Dinheiro grosso: onde esconder?

José Horta Manzano

Estes dias, voltou-se a falar do problemas enfrentados por um jornalista da revista Época que andou publicando lista de brasileiros com conta na filial suíça do banco HSBC. Só por curiosidade, o acrônimo é a abreviatura de Hong Kong & Shanghai Banking Corporation, conglomerado inglês de primeira grandeza.

No Brasil, tradicionalmente, não se mexe com gente importante. Embora mensalão, petrolão & conexos andem balançando o coreto, ainda é enraizada a cultura de poupar o acusado e atacar o mensageiro. O que se discute atualmente é se jornalista tem ou não direito a preservar suas fontes.

Banco 5Confesso não ter opinião formada sobre o assunto. O direito de ocultar o nome do fornecedor da informação tem um lado bom e um outro menos brilhante. Do lado positivo, facilita a vida do jornalista, pois o informante sente-se protegido e à vontade para dar sua versão e contar sua verdade. Do lado negativo, entreabre a porta para a difusão de informações imprecisas, malévolas e até caluniosas. É um vasto debate.

Um detalhe me chamou a atenção nessa história. Estranhamente, ninguém parece ter reparado. Vamos lá. No início dos anos 2000, cerca de 200 bancos não-comerciais operavam na Suíça. Quando digo não-comerciais, refiro-me a estabelecimentos que não mantêm agência aberta para o grande público, não emprestam dinheiro, não dão cartão de crédito, não costumam executar ordens de pagamento.

Na verdade, são gestores de fortuna que só recebem com hora marcada. Não deviam nem ser chamados de bancos. A agência de Genebra do HSBC se enquadra nessa categoria. Foi de lá que vazou a lista de milhares de clientes brasileiros. O número exato dos integrantes da relação varia, segundo o órgãos, entre 7000 e 9000, um balaio de gente!

Banco 4Virtus in medio ‒ a virtude (assim como a verdade) está no meio. Vamos admitir que os clientes sejam 8000, cem por cento dos quais ‘se esqueceram’ de mencionar os haveres na declaração de renda feita à Receita brasileira. Vamos ser até mais camaradas. Vamos cortar pela metade. Consideremos que não passem de 4000.

O HSBC é apenas um entre os 200 gestores de fortuna estabelecidos na Suíça no começo deste século. A conta é fácil de fazer: 4000 clientes x 200 bancos = 800.000 clientes. Sim, o distinto leitor não leu errado. É permitido supor que centenas de milhares de brasileiros mantenham ‒ ou tenham mantido ‒ haveres na Suíça nos tempos em que ainda vigorava o sagrado princípio do segredo bancário.

É um vespeiro no qual é melhor não mexer.

Interligne 18cAviso aos novos-ricos
A abolição do segredo bancário na Suíça e a assinatura de acordos bilaterais de troca automática de informações com numerosos países quebrou o encanto. Hoje em dia, quem tem dinheiro a esconder procura portos mais acolhedores. Estudos recentes preveem que, até o ano 2020, metade dos bancos não-comerciais da Suíça terão fechado as portas.

Falta troco

José Horta Manzano

Na Europa, especialmente do centro para o norte, nunca falta troco. Tanto faz que a moeda nacional seja o euro, o franco suíço, a coroa sueca ou outra qualquer ‒ moedas circulam. Todo cidadão costuma ter, caixa de supermercado tem, padaria tem, farmácia tem, vendedor de cachorro-quente também.

No Brasil, o problema da falta de troco é crônico. Desde os tempos de antigamente, é realidade aceita bovinamente, não surpreende ninguém. Tanto faz que as moedinhas tenham um certo valor, como no início do Plano Real, ou que valham pouco, como agora. A escassez é proverbial. Cada um tem sua explicação para o curioso fenômeno.

capote-1Há quem desconfie de malandragem: o comerciante tiraria sistematicamente as moedas do caixa criando, assim, uma desculpa para não dar troco. Outros acusam o acaparamento de metal, reminiscência do tempo em que se acumulavam moedas de ouro e prata. Há ainda os que consideram que não vale a pena carregar peso por valor tão baixo.

Tenho a minha teoria. O fenômeno pouco tem a ver com malandragem, ganância ou desprezo pelo vil metal. O problema é meramente climático. Nos países frios, o longo inverno obriga o cidadão a sair à rua encapotado oito meses por ano. Capotes, mantôs e casacos são cheios de bolsos. Como são já pesados por natureza, um punhado de moedas não faz grande diferença. Vai daí, antes de sair de casa, a gente apanha automaticamente uns cobrinhos e põe no bolso. Assim, é natural, o troco jamais falta. Ainda que o cidadão saia de casa sem moedas, ao voltar, depois de duas comprinhas, vai estar com o bolso repleto.

dinheiro-8Para coroar, toda agência de correio fornece moedas a quem pedir. Elas vêm empacotadas em rolinhos de papel. Na Suíça, cada rolo contém 50 moedas de mesmo valor. Nenhuma cobrança extra é exigida: o preço do rolinho corresponde ao valor das moedas. Dessa maneira, nenhum comerciante tem pretexto para falta de troco.

A solução do problema brasileiro é meio complicada. Não vejo outra saída senão ter paciência e esperar pela próxima era glacial. Periga demorar.

Aqui se faz, aqui se paga

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que um mal nunca vem sozinho. Sei não, mas parece que o destino é realmente brincalhão. As «brincadeiras» ‒ nem sempre de bom gosto ‒ são cíclicas, como uma linha ondulada. Tem horas em que a gente se sente no topo da onda, com um bocado de coisas boas acontecendo. O chefe dá um aumento, o médico informa que os preocupantes exames deram resultado negativo, o vizinho barulhento se muda. E tem, infelizmente, aquela temporada em que más notícias se acumulam.

Poucos anos atrás, no auge da popularidade e sabendo que não poderia concorrer a um terceiro mandato, o Lula sonhava com a presidência do Banco Mundial ou, por baixo, com o secretariado-geral da ONU. Por seu lado, o Nobel da Paz já lhe parecia praticamente garantido, estava no papo. Pelo menos, era voz corrente entre os cortesãos do andar de cima.

sinusoidal-1Desgraçadamente… a vida é cruel. As coisas são como são e nem sempre como gostaríamos que fossem. Nosso guia, aquele que, garboso, já passeou de carruagem ao lado da rainha da Inglaterra, está no baixo da curva. Ou no fundo do poço, se preferirem. No curto espaço de 24 horas, três notícias pesadas lhe caíram direto no cocuruto.

Dia 6 de outubro, uma pancada. O sorridente senhor Guterres, que já foi primeiro-ministro de Portugal, foi sacramentado como secretário-geral da ONU. Assume as novas funções dia 1° de janeiro. Nosso taumaturgo pode dar adeus àquele trono.

A segunda pancada ‒ essa doeu! ‒ veio no mesmo dia. Foi a decisão do STF de «fatiar» acusações de corrupção. Deixo a explicação dos pormenores para especialistas, que o assunto é meio complicado. Trocando em miúdos, fica a certeza de que nosso guia, pelo menos nesse caso específico, escapou de Curitiba mas caiu direto no tribunal maior. Condenado ali, não terá a quem apelar: é direto pro xilindró.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Se não bastasse a decepção de ver, ao mesmo tempo, a ONU escapar-lhe das mãos e as grades se aproximarem, recebeu outra paulada no dia seguinte. O presidente da Colômbia ‒ que insolência! ‒ acaba de ser anunciado como o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2016. Justamente o presidente Santos!

O distinto leitor há de se lembrar que certos “assessores” do Lula levaram anos tentando dar uma mãozinha à guerrilha colombiana. De repente, vem um pouco conhecido presidente do país vizinho e, como quem não quer nada, acaba com o conflito de meio século! Que bordoada, Lula!

Assim são as coisas, que fazer? Resta a nosso demiurgo esperar por um convite para presidir o Banco Mundial. Nada é impossivel, mas acho que vai ser difícil. Ainda que escape da cadeia, o homem não tem inglês fluente.

Falam de nós – 19

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Navio-escola na Rússia
A edição em espanhol do Sputnik Mundo ‒ importante portal russo de informação disponível em 32 línguas(!) ‒ dá notícia da chegada de navio-escola da Marinha do Brasil, numa missão de longo curso. Atracou dia 29 de set° no porto de São Petersburgo (antiga Leningrado, Rússia), onde deve permanecer por alguns dias. A partir deste sábado, estará aberto para visitação.

navio-escola-1Hecatombe
O portal da Rádio França Internacional, braço da rádio pública francesa, surpreende-se com a hecatombe que vem ocorrendo na atual campanha eleitoral brasileira. Conta o triste fim que 15 candidatos do Rio de Janeiro conheceram. Execuções e assassinatos políticos não são propriamente habituais no Velho Continente. A especificidade brasileira nos aproxima, na cabeça dos europeus, do clichê latino-americano.

Tartaruga perdida
Vários sites italianos dão notícia de uma tartaruga desaparecida em 1982 e reencontrada agora. O animal vivia tranquilo no quintal de uma casa num subúrbio carioca até que, um dia, sumiu. Imaginando que o bichinho tivesse fugido para o mato, a família acabou esquecendo o caso. Hoje, trinta e quatro anos depois, a tartaruga foi encontrada no forro da casa, em meio a trastes abandonados. Tinha sobrevivido esse tempo todo alimentando-se de traças e outros insetos.

tartaruga-1República bananeira
O quotidiano argentino La Nación relata as últimas peripécias de um ex-guerrilheiro. Com os pés irremediavelmente ancorados ‒ chumbados, diria eu ‒ nos anos 1970, o incorrigível ex-presidente uruguaio José ‘Pepe’ Mujica deixou falar mais alto sua ideologia e voltou a disparar flechadas contra o governo dos vizinhos e sócios no Mercosul. Inconformado com a perspectiva de aproximação do bloco com a Aliança do Pacífico, qualificou Brasil e Argentina de “repúblicas bananeiras”. Pau que nasce torto…

Prendam o mensageiro

José Horta Manzano

Dizem que o moço é excelente jogador. Embora eu aprecie o esporte que um dia quase se chamou «ludopédio», não sou especialista. Mas o astro há de ser realmente muito bom de bola, visto que está contratado por um dos clubes mais prestigiosos da Europa e que seu passe vale milhões.

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Saiu a notícia de que está processando o Estado brasileiro. Reclama que o processo por fraude fiscal movido atualmente contra ele sofreu vazamentos indevidos. Pode até ser. Notei, no entanto, uma particularidade. Reparem que o esportista não se atraca com a Justiça, preferindo dirigir sua cólera contra o fato de a informação ter sido dada a conhecer ao grande público. É como quem dissesse: «Não discuto culpabilidade, só não quero que fiquem sabendo.» É compreensível e acho que entendi o porquê.

neymar-2Ninguém, em sã consciência, procura confusão, certo? Isso vale para todos, inclusive ‒ e especialmente ‒ para clubes de futebol. É fácil entender. Jogador problemático periga ver o valor de seu passe desmilinguir. E o salário idem. Elementos indisciplinados, teimosos, difíceis de gerir, orgulhosos, agitadores são descartados. Fraudadores da Receita e gente enrolada com o fisco são também olhados com desconfiança. Qual é o clube que desembolsaria dezenas de milhões de euros para comprar o passe de um indivíduo que amanhã, sabe-se lá, pode até ser despachado para o xilindró?

Atacar-se ao mensageiro para desviar a atenção da mensagem é tática pra lá de difundida no Brasil atual. Mas estes tempos de Lava a Jato têm demonstrado que, por mais rico e famoso que seja o acusado, ninguém está acima da lei comum. Pelo menos, é o que diz a Constituição.

Três trapaças

José Horta Manzano

Na Alemanha
Em 2013, Frau Annette Schavan, então ministra alemã da Educação ‒ e amiga pessoal de Angela Merkel ‒ foi acusada de ter plagiado um bom pedaço de sua tese de Filosofia. A primeira reação veio rápido da própria universidade: seu título de doutora foi cassado. Menos de uma semana depois, não teve mais jeito. A trapaceira, constrangida, entregou sua carta de demissão do cargo. Com o «coração pesado», Frau Merkel aceitou imediatamente. Nunca mais se ouviu falar da doutora picareta.

Frau Annette Schavan, ex-ministra da Educação da Alemanha

Frau Annette Schavan, ex-ministra da Educação da Alemanha

No Uruguai
Semana passada, señor Raúl Sendic, vice-presidente do Uruguai, foi citado pela Justiça pelo delito de usurpação de título. Deverá prestar esclarecimentos sobre uma suspeita de fraude. De fato, alguns meses atrás, apresentou-se ‒ em documentos públicos e em atos oficiais ‒ como diplomado em Genética Humana.

Acontece que sua licenciatura não consta em nenhuma instituição de ensino uruguaia. Señor Sendic alega ter feito seus estudos e obtido o diploma em… Havana, Cuba. O quiproquó já dura desde o mês de fevereiro. Havana continua em silêncio, sem confirmar o que diz o vice-presidente. Eis por que a Justiça perdeu a paciência e intimou o figurão. Agora, ou vai ou racha.

Señor Raúl Sendic, vice-presidente do Uruguai

Señor Raúl Sendic, atual vice-presidente do Uruguai

No Brasil
Já dizia o outro que, a cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos quinze anos anteriores. De fato, era assim, mas parece que o ritmo de esquecimento se acelera. Alguém se lembra de que dona Dilma, então ministra da Casa Civil do Lula, foi um dia apanhada em flagrante delito de trapaça?

Pois é. Foi em 2009, sete anos atrás. Em currículo publicado na mui séria e conceituada Plataforma Lattes, a então ministra se atribuía créditos de doutoramento aos quais não fazia jus. Pra encurtar o caso, tentava tapear, de forma rasteira, o grande público.

Dilma 15Descoberta e denunciada, classificou o embuste de «equívoco», provável obra de algum assessor arteiro. (Como todo universitário sabe, ninguém acessa o próprio currículo se não tiver a senha.)

Como terminou a história? Em pizza. Uma semana depois, ninguém mais lembrava. Virou-se a página e ficou tudo por isso mesmo. Meses mais tarde, a doutora foi eleita para a presidência, num verdadeiro prêmio à pilantragem.

Reforma previdenciária

José Horta Manzano

No Brasil, são muito antigas as regras básicas que determinam o direito do cidadão a receber pensão na velhice. Costuma-se dizer ‘aposentadoria’, mas o termo não é apropriado. De fato, quem recebe o benefício não se retira necessariamente a seus aposentos. Frequentemente continua na ativa. O termo ‘pensionista’, utilizado pelos italianos, seria mais adequado. Mas não há que fazer: já faz tempo que aposentadoria entrou para o vocabulário do dia a dia.

Nessa matéria, as regras brasileiras foram estabelecidas nos tempos de antigamente, quando a taxa de natalidade estava nas alturas e a expectativa de vida não ia muito além de uma cinquentena de anos. Eram disposições adequadas para a época, sem dúvida: o benefício vinha cedo, mas havia uma multidão de jovens contribuindo, isto compensando aquilo.

carteira-trabalho-1Acontece que, de lá pra cá, muito tempo passou, os anos de vida aumentaram, a natalidade diminuiu, mas… as regras continuaram inalteradas. Nenhum governo, nem mesmo durante o período ditatorial, quando teria sido mais fácil impor reformas, ousou mexer no vespeiro. O assunto é explosivo.

Chegamos agora ao ponto de ruptura. O sistema está desmoronando. Mais uns anos, e será virtualmente impossível garantir-lhe a continuidade. Reconhecendo que já passou da hora de encarar a nova realidade, o governo federal decidiu finalmente arregaçar as mangas e propor profunda reforma. Antes tarde que nunca.

Interligne 18c

Cada país tem sua realidade e suas particularidades, portanto, a receita que dá certo aqui pode não funcionar ali. Cada um tem de encontrar solução própria. O que não pode é fazer de conta que nada mudou e que o dinheiro continuará a cair do céu.

O sistema suíço é menos complicado que o brasileiro. Pontos característicos são o valor fixo do benefício ‒ igual para todos, independentemente dos salários recebidos ‒ e a absoluta necessidade de ter completado 65 anos de idade e de ter contribuído durante 44 anos.

velhice-6O eleitorado suíço foi ontem chamado a votar num plebiscito. A pergunta era se concordavam em aumentar em 10% o montante do benefício. Por maioria de 60%, o povo repeliu a proposta. Vista do estrangeiro, a decisão parece surpreendente.

É que cada um sabe onde lhe aperta o sapato. Os suíços não estão pensando no mês que vem, mas num futuro mais amplo. Votaram com o objetivo de garantir a perenização da aposentadoria. Acharam melhor renunciar ao aumento e cooperar para que o sistema sobreviva.

A lição do Gabão

José Horta Manzano

Anos atrás, no apogeu da popularidade, nosso guia se sentia acima do bem e do mal. Falava pelos cotovelos, dizia bobagens cabeludas e a maioria, anestesiada, achava graça e aplaudia. Convém lembrar que ele continua recitando bobagens, mas a plateia ‒ para azar dele ‒ despertou da letargia. O prazo de validade venceu e a fala do antigo guia perdeu o encanto: vai direto para o cesto de papel.

Em agosto de 2004, quando de uma viagem ao Gabão ‒ país da África equatorial, pequeno mas rico em petróleo e em minerais ‒ foi recebido com pompa e circunstância pelo então “presidente” Omar Bongo. Àquela altura, já fazia 37 anos que o figurão estava no topo do poder. Firme e forte, ainda ficaria cinco anos, até exalar o último suspiro, perfazendo um total de 42 anos de mando.

Chamada do Estadão, 17 ago 2004 Clique para ampliar

Chamada do Estadão, 17 ago 2004
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Encarnação do culto extremo à personalidade, prática comum em países mais atrasados, o ditador chegou a ser homenageado, em vida, com a mudança do nome de sua cidade de nascimento. Já em 1969, dois anos depois de Bongo tomar o poder, a pequena Ambombo natal passou a chamar-se Bongoville. Traduzindo para o tupiniquim, é como se Caetés tivesse sido rebatizada Lulópolis ou Lulândia. Dá pra sentir o ambiente?

Com a morte de Omar Bongo, o caminho da sucessão se abriu. E quem foi o ungido? Pois foi Ali Bongo, primogênito do velho guerreiro. Coincidência? Não parece. A máquina da ditadura hereditária, bem azeitada pelo patriarca durante quatro décadas, não tinha como falhar. À moda da Coreia do Norte, da China, de Cuba e de outros paraísos democráticos, eleições são só pra inglês ver. O poder passa de pai pra filho enquanto parlamentares são eleitos apenas para referendar decisões já tomadas pelos reais donos do país.

Após sete anos, chegou a hora de Ali Bongo convocar eleições presidenciais. Foi agora, mês passado. Os resultados são interessantíssimos. Monsieur Bongo saiu vencedor com uma apertada diferença de 6 mil votos, menos de um porcento do eleitorado.

Lula & Omar Bongo em 2004. Bongo foi "presidente" do Gabão durante 41 anos e meio, até sua morte, quando foi substituído pelo filho.

Lula & Omar Bongo em 2004.
Bongo foi “presidente” do Gabão durante 42 anos, até sua morte, quando foi substituído pelo filho.

As eleições, como em quase todo o mundo, são facultativas: vota quem quiser. Computadas as nove províncias do país, a participação média não chegou a 60% do eleitorado. O fato mais curioso vem agora: na província do Alto Ogouê, região natal do clã Bongo, a participação foi de 99,93% dos eleitores. Monsieur Bongo venceu ali com 95,46% dos votos, resultado staliniano.

O segundo colocado interpôs recurso junto à corte constitucional do país. Depois de semanas de suspense, o resultado final acaba de sair: a vitória de Monsieur Bongo não só fica confirmada, como a diferença aumentou de 6 mil para 12 mil votos. Um detalhe: a presidente da corte constitucional é a mãe do vencedor das eleições. Uma coincidência, sem dúvida.

Quando se fica sabendo de coisas assim, a gente sente que vive em país de Primeiro Mundo. Ainda bem que Monsieur Bongo não ensinou ao Lula como fazer para ficar eternamente no poder. Quem sabe tenha até ensinado, mas o aluno, para felicidade geral da nação, não conseguiu reter a lição.

Protesto bolivariano

José Horta Manzano

Quando Brasil, Argentina e Paraguai decidiram não aceitar que a presidência temporária do Mercosul fosse entregue à Venezuela de Nicolás Maduro, o governo uruguaio titubeou. Montevidéu, que detinha naquele momento a presidência do bloco, sentiu-se incomodado com a batata quente que lhe queimava as mãos. Sua primeira reação foi livrar-se dela.

Depois de alguns dias e de muita conversa de bastidores, convenceu-se de que não valia a pena arrumar encrenca com os sócios. Ficou, então, acertado que a Venezuela, atualmente sem condições de assumir a direção do clube, será mantida afastada da presidência.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Voto vencido, o Uruguai aderiu à solução alinhavada de última hora: a direção do bloco será assegurada de forma colegial pelos quatro membros fundadores.

temer-4Foi decisão equilibrada. A vida segue, à espera de que o maltratado povo venezuelano consiga reencontrar o rumo da civilização. O governo uruguaio rendeu-se à evidência: não adianta dar murro em ponta de faca. Em casos assim, o maior prejudicado é sempre o esmurrador.

É consternador constatar que os países ditos «bolivarianos» continuem insistindo em ignorar o bom senso. Depois de passar anos acumpliciados com o desastrado governo brasileiro dos últimos treze anos, não conseguem entender que a destituição de nossa antiga presidente é definitiva, que não há volta possível e que os antigos conchavos entre “compañeros” são página virada.

Como adolescentes birrentos, meia dúzia deles decidiram boicotar ostensivamente o discurso pronunciado por doutor Temer na abertura da Assembleia da ONU deste ano. Dois deles, mais discretos ‒ ou, quem sabe, mais atemorizados ‒ preferiram esconder-se no banheiro antes de nosso presidente subir ao púlpito. Outros quatro optaram pelo desaforo frontal: retiraram-se do recinto assim que o doutor começou a falar.

Que pretendem? Serão adeptos do «Volta, Dilma»? Que ganham com isso? Imaginam que a desfeita lhes trará algum benefício? Ficam no ar as perguntas.

Evo Morales, by Pablo Lobato, desenhista argentino

Evo Morales,
by Pablo Lobato, desenhista argentino

Seja qual for a desvairada intenção de Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia & companhia, o certo é que deram ponto sem nó. Amanhã, o mundo terá esquecido a atitude birrenta. Mas o ofendido, o Brasil, não há de perdoar tão cedo o desaforo.

Os ofensores ‒ a infeliz Venezuela em primeiro lugar ‒ perigam precisar do amparo brasileiro. Com a atitude petulante, acabam de cuspir no prato em que talvez tenham de comer amanhã. Não faz sentido cultivar desavenças.

Mais uma vez, está dada a prova de que a estupidez humana não tem limites.

FGTS ‒ duas visões

José Horta Manzano

Você sabia?

Velhice 2Quando me perguntam sobre o assunto, costumo responder que, igualzinho ao Brasil, a Suíça também conta com um fundo de garantia obrigatório para beneficiar trabalhador assalariado. Aliás, o FGTS brasileiro, que existe desde 1966, é anterior ao suíço, que só foi criado vinte anos mais tarde. Em ambos os países, o objetivo do fundo é amparar o trabalhador, ainda que o conceito de «amparo» não seja o mesmo.

No Brasil, o fundo foi instituído mais para neutralizar um problemão que ameaçava empresas. A estabilidade adquirida por funcionários antigos emperrava a produtividade e aumentava o risco de falência. A instituição do fundo desafogou empregadores e, como efeito colateral, beneficiou trabalhadores.

Na Suíça, país cujos assalariados nunca usufruíram de «estabilidade» no emprego, o fundo foi criado com vista a reforçar o rendimento dos aposentados. Eis por que a poupança obrigatória é alimentada paritariamente, ou seja, o empregador entra com 50% e o funcionário contribui com a outra metade. Tanto no Brasil como na Suíça, o pecúlio fica numa conta individual bloqueada. Cada assalariado tem a sua.

Velhice 5O FGTS brasileiro nasceu com vocação diferente. Visa a criar uma ponte para amparar o assalariado em períodos de desemprego. Frequentemente, a cada mudança de emprego, o funcionário retira seus haveres e esvazia a poupança. Se algo sobrar para a velhice, não será mais que valor residual, coisa pouca. Os anos de velhice não serão beneficiados.

Na Suíça, para garantir um reforço dos rendimentos do aposentado, o pecúlio só poderá ser retirado quando o contribuinte atingir 65 anos de idade. Há pouquíssimas exceções à regra. Uma delas permite que parte do fundo (até 20%) seja utilizada para compra de casa própria. Assim mesmo, com uma condição: caso a casa venha a ser vendida posteriormente, o contribuinte é obrigado a devolver o dinheiro, que será de novo incorporado à poupança obrigatória. Há outros casos em que o fundo pode ser resgatado, mas são casos raros e excepcionais.

Velhice 4Ao chegar à idade da aposentadoria, o assalariado tem duas opções: tanto pode retirar o pecúlio de uma vez como pode deixá-lo intocado. Neste último caso, fará jus a uma renda vitalícia. Pelas regras atuais, receberá benefício anual equivalente a 6.5% do capital acumulado. O pagamento é mensal. Em caso de falecimento do beneficiário, o(a) viúvo(a) continuará recebendo o benefício até o dia de seu último suspiro.

A diferença entre a visão brasileira e a suíça é quase filosófica. No Brasil, a poupança forçada é devolvida ao beneficiário a qualquer momento da vida, ainda que ele esteja em condições de encontrar novo emprego. Na Suíça, deu-se prioridade a amparar aqueles que, por causa da idade, têm chance praticamente nula de encontrar colocação. Quando um cidadão chega à velhice em situação de penúria, quando o valor da aposentadoria é insuficiente para cobrir as necessidades básicas, a sociedade terá de ampará-lo financeiramente. É justamente isso que se procura evitar.

Cada terra com seu uso.

Dia do jejum

José Horta Manzano

Você sabia?

Não tem como escapar: a agricultura, desde sempre, depende dos caprichos do clima. Sol, chuva, frio, calor influem sobre a quantidade e a qualidade da colheita. Nos tempos de antigamente, o homem não tinha como conservar alimentos. Sobreviviam todos com o que se colhia a cada ano.

A escassez de açúcar impossibilitava a conservação de frutas sob forma de doce ou geleia. Sal também era raro, o que tornava problemática a preservação de carnes e peixes. Congelamento? Num tempo em que não havia eletricidade, nem pensar! A desidratação, por exposição ao sol e ao vento, podia ser utilizada. Mas nem todo alimento se presta a ser conservado por secagem.

pruneau-1Assim, habitantes de regiões temperadas, com estações do ano bem definidas, só dispunham de alimentos frescos na metade do ano em que o clima permite. Passado esse período, sobreviviam com os cereais colhidos no outono, principalmente trigo e suas variedades. Missas, rezas e novenas eram dirigidas ao Altíssimo para garantir boa safra. Ao final da colheita, era importante fazer um gesto de agradecimento e de reconhecimento.

Os tempos mudaram. Hoje em dia, o mercadinho da esquina oferece, o ano inteiro, frutas e legumes vindos do outro lado do planeta. Mas certas tradições, geralmente ligadas à religião, permanecem. O dia de ação de graças, comemorado a cada mês de novembro nos EUA (Thanksgiving Day) é um exemplo.

pruneau-2A Suíça, país de agricultura pobre, também já sofreu muito, no passado, com adversidades climáticas. Hoje não é mais assim, mas certas tradições permanecem. Séculos atrás, cada região tinha seu dia, sua hora e seu rito para agradecer aos céus pela colheita. Coisa de duzentos anos pra cá, o dia de ação de graças foi unificado. Ficou combinado que terceiro domingo de setembro(*) seria dedicado ao recolhimento agradecido.

Desde então, a cada ano, a festa ‒ se é que se pode dizer assim ‒ é comemorada, para que ninguém se esqueça de que o bem-estar é resultado de trabalho duro. Para uns, é dia de oração. Outros fazem penitência. O mais comum, principalmente na região em que vivo, é o jejum. Até um século atrás, jejuar significava deixar de almoçar e passar o dia orando na igreja ou no templo. Daí o nome que o dia leva até hoje: Jeûne fédéral ‒ Dia Federal do Jejum.

pruneau-3Com o passar dos anos, o jejum rigoroso foi substituído por um almoço frugal, constituído unicamente de uma torta de ameixa. No Brasil, todos conhecem a ameixa preta, aquela que se compra já seca e que serve para ornar o manjar branco. Pois o pruneau (em francês) ou Zwetsche (em alemão) é uma variedade da mesma fruta, só que em estado natural, utilizada logo após a colheita.

Que seja o único alimento, que substitua o almoço ou que sirva de sobremesa, a torta de ameixa não pode faltar no Dia Suíço do Jejum. Este ano, cai justamente hoje, terceiro domingo de setembro. No Cantão de Vaud, cuja capital é Lausanne, a celebração não se limita ao domingo. A segunda-feira que se segue é dia feriado. Dizem as más línguas que é pra desintoxicar os que, na véspera, se empanturraram de torta de ameixa e café com leite. Há de ser intriga da oposição.

Interligne 18c

(*) Fazendo exceção à regra, o Cantão de Genebra tem seu dia de ação de graças na quinta-feira que segue o primeiro domingo de setembro.

Ouvir estrelas

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor se lembre de que, durante os Jogos Olímpicos do mês passado, as cerimônias de distribuição de medalhas mostraram bandeira chinesa com erros. As quatro pequenas estrelas estavam desalinhadas. No original, todas apontam um vértice para a estrela maior, diferentemente do que se viu no Rio.

Os chineses, pra lá de ciosos com símbolos nacionais, não costumam brincar com essas coisas. Protestos oficiais chegaram rapidinho. Segundo O Globo, 8 milhões de posts raivosos circularam pelas redes sociais chinesas. A reclamação chegou até à criação de hashtag para denunciar o escorregão.

bandeira-brasil-3Logo depois de tomar posse do cargo de presidente, senhor Temer participou de reunião de chefes de Estado e de governo do G20, realizada na China. Naturalmente, o recinto estava paramentado com a bandeira nacional de cada país participante. Aquelas fotos esquisitas em que dirigentes se cumprimentam com aperto de mão mas sem se olhar nos olhos foram batidas e publicadas na mídia planetária.

Pois digo ao distinto leitor que nossa bandeira verde-amarela também tinha defeitos. Menos rigoroso ‒ haja vista os representantes que constuma eleger ‒ o povo brasileiro nem se tocou. Ainda que se tocasse, dificilmente se melindraria.

Bandeira brasileira como manda o figurino Clique para ampliar

Bandeira brasileira como manda o figurino
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O círculo azul do centro da bandeira brasileira não é salpicado de estrelinhas a esmo, de qualquer tamanho, em qualquer posição, só pra ficar bonitinho. Criança de escola elementar tem direito a pensar assim. Já quem organiza cúpula internacional é obrigado a ter mais cuidado.

Nossa bandeira nacional mostra 27 estrelas, uma para cada Estado e uma para o Distrito Federal. A disposição do conjunto retrata o céu do Rio de Janeiro tal como se apresentava no dia 15 novembro 1889 às 8h30, quando os militares deram o golpe que derrubou a ordem vigente e acabou com o Império. É aquele golpe militar «do bem», cujo festejo é politicamente correto. É até dia feriado.

Bandeira brasileira em versão chinesa Clique para ampliar

Bandeira brasileira em versão chinesa
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Nossas estrelinhas não são todas do mesmo tamanho. Cada uma é desenhada conforme sua grandeza aparente. Há 5 tamanhos diferentes. Posição e tamanho são rigorosamente definidos por lei. A correlação tampouco é aleatória: cada uma delas representa um Estado determinado. É proibido misturar.

A bandeira hasteada durante o G20 da China está mais pra desenho de escola elementar. Posição, disposição e tamanho das estrelas não conferem com o que manda o figurino.

Que se saiba, ninguém reclamou. É possível que ninguém tenha sequer notado. Sinal destes tempos estranhos. Não se pode exigir que outros respeitem o que nós mesmos não respeitamos.

Desalinhados

José Horta Manzano

Você sabia?

No começo dos anos 1960, a Guerra Fria comia solta. O mundo, inquieto, temia que, a qualquer momento, a guerra esquentasse. Já à época, as duas superpotências ‒ EUA e União Soviética ‒ tinham arsenal nuclear capaz de aniquilar a humanidade. Vivia-se em tensão permanente.

Alguns países de importância secundária, na intenção de mostrar-se independentes tanto do bloco americano quanto do soviético, agruparam-se. Com o incentivo do Egito de Nasser, da Iugoslávia de Tito e da Índia de Nehru, dezenas de países médios e pequenos juntaram-se ao Movimento dos Não-Alinhados.

Não é fácil conciliar interesses de países díspares e espalhados pelo planeta. O objetivo do grupo nunca foi muito claro. Por exemplo, Cuba, membro fundador, embora se declarasse “não-alinhado”, estava visceralmente ligado ao bloco comunista, liderado pela União Soviética.

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia) Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia)
Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Os países africanos, que acabavam de conquistar independência, entraram quase todos para o Movimento. Como a Cuba dos Castros, a maioria deles estava alinhadíssima com a URSS, ainda que alguns mostrassem simpatia pelo bloco ocidental. Resumindo, grande parte dos membros era constituída de não-alinhados pero no mucho.

Com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, o Movimento dos Não-Alinhados perdeu a razão de existir. No entanto, por razões que a razão nem sempre explica, não foi dissolvido. Continua, firme e forte, a organizar cúpulas a cada dois, três ou quatro anos. Os interesses dos membros continuam tão divergentes como sempre foram, mas… quem se importa com esse detalhe?

Registre-se que o único país europeu a participar do Movimento é a Bielorrúsia. Quanto aos países ibero-americanos, vários integram o grupo com a notável exceção das três maiores economias: Brasil, México e Argentina. Praticamente todos os africanos são membros. Os grandes deste mundo (EUA, China, Japão, União Europeia, Rússia) não participam da encenação.

Nicolas Maduro by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Nicolas Maduro
by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Que discutem nas reuniões? Que resoluções tomam? Que ideologia seguem? Difícil dizer. Quando se juntam visões de mundo heterogêneas ‒ Timor Leste, Paquistão, Burundi, Equador, Afeganistão, Suriname ‒ entre dezenas de outros ‒ é complicado chegar a alguma espécie de consenso.

Mas a vida segue e o Movimento dos Não-Alinhados sobrevive. A Venezuela, mergulhada no caos político e econômico, está recebendo a reunião de cúpula de 2016 do clube dos não-alinhados.

Que um país que não consegue alimentar o próprio povo acolha autoridades de mais de cem países ‒ sem contar as respectivas comitivas ‒ é decisão singular. O tiranete Nicolás Maduro há de ter esperança de que a festa distraia, por um momento, o ronco das barrigas vazias dos infelizes venezuelanos.

Eleições gerais?

José Horta Manzano

Um senador baiano acaba de propor que a Constituição seja emendada a fim de fazer coincidir o mandato de todos os eleitos. Fosse aprovada, a PEC eliminaria as eleições a cada dois anos, como ocorre atualmente. Suprapartidária, a proposta arregimentou, logo de cara, 34 senadores a favor, distribuídos num amplo espectro que vai do PSDB ao PT.

A justificativa maior é a diminuição de gastos de campanha, uma economia de escala. Cem mil santinhos impressos não custam o dobro de cinquenta mil. Num mesmo palanque, há lugar para candidatos a diferentes níveis. Coligações partidárias ficariam mais claras ‒ de fato, não faria sentido que coalizões federais e municipais divergissem.

Urna 7Sob um ar de bondade, no entanto, uma armadilha está sendo montada. Suas excelências estão-se aproveitando do atual clamor popular para ajeitar o sistema em benefício próprio. Estão misturando estações. Todos sabem que as finanças nacionais não foram arruinadas por campanhas milionárias, mas pela incompetência no trato da coisa pública e, acima de tudo, pelo extraordinário assalto ao erário.

A proposta do senador, qual emplastro em perna de pau, não vai curar o doente. Reforma bem mais profunda terá de ser feita. A criação de partidos tem de ser de alguma maneira refreada. A representação proporcional dos Estados na Câmara, atualmente distorcida, tem de ser corrigida. As regras de financiamento público de partidos ‒ o famigerado Fundo Partidário ‒ têm de ser repensadas.

Urna transparente

Urna transparente

O vigor de uma democracia mede-se, entre outros parâmetros, pela frequência de eleições e outras votações. Dependesse de mim, faria o inverso: aumentaria a periodicidade das votações.

Instituiria, para começo de conversa, o voto distrital. Acabaria com as bizarras figuras de vices e de suplentes. Quando um eleito ‒ fosse ele vereador, prefeito, deputado, senador, governador ou presidente ‒ não pudesse mais exercer a função, eleição parcial seria convocada.

Urna 2Numa democracia sólida e vigorosa como a França, é assim que se procede. Acreditem, eleição regional não causa trauma nacional. Pelo contrário: quantas mais há, melhor fica. Se, por fatalidade, um deputado falece, organizam-se novas eleições unicamente no distrito que ele representava.

Voto 1Na Suíça, o povo é consultado, em média, quatro vezes por ano. A cada consulta, três, quatro, cinco assuntos costumam ser tratados. Algumas consultas são meramente locais, enquanto outras abrangem o país inteiro. O voto, naturalmente, não é obrigatório. Vota-se majoritariamente por correspondência, duas ou três semanas antes do dia D. De voto eletrônico, ninguém quer ouvir falar.

Num país como o Brasil, com mais de 200 milhões de habitantes, há de ser possível organizar, sem tropeços, votos parciais e nacionais. É questão de hábito. De todo modo, o preço a pagar pelo vigor democrático é a multiplicação de votos, eleições e consultas ao povo.

No centro da foto

José Horta Manzano

Você sabia?

O distinto leitor há de ter visto a foto dos participantes do último encontro do G20, realizado na China no fim de semana passado. Essas tradicionais “fotos de família” são a parte visível ‒ embora menos importante ‒ das reuniões. O principal é acertado em conversas bilaterais.

G20 3O presidente Temer aparece na ponta da primeira fila, quase caindo fora da foto. Por quê? Será que essa posição secundária demonstraria pouco caso ou desprezo do mundo para com o presidente e, por extensão, para com o Brasil?

Comparando com a foto da Cúpula de 2010 em Seul, em que o Lula aparece bem no centro, ao lado do anfitrião, a diferença é chocante. Teria o Lula maior importância ou mais prestígio do que Temer? Como é que se determina a posição dos que aparecem na primeira fila?

O protocolo não deixa nada ao acaso. Reza que, no centro, se posicionará o anfitrião. Em seguida, do centro em direção às extremidades, serão instalados os mandatários pela ordem de ancianidade ‒ o tempo passado desde que assumiram o posto. Quanto mais tempo tiverem ocupado o cargo, mais próximo estarão do anfitrião.

G20 4Na foto de 2010, o Lula já estava no fim do segundo mandato, portanto, era presidente havia oito anos, um dos mais antigos do G20. Eis por que aparece ao lado do anfitrião. Reparem que Obama, que tinha ocupado a Casa Branca por apenas cinco anos, aparece mais descentrado.

Na foto de 2016, Temer é o novato, tendo assumido definitivamente o cargo apenas alguns dias antes. Portanto, sua posição no extremo do retrato não é humilhante nem vem de timidez do fotografado. É o protocolo.

Coisas da Suíça

José Horta Manzano

Você sabia?

Todo país tem suas festas tradicionais. A Suíça, que começou a se formar há mais de sete séculos, também tem as suas. Uma delas, cuja importância é acentuada pela raridade, é a Festa Federal de Luta e de Jogos Alpestres. A manifestação, que dura um fim de semana, tem lugar a cada três anos. Cada edição se desenrola numa região diferente. Diferentes versões regionais foram unificadas e codificadas em 1895. De lá pra cá, os jogos são nacionais e se organizam regularmente.

Luta suíça 1A festa, que se realiza num estádio, reúne muita gente e conta com a presença do presidente do país. O ambiente é festivo, quase como numa quermesse, com toneladas de salsicha branca com mostarda sendo consumidas. A salsicha branca grelhada é tão importante quanto era comer pipoca no cinema antigamente.

A festa compõe-se de vários concursos e jogos. Um dos mais importantes é o lançamento da Pedra de Unspunnen, um enorme bloco de granito que pesa exatos 83,5kg. Caso o distinto leitor não seja halterofilista, será difícil imaginar como pode alguém levantar um bloco de mais de oitenta quilos e, ainda por cima, atirá-lo ao longe. Não é pra qualquer um. O recorde oficial foi estabelecido faz 12 anos, em agosto de 2004. Um jovem conseguiu lançar a pedra a 4,11m de distância. Importante: utiliza-se sempre o mesmo bloco de pedra.

Luta suíça 3O ponto alto são as competições de Luta Suíça. Pra quem nunca assistiu, é inusitado. Lembra um pouco o sumô ou o judô, mas tem características próprias. Pra começar, não há restrição de altura nem de peso dos concorrentes. Todos estão na mesma categoria. Portanto, é natural que todos tenham perfil de carregador de piano.

Dois competidores se enfrentam no interior de um círculo forrado com serragem. Cada um veste, por cima da calça, um calção de juta preso à cintura. O objetivo é derrubar o adversário e fazê-lo encostar as costas no chão. Não vale agarrar pela camisa, cada combatente agarra no calção do outro. O enfrentamento dura alguns minutos.

Luta suíça 2Terminada a luta, é praxe que o vencedor limpe a serragem que ficou grudada nas costas do perdedor, num simpático gesto de consideração. Em princípio, ninguém sai de perna quebrada, nem sangrando, nem machucado. Tudo termina com tapinhas nas costas. Às vezes, o perdedor deixa escapar umas lágrimas, coisa surpreendente para gigantes de 120kg. Este ano, pela primeira vez desde 1940, o vencedor tinha mais de 30 anos.

Vale a pena dar uma espiada neste vídeo de 1 minuto e meio com uma visão geral dos festejos trienais. A edição 2016 contou com 80 mil espectadores. Como prêmio, o campeão ganha… um touro. Não parece, mas o animal poderá ser bastante rentável se utilizado como reprodutor. Se for bem cuidado, será valor seguro, não sujeito a flutuações da Bolsa. Coisas da Suíça.

Greve de fome

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 28 ago 2016

Chamada Estadão, 28 ago 2016

Por mais que seja digno de compaixão, esse antigo inquilino de Guantánamo parou de comer por decisão pessoal. Maior compaixão desperta o infeliz povo venezuelano, que parou de comer por… absoluta falta de alimento.

Tirando o pessoal do andar de cima, o povão do país hermano está mal. Faz meses que entraram em greve forçada de fome, vítimas de autoridades ignorantes, egocêntricas, corruptas e incompetentes.

A mágica acabou

José Horta Manzano

Os Jogos Olímpicos que se acabam tinham sido motivo de preocupação, não só no Brasil como no exterior. Havia receio de atentados, de manifestações de rua conduzidas por hordas de descontentes. Temia-se sobretudo que o vírus Zika matasse metade dos visitantes enquanto balas perdidas cuidavam de liquidar os demais.

Favela 1Felizmente, o mundo não caiu. Para turistas e enviados estrangeiros, que receavam não escapar com vida da estada no Rio, até que não foi tão catastrófico. Tirando um ou outro assaltozinho e uma fieira de furtos, os Jogos transcorreram dentro do que se pode esperar de um país de Terceiro Mundo. Até que não foi tão mal. Ficou a conta pra pagar mas, como Deus é brasileiro, há de se dar um jeito.

A meta lançada ao ar pelo Comitê Olímpico Brasileiro ‒ de classificar o país entre os 10 melhores do mundo ‒ não se realizou. Fica a incômoda impressão de que não era bem uma meta, mas uma simples esperança. Dez melhores? Por que não entre os oito melhores? Ou entre os doze melhores? Por que visar uma classificação e não um número de medalhas? Favor encaminhar eventuais questionamentos ao COB.

Nas semanas que antecederam a Olimpíada, a mídia europeia falou muito do Brasil em geral e do Rio em particular. Dado que imagens de gente fina se tostando ao sol de Ipanema são demais batidas, a tevê preferiu focalizar o lado B do Rio de Janeiro, os aspectos mais sombrios. Foram mostradas cenas de polícia subindo o morro, de bandidos sendo caçados, de rodinhas de crack, de brucutus percorrendo favelas, de muita pobreza.

Circo 1No entanto, para quem observa de fora, as duas semanas dos JOs foram um refrigério. Dezenas de canais de tevê mostraram diferentes modalidades de esportes, a mídia falada e escrita teceu loas aos campeões e lamentou alguns fracassos. Em resumo, todas as atenções estiveram voltadas para a competição e as mazelas foram esquecidas.

Agora, terminado o espetáculo, volta-se à realidade. Impeachment, falcatruas, corrupção, desvio de dinheiro público, desemprego, inflação já estão voltando ao noticiário. O que é bom dura pouco. O circo foi desmontado e o Brasil real ressurgiu.

Interligne 18h

O legado
No Brasil, falam do «legado» dos Jogos. Pra começar, a palavra é inapropriada. Legar é dar de graça. Os despojos deixados pelas competições continuarão sendo bancados com o dinheiro do contribuinte brasileiro. É como legar algo a si mesmo, um despropósito.

A meta

José Horta Manzano

«Não vamos fixar meta. Mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrá-la.»

Meus distintos leitores hão de se lembrar da frase pronunciada por doutora Dilma. A presidente emérita foi pródiga em ditos tragicômicos. A saudação à mandioca e a exaltação da mulher sapiens também têm lugar garantido no folclore político nacional.

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Num país como o nosso, onde público e privado se entrelaçam, onde Estado e governo são encarnados por uma única pessoa, os interesses do governo (de curto prazo) e do Estado (de longo alcance) se confundem. Dessa mistura entre o passageiro e o duradouro, nascem imbróglios. A admissão da Venezuela no Mercosul é um deles ‒ um problema cabeludo. O distanciamento comercial entre o Brasil e os países economicamente poderosos é outro nó difícil de desatar.

Em nosso país, cada governo vive e age como se, depois dele, o mundo fosse acabar. O interesse do Estado é abandonado em prol da sobrevivência política dos inquilinos temporários do andar de cima. Nem vale a pena fixar metas ou arquitetar planos, que serão desmantelados pelo governo seguinte.

Interligne 18c

Trinta anos atrás, o universo esportivo da Grã-Bretanha andava ao deus-dará. O fraco desempenho nacional desdourava a imagem do país. O vexame culminou com a classificação britânica nos JOs de 1996, em Atlanta. Naquela edição, eles terminaram em 36° lugar(!), com quinze medalhas, das quais apenas uma de ouro. Países como a Argélia, a Nigéria, a Turquia, a Etiópia e até o Brasil passaram à frente.

Mister John Major, então primeiro-ministro do reino, entendeu que algo precisava ser feito. Os resultados olímpicos tinham de voltar a corresponder à imagem gravada no inconsciente coletivo do mundo: a de uma Inglaterra poderosa. Mas como proceder? O caminho era um só: investir. Mas tirar dinheiro de onde? Alguma nova fonte tinha de ser criada sem aumentar impostos.

JO 4A solução foi inventar uma nova loteria nacional. Com bom trabalho de marketing, o novo jogo logo caiu no gosto popular. Grande parte dos ganhos foi, desde então, dedicada a apoiar esportistas. Mas, atenção: a intenção era aumentar a colheita de medalhas nos Jogos Olímpicos. Portanto, mais valia investir em esportes em que a concorrência é menor.

Assim foi feito. O orçamento tradicionalmente reservado para esportes muito concorridos como o futebol, o vôlei e o basquete foi diminuído. Em compensação, esportes olímpicos menos praticados receberam uma injeção de recursos. Só para dar uma ideia de como a loteria ajudou, basta mencionar que, em 1996, o financiamento público para os esportes era de 5 milhões de libras por ano. Vinte anos mais tarde, nos quatro anos que antecederam os JOs do Rio, a quantia subiu para 274 milhões de libras mais 73 milhões para os paraolímpicos.

Medalha não cai do céu por obra e graça de São Benedito. Tem trabalho e investimento por detrás. Mas compensa. Para espanto geral, o Reino Unido deverá terminar hoje classificado em segundo lugar. Reparem que as medalhas não vêm de esportes ultrapopulares e concorridos. Modalidades como atletismo, ginástica artística, remo, canoagem, hipismo, saltos ornamentais, triatlo, vela sobressaem.

Bandeira UK 2E isso tudo por quê? Porque tiveram a sensatez de entender que os interesses maiores do Estado britânico primam sobre os interesses passageiros de cada governo. John Major, o criador da loteria, deixou o cargo em 1997, um ano depois de Atlanta. De lá para cá, a casa n° 10 de Downing Street já foi ocupada por outros quatro primeiros-ministros. Dois deles eram trabalhistas e os outros dois, conservadores.

Ajuizados, todos entenderam que a promoção do esporte não era política de governo específico visando a perpetuar-se no poder. Não passou pela cabeça de ninguém suspender o programa. O resultado está aí: o Reino Unido transformou-se em potência olímpica capaz de peitar uma China de bilhão e meio de habitantes.

Nota:
Não encontrei notícia de casos de corrupção no movimento olímpico britânico. Salvo melhor juízo.

Véus, burcas e cabelos curtos

José Horta Manzano

Que me perdoe o distinto leitor se a leitura deste artigo coincidir com a desgustação de um sorvete ou de outro alimento. O ditado que vou citar não é o mais apropriado para essas horas: certas coisas, quanto mais se mexe, mais fedem. Suavizei um pouco para espíritos sensíveis.

Tempos houve em que a França dominava metade da África. No apogeu do império colonial, a Argélia era o florão da coroa: a colônia preferida, a mais rica, a mais próxima, a mais promissora, a que concentrava maior número de colonos da metrópole. Era parte integrante do território nacional. A partir da independência, no começo dos anos 60, a sólida fraternidade entre matriz e filial se espatifou.

Praia 5Assim mesmo, a França continuou ‒ e continua até hoje ‒ a exercer irresistível atração sobre jovens argelinos. Os laços tecidos durante século e meio de colonização deixaram marcas. Os franceses descendentes de argelinos estão hoje na casa dos milhões. A esses, juntam-se outros norte-africanos cujos antepassados vieram do Marrocos e da Tunísia. Sem esquecer que a imigração continua.

As leis francesas proibem o recenseamento de raças e origens. Portanto, toda estatística sobre a presença de maometanos será estimativa não oficial. De qualquer maneira, há muita gente. A imensa maioria, embora guarde proximidade com a religião dos pais e avós, não segue rigorosamente os preceitos. Os descendentes se espalham por todos os matizes ‒ vão dos mais agarrados às tradições aos que já se distanciaram definitivamente.

Foto de Marc Ferrez

Foto de Marc Ferrez

Na França, estes últimos anos, vem crescendo a polêmica sobre mulheres que se vestem à moda islâmica. Antes de seguir, devo esclarecer que faz pouco sentido falar em «moda islâmica», expressão que acabo de inventar. Entre véus, hidjabes, nicabes e burcas, cada região tem suas tradições. Se a burca, que cobre totalmente o corpo, é comum no Afeganistão, quase não se vê na Indonésia, maior país maometano do planeta.

Acho uma pena dar tanta importância a coisa pouca. Que cada um se vista como lhe parece. Não é com leis, decretos e proibições que se resolve esse tipo de problema. Pelo contrário, controles e proibições tendem a exacerbar ânimos. A meu ver, o melhor remédio é a paciência, que o tempo acaba pondo as coisas no lugar.

Praia 4Imagens do Brasil de 150 anos atrás mostram negras africanas vestidas à maneira tradicional. Sem proibições nem perseguições, isso desapareceu em benefício de roupas que não mais desvelam as origens de cada um. Hoje em dia, trajes tradicionais africanos só são usados em ocasiões especiais ou por vendedoras de acarajé.

Estes dias, o STF decidiu autorizar pessoas tatuadas a prestar concurso público.  É atitude positiva, um passo na boa direção. Fico pensando no escândalo provocado pelas primeiras mulheres que ousaram apresentar-se com cabelo curto, no início do século passado. Naquela ocasião, não houve proibição, todos se acostumaram e o tempo acabou dando um jeito. Ninguém segura o progresso.