As marionetes

José Horta Manzano

Antigamente, costumava-se dizer que «livro é cultura». Com o advento da internet e outros bichos, livro ― pelo menos livro impresso ― anda perdendo o pouco de embalo que já tinha no Brasil.

Não sei, mas acho que o conceito de cultura é entendido de maneira sui-generis em nosso País. A escolha dos titulares da pasta da Cultura estes últimos anos tem deixado uma desagradável impressão de que o setor é de somenos importância. Não passa de um cabide onde se dependuram figuras vistosas, como um Gilberto Gil. Serve também de refúgio temporário para «desempregados» políticos, como é o caso da atual ocupante, dona Marta Suplicy, batida em sua última campanha eleitoral.

Das duas figuras que citei, nenhuma é conhecida por sua excepcional erudição, muito menos por suas qualidades organizacionais. Milagres não existem. Lembro-me de um velho chefe inglês que tive anos atrás. Falando de computador, ele dizia: «You feed shit it, you get shit out», se você puser cocô dentro, só pode sair cocô.

Teatrinho de marionete

Teatrinho de marionete

O nosso é um País de pouca cultura, de escassa erudição. Não se tem notícia de que realizações extraordinárias tenham sido deixadas de herança pelos últimos titulares do ministério. A última façanha de dona Marta Suplicy foi amplamente noticiada duas semanas atrás. Ignorando decisão da CNIC ― Comissão Nacional de Incentivo à Cultura ―, a ministra concedeu por volta de 7,5 milhões de reais a três estilistas de moda, para financiamento de seus desfiles no Brasil e no exterior.

Em matéria de incentivo à Cultura, pareceu a muitos uma decisão esdrúxula. Dona Marta decerto aprecia particularmente o estilo desses artistas. Será, aliás, interessante observar se, daqui para a frente, seu guarda-roupa não incluirá algumas criações exclusivas dos três.

A promoção do Brasil no exterior deveria ser atribuição do Ministério do Turismo. No limite, o Itamaraty deveria encarregar-se. Que o Ministério da Cultura faça as vezes de Ministério da Propaganda Cultural me parece estranho. Evoca instituições do III Reich, de triste memória.

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Vivo em uma cidadezinha que não chega a 12 mil habitantes. Pois saibam os senhores que, enquanto aglomerações brasileiras bem maiores não dispõem nem de um teatro de marionetes, nós aqui temos um teatro de verdade. Com 372 lugares e uma programação pra ninguém botar defeito. A temporada 2012-2013, que começa agora em outubro e vai até abril, propõe não menos de 22 atrações. Teremos peças de teatro, one-man shows (e two-men shows) de artistas cômicos, música coral, música de câmera, concertos de piano. Até uma noitada especial com 7 pianos! Quem tiver curiosidade clique aqui para ver o programa.

Teatro de Gland by E. Baghtchadjan

Teatro de Gland
Fotos de E. Baghtchadjan

Ok, ok. Estou de acordo que não faz sentido construir um teatro em São Nicodemo do Brejo. O povo de lá está mais preocupado em saber se vai poder comer amanhã. Em casos assim, melhor será começar pela instrução pública. Quem sabe, mais tarde, se chegará ao teatrinho de marionetes.

Mas, convenhamos, entre as marionetes que o povo de São Nicodemo nunca verá e os desfiles de moda ― custeados com nosso dinheiro ― que Paris e Nova York verão, há muito espaço a ser preenchido. Falta competência.