples mortais, utilizamos. Em princípio, são ingrampeáveis.

Dez ou doze anos atrás, justamente quando as novas tecnologias começavam a dominar o planeta e a dar uma reviravolta nos antigos conceitos bélicos, o Brasil teve a má sorte de começar a ser governado por gente um pouco especial. Ingênuos, deslumbrados e despreparados, nossos mandachuvas não se deram conta de que as regras do jogo haviam mudado. Continuam temendo uma invasão da Amazônia. Por que não um desembarque de marcianos?

Telefone celular (não recomendado para ministros)

Telefone celular
(não recomendado para ministros)

O candor com que nosso ministro da Defesa declarou outro dia que «desconfia» que seu telefone tenha sido grampeado e o furor com que nossa presidente tem reagido à bisbilhotice americana atestam que nosso país não tem um serviço de contraespionagem. O estupor do ministro e a cólera da presidente são sinceros. Nossa defesa cibernética, se existe, não funciona.

Mas nunca é tarde para fazer benfeito. Chorar, espernear, bater o pé, fazer beicinho, ficar de mal, ameaçar, nada disso vai adiantar. Melhor farão se aprenderem com o erro. Se nossos governantes passarem a dedicar à função para a qual foram eleitos ou nomeados uma décima parte do tempo que gastam fazendo politicagem, já teremos dado um grande passo.

Nossa elite dirigente

Dilma, Cristina, Evo e Bouterse

Dilma, Cristina, Evo e Bouterse

«Definitivamente, somos o elo perdido que os cientistas tanto procuram para fazer a ligação entre o período jurássico e a era moderna…»

Comentário de um leitor do blogue do jornalista Políbio Braga ao contemplar a foto estampada acima.

Quem quiser saber quem é o presidente do atual Suriname (antiga Guiana Holandesa), não deve deixar de ler o editorial do Estadão de 8 set° 2013. É edificante.

É dia de votar!

José Horta Manzano

Você sabia?

Lembrete aos eleitores: Vota-se hoje

Lembrete aos eleitores:
Vota-se hoje!

Na Suíça, vota-se frequentemente. Temos, em média, 4 votações por ano. Uso o termo votação para diferenciar de eleição. Para nós, no Brasil, com raríssimas exceções, vai-se às urnas para eleger governantes, deputados, senadores. As exceções ficam por conta de esporádicos referendos ou plebiscitos, como aquele que tratava da posse de armas de fogo.

Na Suíça acontece o contrário. Na imensa maioria das vezes, vota-se para tomar decisões, instaurar leis, modificar regulamentos, abolir normas. A exceção é ir às urnas para eleger alguém. Dia 22 de setembro é dia de voto popular. No plano federal, os cidadãos serão consultados sobre três diferentes assuntos ― um plebiscito e dois referendos. Cada cantão aproveita o embalo para acrescentar, se for o caso, uma ou mais questões de caráter regional.

Já falei outro dia sobre a diferença entre plebiscito e referendo, mas não custa repetir para quem faltou à aula. Quando se pergunta aos eleitores se são a favor (ou contra) uma lei que ainda não existe, tem-se um plebiscito. Já quando se pergunta aos eleitores se aprovam uma lei já votada pelo parlamento, temos um referendo.

Lembrete aos eleitores: Vota-se este fim de semana

Lembrete aos eleitores:
Vota-se este fim de semana!

Posso me enganar, mas, assim de cabeça, não me lembro de ter jamais visto os brasileiros serem chamados a referendar alguma decisão já tomada pelo Congresso. As escassas consultas feitas diretamente ao povo foram todas plebiscitárias, ou seja, interrogavam os eleitores sobre a pertinência de se legislar sobre isto ou aquilo.

Na Suíça, as regras da chamada democracia direta fazem que qualquer cidadão ou qualquer agremiação possa dar origem a uma petição ― aqui chamada iniciativa popular ― pedindo criação, abolição ou modificação de algum instituto legal. Como consequência, referendos e plebiscitos são corriqueiros.

Para que uma iniciativa popular seja reconhecida e dê origem a uma consulta ao povo, há regras severas. Um determinado número de adesões deve ser colhido dentro de um determinado espaço de tempo. Em seguida, as assinaturas são rigorosamente controladas. Se o número mínimo tiver sido atingido, o governo marcará uma data para a votação, geralmente entre 6 meses e um ano depois da validação da iniciativa popular.

Local de votação, Suíça

Local de votação, Suíça

Um dos referendos do dia 22 de setembro faz uma pergunta curiosa, inimaginável no Brasil. Pela legislação suíça atual, os postos de gasolina estão entre os (mui raros) estabelecimentos comerciais autorizados a permanecer abertos a noite inteira. Até alguns anos atrás, enquanto vendiam nada mais que gasolina, tudo corria bem. Acontece que, aí como cá, chegou a moda das autoshops, conhecidas no Brasil como lojas de conveniência ― nome inesperado. E aí a coisa complicou.

Com exceção de postos de gasolina, cafés, bares, restaurantes & assemelhados, a abertura de estabelecimentos comerciais à noite é terminantemente proibida. Postos de gasolina, hoje em dia, costumam ter todos uma loja de conveniência acoplada. Até o momento presente, a situação é a seguinte: entre 1h e 5h da madrugada, os postos podem vender combustível e produtos específicos para automóveis. Têm também o direito de deixar a cafeteria aberta. Mas estão proibidos de vender quaisquer outros artigos. É uma situação bizarra, convenhamos. Os produtos estão ali, nas gôndolas. Os funcionários estão à disposição. Mas a venda é ilegal.

Lembrete aos eleitores: Vota-se este fim de semana

Lembrete aos eleitores:
Vota-se este fim de semana!

O que se pede agora ao povo é que diga se aceita ou não uma modificação da Lei Federal sobre o Trabalho, já votada pelo Parlamento em dezembro de 2012. Os que apoiam a modificação sublinham a falta de lógica da situação atual. Acreditam que os tempos mudaram e que a legislação não pode continuar inarredavelmente plantada num mundo que desapareceu. Os oponentes, por seu lado, temem que seja essa a porta de entrada para uma liberalização generalizada do comércio noturno, o que, a seu ver, além de desnecessário, seria nocivo para a vida familiar dos empregados.

Dia 22 à tarde, conheceremos o veredicto da população sobre essa questão palpitante e transcendental.

Por que será?

José Horta Manzano

Faz menos de uma semana, vazou um relatório interno do CIO (Comitê Internacional Olímpico) sobre o andamento das obras em vista dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. O correspondente do Estadão na Suíça conseguiu uma cópia e desvelou a seus leitores o conteúdo ― terrivelmente constrangedor para as autoridades brasileiras encarregadas de preparar o evento. Falei disso no post Cheia de encantos mil, de 2 setembro 2013.

Jogos Olímpicos 2020 Tóquio, cidade candidata

Jogos Olímpicos 2020
Tóquio, cidade candidata

Ontem, sábado, o mandarinato olímpico estava em peso em Buenos Aires para revelar, em cerimônia solene e retransmitida ao vivo para o mundo inteiro, o nome da cidade escolhida para suceder ao Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos.

Para o verão de 2020, havia três candidatas: Madrid, Istambul e Tóquio. Longe de mim suspeitar que o voto dos figurões seja um jogo de cartas marcadas. Cruz-credo! O CIO, assim como a Fifa, o Congresso brasileiro e outras elevadas instâncias vêm confirmando, ao longo dos anos, sua ilibada reputação de total isenção. São organismos comprovadamente imaculados.

O fato é que todos esperavam Madrid. É a capital de um país simpático, bem-visto pela maioria. Vivem época de penúria, mas tinham-se comprometido a mostrar ao mundo que é possível organizar um grande evento gastando pouco.

Se não desse Madrid, havia de dar Istambul. A Turquia anda um pouco magoada com os europeus que não dão sinal de aceitá-la como membro da União Europeia. Conceder-lhe a honra de sediar as Olimpíadas seria uma maneira de apaziguar os ânimos, assim como quem dá uma chupetinha à criança que choraminga. E tem mais: se a diretoria do CIO fosse venal ― digo bem: se fosse, probabilidade mais que remota! ― poderia exigir dos turcos um mimo mais consistente do que de espanhois empobrecidos ou de japoneses pudicos.

Ao final, para espanto da galeria, não deu nem uma nem a outra. Deu Tóquio, aquela que ninguém esperava. Das três cidades, é justamente a que já sediou Jogos Olímpicos no passado, em 1964. Das três, é a que mais deveria ter assustado os decididores: uma simples menção às inquietantes consequências do acidente nuclear de Fukushima é de afugentar qualquer um.

JO 2020 ― Tóquio by Shizuo Kambayashi

JO 2020 ― Tóquio
by Shizuo Kambayashi

Por que, diabos, escolheram Tóquio? Tenho minha ideiazinha. Acredito que o CIO esteja se comportando como gato escaldado, aquele que tem medo de água fria, percebe? Depois do sufoco pelo qual estão passando com a enxurrada de problemas que os Jogos do Rio lhes estão causando, preferiram a segurança.

Nem o sol garantido e os 40 graus madrilenhos, nem o cosmopolitismo da imensa Istambul ― única capital do planeta assentada sobre dois continentes ― adiantaram. O comitê, escaldado, optou pela cautela. Aprenderam.

As marionetes

José Horta Manzano

Antigamente, costumava-se dizer que «livro é cultura». Com o advento da internet e outros bichos, livro ― pelo menos livro impresso ― anda perdendo o pouco de embalo que já tinha no Brasil.

Não sei, mas acho que o conceito de cultura é entendido de maneira sui-generis em nosso País. A escolha dos titulares da pasta da Cultura estes últimos anos tem deixado uma desagradável impressão de que o setor é de somenos importância. Não passa de um cabide onde se dependuram figuras vistosas, como um Gilberto Gil. Serve também de refúgio temporário para «desempregados» políticos, como é o caso da atual ocupante, dona Marta Suplicy, batida em sua última campanha eleitoral.

Das duas figuras que citei, nenhuma é conhecida por sua excepcional erudição, muito menos por suas qualidades organizacionais. Milagres não existem. Lembro-me de um velho chefe inglês que tive anos atrás. Falando de computador, ele dizia: «You feed shit it, you get shit out», se você puser cocô dentro, só pode sair cocô.

Teatrinho de marionete

Teatrinho de marionete

O nosso é um País de pouca cultura, de escassa erudição. Não se tem notícia de que realizações extraordinárias tenham sido deixadas de herança pelos últimos titulares do ministério. A última façanha de dona Marta Suplicy foi amplamente noticiada duas semanas atrás. Ignorando decisão da CNIC ― Comissão Nacional de Incentivo à Cultura ―, a ministra concedeu por volta de 7,5 milhões de reais a três estilistas de moda, para financiamento de seus desfiles no Brasil e no exterior.

Em matéria de incentivo à Cultura, pareceu a muitos uma decisão esdrúxula. Dona Marta decerto aprecia particularmente o estilo desses artistas. Será, aliás, interessante observar se, daqui para a frente, seu guarda-roupa não incluirá algumas criações exclusivas dos três.

A promoção do Brasil no exterior deveria ser atribuição do Ministério do Turismo. No limite, o Itamaraty deveria encarregar-se. Que o Ministério da Cultura faça as vezes de Ministério da Propaganda Cultural me parece estranho. Evoca instituições do III Reich, de triste memória.

Interligne 18g

Vivo em uma cidadezinha que não chega a 12 mil habitantes. Pois saibam os senhores que, enquanto aglomerações brasileiras bem maiores não dispõem nem de um teatro de marionetes, nós aqui temos um teatro de verdade. Com 372 lugares e uma programação pra ninguém botar defeito. A temporada 2012-2013, que começa agora em outubro e vai até abril, propõe não menos de 22 atrações. Teremos peças de teatro, one-man shows (e two-men shows) de artistas cômicos, música coral, música de câmera, concertos de piano. Até uma noitada especial com 7 pianos! Quem tiver curiosidade clique aqui para ver o programa.

Teatro de Gland by E. Baghtchadjan

Teatro de Gland
Fotos de E. Baghtchadjan

Ok, ok. Estou de acordo que não faz sentido construir um teatro em São Nicodemo do Brejo. O povo de lá está mais preocupado em saber se vai poder comer amanhã. Em casos assim, melhor será começar pela instrução pública. Quem sabe, mais tarde, se chegará ao teatrinho de marionetes.

Mas, convenhamos, entre as marionetes que o povo de São Nicodemo nunca verá e os desfiles de moda ― custeados com nosso dinheiro ― que Paris e Nova York verão, há muito espaço a ser preenchido. Falta competência.

De asilo & de embaixadas

«Em junho de 1957, Juscelino nomeou embaixador em Portugal o inesquecível pernambucano Álvaro Lins, dos nossos maiores intelectuais.

Em janeiro de 1959, Álvaro deu asilo na embaixada ao general Delgado, que Salazar queria matar porque Delgado tinha saído candidato a presidente da República. Salazar ameaçou invadir a embaixada. Álvaro Lins resistiu. Quando o general deixou a embaixada para disputar, Salazar o matou.

Serra, Weffort, Teotônio Santos, Cesar Maia, José Maria Rabelo, tantos poderiam ter sido mortos no Chile se não tivessem tido asilo dos EUA, da França, da Alemanha, do México contra Pinochet que poderia matá-los. Metade do governo Dilma não existiria se não houvesse asilo político.

Dilma não pode desmoralizar a tradição de asilo do Brasil, punindo o bravo embaixador Saboia, que salvou a vida do senador Molina, só para atender a um presidente que na Bolívia é chamado Evo “Imorales”.»

Do blogue do jornalista Sebastião Nery.

Conduta estabanada

José Horta Manzano

Depois de um messias rastaquera e deslumbrado, veio uma presidente grosseira e colérica. O Brasil está bem arrumado. Ô carma pesado este nosso!

Dilma e o ET by Zé Dassilva

Dilma e o ET
by Zé Dassilva

Dilma perturbada by J. Bosco

Dilma perturbada
by J. Bosco

Dona Dilma pode até ter alguma qualidade ― confesso que ainda não me dei conta. Por outro lado, sem dúvida, tem defeitos aos borbotões. Todos visíveis, uns mais, outros menos. As repetidas demonstrações de fúria que ela nos tem dado estes últimos dias estão ultrapassando os limites da conveniência. Já não é mais questão de salvar a honra nacional, mas de vingar-se de uma afronta pessoal de que a mandatária considera ter sido vítima.

Tempos atrás, um irresponsável chamado Assange andou espalhando segredos diplomáticos aos quatro ventos. Até hoje não se sabe direito qual era sua intenção. Terá tido seus 15 minutos de glória, mas o maior prejudicado foi ele mesmo. Enquanto o mundo continuou a girar, nosso dom quixote sobrevive confinado em prisão domiciliar num cubículo da embaixada do Equador em Londres. E tudo indica que lá permanecerá por anos. Inglês não costuma largar a presa tão fácil assim.

Dilma enfezada

Dilma enfezada

Pois bem, naquela época, embora o Brasil aparecesse entre os países alvejados pelo vazamento, nossa reação oficial foi inaudível. A presidente, não se sentindo envolvida pessoalmente, deu pouca importância aos acontecimentos. Aliás, nesse ponto, acompanhou a tendência global. Nenhum governo se encarniçou com o assunto.

Já agora, a coisa mudou de figura. Anunciou-se que a própria presidente teria sido monitorada por uma potência estrangeira. Para dona Dilma, acima da honra nacional, parece estar o orgulho pessoal. Tem reagido de modo estabanado e pueril. A atual inquilina do Alvorada faz lembrar aquela criança mimada que, zangada, atira o brinquedo ao chão, pouco ligando para as consequências. Se quebrar, papai compra outro.

Antes de tomar alguma atitude ríspida e capaz de desagradar alguém, é sempre bom medir as consequências e avaliar os desdobramentos. Em interessante artigo, o Estadão nos informa que, num acesso de ira, dona Dilma atirou o brinquedo ao chão: suspendeu os preparativos para a viagem aos EUA prevista para o mês que vem. Vamos torcer para que o brinquedo não esteja irremediavelmente espatifado.

Dilma e Obama by Sponholz

Dilma e Obama
by Sponholz

Outro artigo do mesmo Estadão conta que o embaixador americano em Brasília está sendo removido, após 3 anos de serviço. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Segundo a autora deste segundo artigo, em vista da peleja que já dura mais de 10 anos contra os ideólogos antiamericanos que dominam a intelligentsia do Planalto, o governo americano preferiu fazer uso mais adequado de seus bons diplomatas. Shannon, que estava no Brasil, vai para a Turquia, país mais estratégico ao olhos de Washington. Brasília deverá contentar-se com a embaixadora que atualmente representa os interesses americanos no Paraguai.

Esse, sim, é sinal bem mais inquietante para nosso País. Nosso segundo maior parceiro comercial já nos enxerga como país políticamente menos interessante que a Turquia. Se dona Dilma continuar a fazer beicinho, pode azedar de vez as relações. E quem é que vai sair perdendo? É urgente dizer a ela que o Brasil precisa mais dos EUA do que eles de nós.

Dilma de maus bofes

Dilma de maus bofes

Não faz sentido tratar Argentina, Bolívia, Venezuela a pão de ló e os EUA a pontapé. É inacreditável a relutância que esses ideólogos do Planalto têm em aceitar que a guerra fria terminou 25 anos atrás e que o mundo mudou muito. Continuam com os pés cimentados nos anos 60.

As oportunidades políticas e econômicas que essa visão obtusa nos tem feito perder não voltarão mais. O trem da História não passa duas vezes.

Agora infeccionou

José Horta Manzano

Dilma e Evo passaram uma hora conversando sobre a situação criada pela entrada no Brasil do senador boliviano. Falo daquele que ― como um verdadeiro super-homem ― escapuliu de La Paz, atravessou milhares de quilômetros de Bolívia, enfrentou numerosas barragens policiais, transpôs uma fronteira internacional, tomou emprestado um avião e chegou a Brasília, o ninho da águia. Uma odisseia! E nosso improvisado James Bond fez tudo isso com a cumplicidade de uma única pessoa: um singelo encarregado de negócios, que deve ter um coração grande assim, ó.

Enfim, eu dizia que Dilma e Evo confabularam durante uma hora inteira sobre o caso. Ignoram que, ao telefone, se podem dizer as mesmas coisas. Preferiram abandonar por um momento a ultrarrelevante cúpula da Unasul. Quanto jogo de cena!

Crianças de 7 anos carregam hoje no bolso um telefone. Faz 120 anos que palácios presidenciais são dotados do aparelhinho mágico que permite, sem necessidade de levantar do trono, conversar com mandarins do outro lado do planeta. Alguém já fez as contas de quanto custa à população brasileira uma hora de ― vá lá o termo ― trabalho da presidente da República?

Dilma e Evo, dois evidentes amadores, não aprenderam a lição ancestral que os avós de nossos avós já conheciam: mais vale prevenir que remediar. Desde o momento em que o senador bateu às portas da embaixada do Brasil e lá se refugiou, tiveram quase um ano e meio para tramar. Inexperientes e ingênuos, foram deixando para lá, acreditando que o tempo se encarregaria de resolver o assunto. Quem é que gosta de enfrentar problema espinhoso, não é mesmo?

Dilma e Evo

Dilma e Evo

Imaginaram que, como joelho infantil esfolado, a situação se resolveria por si mesma. Não aconteceu. Adubada pela incapacidade dos que podiam tê-la curado meses antes, a ferida se arruinou.

Cansados de suportar a inércia de mandachuvas imprevidentes, alguns resolveram agir por conta própria. Seria cômodo vender a fábula de que o pequeno encarregado de negócios ― que nem embaixador é ― tenha podido arquitetar sozinho a logística dessa peregrinação de La Paz a Brasília, coisa de filme de suspense. Acredite quem quiser.

Seja como for, agora chegou a hora, não dá mais pra esperar. A porca está torcendo o rabo. Infeccionada, a ferida já está. Antes que sobrevenha a septicemia, há que agir. Mas… fazer o quê? Qualquer solução será ruim.

O Conare não é órgão decisório, mas apenas consultativo. Asilos são concedidos, como se viu no caso Battisti, pelo ministério da Justiça, atrás do qual está o Planalto. Se asilo definitivo for concedido ao senador, o companheiro Evo pode ficar muito contrariado. E isso pode arranhar a coesão da potência bolivarianopetista que o Brasil e seus comparsas estão tentando edificar. A importância da Bolívia no subcontinente é tão enorme, como sabem todos, que sem ela nada se construirá. Melhor não desagradá-la.

Por outro lado, se o Planalto deixar de conceder asilo ao senador, um outro país qualquer lhe abrirá as portas. Pode até ser que o império o acolha! Senhor, que humilhação! Se acontecer algo do gênero, é a imagem do subcontinente inteiro que vai escorrer pelo ralo. Continuaremos a ser vistos como um bando de cucarachas que não conseguem resolver seus problemas civilizadamente. Um golpe sério para nós. O mundo vai voltar a nos enxergar como um punhado de republiquetas bananeiras, uma caterva de imaturos politicamente incapazes.

Agora infeccionou. Que fazer?

Frase do dia ― 28

«Eu também tenho um sonho. Sonho com o dia em que milhões de exemplares do discurso de Martin Luther King sejam distribuídos, clandestinamente, como material subversivo nas escolas brasileiras.»

Demétrio Magnoli, in Estadão, 29 ago 2013

Se segura, Rogério!

José Horta Manzano

Das duas uma: ou nossa presidente é uma excelente atriz ou de fato está furibunda. Ela terá suas qualidades ― todos temos alguma ―, mas a sutileza não faz parte de seu arsenal. Portanto, o ritmo frenético com que anda disparando sua metralhadora giratória no caso do senador boliviano tende a indicar que dona Dilma esteja realmente encolerizada.

Tivesse agido com tanta firmeza desde o começo, todos esses aborrecimentos teriam sido evitados. Ela tinha a faca e o queijo na mão. Um bom acordo de bastidores é sempre preferível a essa exibição de trapos coloridos. Roupa suja, já diziam os antigos, convém lavar em casa. E de portas e janelas fechadas, de preferência.

Tentação Crédito: Carol Parrish

Tentação
Crédito: Carol Parrish

Vamos supor que a fúria de nossa mandachuva seja verdadeira, que não se trate de encenação para a galeria. Se assim for, o que salta à vista é a incompetência da própria presidente. Em vez de atacar o problema de frente, deixou que o galo fosse cozinhado em água fria durante mais de um ano. Ela hesitou, hesitou, e não foi capaz de desatar o nó. Há de ter balançado entre o apreço pelo companheiro bolivariano Evo e uma vaga e incômoda obrigação de respeito aos princípios universais do asilo.

Terá sido necessário que terceiros tomem a decisão em seu lugar. Caiu muito, muito mal. E a emenda está saindo pior que o soneto. A presidente demitiu sumariamente o ministro das Relações Exteriores. Ressalte-se que o homem tinha sido nomeado por ela mesma. Portanto, a presidente se desautoriza a si mesma. Ou não?

A presidente barrou a remoção ― que soava mais como promoção ― do embaixador do Brasil em La Paz. O homem estava de malas prontas para Estocolmo. Ressalte-se que dona Dilma já havia aprovado a troca de cadeiras. Preferiu melar a transferência. De novo, deu provas de ser criatura hesitante ou, pior, vingativa.

Senador Roger Pinto

Senador Roger Pinto

Em resumo, se entendi bem, todos os auxiliares diretos da presidente, justamente aqueles que tinham sido escolhidos pessoalmente por ela, estão errados nesta história. Quando todos a seu redor estiverem errados e só você estiver certo, é bem mais provável que errado esteja você.

Não se nomeia um ministro nem se designa um embaixador sem o beneplácito do presidente da República. Se esses funcionários executarem mal seu trabalho, não é possível escapar de uma conclusão lógica: a responsabilidade recai sobre quem os nomeou, ou seja, o próprio presidente. Nossa Constituição (ainda) não contempla a figura do autoimpeachment. Que não seja por isso. A renúncia ao mandato é direito inalienável de todo presidente ― aliás, há um precedente. No presente caso, renunciar teria sido mais digno que cortar cabeças alheias.

Interligne 18b

Mas a novela não acabou, ainda faltam alguns capítulos. O chefe da Advocacia-geral da União (AGU) informou que o senador boliviano Roger Pinto ainda não passou pelo exame de admissão do asilado modelo. Diferentemente dos médicos cubanos, que furaram a fila e já desceram do avião vestindo jaleco, o senador ainda tem atribulações pela frente. Quem mandou fazer oposição ao companheiro bolivariano?

O chefe da AGU declarou que a decisão final sobre a concessão de asilo político depende do… Ministério da Justiça. Ai, ai, ai. Ainda está fresca, na memória coletiva dos brasileiros, o desastrado vaivém que envolveu o caso Battisti.

O senador boliviano não tem sangue nas mãos nem foi condenado pela Justiça de seu país. A priori, portanto, não preenche as condições básicas para obtenção do estatuto de asilado, segundo a lógica vigente atualmente no Planalto. Suas chances são, portanto, estreitas.

Esta novela ainda vai dar pano pra mangas. Se segura, Rogério!

Jogo de cena ― Capítulo 2

José Horta Manzano

Brasil-Bolívia fronteira

Brasil-Bolívia fronteira

Minha curiosidade começa a ser satisfeita. Como eu previa (cf. meu post Jogo de Cena de 25 ago 2013), apareceu uma rocambolesca explicação. Acredite quem quiser.

Segundo o relato, a iniciativa de remover o senador boliviano de seu asilo precário na embaixada do Brasil em La Paz foi tomada pelo próprio chefe daquela representação diplomática. Com que então, o homem mandaria às favas seu futuro profissional ― por sua própria decisão ― para arriscar-se numa missão digna de James Bond? Acredite quem quiser.

Muito oportunamente, o embaixador tinha sido chamado ao Brasil. Os negócios estavam sendo tocados por um funcionário menor. Foi deste último a iniciativa de organizar a retirada do senador. Logo, ninguém poderá jamais acusar um diplomata de alto coturno de comportamento inadequado. A imagem do Itamaraty está salva e continua imaculada. Acredite quem quiser.

Bolívia - alfândega

Alfândega boliviana

Segundo o Estadão, o comboio viajou 22 horas, passou por cinco controles militares(!) e atravessou a fronteira. Tudo isso sem que ninguém desconfiasse de nenhuma anormalidade. Acredite quem quiser.

Assim que o grupo chegou a Corumbá, o diplomata brasileiro que chefiava a comitiva não se preocupou em alertar seus superiores. Preferiu procurar diretamente um parlamentar, o senador brasileiro Ferraço. Juntos, tentaram desesperadamente encontrar o presidente do Senado. Sem sucesso. Logo, ninguém poderá jamais suspeitar que o Itamaraty ou o presidente da câmara alta estivesse a par do que se tramava. Acredite quem quiser.

Ao inteirar-se do que havia ocorrido, a chancelaria boliviana acionou a Interpol. Naturalmente, só fizeram isso depois de certificar-se de que o senador havia de fato transposto a fronteira. Acredite quem quiser.

Candidamente, nosso chanceler Patriota faz saber que, nos bastidores, já se confabulava havia tempos, com vistas a uma «saída discreta». Não precisava nem dizer. Taí o resultado.

Brasil-Bolívia transporte

Transporte Brasil-Bolívia

Daqui a algumas semanas, ninguém mais se lembrará do caso. O senador boliviano viverá meses tranquilos em nosso território até que um novo golpe derrube o regime bolivariano de Evo. Vale lembrar que, considerando unicamente o século XX, mais de 15 presidentes (ou ditadores) bolivianos foram derrubados por golpes de Estado. Nas Américas, só o instável Haiti fez mais.

De tudo isso, fica uma evidência: apesar das aparências, as altas esferas do Planalto não estão total e automaticamente alinhadas com La Paz. Ainda restam alguns habitantes do andar de cima não contaminados pelo bolivarianismo. É notícia boa e importante.

Jogo de cena

José Horta Manzano

Todos já ouviram falar no drama do senador boliviano que, ameaçado pelo governo do folclórico e bolivariano Evo, tinha solicitado asilo à embaixada do Brasil em La Paz faz mais de um ano. Ao ligar o rádio, a tevê ou a internet neste domingo, todos ficarão sabendo que o homem passou a fronteira e se encontra em território brasileiro. Melhor assim.

O círculo mais próximo do senador garante que ele concederá à imprensa uma entrevista coletiva na segunda-feira 26 de agosto. O Itamaraty preferiu não comentar o assunto. O governo boliviano fechou-se num silêncio ensurdecedor.

Seja o que for que disserem ― antes, durante e depois da entrevista do senador ― nós, meros mortais, jamais saberemos exatamente o que aconteceu. Alguma historinha rocambolesca terá de ser costurada, naturalmente, para tirar todo resquício de responsabilidade das costas das autoridades bolivianas e das brasileiras. Mas eu não poria a mão no fogo sobre a veracidade do relato que está por vir.

Vigiar uma embaixada e impedir a entrada ou a saída de alguma pessoa não é empreendimento difícil. Que o diga o senhor Assange, que continua cumprindo sua pena de privação de liberdade na representação londrina do Equador. Por coincidência, um país também bolivariano.

Embaixada do Brasil La Paz, Bolívia

Embaixada do Brasil
La Paz, Bolívia

Em 1956, na esteira da fracassada revolução húngara, o cardeal József Mindszenty recebeu asilo na Embaixada dos EUA em Budapest, onde permaneceu 15 longos anos. Só saiu quando lhe foi concedido, na sequência de um acordo político, um salvo-conduto para deixar o país. Antes disso, nem por sonho. Faleceu 4 anos depois de libertado, já com 83 anos.

Portanto, nenhuma explicação, por mais sofisticada que venha, me fará acreditar que o senador boliviano «fugiu» da embaixada. E em seguida? Dirigiu-se ao aeroporto, comprou uma passagem, entrou num avião, desceu em Corumbá (ou em Cuiabá, dependendo da fonte)? Tudo isso sem dinheiro e sem passaporte? Me engana, que eu gosto ― como diz o outro.

É muito mais plausível que a vinda do senador seja fruto de um arreglo político entre Brasília e La Paz. Nenhuma das partes estava interessada em fazer durar a situação. Ao mesmo tempo, nenhuma queria perder a face. Estou curioso para ouvir a explicação oficial.

Há males que vêm para bem. Nesse melodrama, algo de positivo começa a apontar: o Brasil aparenta já não mais estar de joelhos diante da Bolívia. Que alívio! Como parecem distantes aqueles tempos bizarros em que o Lula não só aceitou como também aprovou a invasão e a encampação de uma refinaria da Petrobrás situada em território boliviano. Uma prova de fraqueza!

Vale lembrar que o sócio majoritário da semiestatal de petróleo somos nós, o povo brasileiro. O governo federal, por mais enfatuados que sejam seus integrantes, não é dono da gigante. Ele é mero representante dos verdadeiros donos, que somos nós. Fosse o Brasil um país menos preocupado com direitos individuais e mais atento ao Direito ― com D maiúsculo ―, o presidente pusilânime teria sido processado por crime de responsabilidade.

Enfim, vamos a quedarnos con lo bueno. A novela de La Paz teve final feliz. Podemos dormir em paz.

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Despacho do Estadão e da Folha de São Paulo.

O 13 de maio às avessas

José Horta Manzano

Sob forte pressão das potências da época, o Brasil foi praticamente forçado a abolir a escravidão. O século das luzes, os anos 1700, já havia despertado no mundo europeu uma nova reflexão sobre o assunto.

O fato de um indivíduo ser automaticamente condenado a uma vida de escravidão unicamente por pertencer a determinada raça começou a incomodar. O que antes parecia fazer parte da ordem natural das coisas passou a ser questionado.

A Revolução Francesa acelerou a reflexão. «Se, depois de lutar tanto, conseguimos nos desvencilhar de nossos senhores, não faz sentido mantermos outros estratos de população sob regime forçado de trabalho» ― foi o que pensaram as mentes mais iluminadas.

Um afrouxamento gradual do sistema escravagista teve lugar a partir do início do século XIX. A Inglaterra em 1838 e a França em 1848 extinguiram definitivamente a estrutura escravocrata. Foi abolida a captura de africanos, assim como seu uso como escravos. Terminada a Guerra de Secessão, a escravidão foi extinta também nos Estados Unidos em 1865.

Estetoscópio

Estetoscópio

O Brasil demorou um pouquinho mais. No entanto, a abolição da importação de novos escravos, decretada em 1850 ― associada à Lei do Ventre Livre, em 1871 e à Lei do Sexagenário, em 1885 ― já haviam decretado de facto o fim do sistema no País. A lei de 13 de maio de 1888 apenas apressou e oficializou uma situação à qual o Brasil já se encaminhava inexoravelmente.

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Mas o homem é incorrigível. Você expulsa o fantasma pela porta, ele volta pela janela. Volta e meia, descobre-se que algum poderoso anda explorando um grupo de gente em situação de fragilidade, num esquema de semiescravidão. Situações assim são frequentemente flagradas em regiões recuadas do território. Mas também em grandes cidades, principalmente em São Paulo, desbaratam-se frequentemente oficinas clandestinas que exploram o trabalho de bolivianos, peruanos, chineses, em situação análoga à escravatura.

A cada vez, a imprensa denuncia, a tevê faz eco, liberam-se os cativos. Quanto aos culpados, bem, sacumé, nossa Justiça é atulhada de chicanas, para usar palavra da moda. O processo, quando há, arrasta-se por tanto tempo que o crime periga prescrever. Mas essa é uma outra história, não é o assunto do dia.Interligne 18f

O assunto do dia é uma notícia assustadora em cuja veracidade eu não acreditaria, não tivesse ela sido publicada em vários jornais: o Brasil reintroduz a escravidão.

Já não se procede mais como 150 anos atrás. Afinal, o mundo progrediu. Já não se veem mais empreendedores independentes trabalhando em sistema vertical, tipo serviço completo, incluindo a colheita da mercadoria humana na origem, o transporte até nossos portos e a comercialização de indivíduos em leilão público.

Hoje nos limitamos a ser cúmplices de um moderno trato de escravos, versão 2.0, coisa fina. Nossas mãos ficam limpas, o trabalho sujo é deixado a cargo de outros. Fechamos um olho para a realidade e fingimos, assim, que ela não existe.

O mais inquietante nessa moderna variante do escravagismo é a ação governamental direta. No século XIX, o governo se limitava a dar seu beneplácito, enquanto o trabalho grosso era executado por empresários pouco humanitários, que se encarregavam de trazer o negros e de comercializá-los. As autoridades se contentavam com os frutos da operação, que vinham sob forma de impostos e de votos dos fazendeiros satisfeitos.

Na escravidão atual, o governo federal é conceptor, executante e beneficiário da operação. Os frutos continuam a ser colhidos sob forma de impostos e de votos, exatamente como no passado. Uma jogada de mestre!

Não sabem do que estou falando? Cáspite! Da importação de médicos cubanos. Não sou médico, nem beneficiário da bolsa família. Tampouco vivo em São Nicodemo do Brejo. Não recorro ao SUS. Portanto, prefiro não entrar em considerações gerais sobre a conveniência ou não de se importarem médicos. Eles, que são brancos, que se entendam. Prefiro deixar essa discussão aos interessados diretos.

Mas não posso deixar passar em branco uma evidência: o povo brasileiro ― através de seus representantes democraticamente eleitos ― está patrocinando uma moderna estrutura de semiescravidão. Somos cúmplices da abominável chantagem que a gerontocracia de Havana está impondo aos jovens médicos cubanos.

Médico

Médico

Com o desaparecimento da antiga União Soviética, Cuba perdeu seu padrinho. Desde então, a miséria da população, a falta de perspectivas, a desesperança revelam a falência do regime. A ilha vive de expedientes. Os turistas trazem alguma migalha, os cubanos do exterior ajudam com mais um pouco, o regime bolivariano garante o fornecimento de petróleo. E assim, os infelizes vão levando adiante. Fazem o que podem.

Exportar revolução, coisa que se fazia muito lá pelos anos 70, saiu de moda. Para aliviar o sufoco financeiro, o regime dos Castros imaginou um estratagema: exportar profissionais da área médica. Como se pode facilmente imaginar, médicos e enfermeiros são bem-vindos em qualquer lugar do mundo.

Faltava encontrar um meio de garantir que os modernos escravos entregassem o soldo aos mandachuvas de Havana, exatamente como a prostituta faz com seu cafetão. Não foi difícil. O acordo ― aceito pelo Brasil ― estipula que os salários não serão pagos diretamente ao profissional, mas ao governo cubano. Que, por sua vez, guardará o que julgar conveniente e retrocederá ao médico a quantia que bem entender.

Para garantir que não haverá fugas nem deserções, os infelizes profissionais são proibidos de trazer consigo a família. Mulher e filhos, tomados como reféns, permanecem na ilha. Para fechar o cerco, o Brasil se comprometeu a não acolher pedido de asilo de nenhum médico cubano. Parece intriga da oposição, futrica de vizinho maldoso, piada de salão, mas é a pura verdade. A confissão saiu, com ar displicente, da boca do próprio advogado-geral da União.

Socialismo o muerte

Socialismo o muerte!

Condenados por assassinato, gente com sangue nas mãos, é acolhida de braços abertos. Aconteceu, não faz muito tempo, com um foragido da justiça italiana. Quanto a médicos que só perigam ter nas mãos o sangue de brasileiros cuja vida estiverem tentando salvar, esses não terão direito a nenhum asilo. Que venham, socorram nossos deserdados, e em seguida voltem rapidinho para o inferno de onde saíram. Passar bem!

E pensar que a razão de ser da revolução do socialismo o muerte foi exatamente eliminar a exploração do homem pelo homem!

Pior ainda é pensar que as autoridades de nosso País se acumpliciam, em nosso nome, com essa maquinação. Dá muita vergonha e muita raiva.

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Observação
Um recorte deste artigo de Flávia Marreiro, da Folha de São Paulo, deveria ser entregue a cada médico cubano que pisasse solo brasileiro.

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Helvetismos 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Prisão suíça
Quase três meses atrás, eu lhes informava que prisioneiros do Centro de Detenção de Genebra haviam prestado queixa por tratamento desumano. A superfície das celas dividida pelo número de ocupantes dava, em alguns casos, 3,84m2 por inquilino, quando as normas internacionais estipulam um espaço mínimo de 4m2 por pessoa.

A denúncia havia sido aceita e, em Primeira Instância, os requerentes tiveram ganho de causa. Mas o Ministério Público entrou com recurso. A causa foi para a Segunda Instância, que aceitou a incumbência de rejulgá-la.

Cadeia

Cadeia

O Tribunal de Justiça, a instância superior, embora reconhecendo que as condições de detenção são, de fato, difíceis, considerou que elas não chegam a violar o espírito da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH). Negou provimento e anulou o julgamento da instância inferior.

Portanto, os suplicantes podem dizer adeus à indenização pela qual ansiavam e vão ter de se conformar em viver com 0,16m2 de espaço a menos.

Por enquanto, pelo menos. Ainda cabe recurso ao Tribunal Fédéral, o STF suíço. Mas é uma medida que engendra custas e custo elevados ― advogados, neste país, cobram honorários de arruinar qualquer cristão. Só costuma apelar para o supremo quem tem razoável dose de certeza de obter ganho de causa.

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Policial suíço
Embora haja pequenas variações de uma região a outra, a formação de um agente policial suíço é estruturada de maneira bastante uniforme. Para poder prestar o exame de admissão à Escola de Polícia, o candidato tem de ser titular de um diploma profissional ― pouco importa de que profissão seja. O certificado que se recebe ao final da escola média, aquela que se termina pelos 18 anos de idade, também pode ser aceito. Cabe à Escola de Polícia julgar caso por caso.

Se for aceito, o candidato poderá prestar o exame de admissão. Parece que não é moleza. Há até cursinhos preparatórios para as provas. Se conseguir vencer essa etapa, o postulante seguirá um curso de um ano em período integral. Durante esse ano, dado que não poderá trabalhar, receberá um salário bruto de 4’000 francos (= 9’500 reais), remuneração correspondente ao grau de aspirante.

Polícia suíça

Polícia suíça

As matérias principais do curso são:

Direito penal e Código de processo penal
Código de processo civil
Defesa pessoal
Policiamento de proximidade
Psicologia
Ética profissional e Direitos Humanos
Lutas marciais, corrida a pé, natação, esportes
Conhecimentos gerais

Terminado o curso, o aspirante ainda tem de ser aprovado no exame final. Se passar, seu salário inicial será de 6’100 francos (= 14’500 reais). De 5 em 5 anos receberá aumento por tempo de serviço. A partir do vigésimo ano, chegará ao topo da carreira e atingirá salário de 9’000 francos (= 21’500 reais). O 13° salário não é obrigatório na Suíça. Algumas empresas o adotaram, outras não. A Polícia, generosa, paga esse benefício a seus membros.

Por aqui, caro leitor, nem sonhe em oferecer «um cafezinho» a um policial para se livrar de uma multa. Não vai funcionar e você pode se estrepar.

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No Brasil, para combater a praga da corrupção policial não há outro meio: o salário tem de ser pra lá de atraente. O maior receio de todo policial tem de ser o de perder o emprego. E ele tem de estar ciente de que um cafezinho ou uma cervejinha podem render-lhe expulsão sumária da corporação.

Com políticos, é um pouco mais complicado.

Serviço militar

José Horta Manzano

Pas d’argent, pas de suisses ― sem dinheiro, nada de suíços. Está aí uma frase feita que muita gente por aqui repete sem saber exatamente o que significa.

Se eu disser que italiano fala com as mãos, todos entendem o que quero dizer. E, até certo ponto não deixa de ser verdade: diferentemente de um inglês ou de um escandinavo, o italiano gesticula ao falar. Certos gestos são tão característicos e expressivos que chegam a dispensar palavras.

Guarda pontifical Vaticano

Guarda pontifical
Vaticano

Posso também dizer que japonês é discreto. A ideia é clara e corresponde à realidade. Como os demais orientais, os nativos do país do Sol Levante tendem a ser discretos.

Mas… e a história dos suíços e do dinheiro? De onde vem isso? Engana-se quem imaginar que tenha alguma coisa que ver com segredo bancário ou com as toneladas de ouro armazenadas nos cofres do país. A expressão é muito mais antiga. Data da Idade Média, de um período em que ainda não havia um sistema bancário como conhecemos hoje.

Naqueles tempos, os habitantes destas montanhas penavam para sobreviver. Da terra, pouco adequada para o plantio, nem sempre a colheita era bastante para alimentar a população. Na ausência de indústrias, de riquezas minerais e de todo meio de subsistência que não fosse a pobre agricultura e a magra pecuária, a única solução para muitos jovens era a emigração.

Na Europa, o Reino da França foi um dos primeiros a se unificarem. Foram pioneiros em formar um país na acepção que conhecemos hoje ― com governo centralizado e leis que se aplicam a um vasto território. Muitos jovens suíços se dirigiam para lá. Nem todos, evidentemente. E que iam fazer?

Agricultores não faziam falta, que era essa a ocupação primordial de todo vivente. Pois os montanheses alpinos, gente rude e afeita a viver em condições precárias, vendiam seus serviços como mercenários ― guerreiros de aluguel. Guerras, naquele tempo, não faltavam. De religião ou de conquista, os conflitos eram constantes. E todos eles precisavam de combatentes leais e decididos.

Guarda pontifical Vaticano

Guarda pontifical
Vaticano

Os mercenários suíços ganharam fama na Europa inteira. Eram conhecidos por sua coragem e por sua bravura. Eram duros no combate. Levavam muito a sério a arte da guerra, uma verdadeira atividade profissional. Serviam a quem pagasse melhor, desprovidos de todo sentimento de patriotismo.

Daí vem a expressão pas d’argent, pas de suisses. Somente os senhores que tivessem como pagar podiam contratar combatentes helvéticos. Os outros ficavam a lamber sabão. Um resquício daqueles tempos é a Guarda Suíça do Vaticano. Vestem-se ainda como na época em que foram contratados pela primeira vez.

Diferentemente do que acontece em outros países adiantados, o serviço militar ainda é obrigatório na Suíça. E parece que vai continuar sendo. Está programada para daqui a um mês uma consulta popular sobre a ab-rogação da obrigatoriedade do serviço militar. As pesquisas indicam que, salvo espetacular reviravolta, no dia 22 de setembro a maioria do povo deverá decidir pela manutenção do statu quo.

Só uma precisão: hoje em dia, ficou mais difícil encontrar mercenários suíços.

Non è mai troppo tardi

José Horta Manzano

Quando conheci a Itália, faz quase meio século, a elevada proporção de analfabetos ainda destoava de vizinhos culturalmente comparáveis, como a França ou a Alemanha. A escolaridade já então era gratuita e obrigatória, naturalmente. No entanto, as duas guerras mundiais e as privações causadas por elas tinham contribuído para a persistência de bolsões de pobreza e de analfabetismo.

Se, dez anos depois do fim da Segunda Guerra, as crianças já estavam todas sendo alfabetizadas, ainda sobravam muitos adultos que não tinham tido a sorte de frequentar carteiras escolares. Pelo final dos anos sessenta, o governo da península decidiu resolver o problema. Implantou um programa de alfabetização de adultos chamado Non è mai troppo tardi, nunca é tarde demais.

Dado que a imensa maioria dos lares já possuía um televisor, o programa foi concebido sob forma de ensino à distância, com uma emissão televisiva diária, de segunda a sexta. Fez muito sucesso. Em 1968, considerou-se que o objetivo tinha sido atingido e o sistema foi descontinuado.

Estes dias, li a notícia de que a prefeitura de São Paulo decidiu conceder incentivos — isenção de alguns impostos e alívio de outros encargos fiscais — às firmas geradoras de empregos que vierem a se estabelecer numa determinada região da cidade. Lembrei-me daquelas velhinhas enrugadinhas que eu via na Itália tantos anos atrás, todas vestidas de preto, segurando um lápis entre os dedos calejados e hesitantes, num esforço para aprender a ler. Non è mai troppo tardi.

Velhinhos aprendendo by Salvatore Malorgio

Velhinhos aprendendo
by Salvatore Malorgio

Ao abrir mão de certas entradas fiscais, o que a prefeitura de São Paulo está fazendo é o que executivos municipais, estaduais e, sobretudo, federais tradicionalmente negligenciam: planejamento.

Não conheço o programa em seus detalhes, mas não é difícil entender que a perda momentânea de receita será compensada por alguma vantagem futura. No caso em pauta, o ganho pode-se ligar à mobilidade urbana, dado que grande contingente populacional já reside na região visada pela prefeitura.

Governante que se preza é aquele que cuida do planejamento em vez de dedicar seu tempo a preparar a própria reeleição e a tentar perenizar-se no poder. Os tempos em que, ignorante, o grosso da população servia de massa de manobra e se contentava com migalhas está acabando. Os anos que passam vão-se encarregando de desembaçar a vista do brasileiro. Lentamente, ele vai aprendendo a distinguir quem é e quem não é digno de ocupar algum cargo executivo.

A parte mais sensível do corpo humano, como sabemos todos, é o bolso. Prêmios e castigos monetários, incentivos e agravantes fiscais, enfim, tudo o que mexe com a carteira costuma surtir efeito.

Pouco mais de um ano atrás, o Correio Braziliense publicou um artigo meu sobre a importação de médicos — parece incrível, já faz mais de ano que se fala nisso! Para mitigar o problema da má distribuição dos esculápios no território brasileiro, eu propunha que se passasse pelo bolso, isto é, que se concedessem incentivos fiscais aos recém-formados. O artigo não está online no CB, mas, caso alguém se interesse, vai encontrá-lo no site da Rede Nacional de Advogados e também no site Direito Médico, Odontológico e da Saúde.

Oxalá o exemplo paulistano possa ser entendido e, o que é mais importante, imitado por prefeitos, governadores e — principalmente — pelo governo federal.

Nunca é tarde demais para planejar. O futuro, como diria sabiamente o Conselheiro Acácio, ainda está por chegar.

O que era, o que era!

José Horta Manzano

Você sabia?

Aqui vai a resposta à pergunta de ontem. Os dois únicos países duplamente encravados, ou seja, aqueles de onde precisa atravessar pelo menos dois países para chegar ao mar aberto são: o Usbequistão e o Liechtenstein.

Como sabem todos os meus eruditos leitores, o Usbequistão era uma das 16 repúblicas que compunham a antiga União Soviética. A grande maioria de seus habitantes fala uma variante de turco, língua do ramo altaico. Há ainda pequena minoria russa e mais outra de origem persa. Partindo do Usbequistão e atravessando o Casaquistão, chega-se ao Mar Cáspio. O problema é que, apesar do altamente rentável processamento de caviar que ali se faz, o Mar Cáspio é como um imenso lago. Salgado, sim, mas fechado. Não se comunica com mar aberto.

Já o Principado do Liechtenstein é um fragmento da Idade Média esquecido nos montes pré-alpinos. Ocupa território minúsculo, encravado entre Suíça e Áustria, dois países que tampouco têm acesso ao mar. No Liechtenstein, o idioma oficial é o alemão, a língua de cultura que se aprende na escola. Em casa, fala-se um dialeto do ramo alto-alemão (Hochdeutsch), incompreensível para um alemão.

Parabéns ao caro leitor João, que se arriscou e chegou pertinho.

Que trapalhada!

José Horta Manzano

A Cinematográfica Atlântida, criada no começo dos anos 40, especializou-se nas chamadas chanchadas(*), gênero próximo do vaudevile burlesco. Durante 20 anos, produziu mais de meia centena de filmes. Depois, os tempos mudaram, a televisão criou músculos e acabou se impondo. A Atlântida não aguentou o baque e fechou seus estúdios.

Chanchada

Chanchada

Na época em que a companhia cinematográfica nacional encerrava suas atividades, apareciam os primeiros filmes com o personagem James Bond, agente dos serviços secretos britânicos. Contavam histórias rocambolescas, engalanadas por beldades de fechar o comércio e animadas por espetaculares efeitos especiais. No final, o espião e galã, de aparência eternamente impecável ainda que tivesse atravessado um deserto a pé, era sempre vencedor.

Dois meses atrás, com a defecção de Edward Snowden, teve início uma nova história em capítulos. É uma história real, começada como um bom filme de James Bond e que, pelo que o sacolejo da carroça indica, periga terminar em chanchada. Os capítulos têm trazido trapalhadas de dar inveja aos Três Patetas ― os Three Stooges, cômicos do cinema americano dos anos 30. Uma impressão geral de amadorismo impera.

Tudo começou quando um certo senhor Snowden, pequeno funcionário de uma empresa terceirizada contratada pelos serviços secretos americanos, teve um súbito acesso de dom-quixotismo. Ou terá sido de estrelismo, é difícil saber. O fato é que o homem fraudou a confiança que nele haviam depositado seus empregadores e se apoderou de informações que não lhe eram destinadas. Achou de bom alvitre divulgá-las. Estava armada a primeira trapalhada: como é possível que informação confidencial de tal importância seja deixada ao alcance de um funcionário não graduado?

Em seguida, nosso protagonista confia as informações ao correspondente de um jornal inglês, baseado no Rio de Janeiro. Por que essa escolha? Por que um jornal britânico? O Reino Unido é extremamente severo com toda transgressão. O amador Snowden certamente desconhecia esse pormenor. Melhor teria feito se optasse por um jornal francês, italiano, ou de qualquer outro país menos rigoroso com essas bizarrias.

O senhor Greenwald, correspondente do jornal inglês, teme ausentar-se do Brasil. Pressente que, assim que puser os pés em terra estrangeira, será detido e extraditado para o Reino Unido ou para os EUA. Assim, para fazer chegar certas informações a uma jornalista na Europa e de lá trazer outras, serviu-se de seu companheiro brasileiro como portador.

James Bond

James Bond

Parece brincadeira: deixou que o plano de viagem do amigo incluísse uma escala… em Londres! Justo ele, que conhece como poucos a teia de espionagem mundial, deveria saber que, ao dirigir os holofotes sobre si mesmo, tornou-se uma das pessoas mais vigiadas do planeta. Todos os seus atos e gestos estão sendo perscrutados e anotados em Londres e em Washington.

Em mais uma trapalhada ― desta feita, de autoria dos serviços secretos britânicos ―, o emissário de Greenwald foi detido quando da escala londrina. Só foi liberado depois de revistado, interrogado durante horas e despojado dos objetos e das informações sensíveis que carregava.

A desastrada intervenção da polícia britânica teve duas consequências, ambas nefastas. Primeiro, trouxe à ribalta um caso que já andava meio esquecido. Segundo, incomodou um cidadão brasileiro, obrigando Brasília a um protesto formal e despertando indignação no povo brasileiro. De tabela, cutucou nossos aliados bolivarianos. Como se sabe, nossos vizinhos de parede não deixariam passar esta excelente oportunidade de esbravejar contra o «império», em cuja conta debitam todos os males do globo.

Há maneiras mais sutis de subtrair um PC, um telefone celular e alguns bastõezinhos de memória. Uma valise pode desaparecer, por exemplo. Pode-se até organizar um pseudoassalto. Afinal, quem pode o mais, pode o menos.

E assim vai a valsa, de trapalhada em desastre. Os serviços secretos americanos, Snowden, as autoridades russas, Greenwald, os serviços secretos britânicos, todos deram sua contribuição para a geleia geral. Mas o fim do filme já se conhece: Snowden e Greenwald condenaram-se a si mesmos a um degredo ad vitam æternam. O primeiro cumprirá sua pena nas estepes siberianas. Já o segundo teve mais sorte: poderá circular entre Oiapoque e Chuí, com direito a mergulho nas águas de Copacabana.

Espiões continuarão espionando e serviços secretos continuarão servindo e secretando. A Terra não vai parar de girar. Francamente, não se fazem mais bons filmes como antigamente.

(*) Chanchada ― do espanhol, por via platina. Pelas bandas do Rio da Prata, significa baixeza, deslealdade, aquilo que é informal, enganoso. No Brasil, assumiu significado mais macio.

O que é, o que é?

José Horta Manzano

Você sabia?

Entre os 193 membros da ONU, a maioria dispõe de costa marítima. Uma quarta parte, no entanto, é constituída de países encravados no continente, sem acesso ao mar.

Mas há um fato ainda mais curioso. Existem países duplamente encravados, ou seja, partindo deles, é preciso atravessar pelo menos dois outros países para chegar ao mar aberto. São somente dois, em todo o planeta. Quais são?

Um pouco de suspense. Resposta amanhã.