Moro medalhado

José Horta Manzano

Medalhas, comendas, condecorações e honrarias há muitas. No Brasil, como por toda parte, distribuem-se galardões. Alguns são muito prestigiosos, outros um pouco menos. A presidência da República é distribuidora de medalhas. Governos estaduais e municipais também. Até escolas costumam, em certas ocasiões, medalhar alunos. (No meu tempo, pelo menos, era assim.)

Moro 1A importância da homenagem depende de vários fatores. Entram no cômputo: quem outorga, quem recebe e, naturalmente, a raridade (ou a abundância) de agraciados.

Para autoridades, não é complicado conceder medalha. Não precisa passar por aprovação do parlamento. Não é necessário votar nova lei a cada vez. Decreto presidencial basta. Em certos casos, simples portaria resolve o problema. Como consequência da facilidade, a tendência é o aumento exponencial dos agraciados, o que tem por efeito a perda do valor simbólico da honraria.

Medalha do Pacificador

Medalha do Pacificador

O Exército Brasileiro acaba de outorgar a Medalha do Pacificador ao juiz federal Sergio Moro. Por coincidência ‒ ou não ‒, a cerimônia de concessão da honraria ocorreu no exato dia em que o Senado Federal dava início ao processo de julgamento da presidente emérita.

Estava passando da hora de se lembrarem do destemido magistrado paranaense. Muita gente pouco recomendável e uma baciada de desconhecidos já foram brindados com a homenagem. É verdade que, com ou sem medalha, doutor Moro já entrou para a História do Brasil. Já os desconhecidos que tiveram direito à mesma honraria continuam desconhecidos. E assim hão de continuar.

Janio 3A condecoração mais importante que o Brasil concede a estrangeiros é a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Raros são os agraciados. Infelizmente, dado que o presidente tem a prerrogativa de decidir, algumas gafes têm sido cometidas. Ficou na história a condecoração outorgada pelo folclórico presidente Jânio Quadros a Ernesto “Che” Guevara. A cerimônia teve lugar menos de uma semana antes de nosso presidente renunciar intempestivamente ao cargo.

Entre os medalhados com a Ordem maior, estão a rainha da Inglaterra, homenageada quando de sua visita ao Brasil em 1968. O presidente da França Nicolas Sarkozy e quatro presidentes de Portugal também foram agraciados. Do lado sério, temos ainda o rei da Suécia e sua esposa, a rainha Sílvia ‒ que, por sinal, tem mãe brasileira e foi criada em São Paulo.

Lula e BasharDo lado menos sorridente, além do «revolucionário» Guevara, foram distinguidos o ditador sírio Bashar El-Assad, Cristina Kirchner, o aprendiz de ditador peruano Alberto Fujimori (hoje presidiário), os ditadores Nicolae Ceaușescu (Romênia) e Josip Tito (Iugoslávia). Doutora Dilma fez questão de condecorar dois presidentes da terra de seus antepassados: os búlgaros Parvanov (em 2011) e Plevneliev (em 2016). É provável que este senhor tenha sido o último a receber a medalha das mãos da doutora.

Medalha cassada

Cláudio Humberto (*)

Medalha 8Finalmente, três anos após terem sido condenados pelo Supremo Tribunal Federal, os mensaleiros José Genoino, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto perderam a Medalha do Pacificador, a mais alta condecoração do Exército Brasileiro.

O ato é do general Villas Bôas, o atual comandante. O anterior, general Enzo Peri, com medo de irritar Dilma, não havia cassado as medalhas apesar de ser obrigado a fazê-lo pela legislação.

Os mensaleiros já sumiram do Almanaque do Exército.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Lasciate ogni speranza…

José Horta Manzano

Inferno de Dante by Salvador Dalí (1904-1989), Marquês de Dalí de Púbol

Inferno de Dante
by Salvador Dalí (1904-1989),
Marquês de Dalí de Púbol

Muitos têm a nítida sensação de que o País mergulha, cada dia mais fundo, num lamaçal espesso. O líquido visguento abraça todos os viventes, reboca todas as coisas, tolda a visão, baralha as ideias e embaça o discernimento.

Muitos acham que era preferível viver num país mais pobrezinho do que num atoleiro rico mas inglório. «Somos pobres, mas honrados!» – é divisa que deixou de fazer sentido.

Muitos sentem saudade de um tempo em que, embora andássemos a pé, íamos na certeza de chegar ao destino sãos e salvos. Sequer nos passava pela cabeça que algum perigo nos rodeasse.

Muitos lembram com nostalgia o tempo em que vaga em escola pública era valorizada e disputada. Pode parecer exagero para os que não conheceram aqueles tempos, mas é verdade: em certos estabelecimentos públicos de maior prestígio, só entrava quem dispusesse de um bom pistolão – hoje diríamos recomendação ou «Q.I.».

Alguns ainda se recordam que político de alto coturno podia ser processado e condenado por ter-se apoderado de objeto pertencente ao patrimônio público. Um caso retumbante envolveu Adhemar de Barros, destacada figura política dos anos 40 e 50. O figurão foi um dia processado por ter levado pra casa um pote de barro, no episódio que passou à história como o da urna marajoara.

Sem admitir abertamente, muita gente deposita numa intervenção militar suas últimas esperanças de tirar o País do charco em que se afunda a cada dia. Dá pra entender. Nós, contribuintes ignaros, estamos descobrindo os capítulos de tenebrosa novela que nos dá detalhes de como a maior empresa do Brasil foi saqueada por uma camarilha de cidadãos da elite que habita o andar de cima. Pior, mesmo, é saber que tudo isso terminará em nada. Alguém duvida?

Sem admitir abertamente, muita gente deposita numa intervenção militar a última esperança de arrancar o País do atoleiro. Que percam toda fantasia, que abandonem toda ilusão. Tudo indica que os uniformizados continuarão no banco de reservas, timoratos e paralisados.

Inferno de Dante - Mosaico do Batistério de Florença

Inferno de Dante – Mosaico do Batistério de Florença

Como é que eu sei? Transcrevo aqui o ponto levantado pelo sempre bem informado jornalista Claudio Humberto em seu Diário do Poder, 11 out° 2014.

Interligne vertical 10«Os comandantes do Exército e da Aeronáutica se fingem de mortos. Dois anos após a condenação por corrupção dos mensaleiros José Genoino e José Dirceu, ainda não cumpriram a legislação que os obriga a cassar as condecorações concedidas à dupla de presidiários. Ambos têm medo de contrariar a cúpula do PT e sobretudo a presidente Dilma. A condenação da dupla completou dois anos no dia 3 passado.

O Decreto n° 3446/2000, ignorado pelos comandantes, manda cassar medalhas de condenado por crime contra o erário, como é o caso.

José Genoino foi homenageado com a Medalha do Pacificador, uma das mais importantes do Exército. E a mantém até hoje.

José Dirceu ganhou a condecoração da Ordem do Mérito Aeronáutico, também entregue a Genoino quando ele era réu do mensalão, no STF.

O Ministério da Defesa e os comandantes militares se escondem para não dar explicações sobre o medo de cumprir a lei e cassar medalhas.»

Interligne 18b

(*) Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate – Abandonai toda esperança, vós que entrais.
Transcrição, em italiano moderno, de ultracitado decassílabo da Divina Commedia do poeta Dante Alighieri (1265-1321).
A advertência aparece no Canto Terceiro da terrível descrição do inferno e dirige-se a todos os que chegam.