O furúnculo

José Horta Manzano

Lula na cadeia? Joaquim Barbosa candidato? Maluf na ala prisional do hospital? O registro do PT cancelado? A ‘coluna Prestes’ do Lula apupada? Bolsonaro no segundo turno? Moro endeusado? Ministros do STF acossados? A Constituição contestada? Parlamentares temerosos de sair às ruas?

À primeira vista, pode não ser evidente, mas esses fatos todos estão ligados. Fazem parte de uma teia que vem sendo tecida, no Brasil, desde que entramos neste terceiro milênio. Nada existe por si mesmo, cada ocorrência é produto do que veio antes e do entorno em que está mergulhada.

O clamor pela prisão do Lula tem a ver com a previsão do bom desempenho de doutor Bolsonaro nas eleições. O endeusamento de doutor Moro tem ligação íntima com o acosso a ministros do STF. O despacho de doutor Maluf à prisão guarda relação com o reclamo popular pelo cancelamento do registro do PT. Todos os fatos que mencionei no primeiro parágrafo estão entrelaçados. São, ao mesmo tempo, causa e consequência. Poderia multiplicar exemplos até encher a página, mas essa meia dúzia basta pra embasar o que quero demonstrar.

Nos primeiros anos que se seguiram à redemocratização, a atenção do Brasil foi monopolizada por um espantalho: a inflação. Era o pivô em torno do qual orbitava a nação. Não se falava em outra coisa, que não havia espaço. O noticiário econômico invadia a imprensa. Quem já era adulto nos anos oitenta e no começo dos noventa há de se lembrar: a inflação era tão corrosiva que ninguém sabia quanto ia receber no fim do mês. Salários eram corrigidos mês a mês. Ninguém tinha mais noção do preço de nada. Conforme a loja, o mesmo artigo podia ser encontrado a 10, a 20, a 30 ou a 40. Pouco importava.

É hora de refletir

O Plano Real deu um basta na situação. Presenteou os brasileiros com uma trégua de uns dez anos. A calmaria só começou a sentir os primeiros ventos agitados quando do estouro do mensalão, que assombrou o país em 2005. De lá pra cá, a situação veio num crescendo. O giro do remoinho vem se acelerando. Estamos chegando ao ápice. Várias reviravoltas podem acontecer num mesmo dia. É o que se chama crise.

Crise ‒ do grego krinó (=separação) ‒ é noção que se aplica a uma encruzilhada. Ao sofrer uma crise, o enfermo se encontra numa bifurcação. A partir daí, melhorará ou piorará de vez. Logicamente, quando um país está em crise, estará plantando o germe de seu amanhã. Ao fim do túnel, tanto poderá emergir uma nação melhor quanto bem pior do que era.

Há que guardar a cabeça fria neste momento. Há que manter distância dos fatos do dia a dia (ou da hora a hora…). Há que observar como se não tivéssemos nada que ver com o peixe. Deixar-se envolver e indignar pelo que acontece a cada instante é a melhor receita pra entrar em estado de choque emocional. Falar é fácil, mas há que fazer um esforço. Não vale a pena arriscar um infarto.

Nada é eterno, nem nós. Como furúnculo(*), a crise ainda vai se avolumar, se avermelhar e se inflamar até que estoure e permita a eliminação de toda a podridão acumulada. Sei que a metáfora não é lá muito apetitosa, mas a política nacional, neste momento, tampouco o é.

Pra frente, Brasil! A seleção venceu a Alemanha. Já é um bálsamo. Ou não?

(*) O termo furúnculo nos chegou através do latim. Os etimólogos não estão de acordo quanto à origem. Em princípio, furúnculus é diminutivo de fur (=ladrão). Mas o significado não combina. Alguns estudiosos tendem a ver no termo uma derivação de furio (que nos deu furor) ou ainda de ferveo (que nos legou ferver). Não há consenso.

Frase do dia — 332

«Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2016 houve o primeiro aumento da disparidade de renda domiciliar per capita em 22 anos.

Isso significa que o ganho proporcionado pela estabilização da economia com o Plano Real, implementado há 23 anos, foi comprometido pelos governos de Lula e Dilma. A façanha da dupla é espantosa.»

Editorial do Estadão, 21 abril 2017.

Falta troco

José Horta Manzano

Na Europa, especialmente do centro para o norte, nunca falta troco. Tanto faz que a moeda nacional seja o euro, o franco suíço, a coroa sueca ou outra qualquer ‒ moedas circulam. Todo cidadão costuma ter, caixa de supermercado tem, padaria tem, farmácia tem, vendedor de cachorro-quente também.

No Brasil, o problema da falta de troco é crônico. Desde os tempos de antigamente, é realidade aceita bovinamente, não surpreende ninguém. Tanto faz que as moedinhas tenham um certo valor, como no início do Plano Real, ou que valham pouco, como agora. A escassez é proverbial. Cada um tem sua explicação para o curioso fenômeno.

capote-1Há quem desconfie de malandragem: o comerciante tiraria sistematicamente as moedas do caixa criando, assim, uma desculpa para não dar troco. Outros acusam o acaparamento de metal, reminiscência do tempo em que se acumulavam moedas de ouro e prata. Há ainda os que consideram que não vale a pena carregar peso por valor tão baixo.

Tenho a minha teoria. O fenômeno pouco tem a ver com malandragem, ganância ou desprezo pelo vil metal. O problema é meramente climático. Nos países frios, o longo inverno obriga o cidadão a sair à rua encapotado oito meses por ano. Capotes, mantôs e casacos são cheios de bolsos. Como são já pesados por natureza, um punhado de moedas não faz grande diferença. Vai daí, antes de sair de casa, a gente apanha automaticamente uns cobrinhos e põe no bolso. Assim, é natural, o troco jamais falta. Ainda que o cidadão saia de casa sem moedas, ao voltar, depois de duas comprinhas, vai estar com o bolso repleto.

dinheiro-8Para coroar, toda agência de correio fornece moedas a quem pedir. Elas vêm empacotadas em rolinhos de papel. Na Suíça, cada rolo contém 50 moedas de mesmo valor. Nenhuma cobrança extra é exigida: o preço do rolinho corresponde ao valor das moedas. Dessa maneira, nenhum comerciante tem pretexto para falta de troco.

A solução do problema brasileiro é meio complicada. Não vejo outra saída senão ter paciência e esperar pela próxima era glacial. Periga demorar.

Recordar é viver ― 7

As dúvidas do Lula

José Horta Manzano

23 set° 2010
Questionado sobre os ataques feitos anteriormente à imprensa, Lula disse duvidar «que exista um país na face da terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo».

20 out° 2013
Sobre denúncias de corrupção, Lula disse duvidar «que exista no mundo um país com a quantidade de fiscalizações que o Brasil tem».

Blabla 228 ago 2014
Cutucando o PSDB, Lula disse duvidar que o partido do ex-presidente FHC «tenha feito 10% do que fiz para investigar». E usou uma analogia doméstica para explicar a diferença entre os partidos. «Eles tinham um tapete desse tamanho para jogar a sujeira debaixo. Nós tiramos esse tapete da sala», afirmou. «Só tem um jeito: é ser honesto e ter decência. Se fizer sacanagem com o dinheiro público tem que pagar».

19 out° 2006
«Se houve crime eleitoral, terei que pagar», diz Lula. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que estará sujeito à punição da Justiça Eleitoral caso seja comprovado que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal que supostamente seria usado para compra do dossiê contra tucanos saiu da sua campanha de reeleição.

24 set° 2007
Deu no NYT: Lula duvida de provas contra Dirceu
Além de exaltar a economia brasileira e evitar falar do colega venezuelano, o presidente Lula disse em entrevista ao jornal New York Times que não há provas do envolvimento do ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu (PT) com o mensalão.

Blabla 725 ago 2012
«Lula duvida que Aécio concorra à presidência. Acha até que ele trabalhará para costurar o apoio dos tucanos a Eduardo Campos.»

1 fev° 2012
«Lá nos EUA, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.»

20 jan° 2016
«Não tem uma “viv’alma” mais honesta do que eu neste país», diz Lula.

A arte de criar problemas

José Horta Manzano

Cofrinho 2Ouvi agora no rádio que, no Brasil, há escassez de troco. Confesso que não sabia. Parece que comerciantes dão tratos à bola para não ouvir reclamação de fregueses. Tem padeiro que dá pãozinho a quem trouxer 50 ou 100 reais em moedinhas. Uma cadeia de lojas de sanduíche de carne moída (ambúrgui) oferta lanche tamanho família contra aporte de um punhado de moedas.

Nos anos 50, era crônica a falta de troco. Não só moedas, mas notas de pequeno valor – chamadas então ‘manolitas’ – eram bem precioso que a gente relutava em passar adiante.

Nas décadas seguintes, com o galope inflacionário, moedas desapareceram. Tudo melhorou a partir de 1994. Com a estabilização garantida pelo Plano Real, problema de falta de troco já deveria fazer parte do folclore nacional. Surpreso, descubro que não é bem assim.

Segundo a repórter que ouvi, não precisou delação premiada para designar o culpado: é o cofrinho. Foi afirmação convicta. A moça disse que, pouco afeito ao uso de moedas, o povo tende a tirá-las de circulação para entesourá-las.

Cofrinho 1Pouco afeito ao uso de moedas? Não faz sentido. Brasileiro com menos de 30 anos não conheceu a vida sem moeda. Até os mais velhos já se acostumaram (ou se reacostumaram) a manusear pecinhas de metal.

A Casa da Moeda se defende dizendo que fabricou não sei quantos milhões de moedinhas. Recomenda aos cidadãos utilizá-las em suas trocas diárias permitindo, assim, que circulem.

O distinto leitor certamente concordará comigo se eu disser que, no Brasil, criar problemas insolúveis é esporte nacional. Veja, pois:

Interligne vertical 16Por um lado, autoridades financeiras lamentam que a poupança média do brasileiro seja uma das mais baixas do planeta – o que é prejudicial ao País. Compra-se a crédito. Gasta-se o que não se possui. Contraem-se dívidas. Depositam-se todas as esperanças num amanhã que não se sabe de que será feito.

Por outro lado, as mesmas autoridades incentivam a população a abandonar o esboço do rascunho do começo de uma incipiente cultura de poupança. O cofrinho é excelente meio didático de infundir no pequerrucho o costume de guardar para dias incertos.

E pensar que a solução do problema é tão simples: basta cunhar mais moedas. Não é complicado, não?

Excerto do solilóquio de Hamlet, na peça homônima de William Shakespeare. Facsimile da edição de 1604

Excerto do solilóquio de Hamlet, na peça homônima de William Shakespeare.
Facsimile da edição de 1604

To be or not to be. As diretivas oficiais parecem indicar esquizofrenia. Mas a verdade é mais simples: os que dão essas ordens são simplesmente incapazes. Incapazes de refletir e incapazes de se pôr de acordo.

Nada pode ser e não ser ao mesmo tempo – que se há de fazer? Quatrocentos anos atrás, Shakespeare já punha na boca de Hamlet essa incontornável obviedade.

O coqueiro e a ladeira

José Horta Manzano

A distinta e fiel leitora Michèle fez um comentário muito pertinente no post Falam de nós – 1, publicado em 3 nov°. Achei que a resposta podia interessar outros leitores, eis por que ela está aqui a seguir.

Interligne vertical 16 3KbCompreendo seu desconcerto, Michèle, que é o de tanta gente. Também eu me sinto desarmado. Mas deixe estar, que tudo o que sobe acaba descendo um dia. E, como todos sabem, mais alto é o coqueiro, maior é o tombo.

Coqueiro 1Há duas maneiras de afastar esse cálice amargo de nossa boca e de arredar do andar de cima essa gente que nunca deveria ter lá entrado. Uma das soluções é mais demorada; a outra, bem mais rápida.

O caminho demorado é dar instrução ao povo. É radical, só que, pra chegar lá, precisa primeiro investir e, em seguida, esperar uns vinte anos. Nossa elite governante não tem tempo nem vontade de se dedicar a civilizar os mais carentes. Portanto, essa ruela é sem saída.

Sobra a solução rápida. E ela já está a caminho. Se estivéssemos no século XIX, diríamos que ela «vem a cavalo». Nos anos cinquenta, a expressão era «vem vindo a jacto». Sabe o que é, Michèle? Pois é a economia.

A dor mais doída que se pode impor a um povo é a dor de bolso. Você, que é muito jovem, não conheceu os tempos da hiperinflação. Era um terror. Os preços dobravam a cada mês. Ninguém mais tinha ideia do valor de objeto nenhum. Se lhe cobrassem 10, 15, 20 ou 25 por um produto qualquer, dava no mesmo. A gente sequer sabia qual seria o salário no fim do mês – os reajustes eram mensais. Não dava pra fazer conta, nem previsão. Loucura maior seria comprar a prestação. Era desespero total.

Se o Collor foi despachado de volta pras Alagoas, 20 anos atrás, foi em grande parte por causa do vendaval econômico que varria o País. Somente a estabilidade permitiu que um FHC e um Luiz Inácio governassem com relativa tranquilidade. Para os mais jovens, parece que é ponto pacífico, que sempre foi assim. Não foi, acredite. O Plano Real foi uma conquista histórica e trouxe um bem-estar com que nós, os mais antigos, nem sonhávamos. Esse foi, sim, o grande salto em direção ao Primeiro Mundo.

Crédito: Baixaki

Crédito: Baixaki

Hoje, pelo andar da carruagem, estamos descendo a ladeira, veja só. A inflação de volta, preços subindo, indústrias fechando. A China – nosso principal mercado(!) – andando em marcha reduzida. A Argentina às portas da falência e a Venezuela em perdição. No governo, a roubalheira corroendo o que resta. A dívida pública engordando. A marca Brasil perdendo prestígio e caindo em descrédito perante o resto do mundo. Todos os indicadores estão no vermelho e apontam para baixo.

Não vai demorar muito. O fruto vai cair de podre. Como? Não sei, que não tenho bola de cristal. Aliás, acho que ninguém sabe direito como vai ser. Mas a coisa não pode – e não vai – continuar assim mais muito tempo. A má gestão, quando ataca a economia, afeta a todos, ricos, pobres e remediados.

Abraço a você. E obrigado pela fidelidade.

Interligne 18c

Já ensinava o velho Lucius Annæus Seneca, filósofo e estadista romano, em suas Epístolas Morais a Lucílio:

«Multos fortuna liberat pœna, metu neminem»
«A sorte livra muitos do castigo, mas não do medo»

Frase do dia — 67

«Como todos sabem (mas já esqueceram), a última coisa séria feita no Brasil foi o Plano Real. De lá para cá, só remendo e esparadrapo. Por isso, um país de 200 milhões de pessoas acredita que precisa de funcionários de Fidel Castro para cuidar da saúde da população carente.»

Guilherme Fiuza, escritor e colunista, in Revista Época. Texto integral accessível aqui.

Frase do dia — 51

«Portanto, mais do que um plano eficiente e bem concebido, o real é um jogo de aparências, que pode durar enquanto não ficar evidente que as contas do governo não vão fechar por causa dos juros altos, que o mercado sozinho não é capaz de conter os preços dos oligopólios sem uma coordenação das expectativas por parte do governo, que os salários não manterão o poder aquisitivo por muito tempo, que o real não vale tanto quanto o dólar.»

Guido Mantega, ministro do Planejamento do governo do Lula e atual ministro da Fazenda. A frase aparece em artigo que o senhor Mantega assinou e que a Folha de São Paulo publicou em 12 julho 1994, quando do lançamento do Plano Real. Vale a pena perder cinco minutos para apreciar o texto menosprezante e quase debochado. Note-se que o ministro nunca se retratou. Aqui.

PS: Não é propriamente a frase do dia. Melhor seria dizer que é uma «frase que merece ser lembrada».
Todos temos o direito de nos enganar, mas as regras básicas da civilidade recomendam a cada um reconhecer seus próprios erros. Fica mais elegante. Infelizmente… ninguém consegue dar o que não tem. Não se tira leite de pedra.