Formalismo estúpido

José Horta Manzano

Erros acontecem, é da vida. Já me aconteceu ir à farmácia, receita em punho, e ouvir do farmacêutico algo do tipo «Mas qual é a dosagem do remédio? Vinte ou quarenta miligramas?» É quando o médico, distraído, se esquece de que aquele remédio é vendido em dosagens diferentes.

Remedio 1Na incerteza, que faz o farmacêutico? Pede-me que aguarde um instante, vai até o escritório que fica a dez passos do balcão, pega o telefone e liga para o consultório médico. Identifica-se e expõe a dúvida. Dez vezes em dez, recebe a resposta na hora. Em menos de dois minutos, a dúvida está esclarecida. O farmacêutico volta então ao balcão tendo já nas mãos o remédio. Pago a conta, levo o produto e o problema termina ali. Sem mortos nem feridos.

Li ontem estonteante notícia no jornal. Aconteceu no Maranhão estes dias. Ao não conseguir decifrar o que estava escrito na receita, o atendente da farmácia recusou-se a servir o cliente. Despachou-o de volta ao galeno exigindo que trouxesse prescrição legível. Irritado, o médico se excedeu. Reescreveu a receita acrescentando insultos: tratou o farmacêutico de imbecil e de analfabeto.

Receita 1Nessa altura, quem se enfezou de vez foi o paciente. Fez chegar o acontecido à imprensa causando alarido. O irrespeitoso comportamento pode custar ao médico uma sanção. Deveria render um puxão de orelhas ao farmacêutico também. A notícia não diz se, ao final, o paciente conseguiu receber a medicação. Fica só a certeza de ter sido inutilmente maltratado, jogado de lá pra cá como se marionete fosse.

Farmacia 1Por que tudo isso? De onde vem essa agressividade que, longe de resolver, agrava situações e arma conflitos? É difícil apontar causa única, que é fruto de um conjunto de fatores. Intolerância, soberba, arrogância, visão corporativista, baixa instrução se misturam. É flagrante o menosprezo pelo cliente que é, no fim das contas, justamente quem sustenta médico e farmacêutico.

Falta, acima de tudo, educação básica. Pra corrigir, é necessário percorrer longo caminho. Se começarmos hoje, só daqui a uma ou duas gerações nossa sociedade terá começado a aprender a viver em harmonia. Todo caminho, por mais longo que seja, começa com o primeiro passo.

Com incentivo do governo federal, que persiste em compartimentar os brasileiros em categorias estanques, antagônicas e adversárias, ainda estamos longe de dar esse primeiro passo. Por enquanto, tentamos sobreviver na selvageria primitiva do nós contra eles”.

5 pensamentos sobre “Formalismo estúpido

  1. Se isso aí é a versão melhorada da receita, tento imaginar como seria a versão inicial. Peço licença para discordar do blogueiro ao dizer indiretamente que o farmacêutico teve alguma culpa. Se ele vende o remédio errado, a culpa será dele. Melhor prevenir! O médico invariavelmente escreve garranchos e acha que todos têm a obrigação de decifrar. Mesmo que escreva com pressa, mesmo que não tenha caligrafia (caligrafia = letra bonita), deve escrever, no mínimo, de forma legível, de forma que não reste dúvida quanto à compreensão da mensagem que quer passar. Aliás, no Brasil existe LEI que obriga os médicos a escreverem as receitas no computador. Será que essa lei não se aplica ao Maranhão???

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    • João, na verdade, o que eu quis sublinhar foram duas coisas.

      Por um lado, a má-vontade do farmacêutico e sua falta de jogo de cintura pra sair da enrascada. Um rápido telefonema ao consultório médico teria evitado impingir ao paciente uma segunda visita ao galeno.

      Por outro, o comportamento primitivo do médico que foi, naturalmente, censurável.

      Por aqui, embora não seja obrigatório, alguns médicos mais jovens já adotaram o método de imprimir a receita. Assim mesmo, nunca, jamais, em tempo algum, um farmacêutico ousaria despachar o paciente de volta ao médico. Daria um jeito ele mesmo, chamando o chefe ou entrando em comunicação com o médico. É questão de bom senso.

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  2. Vou meter o bedelho nessa confusão. Posso estar enganada, mas nem sempre o telefone do médico está disponível na receita, principalmente se ele trabalha num posto de saúde ou numa clínica em que há vários médicos consultando ao mesmo tempo. Se você reparar bem na receita, vai perceber que está escrito “Central de Consultas” logo acima do número do telefone. Considerando a excelência da telefonia brasileira e o comportamento-padrão dos atendentes de centrais telefônicas, instintivamente opto por me alinhar com o farmacêutico, já que ele é o elo frágil dessa corrente. Tudo isso sem considerar que o fato ocorreu no Maranhão…

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    • By the way, sabe o que é bedelho? É dispositivo que garante a inviolabilidade de uma porta. Nos tempos de antigamente, era uma peça grande, como uma tranca basculante. Uns cinquenta anos atrás, a gente ainda usava uma réplica miniatura, que chamávamos tramela. Hoje, com fechaduras eletrônicas ancoradas em três pontos, bedelhos e tramelas desapareceram.

      Você pôs o dedo na ferida: foi no Maranhão. A probabilidade é grande de o infeliz beneficiário da receita ser pessoa humilde, de parcos recursos e sem muitas luzes. É aí que reside a maldade. O farmacêutico – se é que era um profissional formado, o que é de duvidar – estava em melhores condições que o infeliz para dar solução ao caso.

      Se o paciente precisava de um remédio, é porque a saúde não andava boa. É permitido supor que estivesse doente. O «farmacêutico», não. Tampouco o médico.

      O paciente há de ter perdido parte de um dia de trabalho para consultar o galeno e para ir à farmácia. O «farmacêutico» estava ganhando para trabalhar. O galeno, idem.

      Quem é o coitadinho nessa história então? Evidentemente, é o cliente maltratado, humilhado, abusado. Não cabia a ele servir de peteca a dois indivíduos transbordantes de orgulho e empáfia. Por mim, ambos os ‘profissionais de saúde’ deveriam ser punidos.

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  3. Concordo plenamente com suas observações. No intuito de dimensionar o tamanho da [ir]responsabilidade de cada um, eu me descuidei e deixei de lado o pobre Zé Mané maranhense que pagou o pato em última instância.

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