Libra ― nome mal escolhido

José Horta Manzano

Distintos e cultos, todos os meus leitores sabem que os combustíveis fósseis ― petróleo, carvão, gás natural ― constituem reservas finitas. O que está aí, está aí. O que não está vai levar milhões de anos para se formar. Estima-se que certos jazimentos explorados atualmente começaram a se constituir 650 milhões de anos atrás.

Em pouco mais de duzentos anos, desde que as propriedades do vapor d’água foram postas ao serviço da indústria, a humanidade praticamente esgotou suas reservas de carvão. Com exceção do que ainda dorme no subsolo chinês, as jazidas carboníferas do planeta já não apresentam mais grande interesse econômico ― seu preço de venda não justifica investir na exploração.

Leilão

Leilão

A revolução industrial chinesa, que tem lugar justamente nos tempos atuais, vai extinguir em pouco tempo as reservas de carvão daquele país. Assim como muitas crianças de hoje nunca viram uma vaca ou uma galinha viva, nossos netos conhecerão carvão em museus de História Natural.

Graças a novas técnicas de fraturação hidráulica (conhecidas em inglês como fracking), a exploração de gás de xisto tornou-se economicamente rentável.

Esse combustível se encontra difuso nas profundezas da terra, nos interstícios entre camadas de rocha. Para extraí-lo, é preciso projetar jatos d’água com potência suficiente para fraturar a rocha. Estilhaçadas as pedras, recolhe-se o gás. Receoso dos danos que essa prática possa causar ao meio ambiente, o parlamento francês acaba de bani-la do território nacional.

Estes últimos 10 anos, os Estados Unidos lançaram-se de cabeça nessa nova fronteira. Em 2013, a exploração intensiva do novo combustível os tornou campeões mundiais na categoria de produção de hidrocarbonetos (petróleo + gás). Desbancaram até a Rússia.

Já disse antes e repito aqui que considero insensata essa pilhagem de riquezas sabidamente não renováveis. A humanidade já está suficientemente crescidinha para entender que não convém agir como se o mundo fosse acabar amanhã de manhã. Pode até ser que acabe. Mas… e se não acabar?

Os hidrocarbonetos são uma riqueza demasiadamente preciosa para ser queimada em motores de automóveis. São moléculas de grande valia na química, na farmacêutica, na vida de todos os dias. Não podemos fazer como se, depois de nós, estivesse programado o dilúvio universal. Nossa era será amaldiçoada pelos que nos sucederem, dentro de 50 ou 100 anos, quando todas as reservas estiverem esgotadas.

Estes dias, fala-se muito na exploração do óleo que se supõe dormir sob espessas camadas de sal, no fundo do oceano, ao largo da costa sudeste brasileira. A ideia do momento é compartilhar a exploração dessas reservas com empresas estrangeiras. Nosso atuais governantes, que, curiosamente, são os mesmos que costumavam vituperar contra privatizações e tachar seus predecessores de entreguistas, são os mais entusiastas.

Despreparados, incultos, egoístas e imediatistas, nossos figurões não parecem se importar nem um pouco com a pilhagem de nossas reservas estratégicas. Pior que isso, não hesitam em associar-se aos chineses, notórios dizimadores da natureza. É uma irresponsabilidade.

Libra, que nome mal escolhido! Etimologicamente, a palavra é parente de equilíbrio. O equilíbro é filho legítimo do bom-senso. O bom-senso exige que se pesem os prós e os contras, que se consulte, que se debata, que se ponham os fatos na balança.

Libra (balança) desequilibrada Crédito: Ugurhan Betin

Libra (balança) desequilibrada
Crédito: Ugurhan Betin

O ouro e a prata escondidos em nosso subsolo já acabaram ― foram financiar a revolução industrial inglesa. Agora, em pleno século XXI, com finalidades espúrias, imediatistas e eleitoreiras, estamo-nos preparando para dizimar um dos últimos trunfos que nos restam. Seria tão mais útil investir essa dinheirama na instrução pública. Os brasileirinhos do futuro agradeceriam e, de quebra, teriam ainda à disposição, intacto, o tesouro que, segundo dizem, dorme debaixo de um túmulo de sal.

A destruição da Mata Atlântica se fez ao longo de séculos ― os responsáveis foram numerosos, e seus nomes não ficaram registrados. A destruição da Amazônia, atualmente em cartaz, estará consumada dentro de poucas décadas. Seus autores ― por ação ou por omissão ― terão sido todos os governos dos últimos 50 anos.

O desbaratamento de nossas reservas do pré-sal tem um único autor. E ele é conhecido: o atual governo brasileiro. É ato criminoso, que a História julgará.

Clientela ideal

J. R. Guzzo (*)

O Brasil, como bem sabem os estudiosos da língua portuguesa tal como ela é falada por aqui, é o maior importador mundial de palavras argentinas. Não espanholas, como a conhecida caramba, por exemplo – argentinas mesmo, ou, mais precisamente, portenhas, vindas diretamente das calçadas mais pobres de Buenos Aires para o cais do Porto de Santos e a Praça Mauá, no Rio de Janeiro, de onde transbordaram para o Brasil todo ao longo dos anos.

Essas palavras e expressões vêm do lunfardo, ou “lunfa”, linguajar obscuro, enigmático e com vocabulário descolado do castelhano oficial da Real Academia Española; a maior parte dele pouco ou nada significa na Espanha, no México ou no Peru. Não chega a ser um idioma, mas é bem mais que uma gíria; aparentemente surgiu no fim do século XIX como meio de comunicação entre presidiários, criminosos em geral, proxenetas, vigaristas, batedores de carteira, vadios e outros malvivientes do submundo de Buenos Aires.

Dali se incorporou ao falar da rua, nos bairros pobres dos quais La Boca é o símbolo mais conhecido dos brasileiros, e logo em seguida às letras de tango – das quais, enfim, passou para o mundo.

Ou melhor: para o Brasil. O resto do mundo pode repetir palavras cantadas por Gardel, mas não as utiliza na sua linguagem corrente. Aqui, porém, entraram com todo o gás, e há décadas fazem parte do dia a dia do português falado pelos brasileiros.

A lista não acaba mais: otário, afanar, engrupir, embromar, cambalacho, bacana, bronca, fajuto, punguista, fuleiro, grana, gaita, escracho, cana, tira, lábia, patota, cabreiro, pirado, campana, mina (não no sentido geo­lógico), barra-pesada, e por aí se vai.

Haveria, na preferência nacional pela importação de palavras com esse tipo de significado, entre tantas outras que o lunfardo oferece, alguma atração especial da alma brasileira pela linguagem da marginalidade?

É coisa para os profissionais do ramo responderem, mas certas realidades não se podem negar: feitas todas as contas, a palavra argentina que teve mais sucesso no Brasil, do seu desembarque até o dia de hoje, é “otário”. Amamos essa palavra. Quer dizer: amamos essa palavra quando ela é aplicada aos outros ou, mais exatamente, quando não é aplicada a nós. Vale, então, como uma espécie de certidão negativa, que nos absolve de tudo aquilo que não queremos ser – bobos, enganados, passados para trás.

No Rio de Janeiro, especialmente, é coisa muito séria, do milionário ao engraxate, manter durante a vida uma reputação de não otário. Vale para o Brasil todo, é claro – ser chamado de otário, em qualquer ponto do território nacional, é ofensa grave. Mas no Rio, por alguma razão que é melhor deixar para a apreciação dos mestres em psicologia social, é insulto maior ainda – assim como é um orgulho, assumido ou disfarçado, considerar-se portador da imagem oposta, a do “malandro”.

Depende, naturalmente, da circunstância e do jeito com que a palavra é usada, mas é frequente que o indivíduo classificado como malandro sinta que recebeu um elogio. Vale como um genérico para todo tipo de avaliação positiva: ser tido como malandro é ser tido como inteligente, esperto, habilidoso, experiente, prático, capaz de cuidar de si mesmo, vacinado contra a suprema humilhação de “ficar no prejuízo”.

É comum, no Rio, o sujeito trabalhar de sol a sol, cozinhando no meio de um calor de 40 graus na operação de uma britadeira de rua ou na direção de um ônibus urbano, ganhando uma mixaria e sendo barrado na entrada de tudo aquilo que se considera “vantagens da vida”.

Ao mesmo tempo, sabe que é roubado todos os dias, que o governador do Estado usa helicópteros oficiais, mantidos à sua custa, para transportar seu cachorrinho de estimação entre o Rio e Mangaratiba, e que a casa onde mora pode vir abaixo nas próximas chuvas de verão. Não importa: ele vai morrer achando que foi um grande malandro, e que otários são os outros.

É uma situação de sonho para governantes, vendedores de ilusões e vigaristas de todas as especialidades; têm à sua disposição, sempre, uma clientela que é tola o suficiente para achar que não é tola nunca. O Brasil da esperteza, onde se cultua a “malandragem” em tudo, é, na verdade, um dos países mais crédulos do mundo.

Há poucos, do seu porte, com tantos ludibriados, ingênuos, trapaceados, compradores de mercadoria falsa vendida pela marquetagem política, levados na conversa por palavrório de palanque, prontos a acreditar em farsantes notórios – enfim, e com o perdão da palavra, com tantos otários.

(*) Por J.R.Guzzo, no blogue de Ricardo Setti

EUA ― Governo bloqueado

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EUA ― Governo bloqueado by Patrick Chappatte, desenhista suíço

EUA ― Governo bloqueado
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

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EUA ― Governo bloqueado by Patrick Chappatte, desenhista suíço

EUA ― Governo bloqueado
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

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EUA ― Governo bloqueado by Patrick Chappatte, desenhista suíço

EUA ― Governo bloqueado
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

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Miscelânea 12

José Horta Manzano

Desenvolvimento humano
O PNUD ― Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento ― publicou a classificação do desenvolvimento humano das unidades federativas do Brasil. O estudo está baseado nos dados do censo de 2010 e consolida os índices de renda, de longevidade e de educação apurados em cada município.

Classificação IDHM 2010

Classificação IDHM 2010 – por Unidade Federativa

Os últimos classificados na lista são, na ordem: Pará (25° lugar), Maranhão (26° lugar) e Alagoas, o campeão do atraso, em 27° e último lugar.

Faz décadas que os clãs Barbalho, Sarney e Collor ― cada um na sua terra ― vêm exercendo influência pesada nos três Estados que ora aparecem com os piores índices de desenvolvimento.

Qualquer relação entre esse coronelato e o atraso da população pode não ser mera coincidência. Veja aqui, em resolução superior, o quadro no site do PNUD.

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Horário de verão
Para mim, a palavra horário evoca uma tabela organizada com horário de trem, de avião, de aula, de trabalho. O que os ingleses costumam chamar timetable. Pessoalmente, para definir a mudança da hora oficial no período estival, prefiro a expressão hora de verão. Mas horário de verão está bem ancorado na língua. Vamos de horário mesmo.

Depois de muito vaivém na fixação anual de sua data de início e de fim, o período durante o qual os relógios têm de ser adiantados estabilizou-se a partir do Decreto n° 6558, de 2008. Ficou combinado que a operação começa no terceiro domingo de outubro e termina no terceiro domingo de fevereiro.

Nos anos em que o término coincidir com o Carnaval, a volta à hora normal se fará no quarto domingo de fevereiro. Não entendo bem a relação entre o Carnaval e a hora legal, mas o legislador houve por bem evitar a coincidência. Talvez para não amputar uma hora da festa maior ― evitar revoluções é dever de toda autoridade.

Na Europa, faz 30 anos que o acordo é o seguinte: adiantam-se os relógios no último domingo de março e volta-se a atrasá-los no último domingo de outubro. Um detalhe notável, no entanto, faz a diferença. Na Europa, estudos revelaram que o momento mais calmo do dia está situado entre as 2 horas e as 3 horas da madrugada. Assim, quando os relógios marcam as 2h da manhã do último domingo de março, passa a ser 3 horas. E às 3 horas do último domingo de outubro, atrasam-se os relógios para marcarem 2 horas.

É curioso que, no Brasil, tenham pensado em não perturbar o Carnaval, mas não tenham situado a mudança na hora mais sossegada da madrugada.

Seja como for, a partir de 27 de outubro, Brasil e Europa estarão separados apenas por 3 horas.

Relógio ― modelo oficial da Rede Ferroviária Suíça

Relógio ― modelo oficial da Rede Ferroviária Suíça

Há uma outra particularidade brasileira advinda do fato de nem todos os Estados aderirem à mudança de hora. Dou-lhes um exemplo significativo. O município de Caravelas (BA) está situado na mesma latitude de Santa Rita do Araguaia (GO). Dado que as duas estão separadas por quase 15 graus de longitude, a hora solar, inflexível, determina que a cidade baiana está uma hora à frente da goiana. Esse é o tempo real, astronômico. No entanto o horário de verão gera uma surpreendente distorção. Quando for meio-dia em Caravelas, já será uma hora da tarde em Santa Rita, na contracorrente da lógica geográfica.

Como já cantava Noel Rosa, num maxixe de 1932, são nossas coisas, são coisas nossas. Se quiser ouvir a gravação original, clique aqui.

Dr. Jekyll & Mr. Hyde

José Horta Manzano

Biografia

A maioria de nós escolhe levar uma existência discreta, corriqueira, comum. Há os que ― por motivos profissionais ou não ― tornam-se conhecidos além do estreito círculo familiar e profissional. Tornam-se personagens públicos. Podem ser artistas, políticos, esportistas, milionários, grandes empresários. Bandidos de grande fama também entram nessa categoria. Quem puser um pé nessa seara fica marcado pelo resto da vida.

Greta Garbo (1905-1990), de origem sueca, era uma linda e famosa atriz de cinema nos anos 20 e 30. Deve ter partido muitos corações naquele tempos. No cinema, no entanto, teve carreira curta. Aos 36 anos, abandonou a vida artística, retirou-se e passou a viver reclusa. Não queria mais ser vista por ninguém. Mas não houve jeito: foi perseguida por fotógrafos e repórteres até seu último dia. Alguns anos após seu falecimento, no ano em que comemoraria 100 anos de nascimento, o governo sueco autorizou até que suas cartas pessoais fossem publicadas.

Tenho lido estes dias que alguns artistas brasileiros se opõem a que se publiquem suas biografias sem o consentimento expresso do biografrado. Parece-me incongruente. Acho que as coisas são ou não são. Todos temos um pouco de Dr. Jekyll e uma dose de Mr. Hyde. Nos mortais comuns ― a maioria da humanidade ― isso passa despercebido. Ninguém está realmente interessado em conhecer os desvãos da personalidade alheia.

Biografia

Já o mesmo não acontece com relação a figuras públicas. É natural que detalhes da história de um artista ou de um político de renome interessem mais do que as peripécias de um zé qualquer. Alguns dizem que esse é o preço da fama.

Por coerência, artistas não podem se opor a que se lhes investigue a vida. A remuneração deles vem de um público pagante e entusiasta que lhes cultua a personalidade. É normal que retribuam, que satisfaçam a curiosidade de seus fãs.

Ocupantes de cargos públicos têm (ou teriam) de declarar seu patrimônio ao chegar e ao sair. Isso me parece normal. Não é invasão de privacidade. Eles têm de declarar todo o patrimônio, não somente a parte que lhes interessa, escondendo o resto.

Por que seria diferente com os que atuam no mundo do espetáculo? Não me parece que possam selecionar as informações publicáveis, escondendo as outras.

Na vida, tem o toma lá. Mas tem também o dá cá. Nada sai de graça.

Os piratas modernos

José Horta Manzano

Those were the days, my friend. Aqueles, sim, é que eram dias. Aqueles, sim, é que eram heróis. Aqueles, sim, é que eram gente de fibra e de coragem.

Quando Diogo Cão, Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral zarparam, no comando de uma frota de frágeis caravelas de madeira, só podiam contar com a cara e a coragem. Se algo pior acontecesse ― e o risco era omnipresente ― não tinham a quem apelar. Ocorresse um naufrágio durante uma tormenta, ninguém os poderia socorrer. Seria o fim, certo como um e um são dois.

Pirata

Pirata

O mundo mudou. Hoje funciona diferente. Mapas de navegação sofisticados, relógios ultraprecisos, balizas de sinalização luminosa, dispositivos de localização geográfica, radar, sonar, telefone por satélite compõem uma rede de proteção (quase) infalível. Competições de volta ao mundo para navegadores solitários são organizadas todos os anos. Solitários é força de expressão. Cada navegante tem seu cordão umbilical ligado permanentemente à base terrestre, comunica-se várias vezes por dia por videoconferência, ingere alimentação balanceada. O risco de apanhar escorbuto perdeu-se na poeira de um passado longínquo. Navegar, hoje, com toda essa mordomia, virou moleza.

A ong Greenpeace, dedicada à defesa do meio ambiente, foi fundada mais de 40 anos atrás. Dizem muitos que, de peace (paz), só tem o nome. Seus métodos costumam ser musculosos. A União Europeia tende a considerá-la uma organização terrorista. Seus objetivos são certamente nobres, mas suas intervenções costumam ser espetaculosas, arriscadas, no limite da legalidade ― quando não abertamente ilegais. Fazem isso porque, como os modernos navegadores, sabem que alguém sempre há de se abalar para tirá-los de situações delicadas.

A mais recente travessura dos ongueiros foi particularmente ousada. Um punhado de ativistas ― entre os quais uma conterrânea nossa ― aventuraram-se em águas russas. A fim de demonstrar que não estão de acordo com a decisão de Moscou de extrair óleo de sua costa ártica, arriscaram-se a abordar, sem ser convidados, uma plataforma petrolífera ao largo de Murmansk.

Tivessem desembarcado em plataforma brasileira, teriam causado um auê, mas não acredito que corressem maior perigo. Nesta terra tropical, tudo acaba se arranjando. Especialmente quando se tem como pagar bons advogados. Tudo terminaria ao redor de uma bela pizza. Quem sabe até lhes fosse concedida a Ordem de Rio Branco, tão desprestigiada ultimamente.

Para desgraça de nossos aprendizes de pirata, as coisas na Rússia não costumam se desenrolar tão suavemente como no Brasil. Tomar de assalto uma instalação estratégica do país é afronta levada muito a sério por lá. As autoridades se sentem humilhadas com a demonstração de que não estão dando conta de defender os bens do país. É difícil de engolir. Todos os invasores foram detidos.

Sábado último, Greenpeace convocou manifestações concertadas e simultâneas em dezenas de países do mundo. Tinham por intuito chamar a atenção do planeta para a desventura dos jovens ativistas, agora retidos pelas autoridades russas.

Pirata

Pirata

Cada um tem sua maneira de enxergar o mundo. Concordo com o princípio que motiva os ativistas. Acho até que nenhum campo de exploração deveria ser instalado tão cedo na faixa de pré-sal do litoral brasileiro. Se dependesse de mim, esse tesouro seria guardado como reserva estratégica para o futuro ― nunca se sabe o que pode acontecer. Usemos o dos outros e guardemos o nosso.

No entanto, discordo da maneira de agir dos ongueiros. Intervenções violentas, teatrais e, sobretudo, ilegais não me parecem ser a maneira mais eficaz de convencer as autoridades de Moscou para o desastre ecológico que podem estar provocando.

Alguém imagina que, na sequência da invasão da plataforma, a prospecção petrolífera no Mar Ártico seja suspensa? Não acredito. Pode até surtir efeito contrário. As atividades de extração de petróleo naquela região podem vir a ser dissimuladas sob manto de segredo ainda mais espesso. Terá sido uma expedição à toa, sem finalidade prática.

Os jovens ativistas não serão, imagino, condenados a apodrecer durante anos num campo siberiano de reeducação. Mas também não há de ser amanhã de manhã que serão liberados. Se não me engano, a legislação russa não prevê embargos infringentes. Com certos países, é melhor não facilitar.

Ganhar sem trabalhar

José Horta Manzano

Certos acontecimentos parecem fora de esquadro. O julgamento do mensalão, por exemplo. Para quem está habituado com o Brasil e sua secular tradição de caviar para figurões e marmita para o populacho, a instauração da Ação Penal n° 470 foi um espanto. Não combina com a atuação que estamos acostumados a esperar da Justiça brasileira.

Mas o Brasil não detém o monopólio da esquisitice. Até a ordeira e bem-comportada Suíça é capaz de diabruras de deixar o mundo boquiaberto. É raro, mas acontece. Atualmente, está justamente ocorrendo algo nessa linha.

Em post de 9 de setembro ― É dia de votar! ―, já lhes falei sobre o instituto de iniciativa popular, que a legislação suíça oferece a seus cidadãos. É a possibilidade que tem qualquer um de apresentar um projeto de modificação da Constituição. Em resumo funciona conforme o esquema abaixo.

Interligne vertical 121) O cidadão (ou o comitê de cidadãos) que achar que a Constituição Federal deve ser modificada apresenta seu projeto ao governo. Tanto se pode pleitear a introdução de novo artigo constitucional quanto a modificação ou até a total supressão de um artigo existente.
2) Uma comissão governamental vai estatuir se, sob o aspecto jurídico, o projeto não periga ferir nenhum princípio constitucional. Se não for detectado nenhum empecilho, a comissão dará sua autorização para a coleta de assinaturas. E fixará o prazo para atingir o número necessário.
3) O comitê responsável pela iniciativa cuidará de colher as adesões dentro do prazo consentido. Se conseguir fazê-lo, levará os documentos à comissão governamental.
4) O governo, depois de conferir a validade de cada assinatura, fixará uma data para a votação popular.
5) O comitê interessado tem direito de fazer propaganda. À sua custa, naturalmente. Pode distribuir panfletos, colar cartazes, fazer comícios, anúncio na televisão, porta a porta, o que bem entender. Se os eleitores comprarem a ideia e derem apoio à iniciativa popular, a Constituição será modificada conforme o desejo expresso nas urnas.

Ontem, 3 de outubro de 2013, foram despositadas 126 mil assinaturas de cidadãos que querem que se realize uma consulta popular sobre um tema que não combina muito com este país. A iniciativa popular pede que se acrescente um artigo à Constituição Federal suíça. A redação do artigo pleiteado é bastante simples e se resume a três alíneas:

Interligne vertical 14Alínea 1) A Confederação cuidará de instaurar um salário de base incondicional.
Alínea 2) Esse salário de base deve permitir ao conjunto da população levar existência digna e participar da vida pública.
Alínea 3) A lei determinará o montante do salário de base e a origem dos recursos que o alimentarão.

Parece nada, não é? Mas é muito. Faz a bolsa família parecer brinquedo de criança ― ou piada de salão, como prefere «nosso» Delúbio. Se for aceito, o novo artigo constitucional instituirá uma espécie de bolsa individual, à qual todos os habitantes do território terão direito. Sem condições, o que significa que ricos e pobres, trabalhadores e desempregados, homens e mulheres, velhos e crianças, todos, absolutamente todos receberão um salário que lhes permita levar existência digna. Sem perder o direito ao salário que já recebem por suas atividades habituais. Espantoso, não é?

Moeda suíça de 5 centavos

Moeda suíça de 5 centavos

O comitê pró-iniciativa decidiu desferir um golpe de marketing para marcar o imaginário da população. Encomendou à Banque Nationale Suisse, o banco central do país, 8 milhões de moedinhas de 5 centavos suíços (=12 centavos de real), simbolizando os 8 milhões de habitantes do país. Convocou as câmeras de tevê para o evento. No momento de entregar as caixas com as assinaturas, fez despejar as moedas douradas bem em frente ao Palácio do Governo, em Berna. Parece que tomaram um empréstimo bancário para financiar os 400 mil francos necessários para a surpreendente operação. Para reembolsar o banco, contam com a generosidade dos simpatizantes.

A data da consulta popular ainda não foi fixada. Vai ser interessante acompanhar a evolução desse projeto fora do comum.

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A televisão suíça imortalizou a derrama incomum de 8 milhões de moedinhas na Praça Federal. Para assistir ao vídeo de 1 minuto, clique aqui.

Medida interessante

José Horta Manzano

Apesar de se enquadrar perfeitamente no Zeitgeist — nos ventos que sopram atualmente sobre a humanidade — a consciência ecológica não traz no seu bojo todo o lastro necessário para assumir o comando de um país.

Atmosfera

Atmosfera

É importante estar consciente dos riscos que corremos. Perturbações climáticas, secas, enchentes, poluição das águas, desertificação, uso abusivo de pesticidas, alimentação animal inapropriada, o rosário de perigos é extenso. É função dos ecologistas alertar governos, autoridades e povo.

De fato, a cada ano que passa, pipocam novos partidos preocupados com a preservação da saúde do planeta e de seus habitantes. É preciso tomar consciência de que os recursos naturais são finitos, a contaminação da atmosfera está ocorrendo em ritmo acelerado, a desertificação ganha terreno em muitos cantos do globo.

Essas ideias, conquanto sejam essenciais para a conservação da vida, não constituem uma ideologia em si, uma linha de governo. Eis a razão pela qual as agrupações ecologistas — ou verdes, como são chamadas em certos lugares — são obrigadas a aliar-se a partidos politicamente fortes e bem implantados.

Na França e também no resto da Europa, os verdes tendem a aliar-se aos socialistas. Em princípio, poderiam optar por aproximar-se da direita. Nada impede que ainda venham a fazê-lo no futuro.

O peso do eleitorado verde ainda não conferiu aos movimentos ecologistas massa crítica suficiente para vencerem eleições majoritárias — a presidência da República, por exemplo. No entanto, os eleitores sensíveis a temas de proteção da natureza não deixam de formar uma minoria cada vez mais importante. Todos os governos fazem o possível para agradar esse grupo de cidadãos. Ou, pelo menos, para não os desgostar.

A medida foi decidida já faz alguns anos, mas só entra em vigor agora. A partir deste primeiro de outubro, as empresas de transporte francesas estão obrigadas a informar ao viajante a «empreinte carbone» correspondente ao percurso.

Meios de transporte

Meios de transporte

Francês inventa palavra para tudo. Às vezes fica difícil traduzir. Eu sugeriria «rastro de carbono», ou seja, a quantidade teórica de carbono que o viajante «despejará» na atmosfera em razão daquele percurso. Conto-lhes o exemplo dado hoje pela Rádio France-info, aquela que dá notícias 24h por dia, uma espécie de CBN francesa. Antes mesmo de comprar sua passagem, o viajante poderá tomar conhecimento da quantidade de CO2 que será lançada na atmosfera. Para uma viagem de trem de Paris a Berlim, uma pessoa despeja 12kg de carbono na atmosfera. Se percorrer o mesmo trecho de avião, rejeitará 121kg. Se preferir ir de automóvel, serão 145kg.

Essa informação constará obrigatoriamente no site da empresa transportadora e também no bilhete de passagem. Parece-me uma excelente iniciativa. Não faz mal a ninguém e vai incitando as novas gerações a entender que a natureza é frágil.

Quem cuida, tem. Se não cuidarmos, vamos legar a nossos descendentes um mundo em estado calamitoso.

Miscelânea 11

José Horta Manzano

No calo
A reportagem de 14 páginas publicada pela revista The Economist pisou o calo do Planalto e de nossa orgulhosa presidente.

Para contradizer os argumentos da revista, o ministério de Marketing reativou a participação de dona Dilma nas redes sociais, aqueles canais por onde fluem os mexericos políticos. Preparou para ela um texto curtinho em que, em tom complacente, ela evita entrar em polêmica com The Economist.

Diz apenas que a revista está desinformada (sic). E põe sobre a mesa os parcos argumentos positivos de que dispõe. Diz que a inflação está sob controle ― quando todos sabem que não está. Diz que o dólar se estabilizou, o que é uma falácia. Enfim, brindou-nos com mais do mesmo, como de costume.

Contrassenso
Leis e regulamentos são editados pelos representantes do povo e, em princípio, deveriam ir ao encontro do interesse de todos. Nem sempre é o que acontece. Na França, as normas que regem o horário de abertura dos comércios são um bocado intricadas. Só especialistas entendem do assunto.

Uma recente decisão de Justiça determina que, daqui para a frente, as lojas de bricolagem Leroy Merlin e Castorama que estiverem situadas na região parisiense estão proibidas de abrir as portas aos domingos. A lei tem de ser respeitada.

A intenção do legislador de fazer do domingo o dia de descanso semanal leva em conta o bem-estar do funcionário e tenta contribuir para a paz familiar. Só que o mundo mudou e a sociedade se transformou. Regras de 30 anos atrás já não se harmonizam com os dias de hoje.

Oui! Quero trabalhar aos domingos!

Oui!  Quero trabalhar aos domingos!

Muitos funcionários, cada qual por um motivo pessoal, são voluntários para o trabalho dominical. Há estudantes que, para ganhar um dinheirinho, estão felizes de poder fazer um extra aos domingos. Há pessoas solitárias que preferem trabalhar domingo e ter folga no meio da semana. O legislador não havia previsto essa evolução.

Sindicatos ― que, por definição, estão aí para defender os direitos dos empregados ― estão meio perdidos. Em princípio, deveriam organizar passeatas para exigir o fechamento obrigatório do comércio aos domingos. Mas, no final, quem anda organizando protestos são… os próprios funcionários. Muitos não querem abrir mão do trabalho dominical.

Um mundo de pernas pro ar, não?

Como me ufano
De vez em quando, uma noticiazinha boa não há-de fazer mal. O jornal suíço 20 minutes publicou esta semana um artigo ― com infografia e tudo! ― sobre o novo jato de transporte militar que a Embraer está lançando. Descrevem o novo aparelho como capaz de desempenho superior ao Hercules fabricado pela americana Lockheed. Se você visitar o site do jornal 20 minutes, não deixe de clicar na infografia para ver em tela cheia.

Embraer KC-390 x Lockheed C-130J

Embraer KC-390  x  Lockheed C-130J

E pensar que o inquilino do Planalto imediatamente anterior à presidente atual tentou meter o bedelho no construtor aéreo nacional. Para alívio e satisfação de nós todos, não conseguiu. Escapamos de boa e é melhor assim.

Como chegar?
As obras públicas no Brasil são frequentemente desconexas. Controem-se pontes em lugares desprovidos de estradas. Fecha-se um olho para a urbanização selvagem de regiões inundáveis ou de zonas de manancial. Há muitas incongruências.

Uma das mais flagrantes é a ausência de ligação ferroviária ou metroviária entre o centro das cidades e seu aeroporto ― muitas vezes internacional. Quase 30 anos depois de ser inaugurado, o aeroporto internacional de São Paulo, o mais importante do País, ainda não conta com um transporte que cubra ― com segurança, regularidade e preços accessíveis ― os 30 km que o separam do centro da metrópole.

A Folha de São Paulo publicou esta semana um quadro mostrando a situação em 45 cidades, entre as quais os destinos internacionais mais procurados por viajantes brasileiros. É sintomático. Todos os grandes aeroportos fora da América do Sul contam com ligação ao centro da cidade à qual servem. Em alguns casos, há uma linha de metrô. Em outros, uma linha ferroviária. Todas cobram preços populares.

O caso de São Paulo é dramático por dois motivos. Primeiro, porque mostra o desleixo de todas as autoridades envolvidas com o projeto. Desde os militares que autorizaram a construção do aeroporto, nos anos 80, até os dirigentes atuais. Todos empurraram com a barriga. Hoje só nos resta passar vergonha diante de cada turista que chega e se vê esbulhado por táxis que cobram 100 reais para levá-lo ao centro.

SP - Avenida marginal do rio Tietê by Rodrigo Coca

SP – Avenida marginal do rio Tietê em dia de enchente
by Rodrigo Coca

O segundo motivo é o fato de o trajeto entre o aeroporto e a cidade passar obrigatoriamente pela avenida que margeia o rio Tietê. É uma região onde, por um acidente de tráfego ou por uma chuva mais forte, a circulação de veículos se interrompe. Na época das chuvas, o viajante internacional, para garantir sua chegada ao aeroporto a tempo de se apresentar ao balcão, costuma sair de casa com umas 4 horas de antecedência. Muitas vezes, para um voo de 2 ou 3 horas. Um disparate.

Mas parece que agora vai. Foi tomada a decisão de construir uma ligação férrea. Naturalmente, não estará pronta para quando a Copa chegar. Os visitantes que se danem.

O enxofre e as sapatadas

José Horta Manzano

Se pudesse falar, aquela parede revestida de granito verde que serve de pano de fundo para discursos na sede da ONU em Nova York teria muitas histórias para contar.

No dia 12 de outubro de 1960, um irritado Kruchev, primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética, subiu àquela tribuna para exprimir sua indignação. E fez isso de forma pouco ortodoxa mas assaz eloquente. Aos berros, brandiu um de seus sapatos e desferiu com ele violentos golpes sobre o púlpito. Passados mais de 50 anos, a foto da cena, captada por um sortudo profissional, ainda percorre a internet.

Nikita Kruchev 12 out° 1960

Nikita Kruchev
12 out° 1960

Outro momento burlesco, que fugiu à sucessão habitual de modorrentos discursos, aconteceu poucos anos atrás, em 20 de setembro de 2006. Foi quando o imortal companheiro bolivariano Chávez, ao se exprimir logo após o presidente americano, soltou sua memorável tirada: «¡Huele a azufre!». Quis com isso dizer que, após a passagem do diabo ― o presidente Bush ―, ainda pairava no ar um cheiro de enxofre.

O discurso que dona Dilma pronunciou no mesmo lugar nesta terça-feira repercutiu nos jornais online. Recebeu qualificativos tais como contundente, duro, incisivo. Mas a ressonância não foi muito mais longe. Com a notável exceção do Diário de Notícias português desta quarta-feira, a edição impressa dos principais jornais europeus não dá à fala da presidente do Brasil a importância esperada pela equipe que alinhavou os argumentos. Estamos a anos-luz do cheiro de enxofre e das sapatadas.

Se o discurso chamou a atenção, foi porque foge aos cânones. Não é todos os dias que o dirigente maior de algum país sobe à tribuna da ONU para confessar ao mundo que não dispõe de meios para lutar contra a bisbilhotagem alheia. E que, assim sendo, exige que parem de xeretar. O primeiro reflexo dos ouvintes foi de perplexidade. Mas ninguém se preocupa com as pequenas mazelas alheias. O espanto logo passou.

Como eu dizia ontem, a página foi virada. Os EUA não desmontarão seu programa de espionagem planetária. Para suas comunicações, o Brasil vai continuar morando de aluguel em canais estrangeiros durante muitos e muitos anos. Como não me parece cabível que os assessores de nossa presidente não se deem conta dessa realidade, só me resta concluir que a fala de ontem foi mera mise-en-scène dirigida ao distinto público interno. Uma fúria midiática, marqueteira e… malandra.

Dilma & Obama ― 24 out° 2013 by Amarildo Lima

Dilma & Obama ― 24 set° 2013
by Amarildo Lima

Na Europa, ninguém deu maior importância ao que disse dona Dilma. O noticiário radiofônico e os jornais impressos destacam hoje os habituais problemas internos de cada país. No campo internacional, dois acontecimentos importantes fazem as manchetes: o atentado perpetrado por maometanos radicais num centro comercial queniano e as nuvens negras que dão sinais de querer dissipar-se sobre os céus de Teerã.

Esta última, sim, é novidade positiva, daquelas que trazem esperança e dão ânimo. Quem não gosta de notícia boa?

Mais um desperdício

José Horta Manzano

Seguindo uma tradição não escrita, o representante do Brasil é o primeiro a discursar, a cada ano, na abertura da Assembleia-geral das Nações Unidas. Essa praxe perdura há 65 anos, desde que o chanceler Oswaldo Aranha inaugurou a primeira dessas reuniões de gala.

Todo o mundo sabe que as grandes decisões não são tomadas em assembleias públicas, com a presença de representantes de quase 200 países, luzes, câmeras e ação. Os destinos do planeta são decididos em conciliábulos bem mais discretos. Conversas de corredor costumam ser mais produtivas que discursos inflamados e ostensivos.

Assim mesmo, o fato de o presidente do Brasil ser o primeiro a discursar é um privilégio a não desperdiçar. Exatamente como aconteceu com Oswaldo Aranha em 1947, os ouvidos do auditório estarão frescos e descansados quando dona Dilma fizer seu pronunciamento. Ser o primeiro é melhor do que ser o décimo nono ou o quinquagésimo segundo.

Os holofotes do mundo estão apontados para a guerra na Síria, para os tímidos sinais de abertura chegados de Teerã, para o crônico problema palestino, para o tráfico de entorpecentes, para os transtornos climáticos. Seria uma ocasião de ouro para o Brasil ― eterno candidato a uma cadeira cativa no Conselho de Segurança ― mostrar seu envolvimento nos assuntos planetários e fazer saber qual é sua posição com relação a cada um deles.

O discurso de dona Dilma by Amarildo Lima

O discurso de dona Dilma
by Amarildo Lima

Que esperança! Pelo que está anunciado, nossa presidente prepara-se para malbaratar, pela enésima vez, a oportunidade que nos é dada uma vez por ano. Os luminares do Planalto, que não conseguiram até hoje se libertar de seu complexo de inferioridade e de perseguição, prepararam para dona Dilma uma fala surreal.

No momento em que escrevo, o discurso ainda não foi pronunciado. Mas o que se prevê é que nossa presidente exponha à luz dos refletores o fato de ter descoberto que grandes potências se espionam entre si, e que, ocasionalmente, podem até espionar países menos relevantes, como o nosso. Horror!

Aonde queremos chegar com essas reclamações? Nem os ideólogos que prepararam o discurso da presidente parecem saber direito o que querem. É importante ser realista. O choramingar ofendido da discursante não comoverá ninguém. Todos aplaudirão polidamente, virarão a página, e passarão a assuntos mais sérios.

No rastro do famigerado controle social da mídia, objetivo sonhado pelos que nos governam há mais de dez anos, dona Dilma pretende propor uma espécie de controle planetário dos meios de comunicação. Na sua imaginação, esse controle fechará todas as portas à espionagem.

O que Sua Excelência omitirá é o fato de a CIA (inteligência americana) e a PF (Polícia Federal brasileira) estarem colaborando estreita e regularmente há décadas. Ela tampouco dirá que a PF e a embaixada dos EUA formalizaram um acordo em 2010, durante o governo de seu predecessor. Aos incrédulos, aconselho conferir rapidamente o que publicou a Folha de São Paulo no dia 15 set° 2013.

Vejo algumas explicações possíveis para essa aparente incongruência:

1) Talvez nossa presidente não esteja a par dessas práticas.
Se assim for, está aí a prova cabal de que estamos sendo governados por um elenco de amadores que não entende do riscado. Não tinham experiência e nada conseguiram assimilar nestes doze anos de poder.

2) Talvez nossos mandachuvas realmente acreditem que o caminho é esse.
Se assim for, está aí a demonstração de uma ingenuidade pueril, digna de mentes adolescentes. Na cabeça de governantes de um país como o nosso, destoa.

3) Talvez o Planalto esteja apenas jogando para a galeria.
Esse é o pior cenário. Se assim for, ficam patentes todos os defeitos: a incapacidade, a ingenuidade e, para coroar, a má-fé. Tudo junto.

Interligne 18h

Como disse uma vez o grande Tom Jobim, «o Brasil não é para principiantes». Fosse o maestro ainda vivo, sabe Deus o que diria ao ver que os próprios governantes do País não passam de aprendizes.

Comprai, irmãos!

José Horta Manzano

Você sabia?

Não prometi, mas achei que tinha ficado devendo o final da novela. Estou falando do voto popular que tivemos na Suíça ontem, 22 de setembro. Para quem não sabe mais do que estou falando, é a continuação da história que comecei a contar no meu artigo É dia de votar!, de 9 de setembro. A questão palpitante se referia ao horário de abertura dos supermercadinhos acoplados a postos de gasolina.

As urnas falaram, como se costuma dizer. Por maioria de quase 56%, os cidadãos deste país deram sua aprovação à lei que altera o horário de funcionamento das lojas de conveniência instaladas em postos de gasolina. Podem agora funcionar 24h por dia. Demorou anos, mas o grande dia chegou.

Local de votação, Suíça

Local de votação, Suíça

Mas atenção! Tão somente esses convenientes estabelecimentos comerciais caem no campo de abrangência da nova legislação. Quanto aos outros, neca! A proibição de abertura noturna de supermercados e de outros estabelecimentos comerciais continua tão rigorosa quanto antes.

Uma outra pergunta feita ao povo ontem foi se aceitavam a extinção do serviço militar obrigatório. Como era esperado, os suíços se mostraram radicalmente opostos a essa novidade. Três em cada quatro votantes recusaram-se a aceitar a inovação. Afinal, no imaginário popular, um exército forte e bem preparado é o principal sustentáculo da nação. É símbolo do país e faz parte de sua cultura. Enfraquecer as forças armadas seria como demolir o Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Inconcebível.

Cerca de 46% dos eleitores compareceram às urnas para exprimir sua opinião. Até que não é uma porcentagem tão baixa como parece. Dado que o voto aqui não é obrigatório, a participação de metade do eleitorado já é festejada.

Veja os resultados aqui.

Pangeia 2

Para quem apreciou o mapa da Pangeia, aqui está a versão original, em alta resolução. Cortesia do autor, Massimo Pietrobon. Clicando duas vezes, um mapa bem mais detalhado deveria aparecer. Em princípio. Com informática, nunca se sabe o que pode acontecer.

Pangeia ― alta resolução

Pangeia ― alta resolução

Pangeia

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que a Idade Média terminou faz quase 600 anos. Temos até a data exata: 29 de maio de 1453, uma terça-feira, dia em que Constantinopla, a capital do Império Bizantino, se rendeu ao exército turco otomano. É raro que a História marque com tal precisão uma mudança de era.

Bem, o fim da Idade Média não significa que o mundo se encontrou de ponta-cabeça no dia seguinte. As mudanças foram paulatinas. A saga da navegação em alto-mar engatinhava. As áreas linguísticas e culturais europeias já começavam a delinear as fronteiras nacionais que só surgiriam bem mais tarde.

Timidamente, o mundo foi deixando de se dividir entre os que sabiam e os que não sabiam. Até meio milênio atrás, o saber era um valor absoluto. Quem sabia, sabia tudo, era versado em todas as artes, todas a ciências, todas as línguas. Segundo seu caráter, cada sábio tinha seu campo de preferência, o que não o impedia de perambular por outras searas.

Pangeia by Massimo Pietrobon

Pangeia
by Massimo Pietrobon

Leonardo da Vinci(*) é o mais acabado exemplo de sábio medieval ― tocava todos os instrumentos da orquestra. De lá para cá, a comunicação entre grupos humanos foi se intensificando, terras novas foram descobertas, conceitos foram surgindo, o espectro do conhecimento foi-se alargando. O fato é que, pouco a pouco, tornou-se impossível para um só homem, por mais genial que seja, abarcar toda a sapiência. Inexoravelmente, foram-se delimitando campos específicos, cada letrado especializou-se na área onde se sentia mais à vontade.

Hoje em dia, a especialização tem levado a excessos. Em medicina, por exemplo, está cada vez mais difícil encontrar um generalista. Cada profissional se dedica a uma área específica e não costuma se aventurar em campo alheio. Isso pode ter seu lado bom, mas, para o paciente, a peregrinação é meio complicada.

É raro, mas de vez em quando acontece de a gente topar com algum remanescente da Idade Média. É o caso de Massimo Pietrobon, cidadão do mundo, originário da mesma terra que viu nascer Leonardo. Poliglota, um pouco artista, um pouco cientista, um pouco desenhista, um pouco globe-trotter, um pouco visionário, um pouco maluco, Pietrobon é uma fábrica de ideias ― às vezes absurdas.

Pangeia ― detalhe by Massimo Pietrobon

Pangeia ― detalhe
by Massimo Pietrobon

Todos já ouvimos falar num hipotético continente primitivo, ao qual os cientistas deram o nome de Pangeia. De sua fragmentação, milhões de anos atrás, teriam surgido os continentes que conhecemos hoje. Pietrobon decidiu ir mais longe. Recolheu o resultado dos estudos científicos e botou no papel a representação gráfica do que poderia ter sido o globo terrestre com seu continente único. Foi mais longe. Desenhou o contorno dos países atuais.

O resultado é primoroso. Se os continentes não tivessem derivado, muitos brasileiros poderiam facilmente realizar seu sonho maior. Dado que os EUA praticamente encostavam no Amapá, a viagem até a Disneylândia poderia ser feita… a pé! Mas nada é perfeito. O Brasil não teria costa marítima, ao contrário da Suíça. Não se pode ter tudo.

Para quem quiser fazer uma visita a esse extraterrestre, deixo os endereços. Aqui e aqui. Quem quiser pode também ver Pangeia em resolução mais elevada. Aqui.

Interligne 18b

No Brasil, dizemos Leonardo da Vinci, como os italianos. Fica a impressão de que Vinci é o sobrenome do homem. Não é bem assim. A preposição italiana da indica procedência, proveniência. O sábio chamava-se Leonardo. Tinha nascido num lugarejo ― que é hoje uma cidadezinha ― chamado Vinci, perto de Florença. Daí dizerem Leonardo da Vinci. Deveríamos dizer Leonardo de Vinci. Mas acho que é tarde demais para mudar. Fica assim mesmo.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano

Religião e raça são assuntos potencialmente explosivos, a manipular com extrema precaução. São temas que compõem a individualidade de cada um. Carece abordar com muita delicadeza e sensibilidade, que, em matéria íntima, todo cuidado é pouco.

Apartheid

Apartheid

Nos dias atuais, a informação circula mais rapidamente, o que tem o condão de limitar escaramuças e prevenir enfrentamentos. Mas nem sempre foi assim. Muita guerra já se travou e muito massacre já se perpetrou em nome da religião ou da raça.

Mesmo no mundo atual, volta e meia ainda se tem notícia de alguma conflagração aqui e ali. A pior ocorrência dos últimos 20 anos se deu em Ruanda, onde milhões de seres foram massacrados no âmbito de um conflito étnico. A fragmentação da antiga Iugoslávia, nos anos 90, também detonou uma terrível guerra etnorreligiosa que matou muita gente e arrasou cidades e vilarejos. Mais recentemente, tivemos a tempestade de poeira levantada pelas caricaturas de Maomé publicadas pelo periódico dinamarquês Jyllands-Posten(*).

Se a infeliz aventura do apartheid sul-africano não terminou num banho de sangue ― como todos imaginavam que fosse acabar ―, isso deveu-se ao carisma de Nelson Mandela, a quem a humanidade deve muito.

Apartheid

Apartheid

Estes últimos anos, com o objetivo de cooptar setores inteiros da sociedade, nosso governo tem instituído políticas estranhas. Algumas, inócuas, visam a congelar o statu quo. É o caso da chamada bolsa família, versão moderna do mesmo paternalismo que vem segurando a evolução de nossa sociedade faz 500 anos. Essa transferência de ganhos da classe média para os mais pobres não tem sido arrematada com investimento na instrução pública. Como resultado, criou dependentes crônicos. Distribuíram-se peixes, mas não se formaram pescadores.

Outra política estranha ― e bem mais perigosa ― é a tentativa de cooptação dos cidadãos de sangue misturado, aqueles que contam, entre seus ascendentes, europeus e africanos. Foram arbitrariamente classificados como «afrodescendentes», denominação falaciosa, dado que praticamente todos os seus integrantes são igualmente eurodescendentes. Por que fechar o olho para um ramo da origem desses cidadãos e considerar somente o lado que, neste momento, interessa?

A expressão mais visível dessa peculiar obra governamental é a política de quotas para admissão em escolas de ensino superior. Com base em critérios raciais, certos cidadãos são privilegiados em detrimento de outros. Oficializou-se que a origem e a cor da pele sobrepujam o mérito. Isso é um precedente gravíssimo. Com intenções mesquinhas de perpetuação no poder, o atual governo está reabrindo uma questão que se imaginava encerrada e enterrada desde o dia 13 de maio de 1888.

Abramović ― Sistema de quotas

Abramović ― Sistema de quotas

Em princípio, ninguém é discriminado por não ser louro de olhos azuis. Quando um profissional é realmente competente, pouco importa a cor de sua pele ― será bem sucedido. Ao contrario, um incapaz não terá sucesso, ainda que seja empurrado pelo mais generoso sistema de quotas. Não são os privilégios outorgados pelas quotas que erguerão o nível de nossos futuros profissionais.

Outro dia, o jornal O Globo informou que um moço claro de pele e de olhos tinha se apresentado como candidato ao curso de diplomacia do Instituto Rio Branco. O detalhe picante é que Abramović, o postulante, se declarou «afrodescendente». Pleiteou ― e obteve ― uma vaga pelo sistema de quotas. Mais dia, menos dia, tinha de acontecer.

Estamos começando a resvalar. A irresponsabilidade dos luminares que abriram essa caixa de pandora está-nos dirigindo direto contra o muro. Se a moda pega, muito cidadão vai acabar se autodeclarando «afrodescendente» unicamente para ter direito a usufruir o sistema de quotas. E aí, que fazemos?

Soluções existem, basta recuar 80 anos. Na Alemanha dos anos 30 e nos países ocupados pelos nazistas durante a Segunda Guerra, os cidadãos de determinadas raças carregavam no peito, bem visível, um sinal distintivo. Seus papéis de identidade também traziam, bem clara, a menção da raça.

Se a moda da autodeclaração errônea pegar, repito, vão sobrar duas soluções:

1) A primeira é voltar às trevas do nazifascismo e delegar ao Estado a função de determinar a raça de cada indivíduo. Para maior garantia, todo cidadão receberá seu certificado de pureza racial, uma tatuagem ou um chip implantado sob a pele.

Estrela amarela sinal distintivo

Estrela amarela
sinal distintivo

2) A segunda é reconhecer o erro e voltar atrás. Quem nunca errou? Que se abandone o mais rápido possível essa estúpida e temerária divisão racial da sociedade. E que seja feito investimento maciço visando a elevar o nível de instrução de todos os brasileiros. Brancos, pretos, azuis, verdes. Ou furta-cor.

Ainda dá tempo.

Interligne 18f

(*) Não tem nada que ver com o assunto. Por curiosidade, fui dar uma espiada na edição online do dinamarquês Jyllands-Posten. Entre as manchetes de capa, traz um artigo sobre o combate que os venezuelanos travam contra a falta de papel higiênico. Quem quiser conferir, clique aqui.

Como nos veem

José Horta Manzano

Frequentemente me perguntam como o Brasil é visto do estrangeiro. É difícil responder. Eu diria que, salvo raras exceções, o europeu já não enxerga mais nosso País como uma imensa floresta infestada de cobras e macacos. Já é alguma coisa, mas a visão evoluiu pouco, ainda não tanto como gostaríamos. Os clichês têm vida longa.

Julgamentos do STF, vinda de médicos de Cuba, leilão de pré-sal, licitação de trem-bala, nada disso é noticiado por aqui. Por um lado, porque não apresenta grande interesse para o europeu médio, e, por outro, porque não se encaixa no que o imaginário popular espera do Brasil. Além do que, francamente, o europeu está-se lixando para uma penca de corruptos que está sendo julgada. Que sejam castigados ou não, a História do mundo não vai se alterar. Acaso alguém, no Brasil, se emocionou quando alguns dirigentes do Regime Khmer Vermelho foram julgados no Camboja?

Falou-se muito da visita do papa Francisco, isso sim. Todos os canais de tevê e as estações de rádio davam frequentes boletins. Afinal, é o primeiro papa não-europeu e não originário da orla mediterrânea. A Argentina e o Brasil são percebidos mais ou menos como o brasileiro percebe a Ucrânia e a Polônia ou a Suécia e a Noruega ― dois países que fazem parte de uma só salada. Portanto, a visita do papa ao Rio foi ressentida aqui mais ou menos como a primeira visita que o recém-eleito João Paulo II fez à sua Polônia natal.

Mas o grande assunto destes últimos anos foi, sem dúvida alguma, o levante popular de junho. Eu não diria que chegou a assustar, mas surpreendeu todos. Justamente porque contradizia a ideia que todos têm de um povo brasileiro alegre, feliz, despreocupado, desligado da realidade, desorganizado. Excluídas as catástrofes naturais, faz tempo que o Brasil não aparecia com tanta insistência nas manchetes.

Nem mesmo isto funciona mais! by Patrick Chappatte, cartunista suíço

Nem mesmo isto funciona mais!
by Patrick Chappatte, cartunista suíço

Antes desses protestos, o último a reter a curiosidade dos europeus, salvo melhor juízo, foi o Guga. E isso aconteceu justamente porque, como no caso das passeatas, o esportista catarinense fugia ao clichê. A aparência física do moço não corresponde à imagem que por aqui se tem dos habitantes do Brasil. O esporte em que ele sobressaía tampouco bate com o que geralmente se espera. Além do que, o tenista, com seu eterno sorriso, conquistou simpatias. O povo aqui se sentiu tão surpreso como nos sentiríamos nós se um futebolista birmanês fosse sagrado melhor jogador do ano.

Bem, que a verdade seja dita. Temos de reconhecer que os governantes do Brasil não se têm esforçado para passar ao mundo a ideia de um país sério e organizado. Faz já uns dez anos que nossos mandachuvas tentam pular direto do estágio do carro de boi para o do avião supersônico. Enganam-se. Não se começa a construir um edifício pelo telhado.

O Brasil não será visto como país importante só porque o Planalto decidiu que assim deve ser. Toda obra tem de começar pelas fundações. Não se podem queimar as etapas. O caminho é longo, mas inevitável. Só nos resta torcer para que a decisão ― irresponsável, a meu ver ― de acolher a Copa do Mundo em 2014 não contribua para arranhar a imagem do País. Que já não é lá essas coisas.

Miscelânea 10

José Horta Manzano

Idiota 3Mensalão
O que mais vai-se ler hoje são análises ― serenas ou inflamadas ― do mais recente episódio do mensalão, de seus comos e de seus porquês. Não vou-lhes dar mais do mesmo. De toda maneira, o que está feito, feito está.

A meu ver, o julgamento do mensalão, que termine ou não com gente na cadeia, terá sido um divisor de águas nas práticas judiciárias brasileiras. E é isso que a História guardará. Passemos a outro assunto.

Interligne 18b

La vie en rose
Na Suíça, como em qualquer parte do mundo, autoridades penitenciárias têm, vez por outra, de usar a força para acalmar prisioneiros mais exaltados. Os suíços mandaram fazer estudos para encontrar método melhor que a tradicional camisa de força para sossegar os que surtam. Especialistas recomendaram que se encerrassem os mais atacados em celas cor-de-rosa durante um certo tempo, até que serenassem.

Cela calmante, Suíça

Cela calmante, Suíça

Na Suíça alemã, já chegaram à conclusão que 2 horas são suficientes para acalmar qualquer um. Já na Suíça francesa, não se sabe se por displicência ou vingança, chegam a «esquecer» o preso durante 5 dias nesse mundo unicolor. Os encarcerados reclamam, não tanto da cor, mas principalmente da humilhação.

Interligne 18b

Caros celulares
O roubo de celulares está-se tornando calamitoso na Guatemala. Por um telefonezinho de bolso, assaltantes são capazes até de cometer o irreparável. Diante disso, o Congresso resolveu legislar. Acabam de aprovar uma lei que pune ladrão de celular com até 15 anos de prisão mais multa de, no mínimo, 25 mil dólares.

A nova lei não admite embargos infringentes.

Interligne 18b

Idiota 4Gelo para quem pode
A crise financeira que começou em 2008 com a quebra do Banco Lehman Brothers arruinou muita gente. No entanto, é sabido que a balança tem dois pratos. Para que um desça, é preciso que o outro suba. Se muita gente perdeu dinheiro, outros ganharam fortunas. Dizem até que há hoje mais milionários do que antes da crise.

Algumas firmas, de olho nessa clientela abastada e composta em maioria por novos-ricos, não se tem privado de oferecer o que o mercado pede. Uma empresa americana está fazendo sucesso vendendo… gelo! Ah, mas não é um gelo qualquer, quá! É gelo para ricos. Vêm sob forma de cubinhos ou de bolinhas.

Feita de água duplamente destilada, essa nova maravilha é isenta de sais minerais que lhe possam alterar o gosto. Em compensação, o preço é salgado. Uma embalagem de 50 cubinhos sai por 325 dólares, o que dá 6.50 dólares por cubo. Uma boa notícia: o valor do despacho no interior do território americano está incluído no preço. Compradores de outros países pagarão um acréscimo para cobrir o frete.

Quem foi mesmo que disse que a estupidez humana não tem limites?

Interligne 18b

Idiota 1Ladrão que rouba ladrão
A cadeia da cidade de Pavia, na Itália, foi assaltada. Os ladrões vinham de fora do estabelecimento. Levaram o cofre-forte onde era conservado, entre outros pertences, o dinheiro pessoal dos detentos ― uma espécie de caixa econômica interna. As economias de cada um estavam lá. A quantia roubada situa-se, segundo a fonte, entre 5000 e 6000 euros.

Além de força muscular, os assaltantes deviam ter conhecimento perfeito daquelas paragens. Penetraram no estabelecimento, atravessaram subterrâneos, abriram portas, carregaram o cofre, desapareceram, e ninguém se deu conta. Estão sendo procurados.

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Sob pressão, não!
O senhor Assange, aquele que está asilado na embaixada equatoriana em Londres, andava meio esquecido. Pressentindo que, do jeito que as coisas vão, periga passar o resto da vida na prisão onde se encurralou voluntariamente, resolveu fazer alguma coisa para ressurgir no noticiário. Aproveitando a deixa que lhe deu dona Dilma, fez declaração à Folha de São Paulo, por email. Aplaudiu a decisão da presidente de cancelar sua visita de Estado aos EUA.

Valeu-se da mesma ocasião para dar um conselho a nossa voluntariosa presidente. Declarou que o cancelamento da visita não é suficiente. Falta ainda dar asilo tropical a uma jornalista britânica que se encontra atualmente em degredo na Rússia.Idiota 2

O senhor Assange provavelmente ignora que não tem chance nenhuma de ser atendido. Nós todos, escolados, sabemos que dona Dilma nunca decide sob pressão. A não ser que a pressão venha de La Paz. Ou do Lula. Ou das ruas. Ou de Buenos Aires. Ou de Havana. Ou de Caracas.

Senhor Assange, se me lê, guarde bem: Mrs. Rousseff never makes any decision under pressure. Nunca mesmo.

Os limites da igualdade

José Horta Manzano

Antes da Revolução Francesa, a estratificação da sociedade era rígida. O roteiro de cada um já era conhecido desde o nascimento. Filho de ferreiro se tornaria ferreiro. Filho de príncipe já nascia príncipe. Filho de agricultor seria necessariamente agricultor. O elevador social ainda não havia sido inventado.

Filho de peixe...

Filho de peixe…

Os acontecimentos destes últimos 200 anos aceleraram o ritmo de transformação da sociedade. Embora enguice às vezes, o elevador da ascensão social já existe e costuma funcionar. Há que saber manejá-lo.

Substituído pela indústria, o ofício de ferreiro praticamente desapareceu. Para usar a mesma metáfora, direi que filho de metalúrgico já não nasce predestinado a seguir a profissão do pai. Pode até fazer sucesso no ramo de telecomunicações, por exemplo. (Tivemos, aliás, um exemplo. De notoriedade nacional.) Da mesma maneira, nada impede que um filho de agricultor possa vir a ser doutor.

Estes últimos anos, a busca frenética da igualdade tem levado muita gente a forçar a mão. Certas palavras e expressões ― usadas no dia a dia havia séculos ― foram banidas. Cego, surdo, mudo, preto, aleijado, manco, mulato, velho & companhia são palavras a evitar. A etiqueta hoje manda substituí-las por um equivalente genérico. Mais complicado, um circunlóquio também serve. Seja.

Mas a eliminação de toda menção àquilo que foge à norma não elimina aquilo que foge à norma. Em outros termos: não basta silenciar sobre uma realidade para fazer que ela deixe de existir. Todo agrupamento humano é um conjunto harmonioso de seres diferentes. Por mais que me digam que estou na melhor idade, na terceira idade, na feliz idade ― nada disso me fará rejuvenescer.

Ser mais idoso que a média significa apenas que nasci antes, assim como tantos outros nasceram antes de mim e tantos outros nascerão depois de todos nós. Não deveria ser motivo de vergonha nem de orgulho. Não é qualidade a ostentar nem defeito a esconder. Não há palavra melhor para definir um velho que esta: velho.

O bom-senso indica que assim deveria ser com todas as outras minorias. Infelizmente, não é o que acontece. E é bom não transgredir, porque pode até dar processo. O brasileiro, grande fã de novelas, adora uma intrigazinha. Qualquer picuinha pode terminar num tribunal. Todo cuidado é pouco.

A Constituição de países civilizados costuma dizer que todos os cidadãos são iguais em direito. Em princípio, é frase vazia, que não funciona na prática. Mas continua lá. E, vez por outra, gera efeitos absurdos.

Semana passada, as autoridades do Estado americano de Iowa determinaram que, em nome da igualdade entre cidadãos, os cegos ― ou não-videntes, se preferirem ― estão autorizados a portar armas. O jornal Des Moines Register noticiou. Não estamos falando aqui de pessoas com leve disfunção visual. O direito se estende a indivíduos que não enxergam absolutamente nada.

... peixinho há de ser

… peixinho há de ser

Para mim, não faz sentido. Até para aplicar nobres princípios, como a igualdade de direitos, não se pode fugir ao bom-senso. Se não, chega-se a situações esdrúxulas como o direito de voto que o Brasil concedeu a seus cidadãos analfabetos. A alfabetização do povo é dever do Estado. Que cumpra primeiro seu dever, oferecendo instrução a todos, depois conversamos. Adolescentes e presidiários não têm o direito de votar. Por que analfabetos o teriam?

Há limite para tudo. Permitir a não-videntes portar uma arma de fogo é tão incongruente como seria conceder-lhes uma carteira de motorista.

Tribunal federal

José Horta Manzano

Quando de julgamentos de repercussão nacional, grandes crimes ou grandes escândalos, a vedete costuma ser o acusado. Paradoxalmente, no atualíssimo caso da Ação Penal 470, que julga os acusados pelo mensalão, quem sobressai é… o tribunal. Fala-se mais dos julgadores que dos julgados. Pouquíssimos saberão declinar, de cabeça, o nome dos 40 acusados no processo inicial. Em compensação, qualquer brasileiro medianamente informado conhece de cor e salteado o nome, o rosto e o gosto de cada juiz do STF.

Discute-se acirradamente, apaixonadamente. Há quem sinta simpatia por este ou por aquele ministro, há quem torça por algum deles, todos querem saber quem namora quem, quem comprou apartamento aqui ou ali. Os espectadores vibram como num reality show. A diferença é que, neste caso, o prêmio não será em dinheiro, mas em anos de cárcere.

Falando em dinheiro ― e já que perguntar não ofende ― uma divagação: de onde estarão vindo os milhões devidos a esse batalhão de ilustres advogados que asseguram a defesa dos acusados?

Supremo Tribunal Federal Brasília

Supremo Tribunal Federal
Brasília

Nenhum país de direito ― regido por leis ― pode prescindir de tribunais para julgar transgressões e arbitrar conflitos. A organização judiciária varia de um Estado a outro. É comum existir uma segunda instância judiciária, à qual é permitido recorrer quando uma decisão de primeira instância não satisfaz a uma das partes.

Embora não seja o caso em todos os países do mundo, muitos contam com uma terceira instância, em princípio o topo da pirâmide. Quando esse tribunal superior tiver tomado sua decisão, não é mais possível recorrer. Ela será definitiva e executória. A derradeira chance, em países onde é admitida, será a graça real ou presidencial.

O funcionamento do STF brasileiro é complexo, dado que ele reúne funções que, em outras terras, são repartidas entre duas ou mais instituições. Na França, por exemplo, quando surgem dúvidas quanto à constitucionalidade de uma determinada lei, cabe à Cour constitutionnelle (Tribunal Constitucional) dar o veredicto definitivo e inapelável. Já em casos de contestação de decisão judicial emitida por instância inferior, recorre-se à Cour de cassation (Tribunal de Cassação).

É relativamente raro que o Tribunal de Cassação francês seja acionado. A Justiça detesta contradizer-se. Na esmagadora maioria dos casos, a corte suprema mantém a decisão já dada pela instância inferior. Portanto, a não ser que algum fato novo haja surgido, o sentenciado tem interesse em acatar a decisão que lhe concerne e não tentar mais além.

Tribunal Fédéral suíço, Lausanne imagem google

Tribunal Fédéral suíço, Lausanne
imagem google

Não é necessário ter seguido formação de jurista para se dar conta de que o STF brasileiro é uma corte pra lá de atarefada. Por um sim, por um não, processos aterrissam lá. Há casos anedóticos, do tipo «furto de galinha do quintal do vizinho», que esperam sua vez na fila interminável de pastas pendentes. Sabe-se de casos encalhados há vinte anos ou mais.

Numa hipotética reforma do sistema judiciário brasileiro, seria interessante cogitar a criação de uma corte constitucional. Talvez de outras cortes independentes ― para assuntos eleitorais, por exemplo. Isso, sim, é trabalho para especialistas.

Outro ponto que me parece passível de ser modificado é o número de ministros. São onze. E essa confraria diminuta carrega o peso de milhares e milhares de decisões, múltiplas atribuições. Uma carga, a meu ver, exagerada. Só para comparar, o Tribunal fédéral suíço é composto de 38 juízes, secundados por 19 juízes suplentes. Esses substitutos são acionados em caso de impedimento de um titular, seja por doença, férias, compromisso inadiável.

Diferentemente dos onze ministros do STF brasileiro, os 38 juízes suíços se subdividem em diferentes comissões, de acordo com a especialidade de cada um. O Tribunal fédéral abriga uma corte de direito público, uma de direito civil, uma outra de direito penal, uma de direito social. Há ainda outras comissões. Um hipotético mensalão suíço seria subdividido entre duas ou mais cortes, cada uma julgando o malfeito que lhe compete. A divisão de direito público e a de direito penal seriam, com toda certeza, chamadas a invervir.

Tribunal de Cassação Paris

Tribunal de Cassação francês
Paris

Num país como o Brasil, que não conseguiu fazer nenhuma reforma política de importância desde 1988, imaginar que se reforme o STF é coisa de sonhador crédulo. Mas não custa cogitar. Se viesse essa hipotética reorganização da instância máxima do Judiciário brasileiro, o modo de escolha dos ministros teria absolutamente de ser revisto.

A meu ver, o fato de a nomeação ser apanágio pessoal do presidente da República gera uma distorção. Todo homem, por definição, é falível. Ninguém é perfeito. Quando se reflete sobre o assunto, percebe-se que o sistema já nasceu com um defeito de fabricação. Não é possível que os juízes máximos da nação ― aqueles que, se for o caso, terão a incumbência de julgar o presidente da República ― sejam por ele nomeados. É a quadratura do círculo, uma especificidade perversa que não condiz com a imparcialidade que se espera da Justiça.

Um outro meio de escolher os árbitros maiores tem de ser encontrado. Na Suíça, por exemplo, são eleitos pela assembleia. Poderíamos fazer o mesmo. Ou, para diluir ainda mais as responsabilidades, compor uma comissão ad hoc de grandes eleitores para escolher novos ministros do STF. Dela fariam parte parlamentares, a OAB, a presidência da República, até o próprio STF.

Fica aí a sugestão. Nunca se sabe, pode servir.

A insubordinação louvada

José Horta Manzano

O Blog do Noblat, alojado no jornal O Globo, está promovendo uma pesquisa. Claro, é dessas enquetes de internet, sem garantia e sem valor científico. Assim mesmo, especialmente quando o resultado faz a balança pender implacavelmente para um dos lados, esse tipo de consulta dá conta do espírito reinante na população.

A pergunta é: «Que achou do funcionário do Itamaraty que trouxe para cá, à revelia do governo boliviano e também do nosso, o senador asilado na embaixada do Brasil em La Paz?». Além do incontornável «não tenho opinião», duas respostas são propostas: «Ele agiu bem diante do risco de o senador se matar» ou «Ele agiu mal porque não tinha autorização dos seus superiores».

Pesquisa ― Blog do Noblat alojado no Jornal O Globo

Enquete ― Blog do Noblat
Jornal O Globo

Talvez eu seja um dos raros a pasmarem diante do resultado. Mais de 87% dos primeiros 672 a responder optaram pela primeira opção: aprovaram a ação do funcionário insubmisso. Embora não seja prova irrefutável, é boa indicação de que praticamente 9 em cada 10 brasileiros acham que o senhor Saboia agiu bem.

É surpreendente. Fica a desagradável impressão de que a esmagadora maioria de nossos concidadãos está de acordo com o princípio de que os fins justificam os meios. Dado que a liberação do senador deu certo, pensam quase todos, que se passe o apagador por cima dos meios. Está justificada a insubordinação do funcionário. É uma lógica perversa e muito perigosa.

A destituição do presidente Collor foi justamente consequência de um fato de mesma natureza. Logo nos primeiros dias de seu governo, para lograr debelar a monstruosa inflação, o presidente aprovou a confiscação da poupança da população brasileira. O princípio era o mesmo: com vistas a atingir um objetivo nobre, meios tortuosos podem ser utilizados. Deu no que deu. Ninguém jamais esqueceu nem perdoou. Não demorou muito, o homem foi despachado de volta para suas Alagoas.

Que não me entendam mal. Não estou aqui a defender a permanência do senador boliviano num cubículo da embaixada ad vitam æternam. Acho uma crueldade o que fizeram com ele. A vergonha de ter usado um ser humano como joguete de interesses politiqueiros recai sobre o governo brasileiro tanto quanto pesa sobre o governo boliviano. O problema não é esse.

O senhor Saboia, certamente um homem de bons sentimentos, um dia decidiu empregar-se como funcionário de carreira dos serviços diplomáticos brasileiros. O estatuto de funcionário tem suas regalias e suas contrariedades. Do lado bom, estão um emprego garantido, um plano de carreira, um salário confortável, apoio do Itamaraty para problemas do dia a dia tais como escola para as crianças, moradia e assemelhados. Do lado menos simpático, estão as obrigações de todo funcionário: cumprir horários, respeitar ordens da hierarquia, seguir a orientação dos superiores.

Não se pode ficar só com a parte boa e recusar o que estorva. Ninguém é obrigado a ser funcionário. Está ao alcance de qualquer um montar uma barraquinha e sair vendendo sanduíches naturais. O autônomo assume os riscos de seu negócio, mas tem a vantagem de organizar sua vida como bem entende. O mesmo não acontece com um funcionário. Não se pode ter tudo na vida.

Uma sociedade tem de ser enquadrada por regras. E regras existem para ser cumpridas. Fora desse esquema, grassa a anarquia. A ninguém é permitido fazer justiça com as próprias mãos. Foi onde o senhor Saboia deslizou.

Tivesse ele, ao término de sua cinematográfica fuga da Bolívia, entregue o senador às autoridades brasileiras e, imediatamente, apresentado sua demissão ao Itamaraty, eu poderia ainda concordar. O que não me parece certo é que esse senhor cometa um importante ato de insubordinação e ainda pretenda conservar seu emprego como se nada tivesse acontecido.

Homem-aranha

Homem-aranha

Digo mais uma vez, só para que fique bem claro. No meu entender, o governo brasileiro deveria ter pressionado o folclórico Evo desde o primeiro dia para que concedesse um salvo-conduto ao refugiado. O problema, assim, teria sido resolvido em poucos dias, o senador estaria vivendo feliz e contente em Pindorama. No entanto, o Planalto decidiu seguir caminho diferente.

Eu, pessoalmente, se tivesse vocação para homem-aranha, teria ido raptar o senador na Embajada del Brasil em La Paz e o teria levado para o Brasil. Eu poderia fazê-lo, porque não sou funcionário do Itamaraty, portanto, não estou sujeito à hierarquia interna da instituição. O senhor Saboia não tinha esse direito.

Já imaginaram se for permitido a cada funcionário passar por cima da disciplina e tomar as atitudes que lhe parecerem mais adequadas? Será a anarquia garantida.