Roland Garros

José Horta Manzano

Guga 1Em instantâneo tomado este domingo 7 de junho, o simpático tenista Guga aparece entre os espectadores da final do torneio Roland Garros 2015. A partida foi disputada entre um sérvio e um suíço.

Por sinal, o suíço – Stanislas Wawrinka – levou a taça. A presidente da Suíça, Simonetta Sommaruga fez questão de prestigiar o compatriota. É a senhora que aparece de chapéu ao lado do Guga.

Ela compareceu sem medo de vaias.

Frase do dia — 244

«Se a doutora Dilma for pedalar na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas com sua bicicleta importada, da grife Specialized (R$ 2.350), no mínimo ficará sem o brinquedo.

A doutora defende a proteção à indústria brasileira, mas pedala bicicleta americana e, durante a campanha eleitoral, foi fotografada calçando sapatos de Louis Vuitton.»

Elio Gaspari em sua coluna d’O Globo, 7 jun° 2015.

Cooperação prisional

José Horta Manzano

Você sabia?

Prison 4O Conselho Federal Suíço – colegiado de sete membros que exerce o poder executivo – anunciou, neste 5 junho 2015, haver concluído, com o Brasil, tratado regulamentando a transferência mútua de presos.

O acordo estabelece a possibilidade de um brasileiro condenado na Suíça (ou de um suíço condenado no Brasil) cumprir o restante da pena no país de origem. A diretiva segue princípios recomendados pelo Conselho Europeu.

Em se tratando de medida tomada em caráter puramente humanitário, não seria lógico impô-la sem anuência das partes. Toda transferência fica, assim, condicionada ao preenchimento cumulativo de três condições:

Interligne vertical 14o país de condenação deverá concordar com a expulsão do preso;

o país de origem deverá concordar em receber o condenado;

e, naturalmente, o condenado deverá estar de acordo com a transferência.

O tratado não prevê a possibilidade de transferir apenados à força.

Prison 2A Suíça não permite acesso público a estatísticas prisionais, portanto sou incapaz de dizer quantos conterrâneos nossos se encontram atrás das grades por aqui. Tampouco saberia dizer se são legião ou meros gatos pingados. A lógica populacional, no entanto (200 milhões x 8 milhões), faz supor que os suíços presos no Brasil não devam ser numerosos.

Prison 3O tratado não se aplica a gente da estirpe de um senhor Marín, aquele probo cartola detido provisoriamente em Zurique em perspectiva de extradição. Não se trata de um condenado.

Quanto aos outros, aqueles a quem a nova regulamentação se aplica, tenho cá minhas dúvidas. Ficaria surpreso se se precipitassem para exigir o direito de trocar a tranquilidade destas montanhas pela rotina, digamos assim, buliçosa de Bangu. Ou de Pedrinhas.

Frase do dia — 243

«Votar é exercício democrático que tende a se aperfeiçoar com a prática. Quanto mais eleições, melhor para a democracia. Mas os parlamentares não parecem muito preocupados com isso.»

Editorial do Estadão, 6 jun 2015.

PT ou BR

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 jun 2015

Ortografia 2Dia 13 de maio, comemoramos a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão oficial e entrou para a hagiologia nacional. Em Portugal, o 13 de maio celebra a Virgem de Fátima. Este ano, porém, um clamor quase empanou o fervor. É que, justamente nesse dia, entrou oficialmente em vigor, em terras lusas, a grafia determinada pelo Acordo Ortográfico alinhavado em 1990 pelos integrantes do clube lusófono.

No Brasil, a resistência ao AO90 foi pouca, não passou de protestos frouxos. O adiamento da entrada em vigor, programada agora para o fim deste ano, nem tinha razão de ser. Na prática, Inês é morta: a nova grafia já mandou a antiga às favas.

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

Mais do que pelo sol tropical, o brasileiro tem o couro curtido pelas lambadas que levou ao longo dos séculos. Revoluções, golpes de Estado, implantação e supressão súbita de leis, reviravoltas políticas repentinas e constantes, insegurança jurídica causam aflição crônica. Com paciência beneditina e resignação bovina, aprendemos a engolir pronunciamientos e a lidar com eles. Dançar conforme a música não é, entre nós, mera figura de estilo.

Calejados por sucessivas reformas ortográficas, não opusemos grande resistência a essa enésima modificação. O que mais nos incomoda é o pouco tempo que tem decorrido entre remodelações. Pessoas que, em 1990, tinham 55 anos ou mais viram-se obrigadas a aprender a escrever pela quarta vez! Alfabetizadas pela antiga grafia pseudoetimológica, já tinham sido forçadas a se adaptar à reforma de 1943 e à de 1971. A de 1990 amolava, sim, ainda que o desconforto não se tenha convertido em rebelião.

Orthographia 1Já em Portugal, a perspectiva de alterar hábitos de escrita encontrou oposição vigorosa. A resistência não se prendia aos mesmos motivos que provocavam mau humor no Brasil. O problema estava mais para orgulho ferido que para simples aborrecimento.

De um século para cá, houve numerosas tentativas de harmonização da escrita entre Brasil e Portugal. Nenhuma vingou. Em 1907, a Academia Brasileira de Letras propôs novas regras, que não foram seguidas nem mesmo no Brasil. Em 1911, Lisboa alterou profundamente a escrita – mas a novidade só valeu para Portugal. Em 1931, nova tentativa de aproximação gorou. O Brasil fez grande reforma em 1943, ignorada por Portugal. Em 1945, foi a vez de Portugal remodelar sua escrita, sem que o Brasil acompanhasse.

Placa 15O AO90 propunha-se a acertar o passo desse fado do linguista doido. Mas a medida – ressentida em Portugal como insuportável intromissão estrangeira na língua, um crime de lesa-pátria, um terremoto – mexeu com os brios da nação e levantou protesto maciço. Nem a finalidade explícita da reforma, a unificação da língua escrita, aplacou os ânimos.

Conceda-se que, em Portugal, a reforma desfigura uma batelada de palavras de uso frequente, o que explica a grita, os libelos inflamados e a objeção indignada. Gente de peso, figuras públicas, escritores, políticos, linguistas opuseram-se ostensivamente às novas regras. Blogues de resistência cívica continuam na luta ainda agora.

Peço ao distinto leitor a amabilidade de lançar uma vista a estes dois fragmentos.

Interligne vertical 12«Minha mulher a dias, que labuta asinha mas esbanja lixívia em sanitas e autoclismos, queixou-se do novo lanço com portagem que lhe cabe enfrentar, com a carrinha, na hora de ponta. Posto que o trecho tenha ficado giro, sabe a desperdício. Deixa a molesta sensação de cobres terem sido deitados fora.»

«O abaixo assignado promette aos seus freguezes que todas as encommendas effectuar-se-hão com a maior promptidão e exactidão. Tambem encarrega-se de n’ellas ageitar quaesquer eventuaes concertos.»

O primeiro parágrafo, que segue escrupulosamente as normas do AO90, foi escrito em português europeu. Qualquer cidadão luso o lerá sem perder uma palavra. O segundo trecho, calcado em anúncio publicado num jornal brasileiro faz 150 anos, foi grafado no estilo antediluviano da época – mas em português do Brasil.

by Alexandre Affonso, desenhista

by Alexandre Affonso, desenhista

Essas duas passagens mostram que, para a mútua compreensão, pouco conta a grafia. Ainda que se alcançasse a harmonização, o efeito seria o de emplastro em perna de pau. Por mais que se reforme a escrita, a variante europeia e a brasileira seguirão, impávidas, inexorável rota de afastamento.

Pragmáticos e despidos de exaltações nacionalistas, softwares continuam a oferecer ambas as variantes: português-pt e português-br, à escolha do freguês. O AO90 ilustra a desabusada tirada de Horácio: «Parturient montes, nascetur ridiculus mus» – a montanha pariu um ridículo camundongo.

Pensando bem – 7

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Pra fazer uma sondagem
e encontrar opinião,
é preciso ter coragem,
escapar da malandragem,
caprichar na rechecagem
e contar tudo ao povão.

Um instituto conhecido
pela sua exatidão
anda quieto e encolhido
já não diz mais ter ouvido
a voz da população.

Pesquisou, já várias vezes,
o tal grau de aprovação
do governo do País.
Mas agora, já faz meses
que me deixam infeliz:
não há mais publicação!

O silêncio é contundente
e me deixa encafifado.
No fundo, quem me garante
que, neste Brasil amado,
inda temos presidente?

Paraciclos

José Horta Manzano

Muitas das mazelas do Brasil vêm da confusão entre o que é público e o que é privado. Essa mistura não é nova nem é exclusividade brasileira. A discussão é antiga e vem de longe.

Na Idade Média europeia, o senhor feudal tinha direitos absolutos sobre seu domínio. Tudo lhe pertencia: terras, águas, construções e… gentes. O bem público simplesmente não existia.

Bicicleta 4No século 18, o conceito perdurava. Embora a propriedade privada já começasse a ser reconhecida, o rei ainda era visto como virtual proprietário do país. Na França, a mudança foi brutal. Aconteceu durante a Revolução Francesa, com a abolição dos privilégios. Em outros países, a evolução foi mais suave.

No Brasil, a separação entre o que é de cada um e o que é de todos tem-se feito com lentidão e ainda está longe de ter sido assimilada por todos. Até hoje, boa parte dos cidadãos não se deu conta dos limites.

Bicicleta 5Um exemplo recente está no assalto a empresas públicas – falo do petrolão. Os assaltantes têm vaga noção de haver cometido um “erro”, mas não se compenetram de que meteram a mão no dinheiro do povo. Podem até, numa hipótese extrema, admitir que levaram a grana de uma empresa, sem se dar conta de que embolsaram, na verdade, dinheiro suado do contribuinte. O pior é que o contribuinte assaltado continua acreditando que os facínoras levaram dinheiro «da Petrobrás», sem perceber que o lesado foi ele mesmo.

Li, estes dias, que a prefeitura paulistana publicou manual destinado a instruir os cidadãos que desejarem instalar um paraciclos – neologismo saboroso que nomeia dispositivo onde se pode estacionar uma bicicleta. Que ninguém reclame: escapamos de um «stopbike». Uff.

A intenção ecológica seria louvável, não fosse o reforço que traz à confusão entre o que é de cada um e o que é de todos. Proprietários de imóvel ficam autorizados, desde que sigam algumas regras, a plantar o dispositivo na calçada, no passeio público.

Bicicleta 7Para quem vive em terras onde é nítido e rigoroso o limite entre o público e o privado, a prática paulistana é desnorteante. Com que então, todo cidadão fica autorizado a instalar no espaço público – chumbado em caráter permanente – um bem móvel que lhe pertence? A mim, deixa-me perplexo.

Bicicleta 6A nova regra alimenta e reforça um dos grandes vícios nacionais. O que é de cada um tem de ser cuidado por cada um. O que é de todos só pode ser cuidado pela autoridade pública. Cabe à prefeitura montar paraciclos, assim como lhe cabe instalar postes, pontos de ônibus, placas de sinalização, bancos de jardim, estátuas e todo o mobiliário público urbano.

Muitos reclamam – com razão – da atitude de cidadãos que se apoderam de ruas sem saída e as fecham, impedindo a entrada a concidadãos e privatizando, assim, o bem público. Pois a permissão dada a particulares para instalar paraciclos é passo na direção errada. Borra a nitidez da linha divisória entre o público e o privado.

Operação sorriso

José Horta Manzano

Fifa WM 2010Há forte similitude entre o modus operandi da clique que se apoderou da cúpula da Fifa e a que se aboletou na cúpula federal do Brasil. Para chegar lá e perenizar-se no poder, ambas se valeram do mesmo expediente: fizeram uso das regras em vigor. Concebidas para ser usadas por gente bem-intencionada, as regras não resistiram ao mau uso. Acabaram se voltando contra si mesmas num processo autodestrutivo.

No Brasil, mensalões e petrolões cuidaram da compra dos mandarins. A cooptação dos pequenos, menos complicada e menos arriscada, fluiu pela bolsa família – genial achado que garantiu ao governo o enfeudamento perene de hordas de assistidos.

Fifa WM 2006Pros lados de Zurique, embora tenha saído mais caro, a Fifa seguiu caminho análogo. De todo modo, caro ou barato, que importa? A conta é sempre paga por terceiros.

Por mais benévolo que seja nosso olhar, não encontramos mais que uma vintena de grandes nações futebolísticas. A Fifa tem 209 membros. Na hora das escolhas, o voto de uma Andorra vale tanto quanto o de uma Alemanha. A voz do Nepal tem o mesmo peso que a da Inglaterra.

Fifa WM 2002Os medalhões logo se deram conta de que, se era difícil cooptar uma Alemanha ou uma Inglaterra, ganhar o voto de numerosos pequenos países demandava menos esforço. E saía mais barato.

E assim fizeram durante anos e anos. Como o sistema estava dando certo, afrouxaram os controles. Boladas de dinheiro, cada vez mais consistentes, foram movimentadas pelo circuito bancário. Acreditando-se inimputáveis, os dirigentes do futebol mundial acharam que estava tudo dominado. Enganaram-se.

Os EUA começaram a se interessar pelo que acontecia. As razões são múltiplas:

Interligne vertical 11a* depois da Copa 1994, o esporte da bola no pé conheceu ganho de popularidade naquele país;

* os montantes movimentados são tão elevados que chamam a atenção e despertam desconfiança;

* os maiores patrocinadores da Fifa são empresas americanas, entre elas Visa e Coca-Cola;

* com bilhões, prestígio e métodos opacos, a Fifa começava a incomodar o poderio americano;

* a próxima copa está programada para se desenrolar na Rússia, país com o qual os EUA têm uma pendenga. A tentação de melar o jogo era muito grande.

No meu entender, está aí a explicação para o que está acontecendo. Sepp Blatter diz que pretende continuar no trono até o fim do ano. Imprudente, a afirmação não faz sentido. Seria como se Collor, havendo renunciado, guardasse as rédeas do País durante quase um ano, à espera de novas eleições.

Imagino que Herr Blatter seja despachado rapidinho. Depois disso, o mais adequado será substituí-lo pelo príncipe jordaniano – o único que ousou desafiar o poderoso capo. Agora que o chefão caiu, são muitos os que criaram coragem para se candidatar. São como toureiros posando com o pé em cima de touro morto. Valor tem de ser dado àquele que enfrentou a fera enquanto ela rugia.

Copa 14 logo 2No frigir dos ovos, o mundo saiu ganhando. Corruptores e futuros corrompidos pensarão duas vezes antes de agir. Por alguns anos, a Fifa deverá ser governada sem derivas mafiosas. Muita gente sente que, a partir de agora, o esporte mais popular do mundo será mais bem administrado.

Os EUA saíram bem na foto e acabaram ficando com o crédito desta verdadeira operação sorriso.

Coincidência de eleições

José Horta Manzano

by Felipe Parucci, desenhista catarinense

by Felipe Parucci, desenhista catarinense

Como de costume, as grandes decisões – aquelas que realmente pesam e modelam o futuro do País – vêm a varejo, pingando, aos pedacinhos. Tradicionalmente, a atitude de nossos legisladores e dirigentes é reativa, raramente proativa. Estamos sempre correndo atrás do bonde da história. Parece que somos incapazes de produzir uma peça acabada, coerente, abrangente, com começo, meio e fim.

Temos agora parlamentares discutindo reforma política como se se tratasse de reforma de casa de campo. Não é. Reforma política tem de ser analisada de cabo a rabo e tratada como um conjunto. Exige tempo e muita reflexão. Tem de começar pelo começo: parlamentarismo ou presidencialismo?

Voto 1Já estamos tratando de coincidência de mandatos sem ao menos ter definido qual será o formato do regime. Puseram a carroça à frente dos bois. Enfim, já que o assunto do momento é frequência de eleições, vamos lá.

Democracia não é uma evidência. O natural de todo grupo humano – vale também para grupo de animais – é ter um chefe imposto pela força bruta. Quem pode mais, manda. Artificial, a democracia é conceito relativamente recente. Como toda novidade, tem de ser aprendida. E aprendizado, como sabem meus distintos leitores, se faz pela repetição. Quanto mais treino, melhor.

Voto 2O exercício do voto é como cartilha de alfabetização: quanto mais repetida, repassada e repisada for, mais resultados produzirá. A coincidência de mandatos é a negação desse aprendizado. O intervalo entre eleições tem de ser o menor possível. No mínimo, um voto por ano tem de ser organizado.

Urna 7Como fazê-lo? Cabe ao legislador decidir. Voto frequente, além de habituar o eleitor a participar do processo de escolha, tem a vantagem de servir como “recall”, como mecanismo de correção de rota. Partidos caídos em desgraça serão menos votados. Representantes que tiverem decepcionado a população serão despachados de volta pra casa e substituídos.

Dizem alguns que custa caro realizar eleição. Discordo. A longo prazo, sai bem mais caro suportar as consequências da não participação da população no processo de escolha de dirigentes. Afasta os liderados de seus líderes. Aliena, entorpece e embota.

Um TOC de bondade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Criança 3Desculpem-me por destruir algumas ilusões à medida que descrevo minha problemática emocional. Eu não sou boazinha. Nunca fui e nunca quis ser. Apesar de meus pais terem me estimulado durante toda a minha infância a manifestar gestos de solidariedade, nunca correspondi à altura. Medo, covardia e timidez exagerada fizeram de mim uma pessoa voltada para dentro, preocupada mais em me livrar de sensações desagradáveis do que em propriamente estender a mão a quem dela necessitasse.

Generosa talvez eu tenha sido em algumas ocasiões. Se estou diante da escolha de fazer o bem a quem me pede algo com delicadeza ou reagir com indiferença e virar as costas, opto no mais das vezes por aceder ao convite do meu lado generoso. Mas, que fique bem claro: desde que isso não me custe nada!

Ser apontada como uma pessoa boa é algo que me causa desconforto, me constrange e me envergonha. O elogio soa sempre aos meus ouvidos como sinônimo de trouxa, de pessoa que aceita de bom grado ser usada.

Criança 2Sei que não sou boa porque detecto sinais claros de irritação dentro de mim sempre que alguém, que já me pediu outras coisas várias vezes anteriormente, me coloca diante de um beco sem saída para negar o favor pedido. É isso, aceitei no passado ser usada por terceiros porque não queria macular minha imagem. Imagem de quê? De boazinha, é claro. Como qualquer outra pessoa na mesma situação, achei que poderia atrair afeto se me comportasse segundo as expectativas. E, quando a primeira pessoa me elogiou em resposta, isso virou um vício, uma obsessão, uma compulsão.

A coisa só começou a mudar quando percebi que, quando essa mesma pessoa não estava precisada de outros favores, ela deixava de manifestar afeto por mim. Eventualmente, algumas até se recusavam a me fazer favores em retribuição. E eu não podia retrucar, não podia cobrar nada porque estava implícito que eu havia acedido graciosamente.

Em resumo, foi então que me dei conta de que eu havia me tornado refém das migalhas de afeto que podia recolher pelo caminho se parecesse boazinha. O que eu não havia percebido desde o início era que as pessoas devem ser amadas pelo que são e não por qualquer coisa que possam fazer.

Papai Noel 2Quando a luz se fez, já era tarde. Meu TOC [transtorno obsessivo-compulsivo] já estava instalado. Como me afirmar e dizer não a novos pedidos se imediatamente começava a imaginar mil desgraças prontas a recair sobre minha cabeça caso a recusa se concretizasse? Culpa da formação religiosa católica de minha família, sem dúvida. Se você não for bondosa, não vai ganhar o céu. Se você não se comportar direitinho o ano todo, Papai Noel não vai lhe trazer nenhum presente.

E lá ia eu, mais uma vez, mesmo contrariada, me forçar a fazer o que não queria. Sufocar minha revolta no peito e na garganta, abaixar a cabeça e colocar um sorrisinho amarelo no canto da boca. Tentar afastar do meu cérebro a pergunta angustiante: até quando, meu Deus?

Jovem 1Não me entendam mal. Quero, sem dúvida, ser útil, poder me colocar a serviço de outras pessoas, mas não tenho estômago para me comportar como uma gueixa ou como um simulacro de Madre Teresa de Calcutá. Não aspiro à santificação e não tenho nenhum apego ao masoquismo. Quero aprender a me doar com a alegria das pessoas livres, com a leveza das borboletas, com a ingenuidade das crianças. Acima de tudo, quero acreditar no poder transformador da minha própria integridade.

Tentando fazer o bem a quem está fora, tornei-me cruel com o que está dentro. Deus e o diabo numa disputa feroz encenada na arena que sou eu. Que mérito haverá, me pergunto, na bondade exercida de má vontade, à contre-cœur? Não seria melhor, mais justo, ser maldosa de alma limpa?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A presidente não mentiu

José Horta Manzano

Brasilia 3Grande injustiça vem sendo perpetrada contra nossa presidente. Ok, ok, a mandatária está longe de ser aquela que deixará as melhores lembranças nos futuros livros de história, mas, assim mesmo, nem tudo é tão ruim.

Todos a condenam por ter prometido e não ter cumprido. Pior: por ter jurado que seguiria um caminho e, na hora do vamos ver, ter caminhado na direção oposta. O presidente que mente ao povo se equipara àquele que bombardeia os súditos. Traidor.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

É verdade que, até a semana passada, vivíamos com a insuportável sensação de termos sido vítimas do conto do vigário. A candidata Dilma, que nos tinha prometido fontes de mel e fim do drama, nos despejava fontes de fel e mar de lama. Uma frustração.

Felizmente, um fato surpreendente ocorrido semana passada veio esclarecer tudo. Dona Dilma não havia mentido, não, senhor. Éramos nós que, ignorantes, não havíamos entendido. A mensagem era, no entanto, clara. Fomos nós que não tivemos lucidez suficiente pra captar-lhe o sentido profundo.

Vamos dar a César o que é de César. Bem antes que a campanha presidencial tivesse início, a candidata Dilma havia garantido que, reeleita, implantaria no Brasil o padrão Fifa. Ninguém acreditou. Ela repetiu. Continuamos não acreditando. Pois os acontecimentos de Zurique afastam toda dúvida: a presidente havia dito a verdade.

Dilma Blatter 2A realidade é que poucos sabiam o que vinha a ser o tal padrão Fifa. A crença generalizada era de que fosse sublime, limpo, reto, livre de impurezas, moderno – em uma palavra: civilizado. A candidata, enfronhada na política desde outros carnavais, certamente sabia. Se pecou, foi por omissão: absteve-se de explicar aos eleitores o que vinha a ser o novo padrão.

Que não seja por isso: o destino se encarregou de esclarecer. O planeta inteiro agora sabe que o padrão Fifa é composto por roubalheiras, mentiras, traições, golpes de palácio, vinganças pessoais, vaidades exacerbadas, corrupção instituída em sistema, cooptação, compra de votos, inveterada cara de pau, ausência de escrúpulos, espírito corporativo, menosprezo pela inteligência alheia.

Fifa 1Não precisa argúcia especial pra identificar escandalosa semelhança entre o padrão Fifa e o padrão brasileiro. A candidata estava certa – errados estávamos nós. Faz quatro anos e meio que ela nos conduz pela senda encantada, tal como havia prometido.

Alegria, conterrâneos! Estamos quase lá!

Reação vigorosa

José Horta Manzano

No Estadão online deste 30 maio 2015, aparece a chamada: “Joseph Blatter diz que ação dos EUA contra Fifa é revanche”.

Chamada do Estadão, 30 mai 2015

Chamada do Estadão, 30 mai 2015

A bem dizer, errado não é. Mas a língua oferece outras palavras que dão o recado com maior precisão. São elas: retaliação, desforra, revide e vingança.

Convém guardar revanche para o domínio esportivo. Assim: “A seleção de futebol do Brasil, que perdeu para a Alemanha, não vê a hora de conseguir sua revanche.”

Profissões desaparecidas

José Horta Manzano

Foguete 1Ouvi, estes dias, que mais da metade das crianças que nascem hoje exercerão, quando adultas, profissão que ainda não existe atualmente. Dito assim, é impressionante. Mas, a bem refletir, a afirmação tem sua lógica. O mundo sempre funcionou assim, só que anda cada dia mais acelerado.

Grande parte dos profissionais exímios no manejo de Word e Excel nasceram antes de o computador pessoal ter sido inventado. Todos os aviadores da Primeira Guerra – todos mesmo – vieram ao mundo antes da invenção do avião. Quando os astronautas que um dia caminhariam na Lua já estavam sendo alfabetizados, foguetes interplanetários ainda não passavam de ficção científica.

Profissões nascem, profissões morrem, essa é a lei. Boa parte dos ganha-pães que conhecemos terá desaparecido daqui a algum tempo. Profissões há que já estão em vias de extinção. Outras vão durar ainda um pouco mas acabarão por desaparecer.

Animal 07Ofícios ligados à saúde tem garantia de perenidade. Por mais que avance a ciência, prevê-se que a imortalidade ainda demore a ser alcançada. Enquanto não vem, todos vamos continuar precisando de cuidados médicos.

Lampião 1Em compensação, num mundo em que o uso do papel tem rareado, papelarias atravessam um momento complicado. Agências de viagem tradicionais também andam à mingua.

Todos nós já ouvimos falar de ofícios desaparecidos: acendedor de lampião de gás, vendedor de leite de cabra tirado na hora, cocheiro. Muitas das profissões atuais certamente terão sumido daqui a vinte anos. Quais serão? Quem viver verá.

Quem quer pizza?

by Cláudio de Oliveira, desenhista potiguar

by Cláudio de Oliveira, desenhista potiguar      –     Clique para ampliar

Para justificar o retorno precipitado, o senhor Del Nero alegou que, de todo modo, não ia votar na eleição do presidente da Fifa.

Fica no ar a pergunta: o que é que ele foi fazer em Zurique então?

O vaso e o cachepô

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Flor 1Uma crônica com um título desses fica até com cara de fábula. Mas não é. Trata-se de caso que realmente aconteceu.

Contaram-me essa história como verdadeira e não tenho por que duvidar, pois a relatar-me foi o próprio dr. Venâncio Prates, homem de meia-idade (que já teve, com certeza, 1/4 de idade e um dia ainda há de ter idade inteira), sujeito boa-praça, que leva muito a sério seus cabelos grisalhos – os que ainda lhe restam e que agora observam, lá do alto, a barriga um tanto volumosa a comprometer um bocado a estética do conjunto.

Disse-me que a esposa, dona Ilda, à semelhança de tantas outras, adorava plantas. Frequentava exposições, admirava e elogiava o capricho da natureza na feitura das flores, umas mais belas que as outras, o que sempre a deixava sem saber definir qual a sua predileta, tantas as cores e as formas. Tamanha beleza e tanta variedade enchiam-lhe os olhos.

Foi num Dia dos Namorados que o dr. Prates teve a infeliz idéia de comprar um pequeno vaso com florezinhas muito delicadas, até bonitinhas mesmo. Tinha bom gosto para escolher, e não havia de existir melhor presente para a esposa.

Pois bem, deu-lhe o tal vaso. A mulher ficou radiante e passou uns 5 ou 6 dias agradecendo de tanto que gostou. Mas (e quase sempre há um “mas” para fazer a coisa desandar)… e o cachepô? Um recipiente desses melhoraria e muito o vaso, faria com que as flores ficassem ainda mais bonitas – achava dona Ilda. Um vaso sem cachepô está fadado ao insucesso, ao abandono, ao esquecimento.

Como de costume, dr. Prates atendeu logo ao desejo de sua amada. Um ou dois dias depois, apareceu em casa com um cachepô que, de fato, valorizou mais ainda o presente.

Um “mas” bastava? Claro que sim, se se tratasse de pessoa, digamos, normal. Já dona Ilda, com tanto tempo disponível para conjecturar, conseguia elaborar idéias mais profundas a partir de um simples vaso, agora reforçado pelo cachepô.

by Ewa Helzen, artista de Malta

by Ewa Helzen, artista de Malta

Achou que talvez fosse a cor da sala que não estivesse lá combinando muito bem com as flores, que, aliás, continuavam muito bonitas, embora parecessem já não ornar tão bem com o ambiente.

O dr. Prates não demorou a tomar a decisão de pintar a sala de estar. Claro que, logo em seguida, descobriu que a sala de jantar não podia ficar com a pintura velha e logo deu-lhe nova pintura também. Acatando sugestão da amada esposa, os quartos também foram pintados, o que obrigou, por conseqüência, a aplicar pintura nova ao resto da casa, sem esquecer, naturalmente, o lado de fora.

Feito tudo isso, dona Ilda, que continuava a cuidar muito bem das flores (que bem poderiam ser chamadas de Eva, pois foi por onde tudo começou), a sra. Prates – dizia eu – que tinha tempo de sobra para observar as coisas, após longa, acurada e minuciosa observação dos tons, do tamanho e do formato das flores do vasinho predileto, chegou à conclusão que, na verdade, era a casa que não combinava com a elegância e distinção das flores. Flores tão únicas, como jamais vira em sua vida. E depois, não era só isso, havia também que considerar o valor sentimental que elas representavam.

Não demorou muito e o dr. Prates, apesar das frustradas tentativas de demover a esposa da nova idéia (sem sucesso apesar de alentada argumentação), procurou nova casa, mais ampla, espaçosa (e mais cara também, claro) mas que, enfim, estaria perfeitamente apta a acolher, numa das salas, aquele vaso de flores dentro do cachepô.

Agora era hora de sossegar, mas (olha o “mas” aí de novo…) alguma coisa ainda inquietava o pobre dr. Prates (a esta altura, literalmente mais pobre mesmo, depois dos gastos consentidos). Conhecendo a esposa de longo relacionamento, ou seja, de muitos outros carnavais, pressentia ele que algo mais ainda estava por vir.

Flor 2O dr. Venâncio Prates me confiou, depois de longo e profundo suspiro, que, preocupado com o conforto da esposa, comprou na semana passada uma almofadinha nova, para ela se sentar no banco do automóvel quando for dirigir.

A almofadinha até que ficou muito legalzinha, mas… (quem diria, hein, outro “mas”!), ele me disse que esta semana estão procurando um modelo novo de carro para comprar. Zero, é claro. E a almofadinha vai ter que ficar uma graça no carro novo.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

O sistema perfeito

José Horta Manzano

Computador 9Piratas informáticos atacaram o site do americano IRS (Internal Revenue Service), equivalente à nossa Receita Federal.

Não foi invasão gratuita, dessas planejadas pra satisfazer vaidades adolescentes. Os registros de cerca de cem mil(!) contribuintes foram violados, examinados e, mui certamente, copiados.

Candidamente, o IRS confessa não ter a menor ideia de quando a invasão começou. Pode ter sido em fevereiro, mais de três meses atrás. Bom, isso é o que descobriram. Quem garante que não haja outras mazelas por descobrir? Não é impossível que outras invasões estejam ocorrendo no escurinho.

«It just goes to show that even the most secure system can be attacked». Fica claro que até o sistema mais protegido pode ser violado – foi o comentário do diretor do Ponemon Institute, respeitado grupo de pesquisa em segurança informática.

Computador 10Enquanto isso…
Enquanto isso, no Brasil, deitamos e rolamos. E zombamos desses incapazes. Dá até pena assistir, de camarote, às trapalhadas desses loiros de olhos azuis.

Urna 2Ao som do mar e à luz de nosso céu profundo, vamos continuar navegando ao largo desses aborrecimentos. Nosso sistema de voto eletrônico – único no mundo! – nos põe fora do alcance de piratas malvados.

Nossa estrutura eleitoral é inviolável. Nunca foi manipulada e jamais o será.

Saravá!

Passou dos limites

José Horta Manzano

Joseph Blatter, presidente da Fifa

Joseph Blatter, presidente da Fifa

Ainda ontem, eu falava sobre excessos. Hoje, logo de manhãzinha, estourou uma notícia que deve ter feito muita gente engasgar com o croissant: a polícia de Zurique prendeu sete medalhões da Fifa.

Foi raio em céu sereno. Como assim? Dirigentes da Fifa? Mandarins da mais rica e poderosa das máfias? É inacreditável. E como é que foi acontecer?

Foram os excessos, distinto leitor, os excessos. Suborno e corrupção sempre houve, sempre haverá, lá e cá, ontem, hoje e amanhã. «Se você me der isso, eu lhe dou aquilo» é conversa velha como o mundo. Todavia, enquanto o troca-troca se mantém dentro de limites discretos e razoáveis, passa batido. Acontece que a Fifa, há décadas especializada no toma lá dá cá, exagerou. Riu na cara do mundo.

Fifa 1Basta lembrar os países aos quais foi atribuída a organização da mais recente e das duas próximas edições da Copa do Mundo: Brasil 2014, Rússia 2018 e Catar 2022. Nenhum dos três aparece em bom lugar na classificação mundial da lisura. À boca pequena, alastrou-se a desconfiança de que muitos milhões – não necessariamente declarados – estejam por detrás da designação desses países.

Os EUA não detêm o monopólio da seriedade e da firmeza. Dezenas de países são tão respeitáveis quanto o grande irmão do Norte. O que marca a diferença é o peso conferido aos EUA por sua descomunal força econômica. É como aquele parente rico que ninguém, na família, ousa contradizer.

De olho no promissor mercado norte-americano, a Fifa fez o que pôde para organizar seu campeonato mundial naquelas terras. Conseguiu o intento em 1994. De lá pra cá, não há dúvida de que o horizonte comercial ligado ao futebol se alargou. No entanto, toda moeda tem duas faces.

Suite do Hotel Baur au Lac, Zurique

Suite do Hotel Baur au Lac, Zurique. Alguns hóspedes dormirão hoje no xadrez.

A ampliação da influência mundial do futebol aos EUA converteu-se em faca de dois gumes. O esporte mais popular no mundo, até então ignorado, passou a angariar número crescente de admiradores americanos. Por consequência, o futebol entrou na mira dos funcionários encarregados do planejamento a longo prazo do país. O «soccer», antes tão considerado por lá quanto nós consideramos o críquete, deixou de ser atividade exótica.

Os excessos da Fifa são evidentes para todos. Tá na cara, como diz o outro, que muita propina anda correndo por debaixo do pano. Mas cadê coragem de enfrentar a máfia maior?

Dilma BlatterAutoridades dos EUA resolveram encarar. Lançaram, contra dirigentes da Fifa, mandado internacional de busca e captura. Sete medalhões – entre os quais um brasileiro – foram colhidos num cinco estrelas e convidados a passar uma temporada nas agradáveis masmorras de Zurique. Devem permanecer sob custódia das autoridades suíças até que o pedido de extradição seja julgado.

Como vemos, dinheiro pode até ajudar, mas não blinda. Neste momento, o mais engasgado de todos há de ser Sepp Blatter, o presidente da Fifa e candidato a um quinto mandato. O escrutínio – de cartas marcadas, dizem as más línguas – está programado para sexta-feira 29 de maio. Estava. Vamos ver como evolui a situação.