Medalha cassada

Cláudio Humberto (*)

Medalha 8Finalmente, três anos após terem sido condenados pelo Supremo Tribunal Federal, os mensaleiros José Genoino, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto perderam a Medalha do Pacificador, a mais alta condecoração do Exército Brasileiro.

O ato é do general Villas Bôas, o atual comandante. O anterior, general Enzo Peri, com medo de irritar Dilma, não havia cassado as medalhas apesar de ser obrigado a fazê-lo pela legislação.

Os mensaleiros já sumiram do Almanaque do Exército.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Limão galego

José Horta Manzano

Em matéria de discrição, a Suíça é escolada, numa atitude típica de país pequeno. No país alpino, a secretividade foi elevada ao status de tradição nacional. Cada um luta com as armas que tem, não é mesmo? Países grandes e fortes impõem-se pelo tamanho e pela força. Nações sem esses atributos procuram outros caminhos.

Assalto 6Nos tempos em que ainda vigorava rigoroso sigilo bancário, todo ditador digno desse título fazia questão de que o cobertor helvético agasalhasse o grosso da fortuna mal granjeada. Mas nem só de ditadores vive o mundo. Corruptos, ladrões, desonestos e que tais seguiam a mesma via: banco suíço era o lugar mais apropriado pra enfurnar dinheiro de origem duvidosa.

Só que… o tempo passou, a Terra girou, costumes mudaram. Dez anos atrás, ninguém acreditava que a situação fosse evoluir tão rapidamente. Mas evoluiu: em poucos anos, o sigilo bancário suíço praticamente desapareceu. O pouco que resta está vivendo os últimos momentos.

Teve gente, mais esperta e avisada, que se deu conta, a tempo, de que algo estava mudando. Foram os que retiraram suas barras de ouro in natura e saíram carregando na sacola. Encerraram as contas e nenhum rastro ficou. Foram ancorar o iate em portos mais seguros.

Houve os menos atentos (ou mais ingênuos) que, com a mente talvez absorta por outras negociatas, não se deram conta de que a banca suíça perdia rapidamente suas características. Tranquilos e confiantes, deixaram dormir sua fortuna. Deram-se mal.

Ladrão 3O Estadão noticiou, faz alguns dias, que cerca de cem contas suspeitas, cujos beneficiários são cidadãos brasileiros, estão bloqueadas. Uma centena, minha gente! A Lava a Jato está muito longe de terminar. Deve haver muita gente em Brasília com dificuldade em pegar no sono. Não só em Brasília.

As relações entre o Ministério Público do Brasil e seu homólogo suíço nunca estiveram tão íntimas, tão cordiais, tão proveitosas como atualmente. Enquanto outros países, como a Ucrânia e a Malásia, reclamam há meses contra a falta de cooperação da Suíça, o Brasil tem conseguido, com facilidade, informações, documentos, provas, atestações e até restituição de depósitos.

Jornal 2O jornal suíço 24 Heures traz um resumo do escândalo Petrobrás. Cita a declaração de Monsieur André Regli, embaixador da Suíça em Brasília: «L’image de la Suisse auprès des Brésiliens a fortement évolué grâce à cette coopération judiciaire» – a imagem da Suíça melhorou muito, junto aos brasileiros, graças a essa cooperação judicial.

Tremei, mensaleiros, petroleiros & congêneres! Limão galego, relou tá pego! Tem muita gente que nem sabe que já foi relada.

Pedaladas

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que o termo pedalada lembrava passeio de bicicleta. Pra girar as rodas, a gente dava pedaladas na Monark ou na Caloi. Hoje em dia, pedalada não se dá, se faz. E o significado mudou.

Lula boné 1Nestes tempos estranhos, o sentido da palavra tem evoluído. Não evoca mais as rodas da magrelinha. A imagem que vem é de barbeiragens financeiras cometidas conscientemente por dona Dilma. Parece que é crime. Se for, mais dia menos dia a presidente terá de responder por ele. Quem viver, verá.

Dirigindo-se a plateia amestrada, um Lula que, apesar de viver vida abastada, continua se esforçando para parecer igual aos excluídos, enfiou mais uma vez no cocuruto o boné do MST. Expedientes malandros como esse eram conhecidos já nos tempos do velho Jânio Quadros, mas ainda tem gente que se deixa embalar.

Em 2003, ao fazer o gesto pela primeira vez, nosso guia desencadeou um bafafá. Cidadãos mais conscientes consideraram a atitude imprópria para presidente de país sério. De lá pra cá, o figurão perpetrou impropriedades bem maiores que aquela. Tantas fez que hoje os brasileiros, blasés, não prestam mais atenção.

Estes últimos meses, com o desenrolar veloz e imprevisível dos acontecimentos, o Lula anda mais desnorteado que cego em tiroteio. Perdeu os anéis, quis salvar os dedos. Perdeu os dedos, está tentando salvar as mãos. Seu horizonte anda um bocado nevoento para quem já sonhou abocanhar um Nobel da Paz para, em seguida, terminar presidente do Banco Mundial.

Bicicleta 8Na cerimônia de ontem, sem muito que dizer, o demiurgo aventurou-se por terreno minado. Falou das «pedaladas» que dona Dilma «fez». Contou não ter lido o processo, fato que não surpreendeu ninguém. Assim mesmo, garantiu que a afilhada cometeu esses «malfeitos» para poder continuar pagando programas de distribuição de dinheiro que ele mesmo havia instituído.

Ora, analisemos. Nos tempos em que o Lula era presidente, não foi preciso «pedalar» pra distribuir aos mais necessitados. A partir do momento em que o cumprimento de programas passou a exigir que leis fiscais fossem infringidas, das duas uma: que se mudassem as leis ou que se extinguissem os programas. Nenhum dos dois foi feito.

Blabla 2Qual é o resumo da opereta? Duas considerações se impõem. A primeira é a confissão – involuntária mas evidente – de que a pupila realmente «fez» pedaladas, ou seja, infringiu a lei.

A segunda consideração remete a meu post de ontem – A lei? Ora, a lei… A fala do Lula reforça a ideia de que leis e regras valem para os outros, não para si mesmo. O demiurgo pode falar mais que outros, se agitar mais que outros, ousar mais que outros, ser mais vaidoso que outros, ser menos culto que outros, ser mais ingênuo que outros mas, no fundo… é um político do mesmo padrão que todos os outros. A lei? Ora, a lei…

A magia da meia-entrada

Hélio Schwartsman (*)

O pensamento mágico é parte inafastável da arquitetura mental humana. É que, em larga medida, nossos cérebros operam por ilusões. Como diz o psicólogo Matthew Huts, se você acha que são pensamentos conscientes que o fazem mover seu braço, então você também acredita em mágica.

Ocorre que nem todas as instâncias desse fenômeno são iguais. Há situações em que crenças absurdas, como o comportamento supersticioso, são apenas inúteis, caso do torcedor que veste a meia da sorte sempre que seu time joga. Muitas vezes, porém, o recurso a elementos da magia revela-se útil, o que explica não terem sido dizimados pela evolução. Um estudo mostrou que voluntários acertavam 38% mais tacadas de golfe (“putts”) quando os pesquisadores lhes diziam que usariam o taco de um atleta famoso.

Meia-entrada

Há, porém, um bom número de instâncias em que o pensamento mágico atua contra nós, seja nos fazendo desperdiçar energia com irrelevâncias, seja nos empurrando ativamente para erros custosos. Por vezes, sociedades inteiras embarcam na ilusão. Meu exemplo favorito de viagem coletiva é a recém-regulamentada lei da meia-entrada, apoiada por mais de 90% dos paulistanos. No discurso de seus defensores, a meia consegue, a custos mínimos, promover a cultura, investir na formação dos jovens e ainda homenagear os mais velhos -tudo isso fazendo justiça social.

O problema é que nada disso é real. Os preços de diversões públicas são livres, o que significa que o empresário já fixa os valores considerando uma cota de meias-entradas. Assim, tudo o que a lei faz é impor um subsídio cruzado difícil de justificar (nada indica que o subsidiado tenha menos renda que o subsidiante) e distorcer a transparência tarifária.

Erros ainda mais caros ocorrem porque acreditamos magicamente que basta a vontade do legislador para materializar benefícios. É um pouco por isso que o Brasil quebrou.

(*) Hélio Schwartsman, filósofo e escritor, é colunista da Folha de São Paulo.

Quem nunca comeu melado

José Horta Manzano

Smoking 1Imagine o distinto leitor um senhor grisalho, elegantíssimo dentro de smoking impecável, cravo vermelho na lapela, calçado com… um par de chinelos de dedo. Chama tanto a atenção como se estivesse carregando uma melancia pendurada no pescoço. Não há de passar despercebido.

As coisas têm de se encaixar num conjunto. Se algum dos componentes do quadro destoa, acende-se luz vermelha. É assim que se desmascaram impostores, mentirosos, farsantes: quando um detalhe parece fora de esquadro.

Chinelo 2É natural que cliente de banco comercial – Bradesco, Itaú, Santander & similares – utilize caixa automático para movimentar pequenas quantias, tenha cartão de crédito e até talão de cheque, dê ordens de pagamento a torto e a direito. Combina com os usos e costumes de banco de varejo, que está aí justamente pra isso.

Já bancos privados e bancos de investimento fogem a esse figurino. Pra começar, nada de abrir agência em cada esquina. Não costumam ter mais que meia dúzia de representações, espalhadas por meia dúzia de países. Nada de guichês. Nada de portas abertas ao grande público. Nada de letreiro no frontispício. Não dão cartão de crédito nem emprestam dinheiro. A função deles é gerir a fortuna do cliente, cuidar bem dela e fazê-la frutificar.

Cidadão que sempre viveu na opulência sabe disso desde criancinha. Os que batalharam duro e, aos poucos, amealharam uns cobrinhos também acabam conhecendo e se familiarizando com esse ramo específico da banca. Já aqueles que enricaram de repente, por veredas nem sempre confessáveis, têm dificuldade em perceber a nuance.

Banco 6Estes dias, toda a mídia revelou que a mulher do presidente da Câmara é, como o marido, cliente de banco privado na Suíça. Más línguas dizem até que os milhões ali depositados têm origem ilícita. Cruz-credo! Fato é que a referida senhora utilizava a conta como se estivesse lidando com o Bradesco da esquina.

Dinheiro lavagemFez numerosas transferências para pagar escola, academia, curso particular, gastos de cartão de crédito. A moça deu bandeira. Ao persistir na insólita movimentação, acabou dando na vista. Controladores internos do banco hão de ter-se dado conta da falta de traquejo daqueles clientes. O comportamento anômalo revelou que se encaixavam no perfil dos que lidam com riqueza recente, presumivelmente oriunda de corrupção. Foram postos em observação. Tudo o que bancos suíços não querem, agora que o secular segredo ruiu, é agasalhar fortunas de origem duvidosa.

Dinheiro voadorNo caso da família do presidente da Câmara, a movimentação atípica foi considerada altamente suspeita e gerou denúncia ao Ministério Público helvético. Uma vez lançada, a bola de neve não parou mais de rolar. Foi-se avolumando e veio a público. Para senhor Cunha, a ameaça maior não é a perda do mandato, que isso é o de menos. O risco é ser presenteado com uma temporada na Papuda. A mão dos juízes anda um bocado pesada ultimamente.

Dinheiro fácil traz sensação de poder, segurança e solidez. É sensação falsa. Como diz o povo: dinheiro mal ganho, dinheiro mal gasto.

Os mi[ni]stérios brasileiros

Myrthes Suplicy Vieira (*)

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Não escapa à sensibilidade de ninguém a má vontade e a acidez das críticas com que muitos de nossos concidadãos avaliam o desempenho do atual quadro ministerial, induzidos talvez por pura e simples má-fé ou movidos pela inveja da capacidade criativa de nossa atual mandatária. Nem mesmo a recente reforma ministerial escapou da negatividade da ótica dessas pessoas, que chegaram a alegar que ela se deveu a motivos espúrios que nada têm a ver com os interesses nacionais. Basta de tanto catastrofismo, chegou a hora de fazer justiça.

Hoje, ao ler o desabafo que nossa amada líder fez ao final de sua primeira reunião com a nova equipe ministerial, afirmando que está em curso uma tentativa de “golpe democrático à paraguaia”, não pude mais me conter. Desolada, decidi, por isso, estender a mão aos ilustres defensores da democracia à brasileira e ajudar a explicar aos não iniciados como funciona a versão tupiniquim desse sistema de governo.

Lingua 1Em primeiro lugar, é preciso destacar que nossos aguerridos democratas à brasileira justificam suas ações numa “novilíngua” que, embora guarde semelhanças com a língua portuguesa, tem conotações um tanto diversas para cada vocábulo. Já nos deparamos com preciosos exemplos desse novo idioma proferidos por nossa líder máxima, como “isso é uma panaceia que não vai funcionar” e “não vamos estabelecer uma meta e aí, quando atingirmos a meta, vamos dobrá-la”.

Eolienne 1Por estes dias, circula no Facebook um vídeo em que nossa estimada presidenta acrescenta mais uma pérola a esse inventivo dicionário. Lamenta ela, em um discurso, que ainda não se tenha descoberto um modo de “estocar vento”. Referia-se ela, obviamente, ao fato de que, embora seu governo seja a favor de transferir parte do investimento na matriz energética para a energia eólica, ainda está às voltas com alguns obstáculos incontornáveis.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Acompanhemos seu raciocínio: ao contrário da água que pode ser armazenada para enfrentar dias mais difíceis, disse ela, ainda não se descobriu um modo de estocar vento, dado o caráter oscilante dessa força da natureza. Como ela mesma fez questão de ressaltar, “tem hora que venta mais e tem hora que venta menos, às vezes venta mais à noite, por exemplo”. Talvez por uma questão de pudor, ela tenha omitido os apuros tecnológicos enfrentados pelos cientistas brasileiros para capturar o vento e aprisioná-lo em um contêiner, preservando ao mesmo tempo toda sua potência segundo a segundo.

by Geraldo 'Passofundo' Fernandes desenhista gaúcho

by Geraldo ‘Passofundo’ Fernandes
desenhista gaúcho

Foi tendo em mente tais exemplos que me ocorreu que é provável que tenham escapado à atenção da legião de detratores do governo outros sofisticados exemplares dessa nova forma de pensar – e nomear – a realidade nacional. Valho-me da ajuda de Lacan para apontar os mais recentes vocábulos:

Interligne vertical 16 3Ke● A reforma ministerial foi “legítima” porque feita às claras e no intuito de defender o ajuste fiscal, ainda que possa implicar aumento de despesas para garantir a tão necessária “fidelidade” da base aliada ao programa de governo;

● os cortes programados no Ministério da Educação, no da Saúde e em vários programas sociais representam apenas uma estratégia “temporária”, necessária para enfrentar a crise “internacional” com realismo – crise essa que está próxima do fim, uma vez que “já estou vendo luz no final do túnel”;

● o mesmo pode ser dito em relação à necessidade de reintrodução da CPMF, seja porque é o “imposto que menos impacta a inflação”, seja porque “vai valer só por uns quatro anos”, seja porque “ninguém vai sentir” o peso no próprio bolso, dado o “propósito nobre” de financiar a saúde, e seu caráter “democrático”. Para reforçar a confiança dos crédulos quanto ao último item, o governo até mesmo se dispõe a estudar “isenção” para os contribuintes de baixa renda;

● finalmente, as frases mais enternecedoras da novilíngua democrática brasileira, proferidas por nossos dois últimos mandatários: “Eu não sabia”, “Tomei a decisão baseada em dados incompletos”, “Nunca antes na história deste país se investigou tanto”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Formalismo estúpido

José Horta Manzano

Erros acontecem, é da vida. Já me aconteceu ir à farmácia, receita em punho, e ouvir do farmacêutico algo do tipo «Mas qual é a dosagem do remédio? Vinte ou quarenta miligramas?» É quando o médico, distraído, se esquece de que aquele remédio é vendido em dosagens diferentes.

Remedio 1Na incerteza, que faz o farmacêutico? Pede-me que aguarde um instante, vai até o escritório que fica a dez passos do balcão, pega o telefone e liga para o consultório médico. Identifica-se e expõe a dúvida. Dez vezes em dez, recebe a resposta na hora. Em menos de dois minutos, a dúvida está esclarecida. O farmacêutico volta então ao balcão tendo já nas mãos o remédio. Pago a conta, levo o produto e o problema termina ali. Sem mortos nem feridos.

Li ontem estonteante notícia no jornal. Aconteceu no Maranhão estes dias. Ao não conseguir decifrar o que estava escrito na receita, o atendente da farmácia recusou-se a servir o cliente. Despachou-o de volta ao galeno exigindo que trouxesse prescrição legível. Irritado, o médico se excedeu. Reescreveu a receita acrescentando insultos: tratou o farmacêutico de imbecil e de analfabeto.

Receita 1Nessa altura, quem se enfezou de vez foi o paciente. Fez chegar o acontecido à imprensa causando alarido. O irrespeitoso comportamento pode custar ao médico uma sanção. Deveria render um puxão de orelhas ao farmacêutico também. A notícia não diz se, ao final, o paciente conseguiu receber a medicação. Fica só a certeza de ter sido inutilmente maltratado, jogado de lá pra cá como se marionete fosse.

Farmacia 1Por que tudo isso? De onde vem essa agressividade que, longe de resolver, agrava situações e arma conflitos? É difícil apontar causa única, que é fruto de um conjunto de fatores. Intolerância, soberba, arrogância, visão corporativista, baixa instrução se misturam. É flagrante o menosprezo pelo cliente que é, no fim das contas, justamente quem sustenta médico e farmacêutico.

Falta, acima de tudo, educação básica. Pra corrigir, é necessário percorrer longo caminho. Se começarmos hoje, só daqui a uma ou duas gerações nossa sociedade terá começado a aprender a viver em harmonia. Todo caminho, por mais longo que seja, começa com o primeiro passo.

Com incentivo do governo federal, que persiste em compartimentar os brasileiros em categorias estanques, antagônicas e adversárias, ainda estamos longe de dar esse primeiro passo. Por enquanto, tentamos sobreviver na selvageria primitiva do nós contra eles”.

Made in P.R.C.

José Horta Manzano

China PRCAté uns quinze anos atrás, os chineses eram mais que discretos ao etiquetar seus manufaturados para exportação. Se a legislação do país de destino fosse liberal, nem mencionavam a origem da mercadoria. Caso fosse absolutamente necessário, marcavam «Made in P.R.C.». A estranha e quase desconhecida sigla significava ‘feito na República Popular da China’.

De lá pra cá, as coisas evoluíram. Produtos daquele país já ostentam um desinibido «Made in China». Não se pode dizer que o que vem da China se tenha tornado chique, mas já não é olhado com tanta desconfiança.

Tendo-se transformado em fábrica do mundo, a China tornou-se incontornável. Pouco a pouco, a indústria básica dos demais países tem dismilinguido. Ninguém mais fabrica pianos na França. As fábricas brasileiras de brinquedo vão fechando uma atrás da outra. A indústria têxtil suíça sumiu. E assim por diante.

Chave 3Automóveis chineses, na Europa, nunca vi. Mas há de ser questão de tempo: mais dia, menos dia, chegarão. Parece que, no Brasil, já estão circulando. Espero que não sejam tão ruins como os carros russos – Lada –, importados nos anos 80, dos quais, com certa dose de maldade, a gente dizia que até a chave já vinha enferrujada.

Chinelo 1Nome, marca, origem da mercadoria podem ser prestigiosos. Em matéria de carnaval, praia, capoeira, caipirinha, chinelo de dedo, essas coisas, o nome de nosso País está por cima da carne seca. Deixa qualquer concorrente comendo poeira. Já em outros campos, a situação é menos dourada.

Como já mencionei recentemente, o banco brasileiro BTG Pactual comprou o tradicional banco suíço BSI, veneranda instituição com século e meio de história. Em casos assim, os clientes costumam ser avisados sobre a transação. É modo acertado pra tranquilizar todo o mundo dizendo que tudo continuará como antes. Em matéria de dinheiro, ninguém aprecia mudança.

O BSI seguiu a receita. Comunicou a cada cliente que, embora o dono fosse agora outro, nada mudaria nas relações com a clientela. Informou que, a partir de 15 de setembro, passava a pertencer ao BTG Pactual, «um dos mais importantes e influentes grupos bancários do mundo, com sede na América Latina».

BSI 1Meus distintos leitores hão de ter reparado que o nome do Brasil não aparece na comunicação. Ao ler a carta, lembrei-me do «made in P.R.C.» de antigamente. No mundo das finanças, a marca Brasil ainda é olhada com reserva e desconfiança. É compreensível. O conceito da banca brasileira não é lá essas coisas, o que justifica o fato de o BSI ter preferido situar sua sede, vagamente, em algum lugar da América Latina.

BSI 2Se a percepção das atividades financeiras brasileiras já não era tão favorável, o prognóstico não é alvissareiro. Mensalões, petrolões, eletrolões e refinões indicam que a onda de escândalos que assola o País ainda não atingiu o apogeu. Periga piorar. O arranhão causado à imagem do Brasil será mais duradouro do que supomos.

A velhice e as máscaras

José Horta Manzano

O Lula organizou, em seu escritório político, evento para louvar o número dois da política boliviana, señor Álvaro García Linera, vice-presidente do país vizinho.

O seminário realizou-se dia 5 out° e contou com presença de alguns dos figurões remanescentes do Foro de São Paulo. Compareceram aqueles que ainda estão livres para ir e vir. Embora os organizadores não tenham publicado a lista dos participantes, as fotos oficiais mostram o homenageado, Marco Aurélio «top-top» Garcia, o ex-senador Suplicy e o próprio Lula.

Lula e Evo 1O Estadão registrou momento significativo que, por sinal, não aparece no site do escritório político do antigo presidente. Foi a revelação de que, quando ainda era candidato à presidência da Bolívia, Evo Morales andou sondando o Lula, então presidente do Brasil, sobre a eventualidade de estatizar as instalações da Petrobrás em território boliviano.

A narrativa é do próprio Lula: «O Evo me perguntou: ‘como vocês ficarão se nós nacionalizarmos a Petrobrás’? Respondi: ‘O gás é de vocês’. E foi assim que nos comportamos, respeitando a soberania da Bolívia».

Pode ter acontecido exatamente assim. No entanto, dado que quase dez anos são passados desde a estonteante tomada das plantas da Petrobrás manu militari, acredito que se trate antes de «passado recomposto» – fatos antigos adaptados ao gosto atual, procedimento comum em política.

É razoável que o Lula de 2006, surpreso pela ideia atrevida do futuro colega boliviano, tenha preferido se aconselhar com o entourage antes de dar resposta. O ressentido assessor Garcia, preso a notória visão ideológica do mundo e incapaz de dar preferência aos interesses superiores do Estado brasileiro, é bem capaz de estar por detrás do mau aconselhamento. Pode bem ter partido dele a sugestão de entregar a Petrobrás – com dedos e anéis – à Bolívia.

Lula e Evo 2Seja como for, o Lula, cuja «esperteza» costumava ser reconhecida à unanimidade, tem escorregado com frequência cada vez maior. Com essa confidência, deixou claro que a surpresa estampada em seu semblante quando Evo tomou nossas instalações era tão falsa quanto nota de três reais.

O passar dos anos nos faz mais velhos. E a velhice tem o poder de fazer cair máscaras e revelar antigos segredos. Conclusão: desse fato, pelo menos, o Lula sabia. A confissão foi espontânea.

Petrobras 3Ao relembrar esse episódio, o demiurgo mostra que, aos 70 anos, ainda não entendeu que civilização se distingue de barbárie pela existência de regras e pelo cumprimento delas.

Contratos são feitos para ser cumpridos. Havia contratos assinados entre a Petrobrás e o governo da Bolívia. O presidente do Brasil, guardião da Constituição, é a última pessoa de quem se esperaria conivência com o desrespeito a tratos que prejudicam interesses do Estado brasileiro.

Corrupto no bolso

José Horta Manzano

Você sabia?

Nem tudo está perdido. O recém-nomeado superintendente regional da Polícia Federal no Estado de São Paulo é membro da mesma corrente de pensamento seguida pelo juíz federal Moro, do Paraná.

Em entrevista ao Estadão, foi simples e direto: «É pegar corrupto no bolso», ou seja, o confisco das posses dos assaltantes do dinheiro público é pra lá de eficiente no combate a organizações criminosas que compõem as máfias brasileiras.

Disney RossetiUm mês de carceragem, tornozeleira, prisão domiciliar não bastam. Assim como a cupidez foi o motor dos larápios, a prevenção reside na perspectiva de perder tudo o que roubaram. E, por cima disso, ainda pagar multa pesada, proporcional ao valor surrupiado.

Execração pública não dissuade cara de pau. Os sem-vergonha são gente sem vergonha. Estamos cansados de ver políticos cassados – ou que renunciaram ao mandato para fugir à cassação – voltarem à ativa, cara limpa e sorridente, como anjinhos recém-escorregados de uma nuvem.

Apesar da pouca idade, o novo superintendente já acumulou experiência no ramo. Estes dois últimos anos, funcionou como adido policial junto à embaixada do Brasil na Itália. Além de participar do caso Pizzolato, teve ocasião de entrar em contacto com a experiência da polícia antimáfia daquele país. Uma escola e tanto!

Quero aproveitar o ensejo pra compartilhar uma curiosidade com o distinto leitor. O novo superintendente chama-se Disney Rosseti. São duas palavras de grafia distorcida.

O sobrenome italiano, bastante comum, deveria escrever-se Rossetti, com dois tt. Tal nome indica que, lá pelo século 13 ou 14, quando sobrenomes começaram a ser atribuídos, o patriarca da família era ruivo. Rosso (= vermelho), rossetto (vermelhinho), rossetti (os vermelhinhos). Um tê se perdeu quando a família chegou ao Brasil.

Isigny-sur-mer, Normandia, França

Isigny-sur-mer, Normandia, França

O prenome – pra lá de original – lembra Walt Disney, o idealizador de simpáticos personagens que povoaram nossa infância. Você sabia que, apesar da aparência britânica, Disney tem origem francesa?

Pois é, vem da Normandia, norte da França. Nada mais é que a grafia inglesa – um pouco arrevesada – do francês d’Isigny (= de Isigny). Quem leva esse sobrenome há de ter tido, centenas de anos atrás, um antepassado originário da graciosa cidadezinha francesa de Isigny-sur-mer, situada à beira do Canal da Mancha, bem em frente à Grã-Bretanha.

Falam de nós – 13

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Tempos difíceis
Romandie, portal suíço de informação, repercute entrevista que Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, concedeu a O Globo. O artigo é encabeçado por frase de impacto: «Le Brésil traverse des temps difficiles» – o Brasil passa por tempos difíceis.

Lula no interrogatório
Tahiti-Infos, portal de informação da Polinésia Francesa, traz a informação de que o STF deu seu aval para que Lula seja interrogado sobre eventual envolvimento no escândalo da Petrobrás. Vamos, afinal, saber se ele sabia. Quem sabe.

A festa acabou
Libération, diário francês de orientação socialista, faz análise da sinuca em que Dilma Rousseff se meteu. «Elle détourne ses yeux fardés, embarrassée, presque honteuse» – ela desvia os olhos maquiados, constrangida, quase envergonhada. A expressão «escroquerie électorale» – estelionato eleitoral – é utilizada para explicar dramas pessoais de gente que se deixou iludir. A análise, bastante aprofundada, leva o título «Au Brésil, la fête est terminée» – no Brasil, a festa acabou.

Senegales 1Compatriota herói
Dakar Actu, portal de atualidades de Dacar (Senegal) conta a façanha de Moussa Sène, senelagês que vive no Rio Grande do Sul. O moço, enfermeiro de formação, socorreu uma senhora que havia desfalecido num vagão de trem na região metropolitana de Porto Alegre. Para completar a reportagem, informam que, na sequência de seu gesto espontâneo e firme, o rapaz recebeu, pela primeira vez, proposta de trabalho como enfermeiro.

Espelho meu
O portal Premium Beauty News publica em francês e em inglês. É fonte de informação da indústria mundial de cosméticos. Dá surpreendente previsão: dentro de quatro anos, o Brasil terá atingido a primeira posição no mercado mundial de cosméticos para homens. Crise? Inflação? Violência? Pouco importa, nada disso conta. Esse nicho de mercado espera crescer 7,1% por ano daqui até 2019.

E se for à falência?
La Stampa, tradicional diário de Turim (Itália), ousa fazer a pergunta: «Cosa capita al fondo se il Brasile fallisce?» – que aconteceria ao fundo se o Brasil fosse à falência? Mostra a preocupação daqueles que participam de fundos de investimento que incluem ações, obrigações e valores brasileiros.

Edificio ItaliaItália em chamas
O site da RAI, rede pública de rádio e televisão italiana, dá, em poucas linhas, notícia do incêndio que destruiu parcialmente o restaurante panorâmico Terraço Itália, no último andar do Edifício Itália, em São Paulo.

Direito de defesa
A Gazzetta di Modena, editada na cidade onde está encarcerado aquele signor Pizzolato do mensalão, levanta a hipótese de um imbróglio jurídico. Lembra que o fugitivo ítalo-brasileiro, que está a dias de ser extraditado para comprir pena na Papuda, ainda deve contas à justiça italiana. De fato, ao entrar no país com papéis falsos, o cidadão incorreu em crime de falsidade ideológica. O julgamento está previsto para 14 de dezembro. Se o acusado for extraditado antes, terá de ser julgado à revelia sem poder defender-se pessoalmente, o que contraria o ordenamento jurídico italiano. Que fazer?

Favorito do verão
La Nación, diário argentino, dá conta da alegria dos turistas argentinos que planejam passar as próximas férias de verão no Brasil. Com as seguidas desvalorizações que atigiram a moeda brasileira, o custo de vida ficou mais em conta para quem chega com dinheiro estrangeiro. Nossos hermanos estão «con saudade de aguas tibias y caipiriña». É o jornal que o diz.

Estrada 1Quem não tem trem vai de carro
O portal Cinco Días, braço de conglomerado espanhol que inclui o diário El País, confessa que, enquanto o Brasil se esfria, a multinacional Abertis não deixa suas máquinas esfriarem. A empresa, conhecida como Arteris no Brasil, é concessionária de importantes trechos rodoviários. Pretende investir 1,9 bilhão de euros em nosso País nos próximos cinco anos. Já que não temos mais estradas de ferro, que, pelo menos, as estradas de rodagem sejam bem tratadas.

Cidadãos conscientes
O portal sueco Nyteknik dá conta de um debate que agita a sociedade daquele país. Os aviões Gripen encomendados pela FAB não são produto integral da indústria sueca. Boa parte de seus componentes são importados. Armas e sensores, por exemplo, são fabricados em Israel e na África do Sul. No pacote de compra assinado entre Suécia e Brasil, o Estado sueco se compromete a financiar os aviões. Em miúdos, a Suécia compra os componentes, fabrica as aeronaves, e o Brasil paga em suaves prestações a perder de vista. Os «skattebetalare» – literalmente ‘pagadores de impostos’, ou seja, os contribuintes do fisco sueco se perguntam se cabe realmente a eles adiantar fundos para o Brasil comprar armas israelenses.

Especial Finados
A edição alemã da Latina Press informa ser o Brasil o primeiro país da América Latina a ter seus cemitérios varridos pelo Google Street View. Aqueles que têm horror a visitar cemitério no dia de Finados podem agora fazê-lo virtualmente.

Encontro de marinheiros
O portal Harburg Aktuell, de Hamburgo (Alemanha) informa que a cidade recebeu visita de cortesia de tripulantes do navio-escola NE Brasil, da marinha nacional. A embaixada do Brasil em Berlim valeu-se da ocasião para organizar, a bordo da nave, recepção a representantes da Marinha alemã.

Lula caido 2O balão e a ira
O sério The Wall Street Journal conta, tim-tim por tim-tim, as façanhas do boneco que representa o Lula com camisa de presidiário. Explica tudinho, inclusive o significado do 171 inscrito sobre o peito do personagem. O título do artigo é «In Brazil, Balloon of Former President da Silva Provokes Ire» – no Brasil, boneco inflável do antigo presidente da Silva suscita ira.

Calúnia rancorosa

José Horta Manzano

«A calúnia rancorosa [de Hélio Bicudo] e sua exploração pela imprensa servem para nos alertar sobre a necessidade de limites morais na disputa política.»

A frase é trecho de carta enviada pelo Lula ao filho de Hélio Bicudo. Na missiva, o antigo presidente se queixa das declarações do antigo aliado e as define como caluniosas.

Nas entrelinhas, nosso guia, que assina a carta, reitera um dos objetivos maiores de seu partido: a imposição de limites para a livre expressão. Em outras palavras, deixa patente seu apego à censura prévia.

Todos sabemos que a lei prevê mecanismos para punir caluniadores, injuriadores e difamadores. De propósito, o antigo mandatário passa por cima disso, como se a lei não existisse.

Ah, seria tão bom se vozes discordantes pudessem ser caladas no nascedouro, não é Lula?

Interligne 18cMaiores informações estão aqui.

Redução de ministérios

Ricardo Noblat (*)

O que disse Dilma no dia 15 de setembro do ano passado, em campanha pela reeleição:

by Fernando 'Nando' F. Nunes

by Fernando ‘Nando’ F. Nunes

«Tem gente querendo reduzir ministérios. Vocês podem saber os ministérios que eles querem reduzir. Um deles é o da Igualdade Racial, o outro é o que luta em defesa da mulher. O outro é de Direitos Humanos. E tem um ministério que eu criei e eles estão querendo acabar que é o da Micro e Pequena Empresa.»

Dilma acabou com o Ministério da Micro e Pequena Empresa. E reduziu os ministérios da Igualdade Racial, da Defesa da Mulher e dos Direitos Humanos a um só. Ou seja: fez tudo o que disse que os outros fariam caso vencessem. Mentiu de novo. Como mentira antes.

(*) Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 3 out° 2015.

Cadeira cativa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 out° 2015

Onu 3Ano sim outro também, o ritual se repete: terminadas as férias de verão do Hemisfério Norte, abre-se mais um ano de trabalho na ONU. E lá vai nosso presidente, a quem cabe discursar em primeiro lugar. Segue-se uma cachoeira de alocuções em línguas sortidas. O espetáculo se desenrola sobre fundo de granito verde-imperial muito chique – pedra que, aliás, é bem capaz de ter sido extraída de nosso solo.

Este ano, à guisa de aperitivo à liturgia, fomos mimoseados com um conciliábulo apelidado G4, que reuniu quatro mandatários. Observe-se, en passant, que o costume atual de atribuir número a reunião de medalhões (G4, G7, G20) é sintomático. Realça o fato de os objetivos dos participantes não serem necessariamente concordantes. Foi-se o tempo em que alianças tinham propósito bem estruturado e compartilhado, donde a atribuição de nome próprio como Entente Cordiale ou Pacto de Varsóvia. A acertos efêmeros, números bastam.

Brasil, Alemanha, Índia e Japão irmanaram-se, por um instante, na reivindicação de uma reforma da ONU que lhes conceda assento permanente no Conselho de Segurança. Cada qual desses países é movido por um conjunto de interesses que lhe dizem respeito. O traço comum, sem hesitação, é a busca do prestígio perdido. Ou nunca havido.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Alemanha e Japão, gigantes industriais e econômicos, procuram recuperar a aura que a derrota na última guerra lhes tolheu. A Índia, país populoso, em franca ascensão e – ponto não desprezível – dotado de armamento nuclear, também aspira a sentar-se à mesa dos grandes. Quanto ao Brasil, a justificativa é menos nítida. No frigir dos ovos, o olhar que o mundo lança sobre nosso país não é muito diferente do de setenta anos atrás, quando a Organização das Nações Unidas foi fundada. Senão, vejamos.

Já naquela época, o Brasil era visto como país de futuro promissor, mas de modesta importância militar, industrial, econômica e diplomática. Se as últimas décadas renderam progresso a nosso país, não há que perder de vista que as demais nações, longe de terem parado no tempo, também se desenvolveram e avançaram. Ao fim e ao cabo, o posicionamento relativo do Brasil no conjunto dos Estados não está lá tão distante do que era em 1945.

ONU - Conselho de Segurança

ONU – Conselho de Segurança

Ilude-se, portanto, quem faz abstração das mudanças alheias e só leva em consideração as transformações pelas quais passamos nós outros. A população de alguns países cresceu mais que a nossa. Alguns deles se aplicaram e conseguiram industrializar-se mais rapidamente que nós. Um ou outro optou por dotar-se da arma nuclear. Diligências diplomáticas constantes fizeram que certos países, por se terem mostrado mais atuantes, nos superem hoje em relevância.

Cadeira permanente no Conselho de Segurança é assunto pra lá de delicado. Titular nenhum abre mão da que lhe cabe. Qualquer país que pretenda entrar para o clube pode até ser bem-visto por uns, mas desagradará a outros. Basta que uma das cinco potências com direito a veto bote empecilho, e pronto: o candidato não passa da soleira. Reforma do sistema? Nem pensar, que não serve ao interesse dos atuais membros permanentes. Por que a fariam?

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Com tantos problemas por resolver, mais graves e mais urgentes, o Brasil deveria economizar energia e evitar arriscar-se num pleito cujas chances de dar certo são próximas de zero. No dia em que uma reforma for anunciada – o que está longe de acontecer – aí, sim, terá chegado o momento de reivindicar vaga. Por enquanto, é perda de tempo. Essa atitude de pedinte é humilhante e constrangedora.

Asilo 4Nossa industrialização vem encolhendo há vários anos, o que não nos torna mais poderosos no conjunto das nações. Nossa participação proporcional nas trocas comerciais globais não progride há décadas. Seria útil começar por assumir postura diplomática séria e coerente. Milhões de sírios deslocados pela guerra civil estão imersos na precariedade. O Brasil mostraria grandeza se, por exemplo, fizesse o necessário para acolher uma parcela desses infelizes. Que, pelo menos, nos apliquemos a promover uma diplomacia digna de nação adulta e consciente.

Que não nos contentemos em ser um Brasil grande, mas que nos esforcemos para nos tornar um grande Brasil. Não custa caro e está ao alcance de nossas possibilidades. A persistir em deixar como está pra ver como fica, continuaremos pagando, à prestação, nosso bilhete de volta ao Terceiro Mundo. E olhe que faltam poucas folhas para chegar ao fim do carnê.

Suíço pero no mucho

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno fazia tempo que não aparecia. Veio hoje com aquele ar deslumbrado de quem acaba de inventar a roda.

Banco 2– Olá! Não acredito em coincidências. Nessa história de dinheiro escondido na Suíça, tem coisa fora do lugar.

– Bons dias, Sigismeno! Tem razão você. Dá realmente vontade de trucidar esse pessoal que andou enfiando a mão em nosso bolso pra enriquecer.

– Não estou falando da paisagem geral. Estou-me referindo ao caso especial do senhor Cunha, aquele que preside a Câmara.

– Especial por que, Sigismeno? Pelo que diz a mídia, andou se servindo do nosso dinheiro igualzinho a dezenas de outros. Ou não?

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

Chamada do Estadão, 1° out° 2015

– Assim foi, mas parece que escolheu o banco errado pra encafuar seus milhões.

– Banco errado? Mas foi na Suíça, Sigismeno! Parece que o pessoal de lá entende do ramo. Errado por quê?

– Raciocine comigo. Por tradição, banco suíço é discreto. Faz parte do jogo. A cada vez que o MP do Brasil precisou obter dados de outros larápios foi um custo. Qualquer retalhozinho de informação só sai com saca-rolhas. Informação costuma vir a conta-gotas. Já no caso desse senhor Cunha, foi diferente.

– Diferente como, Sigismeno?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Pois você não viu? Diz aqui no jornal que o Cunha foi denunciado pelo próprio banco. Coisa do outro mundo, amigo! Terá sido a primeira vez que banco suíço denuncia cliente sem ser compelido pela justiça.

– Tem razão, Sigismeno, parece fora de esquadro. E qual é sua teoria, você que sempre encontra explicação pra tudo?

– Antes de dar minha conclusão, quero voltar a um acontecimento ocorrido faz pouco mais de um mês. Certamente você se lembra daquele caso da conta suíça do Romário.

– Aquela que a Veja denunciou?

– Essa mesmo. A revista obteve, sabe-se lá como, extrato bancário do senador, com papel timbrado, número de conta, montante, tudo nos conformes. Era perfeito demais pra ser verdadeiro, mas a revista caiu no logro e publicou.

– Mas, Sigismeno, além do fato de serem cariocas, o que tem o Romário a ver com o Cunha?

Banco 4– Olhe, meu amigo, é cristalino como água de mina. Por um lado, o pessoal lá do andar de cima tem bronca da revista Veja, não tem?

– Todo o mundo sabe disso.

– Por outro, eles têm interesse em tirar o senhor Cunha do caminho, não têm?

– Ô, se têm. Afinal, a chave do processo de destituição da presidente está nas mãos do homem.

– Pois é, embora seja raro no andar de cima, alguma cabeça pensante pensou, veja você. E arquitetaram um jeito malandro de dar uma cutucada feia na Veja e no Cunha.

– Nos dois?

Chamada d'O Globo, 1° out° 2015

Chamada d’O Globo, 1° out° 2015

– Nos dois, amigo. Valeram-se do fato de Cunha ter milhões de dólares escondidos no BSI, um banco suíço. Já Romário não tem conta nesse banco.

– Agora está ficando difícil seguir seu raciocínio, Sigismeno. Qual é o ponto comum entre esse três personagens, o Romário, a Veja e o Cunha?

– Não seja impaciente. Continuo. O Romário, a meu ver, foi inocente útil na história. Seu nome foi usado. Podiam ter usado qualquer figura pública. Escolheram o senador.

– Usado? Para quê?

– Para quê? Ora, é evidente: pra atingir a revista Veja, deixá-la numa saia justa e levar a cabo a vingança. Forjaram um extrato bancário do ex-jogador e deram um jeito de fazê-lo chegar à revista como se verdadeiro fosse. Imaginando que era legítimo, os editores, felizes com o ‘achado’, publicaram imediatamente. Daí deu aquela confusão toda: o Romário viajou até Genebra, a revista se retratou e pediu desculpa, um forrobodó dos diabos. Foi um vexame. Os que urdiram o plano devem ter gargalhado.

– Então você acha mesmo que os dois foram ludibriados, Sigismeno? O Romário e a Veja?

Chamada da Folha, 1° out° 2015

Chamada da Folha, 1° out° 2015

– Acho. A Veja era o alvo, enquanto o senador foi o inocente útil.

– E onde é que o Cunha entra nessa história?

– O senhor Cunha não foi ludibriado. Foi traído. Traído pelo banco suíço onde tinha enfurnado seus milhõezinhos. Jamais se tinha visto banco suíço denunciando cliente. Foi a primeira vez. Um despautério!

– Que coisa mais extraordinária, Sigismeno. E por que, diabos, esse banco teria agido assim?

– Olhe, agora estamos pisando no terreno das suposições. Dou-lhe uma dica que pode ser a chave do mistério: o tradicional banco suíço BSI, nascido 150 anos atrás, foi comprado no ano passado por um banco brasileiro.

– Hã?

BSI 3– Sim, senhor. Faz um ano que o conceituado BSI pertence ao Banco BTG Pactual, cujo dono é um bilionário brasileiro. Agora, não me pergunte se há relação entre a ‘brasilidade’ do banco suíço e o Planalto. Não saberia responder. Mas ficam no ar as perguntas. Como é possível um falso extrato do Romário ter sido impresso em papel timbrado do banco, direitinho como manda o figurino? Como é possível que, pela primeira vez na história, banco suíço denuncie um correntista, assim, gratuita e espontaneamente?

– Ih, Sigismeno, acho bom você parar por aqui. Por minha parte, já entendi, mas, se alguém nos ouvir, ainda vamos ter problemas. Só vou dizer-lhe uma coisa: se um dia eu tirar a sorte grande na loteria, vou pensar duas vezes antes de botar meu dinheirinho naquele banco.

O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Mexida no tabuleiro

José Horta Manzano

Xadrez 1Nossa Constituição é clara. No artigo 84, logo depois de estipular que compete ao presidente da República nomear e exonerar ministros de Estado, deixa claro que o mandatário deverá «exercer, com o auxílio dos ministros de Estado, a direção superior da administração federal».

Portanto, embora o presidente da República tenha liberdade de escolher seus ministros, não tem autorização para governar sozinho. Escolhidos os auxiliares, a administração deverá ser exercida com o auxílio deles.

Reunião ministerial

Reunião ministerial

Isso posto, o mínimo que se espera do presidente é que mantenha frequentes reuniões de trabalho com os ministros. O mais prático é instituir rotina de encontros regulares. Na França, por exemplo, presidente e todos os ministros se reúnem pontualmente cada quarta-feira às 9h da manhã.

A cada reunião, como numa empresa, o presidente cobra de cada ministro a situação dos assuntos em andamento. É excelente ocasião que o presidente tem de reafirmar, diante de todos, sua autoridade. A ocasião é boa também para estimular competição entre ministros – ninguém gosta de ser repreendido na frente de todos os colegas. Para coroar, reuniões gerais servem para deixar todos a par das ações do governo, o que evita declarações desastradas à imprensa.

Xadrez 2É evidente que certos assuntos deverão ser tratados reservadamente. Em casos assim, reuniões restritas serão convocadas. Mas isso não impede que encontros de todos os auxiliares continuem a ser mantidos.

Sabe-se que nossa presidente nunca – eu disse nunca(!) – concedeu audiência a alguns de seus ministros. É assombroso. Dizem as más línguas que dona Dilma não conhece sequer o nome de todos os ocupantes das quase 40 pastas. Pode até ser verdade.

Vêm, então, perguntas inevitáveis. Quem dita a linha mestra da orientação de cada ministério? Cada ministro faz o que lhe dá na telha, sem consultar o presidente? Ou as decisões ficam nas mãos de integrantes de escalões inferiores? Se assim for, pra que serve o ministro?

Reuniao trabalho 1A mídia noticiou que o ministro da Saúde foi ontem demitido… por telefone. Não é o ministro do Combate à Saúva, minha gente, é o ministro da Saúde! A desculpa? «Preciso do seu cargo» – disse a presidente segundo os jornais.

Se faltasse uma prova de que as altas esferas de Brasília são meros balcões de negócios, já não falta mais. Ministros são como peças de um jogo de xadrez. Não se movem por vontade própria. São mexidos daqui pra ali e de lá pra acolá, conforme os humores da presidente. Como num tabuleiro, podem ser banidos a qualquer momento, independentemente de seu desempenho.

Está aí uma das explicações – entre muitas – da ineficácia das instituições nessepaiz.

Novidades que incomodam

José Horta Manzano

radio 1A sociedade evolui, é fato. Novidades surgem todos os dias. Certas invenções têm vida longa – o rádio é uma delas. Começou a ser explorado comercialmente faz um século e está aí até hoje. O estilo das emissões se modificou e se adaptou ao gosto de cada época, mas, no fundo, o princípio é sempre o mesmo.

Cinquenta anos atrás, quando a televisão começou a se popularizar, muitos acreditaram no fim do rádio. Não foi o que aconteceu. Os dois passaram a compartilhar horário: rádio de dia, no carro, no banheiro, no café da manhã; e tevê à noite, na hora da poltrona.

KodakOutras novidades foram agressivas a ponto de destronar ramos inteiros da indústria ou até costumes arraigados. A foto digital está entre elas. Quem tem mais de 35, 40 anos há de se lembrar do tempo em que a gente comprava o filme (caro!), tirava os retratos, enrolava a bobina, levava até a loja de revelação, encomendava as cópias e, se tudo desse certo, três dias depois podia ir buscar as fotos. O processo se manteve firme e forte durante um século – de 1890 a 1990.

De repente… difundiu-se a foto digital. Kodak, o conglomerado que dominava o setor, desmilinguiu, capotou e foi à falência. Toda a cadeia de processamento tradicional de fotografia, perturbada, acabou desaparecendo. Que fazer? É a vida. Ninguém segura o progresso.

Internet ainda está engatinhando. Assim mesmo, novidades têm aparecido a cada dia, benéficas para uns, catastróficas para outros. Os aplicativos de comparação de preços de hotel e de passagens aéreas estão acabando com as agências de viagem. Operações bancárias se fazem mais e mais via internet, resultando em fechamento de agências físicas. Correspondência comercial e privada, antes encaminhada pelos Correios, deslocou-se para a internet, causando rebuliço na estatal.

UberEstes últimos tempos, tem-se falado muito na aplicação Uber, que põe em contacto motoristas não profissionais com eventuais clientes. À vista da ameaça frontal, a corporação dos taxistas entrou em pânico. Cada país – para não dizer cada cidade – vem reagindo às carreiras, na base do susto e do improviso.

Na França, por exemplo, a aplicação foi proibida. Está simplesmente fora da lei, decisão já homologada pelo Conseil Constitutionnel, equiparável a nosso STF. Sabe o distinto leitor quanto custa uma licença para operar táxi no município de Paris? Sai por ‘módicos’ 200 mil euros – algo próximo de 900 mil reais! Um patrimônio. Compreende-se que os profissionais tenham se rebelado contra a concorrência desbalanceada. O sujeito paga essa fortuna para poder praticar a profissão; de repente, aparece um gaiato para surrupiar-lhe a clientela? Foi um deus nos acuda. A Justiça, impelida a dar a palavra final, proibiu os não profissionais.

E agora, como é que fica? Bola de cristal, não tenho. Assim mesmo, é previsível que, dentro em breve, essa novidade venha a ser digerida como já foram tantas outras.

Taxi 2Os mil dólares que eu tinha investido, nos anos 80, para comprar uma linha telefônica fixa viraram pó nos anos 90, quando a telefonia se expandiu e telefone deixou de ter valor comercial. Trinta anos atrás, mil dólares eram uma fortuna. A quem, como eu, perdeu dinheiro, sobrou a solução de ir reclamar com o bispo. Acho que ninguém foi.

Assim será com o Uber e com outras novidades que estorvam alguma categoria. As novidades vão acabar entrando no dia a dia de todos nós, não há como escapar. Um sábio ditado nordestino ensina que «é no tranco da carroça que as abóboras se ajeitam». E a carroça segue.

Inadequação vocabular – 6

José Horta Manzano

Não sei se o distinto leitor terá reparado que certas palavras entram na moda. E vêm com tal força que empurram todos os sinônimos para o bueiro.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Tenho notado o uso cada dia mais sistemático do verbo defender no sentido de aconselhar, preconizar.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Andei observando a edição online de sábado 26 set° dos três maiores jornais nacionais: Estadão, Folha de São Paulo e O Globo. Não foi preciso ir além da primeira página. Encontrei oito chamadas nas quais defender poderia – com vantagem – ser substituído por verbo mais expressivo.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Há dezenas de possibilidades. Como nem todo sinônimo é perfeito, cabe ao escrivinhador decidir-se por este ou por aqueloutro na hora de compor o texto.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Entendo que o frenesi desta era de informação instantânea não deixe o tempo de refletir sobre o melhor termo.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Assim mesmo, convenhamos, quando a escolha é tão vasta, fica no ar a desagradável impressão de que o conhecimento do vocabulário continua encolhendo. Não estamos longe da indigência total.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Em alguns casos, o título chega a ser nebuloso, destinado a ser entendido apenas por iniciados. Quando se lê que “Janot defende depoimento de Lula”, o recado que chega é que o Lula já depôs, e que suas palavras – atacadas sabe-se lá por quem – estão sendo defendidas por um certo senhor Janot. Qualquer distraído periga entender assim.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Caso algum distinto leitor conheça um fazedor de manchetes, solicito-lhe a fineza de fazer chegar ao profissional esta lista – não exaustiva – de verbos que dão recado igual ou até mais nítido que o cansativo defender.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Aqui estão eles:
Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

São 26. Há mais.