O general e a selva

José Horta Manzano

Cada macaco no seu galho. Para a guerra, vão os militares. Para a mesa de discussões, vão os diplomatas. Não convém misturar os profissionais, se não é capaz de dar choque.

Nosso presidente, como o Brasil e o mundo já se deram conta, sofre de séria disfunção cognitiva; em termos familiares: é imbecil. Essa dificuldade de apreensão da realidade é agravada por seu caráter agressivo e por suas reações paranoicas.

De um personagem com essas características, não se poderia esperar que acertasse na hora de escolher assessores. Recheou ministérios e autarquias com militares. Não se sabe se fez isso para confortar sua paranoia ou por outra absconsa razão. O resultado é um desastre. O inefável general Pazuello, ‘gerentão’ da Saúde Pública, é brilhante exemplo.

A subida ao trono de Joe Biden ratifica a perda do único apoio externo com que Bolsonaro podia contar. Agora que o presidente se sente vulnerável, a paranoia aumentou e seus efeitos se espalham pelos altos círculos da República. Doutor Bolsonaro perde o sono ao imaginar que, qualquer dia destes, a Amazônia será invadida por sabe-se lá quais inimigos. Sem dificuldade, tem conseguido contaminar generais. Militares são treinados a enxergar o mundo em preto e branco, sem nuances intermediárias. Em princípio, interlocutores têm de se encaixar obrigatoriamente em um de dois grupos: ou são amigos, ou são inimigos.

Quando dirigentes estrangeiros criticam a política ambiental do Brasil, não é hora de ‘mandar pólvora’, como insinuou Bolsonaro. É hora de mandar a diplomacia para a linha de frente. É hora de conversar, de ouvir, de explicar, de entender, de refletir, de apaziguar, de maneirar. É hora de escutar, de se abrir, de argumentar, de convencer. É hora de perceber que a riqueza das florestas brasileiras não se resume ao estrondo do abate de árvores, ao lucro da extração de madeira, à tristeza da extinção da vida animal.

Diferentemente do que pensam Bolsonaro e seus amigos militares, ninguém no mundo tem séria intenção de tomar a Amazônia brasileira. Nem mesmo a China, capitão! O que assusta o mundo é a ameaça de perder a mais importante floresta equatorial do planeta. Se ela desaparecesse, o clima mundial – e, naturalmente, do Brasil também – sofreria consequências desastrosas para a vida de todos nós. Mas Bolsonaro e seus amigos não entendem isso. Ou se recusam a entender, o que dá no mesmo.

Fiquei sabendo hoje que o Exército está cuidando de ocupar a Amazônia antes que algum aventureiro lance mão. A derrocada de Trump e o sentimento de impotência estão por trás. Este escriba tem uma sugestão – gratuita e sem compromisso. Sugiro que o comando da organização de resistência ao invasor seja confiado ao general Pazuello. Com essa cajadada, mata-se um coelhão: o general será curto-cirtuitado, fazendo desaparecer o principal entrave(*) à Saúde Pública. O país vai respirar aliviado. Os cidadãos estão precisando respirar – no sentido próprio.

(*) ‘Principal entrave’ é modo de dizer. O principal entrave à Saúde Pública não é o general trapalhão, mas seu chefe.

Paranoias presidenciais

José Horta Manzano

Estes dias, doutor Bolsonaro botou as manguinhas de fora. Falou muito e… acabou dizendo alguma coisa. O mais impactante foi quando confessou dormir com arma de fogo ao lado da cama, pronto a enfrentar assombração e assaltante. Encafifado com os serviços de segurança palacianos, comporta-se como todos os que se sentem perseguidos.

Todo governante autoritário tem esse traço de personalidade: mania de perseguição. Paranoia, se preferirem. Nosso presidente ainda não teve tempo de imprimir rumo autoritário a sua gestão. Talvez nunca tenha a ocasião de fazê-lo, o que será melhor pra todos. Assim mesmo, o costume do revólver na cabeceira é revelador. Só falta contratar um provador de comida ‒ aquele que experimenta a refeição que lhe será servida, só pra ter certeza de que não está envenenada.

Além desse pronunciamento, doutor Bolsonaro deu outro, profundo e importante para o futuro do país. Referiu-se a embaixadores do Brasil lotados em postos importantes no exterior. Já se sabia que nosso presidente não é grande admirador da diplomacia. Ficamos agora sabendo que, além de não ser admirador, ele pouco entende do ramo. Não parece ter ideia precisa da função dos que representam o Estado brasileiro no exterior.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O presidente declarou não estar satisfeito com a atuação de vários desses profissionais porque não estariam defendendo com eficiência a reputação do chefe de Estado. Ele se queixa da péssima imagem de que goza no exterior e considera que compete aos diplomatas limparem a má fama. O presidente não se dá conta de que o pessoal diplomático tem mais que fazer do que louvar a figura do chefe. Tampouco se dá conta de que é ele próprio o único responsável pela péssima reputação de que goza no exterior. Não se deve atribuir a terceiros a culpa por nossos erros.

O presidente tem a intenção de afastar uma dúzia de embaixadores importantes e botar, no lugar deles, um grupo de profissionais (que ele julga) afinados com o pensamento do governo atual, mais aptos a apagar incêndios ateados pelo próprio chefe.

Melhor faria o presidente se prevenisse em vez de remediar. No lugar de chamar bombeiros, seria mais simples evitar acender o fogaréu. Mas ‒ que fazer? ‒ há gente que ataca os problemas pelo lado errado.

Inadequação vocabular – 6

José Horta Manzano

Não sei se o distinto leitor terá reparado que certas palavras entram na moda. E vêm com tal força que empurram todos os sinônimos para o bueiro.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Tenho notado o uso cada dia mais sistemático do verbo defender no sentido de aconselhar, preconizar.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Andei observando a edição online de sábado 26 set° dos três maiores jornais nacionais: Estadão, Folha de São Paulo e O Globo. Não foi preciso ir além da primeira página. Encontrei oito chamadas nas quais defender poderia – com vantagem – ser substituído por verbo mais expressivo.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Há dezenas de possibilidades. Como nem todo sinônimo é perfeito, cabe ao escrivinhador decidir-se por este ou por aqueloutro na hora de compor o texto.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Entendo que o frenesi desta era de informação instantânea não deixe o tempo de refletir sobre o melhor termo.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Assim mesmo, convenhamos, quando a escolha é tão vasta, fica no ar a desagradável impressão de que o conhecimento do vocabulário continua encolhendo. Não estamos longe da indigência total.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Em alguns casos, o título chega a ser nebuloso, destinado a ser entendido apenas por iniciados. Quando se lê que “Janot defende depoimento de Lula”, o recado que chega é que o Lula já depôs, e que suas palavras – atacadas sabe-se lá por quem – estão sendo defendidas por um certo senhor Janot. Qualquer distraído periga entender assim.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Caso algum distinto leitor conheça um fazedor de manchetes, solicito-lhe a fineza de fazer chegar ao profissional esta lista – não exaustiva – de verbos que dão recado igual ou até mais nítido que o cansativo defender.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Aqui estão eles:
Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

São 26. Há mais.