O Eremildo

José Horta Manzano

O jornalista Elio Gaspari criou o personagem Eremildo, o idiota. É o que outros chamariam de louco manso. A figura entra em cena a cada vez que um fato grotesco sobe ao palco da atualidade. Certos acontecimentos soam tão escandalosamente falsos que nenhum cidadão medianamente informado acreditaria. Eremildo, dotado de ingenuidade acima da média, acredita sempre no que lhe dizem, por mais absurdo que seja o enredo.

À beira de completar 78 anos, doutor Eduardo Suplicy ostenta admirável percurso político. Começou quarenta anos atrás e não parou mais. Só no Senado Federal foram 3 mandatos consecutivos ‒ 24 anos! Com um currículo desses, seria de imaginar que o velho político já tivesse abandonado arroubos adolescentes. Em outros termos, já deveria ter caído na real. Mas doutor Suplicy não pensa assim.

by Nei Lima, artista gráfico

Faz uns dias, conforme relatei aqui, signor Cesare Battisti abriu o peito e admitiu a verdade que escamoteava fazia muitas décadas. Sem mostrar-se arrependido, reconheceu que, sim, era culpado dos crimes pelos quais foi condenado. Nem Eremildo, o idiota, duvidou. A culpa do terrorista era tão evidente, tão cristalina, que a ninguém ocorreu duvidar da confissão.

Eu disse «a ninguém ocorreu duvidar»? Engano meu! Nem Eremildo, nem a velhinha de Taubaté, nem mesmo o Lula se manifestaram. Doutor Suplicy há de ter sido o único na face da Terra a pôr em dúvida a palavra do italiano. Ao saber da declaração do ora encarcerado, insinuou que a confissão lhe pode ter sido extorquida. Viciado pelo sistema brasileiro de justiça, onde habeas corpus, recursos e chicanas levam ao infinito o desenlace do processo dos que podem pagar, doutor Suplicy preconiza a realização de novo processo(!) para permitir a signor Battisti exprimir-se pela enésima vez.

E eu que pensava que o Eremildo fosse personagem de ficção.

Confissão tardia

José Horta Manzano

O interrogatório, levado a cabo pelo Ministério Público de Milão, levou dois dias. O resumo acaba de ser trazido ao conhecimento da imprensa: Signor Cesare Battisti, sentenciado à prisão perpétua anos atrás, confessa a totalidade dos crimes pelos quais tinha sido condenado à revelia.

Respondeu a todas as perguntas formuladas por dottore Alberto Nobili, coordenador da força-tarefa italiana antiterrorista. Depois de 40 anos de negativa obstinada, confessou todos os assassinatos pelos quais tinha sido condenado. Assumiu ainda os disparos nas pernas de outras vítimas ‒ método típico dos terroristas dos anos de chumbo na Itália. Admitiu ainda ter participado de uma baciada de assaltos.

Signor Battisti sabe que a confissão tardia não lhe dará direito a nenhum favor, queimado que está por ter levado no bico a Justiça italiana assim como a dos países que o acolheram na vida de fugitivo, o Brasil entre eles. O fato de a confissão não lhe trazer nenhum benefício dá maior peso a ela. Fica a certeza de que o criminoso, agora confesso, não está admitindo os ‘malfeitos’ por algum obscuro interesse em amenizar a pena. Será, sem dúvida, pra aliviar a consciência.

O terrorista, agora em fim de carreira, pediu desculpas à família das vítimas. Mas não foi além. Em nenhum momento se mostrou arrependido do que fez. Preferiu declarar que os crimes «pareciam justos» para o jovem de 22 anos que era à época em que os cometeu. E paramos por aí.

Ainda não li nenhuma manifestação de parte de doutor Tarso Genro, ministro da Justiça que concedeu asilo ao criminoso, sob o argumento de que o italiano era «perseguido político». Habitualmente tão loquaz, nosso ex-presidente ‒ aquele que ora vive encarcerado em Curitiba ‒ não soltou nenhuma nota por enquanto. Gostaria de saber o que tem a dizer para se justificar do desvario que o acometeu quando, no último dia de mandato, garantiu refúgio definitivo ao assassino. Não vale dizer «Eu não sabia!», nem «Fui traído!». Essas desculpas já foram usadas na época do Mensalão. Estão manjadas.

Pessoas difíceis

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu confesso: sou uma pessoa difícil mesmo. Não chego a ser casquinha de ferida absoluta, mas posso sangrar em fração de segundo, bastando para isso que alguém lance no ar a suspeita de que sou desleal. Que eu me depare com a insinuação de que minha disponibilidade intelectual ou afetiva não é sinal de generosidade verdadeira, mas mero disfarce para encobrir a usurpadora que rasteja sorrateiramente dentro de mim.

Por razões insuspeitas, prefiro ser chamada de bruxa a ser confundida com gueixa. Submissão nunca foi minha praia. Estou muito longe do perfil de mulher que cola um sorriso à face e atropela os próprios sentimentos para se colocar a serviço do prazer alheio. Ao contrário, defendo com unhas e dentes meu direito ao gozo de frutos sensoriais, racionais, afetivos e espirituais de cultivo próprio. Sou mais afeita à alquimia dos encontros de alma, sempre capazes de transformar conveniências em oportunidades de enriquecimento mútuo.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Não sou uma figura solar, expansiva, daquelas que aquecem o ambiente de imediato e podem até cegar os circunstantes. Prefiro ser luz de vela que bruxuleia timidamente porque não pode negar a força da escuridão nem desmerecer o poder da indiferença. Sou mais dúvida do que certeza, mais hesitação do que rompante.

Não sou pessoa de fino trato, mas requeiro cuidado extra ao ser manipulada. Se chacoalhada com rudeza, na ânsia de descobrir o que se esconde em meu interior, posso explodir e destroçar toda forma de curiosidade invasiva. Maior perigo ainda correm os incautos, que, por medo da devastação que posso provocar, me tratam como porcelana chinesa: não conhecerão meu valor até que aceitem correr o risco de ferir as mãos com os cacos de minha presumida superioridade.

Que fique bem claro para todos: não sou ogro nem tampouco ovelha pronta para o sacrifício. A bem da verdade, sou a mistura complexa de duas naturezas conflitantes. Qual centauro, trago no peito o desejo da delicadeza e, no corpo, a fúria da libido animal. Pisciana, filha de mãe taurina e pai ariano, aprendi cedo a não medir forças com a autoridade externa. A admirar e tentar copiar a estratégia da água, que transpõe obstáculos corroendo-os um pouco a cada dia.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Acredito piamente que, para tudo nesta vida, há de haver critério e limites claros. Sou, aliás, muito boa na demarcação de territórios de liberdade e de áreas proibidas para crianças, cães ou outros invasores de minha intimidade. Não sofro do mal da fingida cortesia, nem determino infindáveis pré-requisitos para conhecer e me apaixonar por outras pessoas. Na lista dos meus defeitos de caráter, certamente não está a hipocrisia. Especializei-me na arte do “sincericídio”, seja por acreditar que a verdade liberta, seja por esperar contrapartida de mesmo nível.

Tenho alguns segredos a revelar, ainda que um tanto a contragosto, a respeito das características menos visíveis de minha estrutura psíquica. O silêncio magoado é letal para mim. Da mesma forma, os jogos de poder ferem de morte minha alma. A capacidade de ternura, de compaixão e de perdão desestruturam por completo minha sede de retaliação. Nutro um profundo desprezo pelas pessoas que acham mais confortável posicionar-se sempre em cima do muro em nome da evitação do confronto.

by Ferdinand Hodler (1853-1918), artista suíço

Aos que julgam que as personalidades difíceis são insuportáveis e deveriam ser submetidas a contínuos programas de adestramento na área de habilidades sociais, um recado final: não se deixem impressionar pela aparência de poucos amigos. Não sou mal-educada, nem uma grosseirona empedernida, incapaz de reconhecer os próprios erros e pedir perdão. Não me considero vítima de nada, a não ser talvez da crueza de minhas próprias exigências éticas.

Ao contrário, é exatamente por respeitar minha natureza menos maleável – ou mais resiliente, se preferirem – que compreendo bem a necessidade de ser respeitosa para com outras naturezas mais afáveis e condescendentes.

Em resumo, acredito que as pessoas difíceis têm a consistência certa para quem aprecia frutos carnudos que vêm abrigados em casca grossa. Tudo o que é preciso para nos consumir com prazer e extrair toda a suculência de nosso conteúdo é confiar na força de seu próprio queixo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pedaladas

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que o termo pedalada lembrava passeio de bicicleta. Pra girar as rodas, a gente dava pedaladas na Monark ou na Caloi. Hoje em dia, pedalada não se dá, se faz. E o significado mudou.

Lula boné 1Nestes tempos estranhos, o sentido da palavra tem evoluído. Não evoca mais as rodas da magrelinha. A imagem que vem é de barbeiragens financeiras cometidas conscientemente por dona Dilma. Parece que é crime. Se for, mais dia menos dia a presidente terá de responder por ele. Quem viver, verá.

Dirigindo-se a plateia amestrada, um Lula que, apesar de viver vida abastada, continua se esforçando para parecer igual aos excluídos, enfiou mais uma vez no cocuruto o boné do MST. Expedientes malandros como esse eram conhecidos já nos tempos do velho Jânio Quadros, mas ainda tem gente que se deixa embalar.

Em 2003, ao fazer o gesto pela primeira vez, nosso guia desencadeou um bafafá. Cidadãos mais conscientes consideraram a atitude imprópria para presidente de país sério. De lá pra cá, o figurão perpetrou impropriedades bem maiores que aquela. Tantas fez que hoje os brasileiros, blasés, não prestam mais atenção.

Estes últimos meses, com o desenrolar veloz e imprevisível dos acontecimentos, o Lula anda mais desnorteado que cego em tiroteio. Perdeu os anéis, quis salvar os dedos. Perdeu os dedos, está tentando salvar as mãos. Seu horizonte anda um bocado nevoento para quem já sonhou abocanhar um Nobel da Paz para, em seguida, terminar presidente do Banco Mundial.

Bicicleta 8Na cerimônia de ontem, sem muito que dizer, o demiurgo aventurou-se por terreno minado. Falou das «pedaladas» que dona Dilma «fez». Contou não ter lido o processo, fato que não surpreendeu ninguém. Assim mesmo, garantiu que a afilhada cometeu esses «malfeitos» para poder continuar pagando programas de distribuição de dinheiro que ele mesmo havia instituído.

Ora, analisemos. Nos tempos em que o Lula era presidente, não foi preciso «pedalar» pra distribuir aos mais necessitados. A partir do momento em que o cumprimento de programas passou a exigir que leis fiscais fossem infringidas, das duas uma: que se mudassem as leis ou que se extinguissem os programas. Nenhum dos dois foi feito.

Blabla 2Qual é o resumo da opereta? Duas considerações se impõem. A primeira é a confissão – involuntária mas evidente – de que a pupila realmente «fez» pedaladas, ou seja, infringiu a lei.

A segunda consideração remete a meu post de ontem – A lei? Ora, a lei… A fala do Lula reforça a ideia de que leis e regras valem para os outros, não para si mesmo. O demiurgo pode falar mais que outros, se agitar mais que outros, ousar mais que outros, ser mais vaidoso que outros, ser menos culto que outros, ser mais ingênuo que outros mas, no fundo… é um político do mesmo padrão que todos os outros. A lei? Ora, a lei…